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O inconsciente e o social

Saturday, September 27th, 2008

 

Parte II

PROLEGÔMENOS A UM NOVO DIALOGO COM A ECONOMIA POLÍTICA

Senhor, dai-me forças para mudar o que não pode ser aceito, aceitar o que não pode ser mudado, e discernimento para distinguir.

São Francisco de Assis

O INCONSCIENTE E O SOCIAL

 

Todo território minado convida a uma saudável prudência feita de tímidos avanços e gentis recuos; quebrar essas sábias regras é quase o mesmo que ir pelos ares. As fronteiras entre o marxismo e a psicanálise parecem advertir sobre os nefastos resultados da precipitação quando exibem as contraditórias marcas das aproximações e dos conflitos entre essas duas potências das ciências humanas. Houve alianças periodica­mente celebradas que não resistiram à ambição das facções mais radicais, ávidas em proclamar sua superioridade - como se a demonstração definitiva de um saber precisasse apoiar-se na anexação das soberanias limítrofes. O balanço final mostra que a beligerância não produziu resultados melhores do que os da cooperação frustrada.

De um lado, o marxismo teve pouco êxito em sua tentativa de encerrar a obra de Freud na masmorra de certo saber classista, um pessimismo cujo maior mérito seria o de constituir o contrariado reconhecimento da outra face da vitó­ria alardeada pela burguesia - perante a aristocracia, o prole­tariado e a natureza - mostrando-lhe os custos.

Afinal, não há grande dificuldade em objetar que se a prática terapêutica me­rece o epíteto de elitista, o mesmo pode ser dito de quaisquer outras práticas no âmbito da economia de mercado (ou do modo de produção industrial, se aceitarmos a extensão sugerida por Illich). Seria o caso, então, de negar toda e qualquer forma de conhecimento a pretexto de que saber é poder e a desigualdade em sua distribuição faz de seus detentores os beneficiários diretos das diferenças sociais vigentes.

A psicanálise aparece então como uma dispendiosa cortesã às avessas, sustentada pela generosidade de ricaços depravados que se penitenciam algo entediados dos eventuais excessos cometidos em nome do prazer. A igreja para os pobres e o divã, esse confessioná­rio de luxo, a serviço de pecadores mais sofisticados.

Acontece que a psicanálise não é apenas uma forma de conhecimento (ou charlatanismo) destinada como tantas ou­tras a reiterar e ratificar uma hierarquia social através do acesso que se possa ter a seus benefícios. Se assim fosse teria sido deixada em paz junto com a engenharia, a medicina, a arquitetura e o resto do olimpo universitário das profissões li­berais, que recebe do severo pensamento de esquerda apenas judiciosas e indulgentes preconizações de socialização. Por mais que Freud tivesse pressentido o perigo, seria pedir o im­possível que o patinho feio das ciências humanas não fosse cortejado à direita e à esquerda (muito mais à direita), à medi­da que as transformações da puberdade iam esculpindo um provável cisne.

A razão disso é que ao longo de cinco décadas de aus­cultação e escutação do pulsar inconsciente o ouvido freudia­no acabou captando correntes que podem servir para movi­mentar os moinhos de ambas as margens do debate político contemporâneo - pelo menos aparentemente e desde que se exerça certa seletividade. Fugindo às obras de canalização que enfraqueceriam o vigor do fluxo teórico, o navegador de­nunciou as ideologias como novas formas de quarentena reli­giosa e içando a bandeira da pesquisa descompromissada prosseguiu viagem recusando os portos oferecidos. Houve quem visse no estandarte duas tíbias e uma caveira sobre fun­do negro - e não sem razão: a psicanálise outorgou-se o di­reito de piratear o monopólio dos saques praticados pela ciência convencional.

Mas a questão é outra: até que ponto ainda se poderia acreditar na imparcialidade da ciência? A ilusão máxima não será justa­mente pretender-se Ulisses amarrado ao mastro da verdade para esganiçar as sereias ideológicas?

Trata-se de uma inter­rogação levantada tantas vezes quantas deixou de ser respon­dida - se o saber pode alcançar essa independência que passa por condição necessária para beneficiar a huma­nidade  ou é um cão de caça cuja subserviência deposita obedientemente a presa nas mãos do dono. Enquanto a dúvida permanece, sempre podemos perguntar-nos pelos motivos que talvez justifiquem o aliciamento da psicanálise para servir ao poder ou municiar seus contestadores.

