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O oleiro ciumento (sobre “A oleira ciumenta’, de Lévi-Strauss)

Saturday, October 11th, 2008

 Goldgrub, Franklin. O oleiro ciumento. Folha de São Paulo, São Paulo, 13.jul.1986. Folhetim, p. 8-11

O oleiro ciumento

Em “La Potière Jalouse”, seu livro mais recente, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss leva às últimas conseqüências sua crítica à teoria psicanalítica.

O último livro de Lévi-Strauss, “La Potière Jalouse”, recente­mente publicado na França, pos­sui uma temática mitológica que é abordada mediante um referencial aparentemente psicanalítico. Mas não é, assevera o autor no capitulo derradeiro; e retomando uma linha interpretativa já desenvolvida nos artigos “O Feiti­ceiro e sua Magia”, “A Eficácia Simbólica” e “A Estrutura dos Mitos” (contidos em “Antropolo­gia Estrutural”), conclui mais uma vez que a psicanálise é uma mitologia menor e pretensiosa, cujas descobertas constituem uma paródia involuntária dos tesouros do pensamento selvagem.

Se a tese do livro se limitasse a isso não valeria a pena estender o debate. Mas é forçoso reconhecer que o antropólogo defende suas idéias empregando uma argumen­tação sumamente interessante, mediante a qual revela, trinta anos depois, uma incomum fideli­dade à mesma incompreensão da teoria psicanalítica já demonstra­da em “Antropologia Estrutural I”. Não se trata de uma distorção qualquer… é a de um Lévi-Strauss e, como tal, acusa o ponto mais elaborado, o ápice alcançado pelo pensamento ousemos chamá-lo pré-psicanalítico, por mais que o crítico se queira a cavaleiro.

O início do capítulo final é contundente: logo no primeiro parágrafo ficamos sabendo que se Freud teve a desfaçatez de sub-titular seu “Totem e Tabu” com a frase “sobre algumas correspondências entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos“, “Lá Potière Jalouse” postulará inversamente a proximidade”… entre a vida psíqui­ca dos selvagens e a dos psicana­listas“. Não nos enganemos: todo o amor de Lévi-Strauss pelos primitivos desaparece aqui, pelo menos para o fim especial de condenar os psicanalistas ao primarismo que a pena freudiana ousara atribuir aos membros das sociedades frias.

Verdade dos mitos

Lévi-Strauss prossegue no mes­mo tom antes que sua vingativa indignação possa amainar: não é a psicanálise que desvela a verdade dos mitos, mas o inverso. A famosa maledicência que levou os norte-americanos a cognominar os psicanalistas de head shrinkers é acolhida com júbilo, porque “por tabela” ainda remete ao parentes­co destes com os mesmos jivaros cujos mitos são objeto do livro, e que, como sabemos, são os conhe­cidos detentores da macabra téc­nica do encolhimento do crânio que costumam dispensar aos ini­migos mortos com a mesma solici­tude que os analistas dedicam a seus pacientes.

A decisiva prova da superiori­dade da inventiva indígena sobre a do criador da psicanálise apóia-se na comparação entre a obra prima deste último no gênero, a saber, o mito do assassinato do pai prime­vo pelos filhos que condenara ao celibato, com o seguinte: “Apro­veitando-se de uma longa ausência de seu pai Unushi, a cobra Ahimbi deita-se com sua mãe Mika, um jarro de cerâmica: como se os dois transgressores simbolizassem respectivamente os órgãos mascu­lino e feminino - serpente e vaso -constrangidos pela natureza a unir-se desafiando as regras soci­ais que restringirão essa liberda­de“.

Desejos incestuosos

E de fato, o patriarca, pai da primeira e avô da segunda, as expulsa; elas passam a levar uma vida errante e têm numerosos filhos. Ao voltar, o marido ofendi­do toma consciência do infortúnio e volta sua cólera não contra os culpados mas na direção de sua mãe que acusa de ter favorecido o crime, tornando-a responsável, diríamos de bom grado, pelos desejos incestuosos que ele mesmo lhe votara e que, por seu compor­tamento, a geração seguinte teria de alguma forma repetido. As crianças nascidas do incesto dese­jaram vingar sua avó; decapita­ram o marido e sua mãe no estilo “Totem e Tabu”. Uma reação em cadeia eclode: Mika matou os filhos assassinos de seu marido; seu filho incestuoso tomou partido contra ela. Doravante os três campos - do pai, da mãe, do filho - entregam-se a uma guerra sem quartel. Assim surgiu o esta­do de sociedade.

