Um conflito mais do que centenário e seus motivos
Tuesday, August 3rd, 2010Um conflito mais do que centenário e seus motivos
A lógica subjacente ao conflito do Oriente Médio possui um grau de complexidade razoável mas apesar disso não é tão difícil assim de compreender.
Não é necessário levar em consideração características pessoais desse ou daquele líder, ou descrever as particularidades ideológicas de tal ou qual posição política, (esquerda/direita), ou recorrer às peculiaridades dos traços culturais de árabes e judeus.
A referida lógica obedece a razões bem mais prosaicas.
Os estados árabe/muçulmanos têm uma estrutura semi-feudal. Desse ponto de vista, estão acuados por um modelo econômico poderoso, extremamente desenvolvido do ponto de vista tecnológico, bem como pelo tipo de sociedade que ele gera — a capitalista. A sociedade capitalista produz desigualdades imensas mas também propicia avanços inimagináveis no campo da produção, que podem reduzir essas desigualdades ou pelo menos garantir condições de vida aceitáveis, do ponto de vista material, para todo o planeta (ainda que - apenas atualmente ou em caráter definitivo?- ao custo de uma crise ecológica sem precedentes, pelo menos enquanto a matriz energética baseada no petróleo permanecer dominante).
Mesmo que no âmbito de uma estrutura injusta em termos de divisão de bens e de poder, o capitalismo está ampliando a quantidade de seus beneficiários. O marxismo-leninismo se afigurou enquanto resposta interessante para as crises do capitalismo do século XIX e do começo do século XX. Entretanto, a coletivização da produção e o monopólio do partido único não são mais estratégias cabíveis enquanto alternativas de substituição do capitalismo contemporâneo, que desenvolveu anti-corpos para as infecções derivadas dos excessos especulativos endêmicos.
Para o poder dominante nos estados árabe/muçulmanos do Oriente Médio, Israel é um perigo, visto o seu papel desestabilizador. O Líbano também era - mas já foi domesticado; no máximo, será para o mundo muçulmano o que Hong Kong foi para a China comunista. Ironia da história: A URSS apoiou a partilha, e a criação de Israel, para desestabilizar, via estrutura coletivista (Kibutzim, Histadrut) os estados semi-feudais da região. Agora, Israel ameaça muito mais do que antes, visto o seu desenvolvimento tecnológico. (Antes, na época do Lar Judeu e até a década de 60, a ameaça de Israel para o mundo muçulmano semi-feudal era representada pela estrutura socialista do país, sem dúvida ligada à sua estrutura produtiva, más esta ainda era pouco desenvolvida em comparação com o que ocorre atualmente).
Israel constitui para o mundo árabe/muçulmano um perigo similar ao representado pela Alemanha Ocidental em relação ao regime policialesco da Alemanha Oriental, decorrente da divisão do país instaurada no fim da segunda mundial e que durou até o fim do comunismo na Europa Oriental. Foi necessário construir o muro de Berlim para que os cidadãos do paraíso comunista não fugissem. A emigração constante, clandestina ou oficial, de árabes da Cisjordânia (e antes também de Gaza) para Israel, faz parte da mesma lógica. É o famoso “voto com os pés”.
Para as chamadas democracias ocidentais, é vantajoso manter o status quo, porque na medida em que os estados semi-feudais dos países exportadores de petróleo e seu séquito (como o Egito, a Síria, o Iêmen), continuarem atrasadíssimos em termos de estrutura produtiva, essas sociedades semi-feudais continuarão dependendo de que o ocidente compre seu petróleo e lhes forneça praticamente tudo, de pregos a frangos congelados.
Nesse cenário, Israel é uma pedra no sapato, um estorvo, tanto para o feudalismo muçulmano como para o ocidente - isto é, para os setores ligados à indústria do petróleo (automóveis, plásticos). Por isso a União Européia, setores importantes dos EUA, Japão, Austrália, etc., condenam tanto Israel e aderem à acusação de que Israel “coloniza” os palestinos.
Para uma parte importante da economia ocidental, é melhor não incentivar qualquer mudança no semi-feudalismo dos países árabe/muçulmanos do Oriente Médio. Isso significa manter os palestinos como massa de manobra da Liga Árabe, que representa o poder do petróleo e dos petrodólares.