Ninguém tem o direito de espantar-se com a atração que o inconsciente psicanalítico exerce sobre os defensores do li­beralismo econômico. A postulação de uma rivalidade ine­rente à convivência humana (a partir da própria construção da identidade no auge do triângulo edipiano) mais a descoberta da insaciabilidade do desejo parecem suscitar uma justificati­va pret-à-porter da economia de mercado. Vê-se sabotado as­sim o famoso lema do humanismo revolucionário - “de cada um segundo suas possibilidades a cada um segundo suas ne­cessidades” - que resgatava o melhor da ética religiosa.

Não surpreende a antipatia que o movimento psicanalítico desen­cadeou e justamente entre aqueles que respondiam pelas espe­ranças da humanidade. Na mesma medida em que a moral calvinista destinada a oficiar o casamento por interesse entre dinheiro e devoção viu o puritanismo exposto à crua luz de sua significação “verdadeira” ou “inconsciente” - avareza e lubricidade -, a virtuosa donzela revolucionária teve os pró­prios projetos de racionalidade econômica apontados como sonhos nupciais de uma noite de verão.

É verdade que nada existe de vergonhoso em pretender a união entre trabalho e propriedade, indivíduo e sociedade, planejamento e produção. Mas dificilmente poder-se-á conceber uma ofensa maior do que ser flagrado em estado de ilusão quanto a auto-imagern conjuga o materialismo e a dialética justamente em contrapo­sição ao hegelianismo nefelibata e a uma lógica incapaz de resolver, por falta de dimensão histórica, as contradições que o real apresenta.

Em outras palavras, o epíteto “idealista”, com que o marxismo ortodoxo costuma invectivar alguns ad­versários, voltar-se-ia como um bumerangue quando a inves­tigação do inconsciente traz à tona certos mecanismos íntimos do desejo, palavra cuja mera menção detona uma feroz polêmica ao desautorizar, com sua incômoda presença, todo o tranqüilo universo organizado em torno do conceito de neces­sidade.

Trata-se de um ângulo embaraçoso que traz problemas inimaginados e inimagináveis para um enfoque que em certas versões mais simplistas restringe a problemática essencial da condição humana à pertença do indivíduo a determinada classe social e vê a questão da conscientização como um pro­cesso educativo - o acesso dos trabalhadores à informação necessária - cujo único obstáculo sério talvez seja a arcaica (e inexplicada) barreira dos dogmas religiosos.

A primeira reação - ultrajada - diante da utilização que o pensamento de direita faz da desmistifícação de certos dogmas marxistas por parte da psicanálise, não poderia senão propiciar a confusão entre a obra de Freud com os interesses de seus gigolôs. O marxismo oficial viu-se levado a estigmatizar a psica­nálise como a última arma do arsenal conservador, que se atreveria agora a postular abertamente uma visão cínica com a finalidade de inviabilizar qualquer projeto de justiça social por incompatibilidade com o egoísmo essencial comum a cada membro da espécie.

Indivíduo: ousando extrair conclusões aventurosas de seu estudo, a nova ideologia du­plicaria, por assim dizer, o peso da heresia, privilegiando o particular diante do social com a mesma desfaçatez do capi­talista que prioriza os próprios interesses sobre os da coletividade.

Um trajeto marxista-weberiano (até certo ponto compa­nheiros de viagem) apontaria que o catolicismo teria sido a ideologia do feudalismo tanto quanto as diversas correntes do protestantismo serviram para fundamentar os gestos inaugurais do capitalismo. Prosseguindo nessa linha, nada impede postular que à psicanálise caberia justifi­car a megalomania individual e coletiva da sociedade de con­sumo, enquanto arauto do hedonismo, que promove o prazer a valor máximo na esteira da ex­plosão de produtividade que se seguiu à Segunda Guerra Mundial.

A despeito da rígida hierarquia, a solidariedade não estava totalmente ausente das relações de produção feudal, apoiadas numa técnica incapaz de obter da natureza algo mais do que a sim­ples sobrevivência para a maioria e algum fausto destinado aos nobres.. É algo que se perde com o declínio da teologia medieval.

O crescimento da população era controlado pelo trio fome, peste e guerra. À medida que novas técnicas de produção, transporte e armazenamento surgem e se desenvol­vem, com todos os percalços inerentes ao processo, a idéia de lucro e acumulação deixa de ser a representação por excelên­cia do mal enquanto o protestantismo passa a promover sua ascensão ao próprio topo da nova escala de valores. É assim que o perdularismo do aristocrata é substituído pelo ascetismo dos primórdios da industrialização. Há um projeto guiando o processo, a esperança que pela primeira vez não parece ab­surda de dominar a natureza. A ciência encarrega-se de in­vestigar suas leis, a técnica transforma o conhecimento em prática produtiva, a propriedade será o prêmio dos mais capa­zes. O dever exige que se gaste o mínimo e guarde o máximo.