Concordaremos sem qualquer ressalva com a outorga do laurel da fantasia aos jivaro; Freud, aliás, destacou-se muito mais co­mo decifrador de ilusões do que na área de sua produção… algo que Lévi-Strauss parece ter extrema dificuldade em compreender. Mas, seja como fôr, escapa ao antropólogo que o problema central da referida passagem de “Totem e Tabu” consiste em entender como o indivíduo se torna capaz de controlar um desejo que, ao contrário do que acontece na natureza, não obedece a nenhuma periodicidade e se obstina, por sua natureza exclusivista, em ameaçar os laços da solidariedade social.

Masculino e feminino

O mito jivaro revela sem dúvida uma aguda percepção dos confli­tos derivados da oposição entre os desejos masculino e feminino, em todas as modalidades possíveis: patriarca, matriarca, pai, mãe, filhos, irmãos, marido, esposa. Poder-se-ia pensar inclusive que a imaginação indígena aproximou-se mais da concepção do Édipo estrutural do que o seu precipitado advogado, que conjuga à já conhe­cida sagacidade alguns traços inesperadamente ingênuos. Mes­mo assim, persiste a diferença entre o mito, que se limita a descrever as conseqüências do conflito entre desejos, e a teoria voltada para a compreensão da lógica subjacente.

Esse raciocínio, não prejulga sobre o valor explica­tivo da teoria em questão: trata-se apenas de restabelecer uma diferença que de forma alguma de­grada o mito e eleva a teoria, mas situa-os cada qual com sua finali­dade e no âmbito da respectiva jurisdição. Pois não é preciso renegar a noção de estrutura para reintegrar a história na posse de seus direitos; já abordamos a questão ao impug­nar a pretensão lévi-straussiana de indiferenciar magia e ciência a pretexto de combater o etnocentrismo.

Deficiência junguiana

Entretanto, será preciso reco­nhecer com Lévi-Strauss que Freud cometeu seus erros. Entre os quais avulta o de pretender interpretar mitos sem um instru­mental análogo ao que a associa­ção livre representa no processo psicanalítico. Com referência a esse ponto, e pretendendo escapar à deficiência junguiana que convocou levianamente o conteúdo manifesto dos mitos com o fim de estabelecer identidades superfici­ais conduzindo a conclusões instá­veis, ele dirigiu a sua busca para uma versão “verdadeira” que, Lévi-Strauss assinala com pro­priedade, não passa de uma ficção, pois é próprio do mito a adoção de quantas máscaras houver para melhor veicular sua mensagem.

Atônito diante da imensa varie­dade do imaginário indígena, Freud esquece as lições que aprendeu ao lidar com as fantasi­as individuais, como se exigisse dos mitos a transparência cuja ausência soube respeitar no que tange à neurose. Consequentemente, embora seja capaz de ver no sintoma um sentido e atrás do absurdo do sonho um código organizador, incorre na analogia inaceitável ao afirmar que por vezes o sonho se parece a uma “língua primitiva, sem gramática”. Deixa assim patente por esse ato mais sintomático que falho toda a ingenuidade de sua concepção não só sobre o pensamento selvagem mas também no que diz respeito à linguagem.

Oscilações freudianas

Mais grave ainda, “…ao longo de toda a sua obra, Freud oscila - e não chega a decidir-se de fato - entre uma concepção realista e uma concepção relativista do sím­bolo” (p.247). A primeira, recor­demos, implica em que cada símbolo tenha um único significa­do; em oposição, encontramos a conhecida tese da lingüística sobre as conotações e denotações que multiplicam o valor semântico do signo.

Testemunha dessa hesitação que para Lévi-Strauss é desastrosa seria a pretensão de encontrar símbolos universais nos sonhos, descaminho que ostenta as pega­das de um desorientado Freud. Mas é ao próprio descobridor do inconsciente que devemos a asso­ciação livre com sua decisiva implicação de uma leitura do duplo sentido presente nos atos falhos, sintomas, piadas, jogos de palavras, condensações etc, cul­minando com a assombrosa constatação de que a linguagem é inerentemente polissêmica.

