Édipo e Teseu
Saturday, September 13th, 2008Édipo e Teseu
(3o. capítulo de A Metáfora Opaca - acesso parcial)
Essa complementaridade entre psiquismo individual e estrutura social funda a fértil colaboração proposta por Mauss, que se realizou entre etnologia e psicologia; mas esta colaboração não permanecerá válida senão à condição de que a primeira disciplina continue a reivindicar, para a descrição e a análise objetiva dos costumes e das instituições, um lugar que o aprofundamento de suas incidências subjetivas possa consolidar sem jamais relegar a segundo plano.[1]
A estrutura metafórica do discurso
Em sua Teoria Geral das Neuroses[2] Freud comenta o comportamento obsessivo-compulsivo de uma jovem mulher que vez por outra derramava tinta vermelha no centro de uma toalha de mesa, chamando em seguida a empregada a pretexto de encarregá-la de alguma tarefa. A própria paciente elucida posteriormente a relação entre esse comportamento bizarro e sua noite de núpcias. O marido, incapaz de ereção após várias tentativas, preocupara-se com a alvura dos lençóis e os manchara de maneira a simular uma defloração. Isso fora feito, porém, de forma inadequada, no canto e não no centro da cama.
Freud observa que a lembrança diz respeito à causa mas não ao sentido do sintoma. Este expressaria simultaneamente a intenção de desculpar o marido (”ele não é impotente, não precisa ter vergonha”) como a identificação com ele. A ação de manchar repetidamente a toalha de mesa metaforiza a própria impotência (a paciente não conseguia divorciar-se nem refazer o casamento) e a vergonha da impotência.
Em sua pioneira mas única experiência psicoterápica (1880-1882), Josef Breuer supôs que eventos traumáticos ocorridos em estados de comprometimento da consciência (”estados hipnóides”), derivados por sua vez de uma situação estressante (doença grave do pai de sua paciente), estariam na origem dos estados histéricos. Freud propôs uma alteração na teoria de Breuer, atribuindo os sintomas neuróticos a traumas sexuais ocorridos durante a infância, cujos efeitos se manifestariam após a puberdade. O prosseguimento da experiência clínica obrigou Freud a modificar essa hipótese e o estudo dos sonhos fez com que o sentido das associações livres fosse priorizado em detrimento dos acontecimentos ou situações supostamente responsáveis pela sintomatologia.
A partir de então a prática clínica tomou outro rumo. O aspecto informativo da fala passou a ser considerado como máscara e indício do sentido. A busca de episódios traumáticos ou dados biográficos foi substituída pela escuta da lógica subjacente ao conjunto de associações livres. O sintoma deixa de ser atribuído à “realidade material” (acontecimento traumático, vivências infantis, circunstâncias de vida passadas ou atuais) e passa à jurisdição da “realidade psíquica” (fantasia). Eventos e circunstâncias são destituídos de função etiológica. A pesquisa da causa supõe relações de antecedência e conseqüência universais enquanto a detecção de sentido evoca a singularidade característica da fantasia. A causa é pensada como evento e reside no ambiente e/ou no organismo; em contraposição, o habitat do sentido é o discurso.
Esse estado de coisas não vigorou muito tempo. Se a teoria do trauma foi substituída pela escuta das associações livres, organizadas pela fantasia, a ótica causalista retornou sob a forma da transferência. A escuta interpretativa foi deixada de lado pela ênfase dada a sentimentos e emoções, referidas às relações primárias do paciente, tidas como causa das dificuldades atuais. As expectativas afetivas em relação ao psicanalista passaram a ser consideradas reveladoras do padrão emocional organizador das relações do paciente, cuja aferição tornou-se o principal objetivo da prática psicanalítica.
Apagou-se então a distinção entre associação livre e acontecimento; a personalidade foi redefinida como internalização do relacionamento real entre pais (ou substitutos) e filhos, bem como do respectivo processo educativo. À terapia caberia retificar os aspectos infantis e inadequados presentes nas expectativas emocionais do paciente e orientá-lo em direção ao comportamento adulto, maduro, equilibrado, tal como definido pelo próprio psicanalista.
Uma atitude clínica bem diferente deriva da ênfase concedida à elucidação do sentido subjacente às associações livres. Nesse caso o objetivo é aceder às crenças inconscientes que regem a realidade pessoal. Detectar de que maneira se dá a própria cumplicidade nos conflitos e dilemas abre a possibilidade de uma transformação cujos parâmetros não obedecem a valores extrínsecos mas dizem respeito ao próprio sujeito. Considera-se que as expectativas emocionais e os padrões de relacionamento estão subordinados ao conjunto de crenças cuja lógica constitui o próprio discurso inconsciente.
Em O sentido dos sintomas o episódio da noite de núpcias é considerado não essencial em relação ao sentido do sintoma, embora eficaz no que concerne à sua forma. Saussure afirma algo semelhante acerca da articulação entre significante e significado. A seqüência fonética m-e-s-a não possui qualquer relação intrínseca com o respectivo objeto; qualquer combinação de fonemas está apta a representá-lo. Similarmente, caso o lençol não houvesse sido manchado com tinta vermelha a identificação da paciente com o marido teria sido expressa de outra forma. Mas na vivência espontânea do falante nativo, imerso em sua língua materna, como para a paciente, imersa em sua história pessoal, a vinculação entre o significante e o significado do signo mesa bem como a ligação entre a mancha do lençol e a mancha da toalha são inquestionáveis.