Nem sempre essa austeridade era seguida pelas classes domi­nantes com a mesma ênfase com que se recomendava ou impunha sua observância ao restante da sociedade, mas a distância en­tre o ideal e a realidade não basta para desautorizar a concep­ção de um período onde o prazer se tornou o elemento central do pecado. Nesse sentido, a era medieval, aparentemente re­gida por uma moral igualmente rígida, era muito mais liberal; a heresia por excelência expressava-se pela recusa do destino que o berço determinava. A mobilidade social, pri­meiro tolerada, depois permitida, e finalmente incentivada pelas modificações do processo produtivo que conduziram a burguesia ao poder, é que constituía verdadeiramente o grande pecado para uma sociedade cuja meta principal era preservar a unidade interna para fazer frente às suas rivais.

A aristocracia pagava sua hegemonia vitalícia mediante a proteção oferecida aos braços que a sustentavam; cabia à igreja conter e reme­diar a avidez dos nobres mediante confisco e distribuição do mínimo imprescindível aos desvalidos. Daí a ênfase concedi­da à caridade. A manutenção da sociedade dependia da con­jugação adequada entre a obediência dos dominados e a con­tenção das tendências expoliadoras de seus superiores. A função da igreja, sumamente complexa, abrangia o que hoje seria da esfera do poder judiciário e antecipava sem dúvida a previdência social, ressalvadas as devidas proporções. A guerra sem quartel instaurada pela corrida ao capital e à pro­priedade eliminou grande parte da relativa estabilidade alcan­çada no regime anterior, mas tampouco foi por acaso que as transformações tiveram lugar.

Um dos aspectos menos estudados da passagem do feu­dalismo ao capitalismo é o da questão demográfica. Um livro do qual não se fala muito (Pobreza e Progresso, de Richard J. Wilkinson) ocupa-se do tema, evitando tanto quanto possível comprometer-se com alguma posição política definida. O au­tor pretende investigar o papel do crescimento da população como incentivo aos melhoramentos técnicos e às invenções, principalmente no que se refere a novas formas de utilização de energia.

Wilkinson defende a tese de que a exeqüibilidade econômica da mecanização da produção, exigindo um investimento de re­torno duvidoso e demorado, dependia diretamente da econo­mia de escala. Seria preciso a instauração de um mercado ga­rantido por um mecanismo duplo: o progressivo esgotamento da capacidade de suprimento através dos anteriores processos de produção bem como a existência de uma demanda estável dos bens doravante manufaturados.

Este último item está, sem dúvida, ligado ao preço da mercadoria, o que por sua vez, como ensinou Marx, encontra-se em estreita dependência do valor do trabalho. A mão-de-obra poderá ter sua remuneração calculada estritamente com base no custo de subsistência, na medida em que não houver escassez de braços. Fecha-se o círculo e temos uma explicação razoável para entender como a industrialização tem todo o interesse em promover uma po­lítica demográfica não restritiva.

O que, por outro lado, jamais representou um problema; até prova em contrário, existe uma demanda inesgotável por sexo e a correlação entre as correspondentes práticas com o aumento da população não precisa de explicação. Eis aí um tipo de produção que nunca exigiu qualquer tipo de incentivo. (O atual decréscimo da taxa de natalidade na Europa Ocidental deve-se a fatores que não objetam ao raciocínio anterior).

O contrário é que constitui a regra; todas as socieda­des baseadas no tipo mais primitivo de economia que se co­nheça, caça e coleta, mantém algum tipo de controle demo­gráfico, em geral bastante estrito. A razão é transparente; trata-se de sistemas produtivos rudimentares, cuja dependên­cia da natureza alcança níveis quase absolutos. São também essas populações que se dis­tingüem pela cuidadosa observância de códigos conservacionistas denotadores de profundo conhecimento dos proces­sos naturais, redescobertos somente agora pelos ecólogos das sociedades industriais, por razões que deveriam ser preocupantes.

Apesar da importância do crescimento populacional para o surgimento e o aperfeiçoamento das novas técnicas produti­vas, o desejo sexual não encontrou lugar de destaque dentro das teorias econômicas. Coube-lhe representar, tal como aconteceu com certos recursos amplamente disseminados e abundantes (oxigénio, água), um papel de ínfimo coadjuvan­te. Não houve qualquer dificuldade em pensar as coisas desse ângulo todo o tempo em que a produção parecia estar ligada mais ou menos diretamente às necessidades biológicas.