A crítica exacerbada de Lévi-Strauss peca pelo anacronismo as­sociado a uma injustiça flagrante: quando Freud construiu a sua obra nada havia de parecido ao auxílio da nova lingüística que através dos contatos do etnólogo com Jakobson, por exemplo, sabemos ter beneficiado amplamente os alicerces da antropologia estruturalista. Um pouco mais e Lévi-Strauss pedirá a condenação de Demócrito por ter falhado em oferecermos uma teoria científica sobre o átomo. É preciso desvalo­rizar muito a noção de história para chegar a tanto… Foucault disponibiliza a noção de “solo epistemológico” que em muito ajudaria nosso antropólogo a re­conciliar-se com a dimensão cro­nológica.

Limites

De fato, toda época impõe limi­tes que encerram em suas frontei­ras inclusive aqueles que a poste­ridade cognominará gênios. Se esse qualificativo é válido ou não importa menos que reconhecer a Freud o mérito de debater-se pioneiramente, e sem qualquer apoio, com questões que a lingüistica viria a descobrir serem extra­ordinariamente pertinentes. Duplo mérito; pois sua investigação não fecunda apenas a psicologia mas uma ciência na qual não era “obrigado” a criar nada. É tanto mais estranhável essa atitude quando percebemos nas apologias dedicadas a Durkheim e Mauss que Lévi-Strauss é capaz de ho­menagear os precursores. Por outro lado, e não sem malícia, cabe então perguntar porque Freud não é alvo da mesma benevolência… e somos tentados a pensar que sua obra pode bem representar uma ameaça. Adiante veremos porquê.

A posição de Lévi-Strauss tor­na-se ainda mais frágil quando percebemos que ele também to­mou o manifesto do pensamento freudiano em vez de buscar-lhe a estrutura. Duplo pecado: pois se compara a psicanálise a um mito, porque lhe nega o favor de seus poderes interpretativos? E na me­dida em que escolhe deixar-se ofuscar pelos pequenos erros da teoria condena-se voluntariamente à cegueira que o priva dos benefí­cios de uma colheita que a própria antropologia estrutural ainda não está apta a fazer.

É o que procuraremos demons­trar a seguir, analisando princi­palmente a nova versão oferecida por Lévi-Strauss da conhecida crítica que classicamente tem sido dirigida ao que se quer entender por “pansexualismo freudiano”.

Terreno desvantajoso

Indiferente à lateralidade que a análise de mitos representa para a psicanálise, Lévi-Strauss propõe - mais esperto que sábio - o combate num terreno desvantajoso para o adversário. Dois erros são então imputados a Freud. “O primeiro é o de ter decifrado os mitos por meio de um código único e exclusivo, enquanto que é da natureza do mito empregar sem­pre diversos códigos da superposi­ção dos quais emergem as regras de sua tradutibilidade” … “Ne­nhuma linguagem, astronômica, sexual ou outra, veicula um “me­lhor” sentido“, (pág. 245). “O segundo erro consiste em crer que entre todos os códigos à disposição dos mitos, tal ou qual entre eles é obrigatoriamente empregado“. Nem primeiro nem único… A repreensão é severa; quase podemos visualizar o democrático etnó­logo agitando o indicador na cara do império do sentido. A peroração culmina com a invocação de uma atuação exemplar, no caso a própria: “Neste livro concentrei minha atenção sobre uma família de mitos onde o código psico-orgânico - sexual se o quisermos; voltarei ao tema - é conjugado com outros: tecnológico, zoológico, cosmológico, etc“. Psico-orgânico pareado com sexual? Também nós voltaremos ao tema.

Tendo eliminado as pretensões do rival sobre seu território, empreende em seguida o contra-ataque. Não se pode negar que a estratégia é perfeita: Lévi-Strauss escolhe as já analisadas hesita­ções de Freud sobre a natureza do símbolo e mostra o quanto elas podem prejudicar a própria inter­pretação dos sonhos. Só falta agora conquistar a capital do inimigo e o ataque final tem tudo para ser devastador: “… a neces­sidade universal que opera sob o trabalho do sonho, ao contrário do que Freud às vezes parece pensar (supra 251) é o de submeter os termos surgidos em desordem a uma disciplina gramatical“.