Julgar que haverá paz enquanto esses interesses continuarem tendo a força que têm é pura ingenuidade. O conflito do Oriente Médio nada tem a ver com ideologia. Antes disso, decorre da reivindicação das minorias — étnicas e religiosas - à soberania ou à autonomia, algo inaceitável para o poder semi-feudal, que rejeita categoricamente a participação de cidadãos (o que é isso?) nas decisões a serem tomadas pelo estado. Estado e sociedade, nos regimes semi-feudais do Oriente Médio, estão inteiramente divorciados. Aliás, seria mais pertinente dizer que a sociedade não tem qualquer papel a desempenhar enquanto ator político.
Ou seja, os regimes semi-feudais do Oriente Médio rejeitam qualquer tipo de autonomia, quanto mais um estado, para judeus, curdos, drusos, baha’is, cristãos coptas e maronitas, sunitas nos países xiitas, xiitas nos países sunitas, ou qualquer outra minoria.
Essa situação só se modificará com uma profunda transformação nos estados semi-feudais árabe/muçulmanos, cujos regimes, tanto quanto setores importantes da economia ocidental, se opõem a alterações no status quo. Por isso o ocidente hesita tanto em combater o terror. O terror é a forma pela qual os estados semi-feudais do Oriente Médio mantêm o poder, algo que também interessa a parte da economia ocidental.
Se a crise atual no Irã desembocar na derrubada dos aiatolás, as chances de paz melhorarão consideravelmente. Mas os EUA não ajudarão, porque se encontram divididos quanto a essa questão. E ainda que ocorram mudanças importantes no Irã, será preciso que modificações do gênero também aconteçam na Arábia Saudita, nos Emiratos e no Iraque.
Assim como Churchill disse que a democracia era o pior sistema político que já existiu, com exclusão de todos os outros, o capitalismo pode ser um dos piores sistemas econômicos que a história humana conheceu, mas as sociedades que o adotam são muito melhores do que as feudais e as comunistas. O que une o islamismo e o comunismo é justamente a ojeriza à tecnologia, que derrotou o comunismo e ameaça o islamismo.
Embora a princípio pareça absurda, a união verde-vermelha (islã-esquerda) é bem compreensível. Ambos são retrógrados, islã e esquerda. O comunismo é fruto do capitalismo do século XIX, em que o operário era mais importante do que as máquinas e uma greve geral constituía um instrumento político-econômico particularmente poderoso. Não mais.
O que a esquerda odeia em Israel é justamente a demonstração de que a tecnologia, fruto da inteligência bem aplicada, é capaz de criar uma sociedade imensamente melhor e mais justa do que o bando de ditaduras do proletariado que fracassou — e continua fracassando — do ponto de vista econômico, político e ético.
Para países como França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália, o dinheiro gasto com a compra de petróleo retorna na forma de petrodólares, que os regimes semi-feudais dos países exportadores de petróleo investem na economia européia.
Portanto, para a União Européia em geral, e para suas economias mais desenvolvidas em particular, como as dos países acima citados, é melhor que as ditaduras petrolíferas do Oriente Médio não invistam em suas próprias economias.
Para essas ditaduras, não investir internamente é fundamental para que não haja desenvolvimento econômico. Impede-se, dessa maneira, qualquer mudança social. Para tanto, exportam capital. Essa política econômica alia o útil ao agradável, porque as potências petrolíferas também ganham influência considerável nas sociedades receptoras de petrodólares. Os petrodólares, no ocidente, compram consciências na mídia e entre os políticos, subornam juristas e ‘formadores de opinião”, sindicatos e atingem a “massa”, via investimentos. Constroem-se moderníssimos estádios de futebol, como na Inglaterra…
Esse processo também leva as ditaduras petrolíferas a exportar suas novas gerações, porque não há mercado de trabalho interno — nem, evidentemente, ensino técnico e universitário. Evita-se assim outro fator de instabilidade para as ditaduras petrolíferas e países árabe/muçulmanos adjacentes. Esses jovens muçulmanos vão parar na Europa, e, uma vez alcançada a cidadania, podem votar. Cooptados e doutrinados pela “Al Jazeera”, pelas mesquitas e pelos ativistas do fundamentalismo islâmico, promovem o anti-semitismo na Holanda, na França, na Inglaterra, na Alemanha… E constituem mais um fator importantíssimo para a expansão da rede política anti-sionista da União Européia. Políticos inescrupulosos, com “Red Ken”, ex-prefeito de Londres, surfam nessa onda, atacando Israel com as calúnias de praxe, porque cada calúnia rende votos da minoria muçulmana — cada vez maior..