De certa forma o modelo não se modificou substancialmente até o fim da Segunda Guerra Mundial; o consumo suntuoso apresentava-se como marginal, ocupava as sobras da capaci­dade produtiva e tinha toda a aparência de não interferir com a fabricação dos bens essenciais. A fome e a miséria eram atribuídas aos extremos de injustiça na distribuição de renda, não como decorrentes do desvio dos investimentos, cada vez mais canalizados para fins divorciados do que quer que a palavra “necessidade” designe.

E precisamente nesse ponto que a psicanálise é chamada a ocupar o lugar do darwinismo social. Racionalizar o con­flito de classes, justificando-o como um combate sem tréguas, em que a vitória do animal mais forte se dá no interesse da própria espécie, torna-se inadequado e perigoso à medida que a crescente afluência devida ao progresso técnico possibilita um certo distributivismo (ao menos nos países industrializa­dos) e o proletariado começa a organizar-se em sindicatos.

Assim, a idéia de sociedade como uma segunda natureza onde a competição desta vez intra-espécie não teria por que ser menos feroz do que na primeira, cede espaço à paulatina humanização da vida social e começa a vislumbrar-se a possibilidade de um Estado onipresente ataviado com os adornos do previdencialismo (welfare state). Transporte, educação e saúde gra­tuitos, habitação subsidiada, seguro-desemprego…

É verdade que o sonho não durou muito. A demanda por canhões é muito mais eloqüente do que a por manteiga. De qualquer maneira, o abismo entre a capacidade produtiva da paraferná­lia tecnológica e os benefícios auferidos pelos cidadãos da era industrial já não pode ser escamoteado. Se de um lado a agressividade começa a tornar-se cada vez mais aceita (pelo menos sob a máscara da competição), o mesmo ocorre com o desejo. Praticamente não se ouve mais o clássico comentário das donas-de-casa queixando-se de empregadas que não têm o que comer, mas são mais elegantes do que as patroas…

Parece que de alguma forma a vulgarização das teses freudianas tem permitido encarar de outra forma comportamentos antes categorizados como bizarros ou extravagantes, da mesma forma que tem fornecido uma justificativa antecipada para a hecatombe nuclear. Quando a época do saque - ou acumulação primitiva como conceituava Marx - chegou ao fim e o lucro passou a ser extraído de maneira mais educada, a classe do­minante contraiu alguns hábitos refinados que condenara nos tempos heróicos de sua própria revolução contra a aristocra­cia.

Similarmente, a produção em grande escala converteu ao hedonismo os adeptos da frugalidade, quer se encontrassem no campo da tradição acumulativa (os poupadores da pequena burguesia), da revolução ou da espiritualidade. Um observa­dor malicioso diria que o sonho do burguês é ser nobre tanto quanto o do operário é ser burguês… Seja como for, parece que a psicanálise tem sido convocada para conceder absolvi­ção coletiva, mostrando que de pão é que menos vive o ho­mem.

A descoberta da eficácia do inconsciente trouxe assim uma série de vantagens para quem quisesse impor-lhe certa interpretação, tudo menos desinteressada. O sofrimento seria imputável doravante ao próprio indivíduo, independentemente de sua origem social. Mais ainda, certos comentários de Freud poderiam levar a pensar que foi a própria burguesia que car­regou o fardo mais pesado da repressão sexual. Portanto, se o problema é esse…

De fato, as famílias proletárias (como o próprio adjetivo indica) continuaram estimuladas a procriar animadamente para abastecer as fileiras do exército industrial de reserva. A marginalidade resultante (ou seja, o lumpem-proletariado) fornecia o álibi ideal para confundir luta política e banditismo, legitimando assim o uso da força bruta. Conseqüentemente, a questão social pôde ser durante muito tempo um caso de polícia. Enquanto isso, ocupado com a feroz competição, que não perdoava os membros da própria elite, o proprietário procurava amenizá-la, ao menos ao seio da famí­lia, derramando seu sêmen com conta-gotas e fazendo do ca­samento do herdeiro(a) uma operação comercial cuidadosa­mente planejada.