Termos abstratos

Lévi-Strauss não é imprudente a ponto de pensar que suas posições não sofrerão retaliações e as fortifica antecipadamente: “Não se trata de substituir o simbolismo sexual por um outro de natureza lingüística ou filosófica; nesse caso haveria uma perigosa incli­nação para o lado de Jung que, na observação justa de Freud, tenta reinterpretar os fatos analíticos em termos abstratos, impessoais e não históricos“.

O que se depreende de tais argumentos é que para Lévi-S­trauss existe uma clara oposição entre lógica e sexualidade. A segunda é apresentada como algo ligado ao “psico-orgânico”, às forças pulsionais, cuja primazia é enfaticamente negada. Nesse enfoque, Freud teria  tomado o bonde errado de considerar que a linguagem seria subsidiária à emoção, seguindo assim uma tradição que remonta a Rousseau, Vico e Voltaire. Lévi-Strauss aqui faz as vezes de paladino do intelecto, cuja proeminência teria sido sub­vertida pela barbárie psicanalítica. Ao mesmo tempo, nega vigoro­samente que sua posição tenha qualquer coisa a ver com a resistência à sexualidade, verda­deiro anáterna lançado pelos bem-pensantes da psicanálise con­tra quem quer que se atreva a desafiar-lhes os dogmas. O antro­pólogo pode ficar tranqüilo: não nos rebaixaremos a tanto e até compartilhamos o seu desprezo por tal recurso.

Noções precárias

Mas compensatoriamente ele não será poupado de todo o arsenal da psicanálise estruturalista, essa aliada que imprudentemente quis desautorizar. Notemos primeira­mente a assustadora precariedade das noções psicanalíticas de Lévi-Strauss, que ele nos fornece com a mesma candura que atribui a Freud quando este confessa epistolarmente sua impotência di­ante dos mitos. Comentando (pág. 254) a tradução de idéias em imagens (figurabilidade) que ca­racteriza o trabalho do sonho, Lévi-Strauss primeiramente transcreve o exemplo (de Silberer): “Penso que tenho a intenção de aprimorar, num texto, uma passagem tosca. Imagem: vejo-me em vias de polir com uma plaina um pedaço de madeira“, para depois observar, entre parên­teses: “(onde, notemos, não se encontra qualquer traço de recalque nem de sexualidade)“. Seria de fato surpreendente se encontrássemos o elemento sexual recalcado justamente no conteúdo manifesto!

Tão grosseira quanto possa pa­recer, essa confusão é irrelevante diante da noção que Lévi-Strauss tem do conceito de sexualidade desenvolvido por Freud. Poder-se-ia invocar em favor do antropólo­go a atenuante de que é preciso um estudo longo e acurado dos textos freudianos para ultrapassar sua assistematicidade. Seja. Mas quem se dedica a uma crítica desse porte tem por mínimo dever uma reflexão séria sobre seu objeto.

Excitação e frustração

Ora, para Lévi-Strauss, a sexua­lidade, em Freud, é algo “psico-orgânico”; impulsos buscando sa­tisfação, pertencentes ao registro oral, anal e genital, todos subsumidos numa noção de anátomo-fisiologia que comportaria funda­mentalmente os processos de exci­tação e descarga ou frustração. Em dois pontos do seu texto Lévi-Strauss aponta para onde pode jazer o núcleo da distorção: logo no início, quando exemplifica as categorias psicanalíticas de sexualidade restringindo-as às fases oral e anal (pág. 243) e comprometen­do-se bem mais seriamente adian­te, na passagem dedicada a desacreditar a célebre fórmula freudiana sobre os sonhos (pág. 257):

O verdadeiro móvel da forma­ção do sonho, escreve Freud, reside regularmente na realização de desejo“. ‘‘Mas acima do desejo, noção confusa se é que chega a ser, situa-se o apetite ou a neces­sidade; e a necessidade universal que opera no trabalho do sonho, contrariamente àquilo que Freud às vezes parece pensar (su­pra: 251), é a de submeter os termos surgidos na desordem a uma disciplina gramatical“.