Parte desses petrodólares volta ao Oriente Médio, mas não aos países muçulmanos. Em vez disso, irriga monetariamente as ongs anti-israelenses de Israel, via agências financiadoras oriundas da União Européia. As ditaduras petrolíferas influenciam assim a própria política israelense, sustentando generosamente os pseudo humanistas, mediante o “Israel New Fund” e órgãos doadores similares. Os partidos da extrema esquerda israelense também são financiados dessa maneira. O trabalho desses demonizadores profissionais é caluniar Israel de todas as formas possíveis. Atualmente, a meta principal das ongs anti-israelenses é denunciar como crime de guerra todo ato de defesa de Israel.
Temos aí uma explicação para a hipocrisia incomensurável da Europa em relação a Israel. Nos EUA, o investimento saudita produz igualmente influência política anti-israelense. Por isso, pseudo-intelectuais como Walt e Mearsheimer escrevem que a aliança com Israel é contraproducente para os Estados Unidos. Efetivamente, manter ditaduras semi-feudais no Oriente Médio é uma forma de conseguir petróleo barato e abundante, assim como o retorno dos dólares na forma de petrodólares. O interessante é que Walt, Mearsheimer, Chomsky, Finkelstein e cia. ltda. defendem a ruptura dos EUA com Israel mediante argumentos “humanistas”… mas, curiosamente, jamais se encontrará em seus escritos qualquer crítica aos crimes incomensuráveis cometidos sob o amparo da sharia nos países muçulmanos… como, por exemplo, a lapidação de mulheres “adúlteras”, a execução de menores, a excisão do clítoris, o abuso sexual de dissidentes nas masmorras dos aiatolás. Nada disso é mencionado pelos “intelectuais de esquerda”.
Para setores importantes da economia americana, ligados à indústria automobilística, de plásticos e outros derivados do petróleo, também é melhor que os petrodólares não sejam aplicados nas economias dos países exportadores de petróleo e sim nos EUA.
Em decorrência, essas ditaduras se perpetuam, e continuam hostilizando Israel, que é o grande fator de instabilidade no Oriente Médio, a grande ameaça. A emigração contínua dos palestinos da margem ocidental (e anteriormente também de Gaza) para Israel mostra para os potentados das mil e uma noites onde jaz o perigo. Os ditadores árabes temem a constatação, por parte do povo árabe, de que existem sociedades vizinhas muito melhores do que as dos regimes ditatoriais em que vivem. Ao contrário da Europa, é fácil a integração dos jovens árabes em Israel. Parte considerável dos israelenses veio de países árabes, fala árabe, o árabe é uma das línguas oficiais de Israel, 20% da população israelense é árabe, em Israel a liberdade de profissão de fé é total… Péssimo exemplo para os tiranos muçulmanos da região. Assim, a doutrinação incessante para reforçar a fé porventura hesitante, bem como as 70 virgens que aguardam os shahids, são propagados aos quatro ventos, para apagar qualquer veleidade de transformação social.
O que Israel está enfrentando é simplesmente isso. Em acréscimo, o país é atacado por uma esquerda fracassada, que procura sobreviver através do recurso ao bode expiatório, transformando Israel em um misto de Vietnã do Sul dos anos 60 e de África do Sul antes do fim do apartheid. Tenta assim vestir uma máscara ética para fazer esquecer o Gulag, Pol Pot, as atrocidades de regimes como o chinês, o cubano, a Coréia do Norte, e os crimes cometidos pelo comunismo em toda a Europa Oriental… Para tanto, essa esquerda vende sua alma ao que considera o diabo — ou seja, a índústria petrolífera ocidental e os regimes ditatoriais semi-feudais do Oriente Médio. Levando em conta o que foi o mundo comunista, não deixa de ser um gesto coerente.
Eia a coalizão enfrentada por Israel. A fina flor da hipocrisia e dos piores interesses da economia mundial, responsáveis pela poluição e pela crise ecológica, dignos de protagonizar um capítulo adicional da “História Universal da Infâmia” que Borges escreveu.
Trata-se da união do pior capitalismo (o da poluição extrema devida à matriz energética do petróleo), com o pior do socialismo (os herdeiros de Stalin), com o pior do feudalismo remanescente (as ditaduras muçulmanas). Diante disso, o néo-nazismo e a direita, que tentam fazer esquecer os crimes cometidos na segunda guerra mundial , projetando-os em Israel, acabam sendo o inimigo menos assustador do estado judeu…
Franklin Goldgrub