Essa ociosidade a que eram condenados os genitais femininos da classe dominante não é alheia a tudo quanto o vaudeville soube explorar para efeitos cômicos. Já a psicanálise conseguiu subsistir, apesar dos estragos provoca­dos na boa consciência reinante, graças aos serviços presta­dos em favor dos mutilados dessa guerra que não poupava sequer os bem-nascidos. Enfim, a perversão servia de matéria-prima ao teatro de costumes enquanto o sofrimento neuró­tico, outro lado da moeda, começava a povoar os divãs de al­guns excêntricos, que por razões certamente excusas não ha­viam aceito o convite para participar da festa.

Freud não parece ter-se incomodado muito com a extração social de sua clientela. Na medida em que pôde acreditar na teoria do trauma, tinha até uma justificativa plau­sível; ao contrário da classe média, o proletariado fora isento de cultivar um código moral intolerante fa­ce as exigências da sexualidade. Quando os avanços teóricos jogaram por terra essa vinculação entre posição social e neu­rose ele se comportou como quem aceita as regras do jogo em nome de um ideal mais alto - as condições para continuar a estudar o inconsciente, seja qual for o interesse que isso pu­desse ter.

Não chega nem de longe a parecer-se com a atitude que levou os físicos do projeto Manhattan a esquecer todas as conseqüências pela paixão do saber - de fato, que mal pode­ria advir da exumação de fantasias arcaicas? - mas percebe-se aí certo desinteresse pelos destinos da sociedade (sempre presente no amor à arte pela arte), que a esquerda humanista não deixará de deplorar.

Uma das conseqüências mais significativas do estudo psicanalítico sobre a infância é a constatação da relativa inoperância da educação, muito mais propensa a provocar rebeldia do que obediência - esta última, inclusive, contaminada pela submissão. Algo seme­lhante ocorreu com a própria teoria freudiana. Se a tolerância com que paulatinamente passou a ser considerada traduz o processo pelo qual a repressão sexual e a moral vitoriana precisavam ser revogadas para pavimentar a via real da ideologia consumista, então Reich e toda a psi­canálise marxista mostram como a rebeldia pode vicejar mes­mo em terreno adverso.

Inconformado com o papel que a psicanálise era chamada a desempenhar numa sociedade notoriamente marcada por de­sigualdades enormes - pajem anacrônica de desocupados opulentos - um setor do movimento enveredou pelo caminho contestatório. A nível prático isso significou buscar tornar o divã acessível a outras camadas sociais; teoricamente, hou­ve o empenho de vincular as problemáticas individual e social, mesmo que isso implicasse o sacrifício epistemológico do inconsciente.

Uma das linhas mais claramente desenvolvi­das, no caso por Reich, procurou demonstrar a ligação entre autoritarismo político e patriarcalismo despótico. Não se po­deria pensar a ditadura do pater famílias sem o entorno de um regime que seria o seu modelo legitimador; reciprocamente, o despotismo se deveria em boa medida à passividade de uma população submetida ao poder desde o berço.

Essa é talvez a primeira contribuição de valor da psicanálise para o pensamento marxista, incapaz de compreender a demora e os obstáculos do processo de conscientização da classe trabalhadora, quando todas as con­dições objetivas pareciam dadas. À repressão sexual, princi­pal conseqüência da educação familiar mancomunada aos valores sociais mediante o vínculo Deus-Estado-Pai, caberia a responsabilidade principal pela alienação política e a negação do próprio desejo, doravante indissociáveis como núcleo neu­rótico do cidadão moderno.

Seria dever da psicanálise denunciá-lo, exigindo uma no­va moral que por si só criaria condições decisivas para o exercício da consciência crítica. O cômodo presidido pelo divã transformar-se-ia as­sim na ante-sala das células e comícios onde a grande massa de oprimidos encontraria o espaço de sua organização e atuação política.

Não consta que os analistas de esquerda tenham instalado consultórios à prova de burgueses (antes optaram pela linha Robin Hood), mas não poderia surpreender a ninguém que um compromisso tão ardente com a revolução tornasse as in­terpretações algo tributárias da catequese.

Mais cedo ou mais tarde, as duas correntes se defronta­riam no interior das próprias sociedades psicanalíticas, aber­tamente ou sob outros pretextos. O invariável resultado dos embates foi o afastamento da facção politizada. Reich atri­buiu a Freud uma adesão silenciosa e inconfessa aos ideais da justiça social. Contudo, prisioneiro da própria posição que ocupava, te­ria sido obrigado, no intuito de preservar a unidade do movi­mento em torno de seu eixo mais sólido, a concordar com a excomunhão da minoria socialista. Em compensação, seu veto à medicalização da psicanálise, bem como a manutenção da sexualidade como núcleo da teoria face às críticas junguianas, interpretadas como concessões à moral vigente, e a condenação da heresia adleriana, cujo sentido mais evidente era o de coonestar a feroz competição social com fundamentos teóricos, seriam uma eloquente demonstração de fide­lidade à ética subversiva.