Invocaremos contra Lévi-S­trauss a própria crítica que dirigiu a Freud. Da mesma forma que não pode haver língua (por mais “primitiva”…) sem gramática, tampouco é concebível que algum termo possa antecipar-se à própria gramática. A linguagem é, desde sempre, uma estrutura. A nível de comportamento. o mesmo ocorre com as emoções, sentimen­tos, impulsos. Com base nessa plataforma empreenderemos o contra-ataque.

Processo secundário

Um dos pilares capitais da construção freudiana mergulha suas fundações inteiramente na “Interpretação dos Sonhos”. Ao afirmar que o relato do sonho está contaminado pelo processo secun­dário, Freud assinala que a cons­ciência impõe as suas categorias (tempo, espaço, causa, objeto, para ficar com Kant) a um material primário. Este, porém, está regido por uma lógica própria, manifesta justamente através daquilo que Lévi-Strauss adota sob o conceito de “transformabilidade”, de onde decorre que os termos percam importância diante de seu posicionamento recíproco.

Até aqui não fizemos mais do que lembrar que o sonho, não menos do que o mito, repousa num código a ser decifrado sob o caos da notável diversidade de suas manifestações (chamadas preci­samente, no caso dos sonhos, de conteúdo manifesto).

Portanto, não há nenhuma “ne­cessidade universal… de submeter os termos (do sonho) surgidos na desordem a uma disciplina gra­matical”. Pelo contrário, isso é justamente o que Freud chamou de elaboração secundária, enfati­zando sua superficialidade. E jus­tamente não há porque a discipli­na gramatical já existe, é graças a ela que o sonho (como qualquer outro comportamento humano) se manifesta através de significantes. Por enquanto o jogo está empatado. Mas surgiu um problema: como a realização de desejos (sexuais e infantis) pode ser compatibilizada com essa gramática sem a qual retrocederíamos a uma explicação de natureza biológica, privilegiando algo como uma necessidade de sobrevivência?

Hesitações

Lévi-Strauss acredita a tal ponto na vulnerabilidade da posição freudiana que imaginou fossem seus “discípulos fiéis demonstrar com brio” que o mestre jamais afirmara taxativamente serem “todos os sonhos de natureza sexual“. Alinhando citações, o etnólogo mostra mais uma vez a ambigüidade e as hesitações de Freud a respeito. São, entretanto, perfeitamente compreensíveis: “…houve uma recusa geral em reconhecer que a pesquisa psicanalítica não podia, tal como um sistema filosófico, produzir uma estrutura teórica completa e já pronta, mas teve de encontrar seu rumo passo a passo ao longo do caminho da compreensão das complexidades da mente…” (O Ego e o ld).

Lembremos que em 1905 a sexualidade infantil cabia num prisma biologizante, mas já em 1908 o artigo sobre as teorias sexuais infantis tem êxito em resgatá-la dessa prisão, a partir do que o conceito de sexualidade ingressa por uma via onde de súbito se descortinará uma magnífica paisagem acusando que o percurso freudiano atingiu alturas não menos que filosóficas. Não precisamos portanto pedir desculpas: pelo contrário, nada mais fácil que reinvidicar as colossais (que o entusiasmo seja perdoado) descobertas, levando-as até as últimas consequências.

Interpretação pessoal

Se Freud hesitou em afirmar taxativamente a universalidade da eficácia do desejo sexual no sonho foi apenas na medida em que não podia demonstrá-lo, por não ter conseguido compreender clara­mente o alcance da sua façanha. E não se justifica a objeção de que se trata de uma “interpretação” pessoal do autor. A psicanáli­se é um campo da ciência; como tal, não seria lícito fechá-lo res­tringindo-o a uma obra, por mais notável que seja, e por fundamen­tal e essencial que continue sendo.

Mesmo porque no próprio Freud já se encontram todos os elemen­tos necessários à demonstração da existência de uma lógica que só pode ser compreendida mediante a paciente interrogação da sexua­lidade. Lembremos em primeiro lugar os pontos chave da distorção lévi-straussiana. A sua omissão da sexualidade infantil; e a incom­preensão confessa da noção de desejo. Ora prescindir das noções de desejo e de falo quando se trata de refletir sobre psicanálise é o mesmo que visitar o pólo norte com trajes de seda e linho. A demonstração já foi feita anteri­ormente mas não custa resumi-la.