A argumentação reichiana é quase totalmente convincente; falta-lhe reconhecer o quanto Freud já havia se distanciado da definição de sexualidade como um processo biológico comportando basicamente os processos de excitação e descarga. A falta de orgasmo tornara-se apenas um dos aspectos do conflito, antes a conseqüência do recalque do que sua causa[1]. (A noção de causa, aliás, será substituída pela de sentido, quando a partir d’A Interpretação dos Sonhos a linguagem se sobrepuser à epistemologia canônica, apoiada em fatores ambientais e biológicos).

Estendendo esse ra­ciocínio, poder-se-ia dizer que o criador da psicanálise já es­tava em vias de desenvolver seu alardeado pessimismo, na medida em que começava a compreender até que ponto o desejo pode exceder tudo quanto qualquer objeto possa fornecer-lhe em forma de prazer. Não há religioso sem paraíso; poderia haver revolu­cionário sem utopia?

As primeiras cisões do movimento psicanalítico parecem mostrar que, como aconteceu com qualquer outra instituição, o peso da divisão social fraturou a apa­rente uniformidade interna.

Mesmo sofrendo essas avarias, a nave seguiu adiante, mostrando que o faro de seu timoneiro tinha funcionado: era imprescindível desvincular-se de qualquer Weltanschauung (visão de mundo), por mais tentador que fosse o canto das sereias - da respeitabilidade social ou da ética revolucioná­ria. As próximas divisões que o movimento conhecerá serão sobretudo teóricas. Não que a disputa de poder estivesse ausente, pelo contrário, ou que não houvesse repercussões ou derivações políticas, o que seria impossível.

A posição kleiniana representa a decisão de ocupar-se com a solidificação da teoria e para tanto elege o campo da infância e da fantasia, priorizando a origem e o imaginário. Em conseqüência, o vínculo com a figura materna ganhará em importância, com o que o Édipo cai a um plano secundário. O surpreendente inventário da imagina­ção infantil é enquadrado numa ótica pouco original; trata-se, novamente, de subordinar as fantasias ao choque produzido pelo encontro, sempre desarmonioso, entre impulsos biológicos exigindo satisfação total e uma realidade so­negadora.

A oposição irredutível entre os princípios do pra­zer e da realidade encontra sua arena mais propícia na figura materna, agente da máxima gratificação e frustração possíveis. A teoria é reconduzida, assim, a par­tilhar suas teses com o senso comum: tudo depende da educa­ção, é preciso encontrar um equilíbrio entre mimo e severida­de, há que saber colocar limites, o adulto deve conhecer-se para não projetar suas fantasias na criança. Evidencia-se uma tendência em responsabilizar os pais pelos conflitos infantis; o kleiniano torna-se o porta-voz da criança indefesa, cujo sintoma é uma acusação muda apontando seus educadores.

Não surpreende que o sujeito seja visto como programado por essa primeira relação fundamental, na qual foi (mais) aceito ou (mais) rejeitado. As discrepâncias entre os aconte­cimentos e a vivência do protagonista serão atribuídas à força dos impulsos (sexuais e agressivos), tidos por inatos. Ainda que relutantemente, o terapeuta acaba por tomar o partido da realidade, embora da maneira mais ponderada possível; afinal, tendo estagiado no divã, ninguém melhor do que ele pa­ra conhecer a sedução exercida pelo prazer. Mãe substi­tuta amorosa e tolerante, porém ciente da inevitabilidade dos limites, guia tenazmente o paciente através do emaranha­do bosque de fantasias em direção à clareira de um real cuja luz não é tão causticante assim. Medicalização? Pragmatis­mo?

Importa menos fazer a crítica da teoria kleiniana do que compreender sua concepção do social. Supondo que a relação mãe-criança obedeça a fatores relativamente autônomos (impulsos inatos, disponibilidade materna), a construção da personalidade guardará certa distância das influências am­bientais - o que está em jogo pertence à jurisdição das emoções mais profundas. Consideradas universais, são (pelo menos) em grande medida independentes da cultura à qual se pertence. Periodicamente esse raciocínio é questionado; o marxismo, a antropologia, o feminismo costumam desconfiar do que julgam ser uma apologia da repetição e vêem na psi­cologia das emoções a justificativa de uma desigualdade baseada no arcaísmo irrevo­gável de impulsos tanto menos modificáveis quanto devidos à realidade biológica.

O equilíbrio ou desequilíbrio psíquicos decorreriam então da intersubjetividade. Trata-se de uma tese apoiada pela constata­ção de que loucura, neurose e perversão encontram-se presentes em todos os níveis da escala social bem como disseminadas pe­las culturas, quer ágrafas ou avançadas, ocidentais ou orientais.

A posição ortodoxa não deixa de ter variantes, mais ou menos permeáveis ao peso de um ou outro fator externo. Mas não seria injusto atribuir ao kleinismo uma pertinaz aderência à ideia de que o conflito neurótico é sobretudo um problema particular como qualquer doença orgânica, facilitando ao psicoterapeuta uma identificação com o profissional liberal que oferece seus serviços a quem pode retribuí-los adequada­mente, sem o que o ato terapêutico acabaria por sofrer uma desvalorização tendente a torná-lo ineficaz. É no interesse do próprio paciente que o psicanalista permaneceria inamovível na posição de prestador de serviços altamente especializados.

Em princípio, o respectivo trabalho teórico circunscre­veu-se à exumação das fantasias infantis, sua classificação e compreensão, bem como à elaboração de uma teoria de estádios ou posi­ções coerente com a transformação do regime psíquico numa monarquia parlamentar onde Edipo reina mas não governa.

O próximo e inevitável passo foi a extrapolação das descobertas para um âmbito maior. As teorias, se não se articulam, ten­dem ao canibalismo… e por motivos semelhantes - para in­corporar os méritos do rival. São de descendência inequivoca­mente kleiniana todas as tentativas de investigar personalida­des famosas sob o prisma de suas primeiras relações objetais, cabendo ao vínculo com a figura materna o peso principal na elucidação das peculiaridades até então inexplicáveis do adulto.

Os principais alvos dessa tendência são as chamadas personalidades psicopatas (Hitler, em primeiro lugar, como não poderia deixar de ser), em seguida os grandes benfeitores da humanidade (categoria em que Freud tende a ser privile­giado), figuras ambíguas e fascinantes (geralmente artistas com rica e variada vida sexual), tudo sob a pretensa égide de um estudo clássico (o ensaio sobre Leonardo).

Nesse caminho, embora com mais cuidado, acaba-se por pretender tipificar a figura do revolucionário, preparando o caminho para psicologizar (alternativamente patologizar) a luta política. O romance psicanalftico, recente categoria lite­rária, felizmente pouco cultivada, emprega à exaustão o personagem do rebelde que agride seu analista segundo o melhor modelo transferencial, até poder perceber que esse saco de pancadas dotado de um espelho inquebrável e as figuras autoritárias responsáveis pelo regime político execrado são, na verdade, uma só reedição da figura paterna, indevidamente responsabilizada pelo roubo de mamãe. Após comovedora catarse, o final feliz exige que o paciente liberto de suas an­siedades e defesas vá tratar da vida com o mesmo tirocínio que seu salvador, alcançando assim o sucesso profissional benevolamente vaticinado por esse outro oráculo que inver­samente poupou-o do parricídio.

Seja qual for o valor que se possa dar a esse indício, não é improvável que aponte no sentido de considerar a história como uma epopéia, cujas passagens mais emocionantes de­vem-se à magnitude dos impulsos amorosos e hostis decor­rentes, em última análise, da dependência que se tem face à figura materna. Certo sabor moralista inerente deriva do farto emprego de ingredientes como satisfação e frustração; o diagnóstico nunca deixará de responsabilizar a falta de amor no passado (severidade ou descaso excessivos) pela agressi­vidade atual (externalizada ou internalizada) do paciente.

Compreendido o indivíduo, os desenvolvimentos kleinianos passam ao plano do social. O pensamento de esquerda, seu inconformismo e criticismo em relação ao status quo, são, a partir dessa ótica, aproximáveis da infantilidade. A exigên­cia de justiça pode ser reinterpretada como um exasperado pedido de amor. Agredido e/ou ignorado pelas classes domi­nantes, o proletariado desejará os bens de consumo como a criança na fase fálica pretende libertar Jocasta de Laio.