Por desejo entendemos algo diferente do querer, da volição, da demanda. O desejo é inconsciente; seus derivados habitam a cons­ciência. Estes têm “objetos”; o desejo é pura forma. O desejo comporta o negativo: conforme constatável na análise de pesade­los, podemos desejar exatamente o que não queremos - o que não aceitamos querer. Isso só não constitui necessariamente a regra porque nem sempre o mecanismo do recalque é a formação de reação, essa simpática inversão pura e simples que facilita tanto o trabalho do analista…

Desejo e necessidade

Por desejo também entendemos algo radicalmente diferente de necessidade, a qual, para escânda­lo do etnólogo estruturalista, é inoperante no ser humano, sob forma biológica ou gramatical. Lembremos a seqüência: Instinto (ou reflexo incondicionado), ne­cessidade, objeto e comportamen­to determinados, satisfação (saciação) ou frustração. Isso vale para o animal. No humano encontramos algo diferente: Pulsão, desejo, objeto e comportamento indeterminados, prazer ou desprazer. O animal “descansa” da necessidade através da trégua da satisfação; no segundo caso, o prazer só faz a manutenção do desejo pela lubriflcação de suas incessantes engrenagens..

Menos fácil é dar conta, com brevidade, da rica problemática encerrada na noção de falo. Po­demos partir da categorização do falo através dos verbos ser e ter, unindo esse útil ao agradável de lidar literalmente com a gramáti­ca até aqui invocada na condição de metáfora.

A sexualidade infantil, longe de esgotar-se em impulsos visando gratificar boca e ânus para final­mente culminar na masturbação define-se muito mais amplamente como fase em que se constrói a identidade do sujeito, processo que inclui a organização de seu desejo. A criança passa necessariamente pelas vicissitudes de pretender ser o falo (da figura materna), em seguida, ser o objeto único da figura, fálica, e, contrariada, acei­ta finalmente aceder à posição de sujeito, exigindo porém a indeniza­ção de ter pleno poder sobre aquela cujo amor incondicional representará para sempre o para­íso perdido.

Édipo inocente

Resumindo e simplificando ao máximo esse é o drama que se desenrola por trás do Édipo, que Lévi-Strauss parece encarar como uma inocente novela da qual ficaria difícil depreender a impor­tância se de fato se reduzisse a problemas de ciúme e rivalidade. Mas que inclui também esses aspectos, o que esvazia a objeção citada e simultaneamente anexa à problemática que o etnólogo gos­taria de reservar para si: “Que se faça a releitura do Édipo Rei: tendo por cenário um ponto do direito constitucional - o irmão ou o esposo da rainha, quem pode pretender deter o poder legíti­mo?- trata-se de um enigma policial…”

Pois fica claro estudando-se a fase fálica que o desejo incestuoso é inseparável da vitória que acar­reta sobre o terceiro; não há amor sem rivalidade e a posição de detentor do falo a que aspira a criança não é outra senão a de aceder ao poder total, o que implica em alcançar tudo quanto se deseja a expensas de alguém (justamente o modelo com quem se fez a identificação). Trata-se da ilusão do absoluto à qual é tão difícil renunciar como assumir a posição de sujeito com o ônus de aceitar desejar sem nenhuma garantia quanto ao apaziguamento…

Qual foi o erro de Lévi-Strauss? Paradoxalmente, o do bom senso. Nisso ele não se diferenciou de todos quantos recriminaram a Freud ter enfatizado indevidamen­te o sexual. Pode-se ter uma idéia da originalidade da concepção freudiana quando se vê que mes­mo agora, retrospectivamente, continua sendo mais fácil entender os motivos de seus críticos do que a misteriosa razão que impeliu o vienense a essas absurdas e remo­tas regiões onde sexualidade e lógica se encontram tão inespera­da mas certeiramente como as paralelas no infinito. Dir-se-á que foi o trabalho clínico. Sem dúvida; mas teria sido mais fácil ficar cego e surdo diante de evidências tão atrozes.