Quando se trata de analisar o êxito, a explicação privile­gia um efeito de compensação - Demóstenes transformado em notável orador menos apesar do que graças à gagueira. Nem nesse caso o analista perde sua utilidade; é chamado a erradicar es­sa curiosa mania de encher a boca com pedregulhos antes que as platéias comecem a abandonar o ídolo da tribuna. A trajetória segue um padrão pré-estabelecido: exigên­cia inatendível, frustração, agressão (ansiedade, defesa), reparação, aceitação (superação). O social torna-se o grande palco em que os conflitos íntimos são representados e o público compa­rece para identificar-se e projetar-se nos personagens que fazem a história.

Essa visão implica tornar supérfluas ou secundárias a luta de classes e a economia política. Ambição jamais abertamente proclamada, espreitará em segredo como uma sabedoria que espera o momento exato da revelação - ou prefere modesta­mente a sombra dos bastidores. Enquanto isso, permanecerá confirmada pelos dramas particulares aos quais os militantes e grandes personagens não estão menos sujeitos do que qual­quer espectador anônimo. Enfoque a partir do qual qualquer semelhança entre o sacerdote ministro de Deus e o psicanalista procurador da Verdade dificilmente será mera coincidência.

As principais teses freudianas são assim desafiadas a partir de todas as direções e não menos do interior do próprio movimento psicanalítico. Mesmo os que parecem indiferentes a qualquer contemporização com as expectativas externas acabam por desautorizar o modelo original. Talvez seja ex­cessivo creditar ao kleinismo uma independência significativa face às pressões da conveniência; sob seus auspícios foi celebrada a aliança com a psiquiatria que deu lugar à assim chamada “psicodinâmica”.

Não há qualquer incoerência nessa atitude, visto que o biológico foi readmitido como fundamento dos impul­sos sexuais e agressivos. Resulta daí uma tendência a medicalizar a psicanálise, abrigando-a sob o manto prestigiado da ciência de Esculápio em troca do reconhecimento não só prático mas também epistemológico da psiquiatria.

Alguém poderia objetar que se trata de uma contradição; afinal, o desenvolvimentismo kleiniano reinterpreta as fases da sexuali­dade infantil com os reveladores títulos de posição esquizo-paranóide e depressiva. Se no decorrer da infância costuma ocorrer a superação dessas fases caracterizadas pela significação psicótica, para que recorrer à biologização da loucura? A resposta é que o grau de frustração não depende apenas de um am­biente inadequado (figura materna omissa, ausente, super-protetora ou diretamente agressiva); importância similar será concedida à força dos impulsos inatos, que podem exceder qualquer possibilidade de elaboração, exigindo a intervenção do deus ex machina médico.

A duras penas Freud tinha perseguido o cardume da fan­tasia até o alto-mar das tempestades epistemológicas; a agonia do capitão desencadeia o motim da tripulação dividida quanto aos rumos a seguir, mas certamente compactuante na sequiosa busca de um porto seguro, onde o esforço dispendido poderá ser recompensado. A frota cinde-se e as facções seguem suas próprias direções; os culturalistas ancoram diante das costas ambientalistas, trocando vantajosamente sua pesca com os ví­veres dos fatores sociais julgados imprescindíveis; os revolu­cionários retornam para difundir o evangelho sacrílego da valorização do reprimido, a defesa do desejo, a reabilitação do prazer, a transgressão, o desafio ao poder.

Já o kleinismo es­força-se em amalgamar organismo e ambiente, biologia e educação, corpo e sociedade, numa proporção conveniente à primazia do primeiro elemento da dicotomia. Tanta pondera­ção falha, entretanto, em receber as últimas chaves do misté­rio; não basta acender, com o mesmo fósforo, as velas da divindade e do príncipe das trevas. Pode-se conseguir al­gum conforto - aceitação, reconhecimento, respeito - mas as diminutas chamas antes ofuscam o adorador do que iluminam as sombras do inescrutável.

O retorno a Freud, bandeira lacaniana, implica levantar âncoras para retomar a viagem interrompida. O grande mérito kleiniano consistira em intensificar o estudo das fantasias; seu pecado, o de recusar-lhe as inquietantes conseqüências, en­cerrando o imaginário no confortável aquário das águas orgânico-ambientalistas, onde os peixes engordam mas não se reproduzem.

Não é difícil justificar essa decisão com citações. Sabe-se que Freud, vez por outra, debruçava-se no convés com os olhos voltados nostalgicamente para a longín­qua pátria positivista. Ele permaneceu até o último momento fiel à esperança de que o Messias da bioquímica viria atalhar o árduo caminho nunca suficientemente transitável em


[1]. Daí a diferença entre recalque (Verdrängung) interno, inconsciente, e repressão (Unterdrückung), externa, consciente (qualquer seja seu agente), e portanto associada a contrôle.