Culto da personalidade

Não recorreremos entretanto ao culto da personalidade, a não ser por uma pequena comparação. Entre o imanentismo lévi-straussiano e a transcendência heideggeriana, entre o demasiado factual e o demasiado espiritual, Freud se parece ao pescador do conto sufí que corre sobre o lago para perguntar ao erudito como se faz para pronunciar corretamente as palavras da reza que permite triunfar sobre a matéria…

O erro do bom senso: pois de fato como negar a Lévi-Strauss uma aliança perfeita com os bem-pensantes quando invoca a possibilidade de vários códigos? Inclusive pela simpática conclusão democrática a que chega quando nega a primazia de qualquer núcleo significativo sobre outro. Nesse ponto, inesperadamente, o etnólogo hesita e se coloca no lugar do interlocutor para auto-objetar que sua posição pode ser confundida com uma redução do espírito humano “…a um jogo de abstrações“. Poder-se-ia então acusá-lo de “…substituir a alma humana com suas febres, por uma fórmula asséptica“(pág. 264). “Eu não nego as pulsões, as emoções, os turbilhões da afetividade, mas não concedo a essas forcas eruptivas uma primazia: elas irrompem numa cena já construída, arquiteturada pelos constrangimentos mentais“.

 A defesa é fraca: im­pulsos, emoções e sentimentos não estão fora dos “constrangimentos mentais”, nem aparecem “de­pois”; são significantes como quaisquer outros. O equívoco con­siste em supor uma subordinação do indivíduo ao social, da emoção à razão, do conteúdo à forma. Propomos não o contrário mas, conforme o credo estruturalista, a simultaneidade, a solidariedade e a sistematicidade.

Querela estéril

Na seção menor desse mesmo 14° e último capítulo que estamos comentando Lévi-Strauss reabre uma querela estéril para decidir quem deve mais a quem, a psicanálise ao conjunto de ciências que compõem as chamadas ciên­cias sociais (e principalmente a etnologia) ou o contrário. Quando Freud parece decidir que isso não tem realmente importância, Lé­vi-Strauss o acusa de “…jogar um véu sobre o debate“. Está engana­do, mais uma vez; mesmo porque, há cinco ou seis décadas, a psicanálise se adiantara em rela­ção a sua época ( tanto é assim que já desfrutava da noção de incons­ciente com quantos erros Lévi-S­trauss queira imputar-lhe).

Recusando a dívida que nin­guém pensou em cobrar-lhe, o etnólogo briga com seu vizinho fechando as portas a uma coope­ração da qual ambos só extrairi­am benefícios. Alcançáveis aliás com ou sem a anuência do mestre francês; ninguém é dono de sua obra e podemos colher as frutas do pomar que generosamente transgride o muro em direção ao sol do lado de cá…

Interrogando o prazer, Freud descobriu que para além da genitalidade havia a sexualidade in­fantil; que esta se desdobrava na rica vida das fantasias e teorias sexuais infantis; e inadvertida­mente encontrou-se em pleno co­ração das trevas, governadas por uma lógica imperturbavelmente férrea, diversa da aristotélica e abrangente em relação a ela; esse “…inconsciente estruturado como uma linguagem” de que falou Lacan, em torno às noções de falta e falo que erigem o núcleo da significação e inauguram a álgebra humana em obediência ao impossível desejo de ser ou ter tudo, isto é, ao desejo de não desejar.

Conteúdo e estrutura

Os mitos não escapam desse código mais do que os sonhos ou qualquer outro comportamento humano. L-S recorrerá em vão a quantos especialistas em Grécia Antiga quiser. Freud não analisou o Édipo enquanto mito. Tomou-lhe o conteúdo para batizar uma estrutura cuja descoberta só pode­ria ser feita hesitantemente, no fragor dessa batalha cega entre exércitos noturnos através da qual Shakespeare cifrou a condição humana. Fosse um frio cientista (e nunca teria chegado lá) dar-Ihe-ia o designativo de “estrutura N° 1″ ou se contentaria com a deno­minação que usou descritivamen­te, ou seja, “complexo nuclear”.

Uma observação final: Lévi-Strauss demonstra, numa derivação plenamente consequente com as elucidações de que o estruturalismo foi capaz, que a forma é o conteúdo do conteúdo. Faltou-lhe perceber que simultaneamente o conteúdo é a forma da forma. As aparências não enganam mais do que revelam. A “Carta Roubada”, de Poe, constitui uma excelente introdução ao tema.