A lingüística e a psicanálise interrogam respectivamente o funcionamento da língua e do discurso. O testemunho do falante lhes serve de passaporte para chegar às remotas regiões onde o sentido é produzido. A associação livre não seria senão a concretização de um sentido abstrato, cuja lógica governa mais de um aspecto da vida. Em relação à paciente do sintoma da mancha, é possível que impotência e vergonha acompanhassem como uma sombra as manifestações do desejo.
A mesma relação entre manifestação concreta e sentido abstrato ocorre nas metáforas empregadas cotidianamente: a vaca foi pro brejo, cada macaco em seu galho, pimenta nos olhos dos outros não arde, macaco velho não põe a mão em cumbuca, não dar ponto sem nó, virar a mesa, chutar o pau da barraca, rodar a baiana, bode velho gosta de capim novo, a ficha caiu, quem semeia vento colhe tempestade, tirar o cavalinho da chuva, pôr a raposa para tomar conta do galinheiro, amarrar cachorro com lingüiça, alimentar burro a pão de ló, jogar pérolas aos porcos, comer o pão que o diabo amassou, fazer mesura com chapéu alheio, cantar de galo, subir em pau de sebo, suar sangue, tirar leite de pedra, comer sardinha e arrotar camarão, botar as barbas de molho, como cão e gato, como gato e rato, acender uma vela pra Deus e outra pro Diabo, muita água correu embaixo da ponte, estar no mesmo barco, não se troca de canoa no meio do rio, etc.
Qualquer outra expressão metafórica que se queira acrescentar a essa lista portará igualmente o traço da concretude, posta a serviço de um conceito comparativamente abstrato. Em relação às primeiras metáforas relacionadas, teríamos: “o problema tornou-se insolúvel”, “é preciso respeitar o espaço alheio”, “o sofrimento dos outros não dói tanto como o próprio”, “a experiência ensina a não cometer erros”.
Outra característica da metáfora coloquial é a de explicitar o princípio lógico que subjaz a dada situação, obliterando as circunstâncias particulares mediante uma comparação generalizante[3]. A mesma metáfora serve para comentar situações muito diversas. A concretude da metáfora se contrapõe à seu caráter generalizante; em decorrência, prevalece o primeiro termo das dicotomias concreto/abstrato, genérico/singular. Talvez seja essa a razão da surpresa próxima ao humor evocada por uma metáfora recém-criada, já que é muito mais comum a associação do genérico com o abstrato e do singular com o concreto.
Uma das maiores novidades do método interpretativo freudiano elaborado em A Interpretação dos Sonhos reside na constatação de que toda fala (e por conseqüência todo comportamento) constitui uma máscara simultaneamente ocultante e reveladora. Estudando os sonhos Freud descobriu que a diferença entre significado literal e sentido não é exclusiva das expressões metafóricas coloquiais. Também se encontra nas formações discursivas, embora isso seja muito menos evidente. Os proferimentos particulares constituem a manifestação de uma crença abstrata que escapa à consciência do sujeito. As eventuais contradições presentes na fala nunca deixam de apontar para um sentido, da mesma forma que as imagens oníricas, por absurdas que pareçam, obedecem à lógica. Assim como o ato falho constitui menos um erro do que a revelação geralmente enigmática da respectiva intenção inconsciente, a incongruência traduz veladamente um conflito oculto.
O sintoma da mancha concretiza o sentido inconsciente (manchar a toalha como metáfora de impotência e vergonha da impotência). As razões alegadas para não romper definitivamente com o marido, pertencentes a determinada escala de valores (”divórcio = promiscuidade = imoralidade”), parecem conscientes. Trata-se, porém, de uma posição subjetiva, cuja determinação é inconsciente.
O elemento abstrato (”impotência e vergonha da impotência”) não pode ser reconhecido conscientemente, enquanto o genérico (”divórcio = promiscuidade = imoralidade”) é reivindicado. O sintoma da mancha metaforiza tanto a decisão de não casar-se novamente como o mal-estar provocado por essa decisão. Representa o discurso repressor em seu duplo aspecto, proibitivo e auto-crítico: condenação do erotismo e condenação da condenação do erotismo.
Visto que Freud não relatou o conteúdo da respectiva sessão - algo desnecessário para a finalidade de distinguir os procedimentos psicanalítico e psiquiátrico, finalidade do capítulo em questão - o comentário seguinte declina de qualquer pretensão maior.
Não divorciar-se serviria à intenção de evitar a possibilidade de um novo relacionamento, significando assim a recusa da vida sexual. Se mancha significa defloração, então ausência de mancha (alvura, pureza) significa virgindade. Manter o casamento com um marido impotente representaria a formação de compromisso entre a obrigação da vida sexual e o imperativo da castidade. É preciso mostrar que a noite de núpcias ocorreu como esperado. A vitória do recalque permaneceria constantemente ameaçada, já que, depois de banida, a sexualidade torna-se equivalente ao dever. A abstinência sexual, por sua vez, metamorfoseia-se em fuga à responsabilidade e o conflito permanece.
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A associação livre, procedimento central do método psicanalítico, foi proposta inicialmente como instrumento para a interpretação dos sonhos. Aplicar a descrição freudiana das operações oníricas ao discurso propriamente dito é apenas prosseguir na mesma direção.
A condensação descreve como os enunciados parciais representam sinteticamente o âmbito mais vasto das crenças organizadoras. O deslocamento refere a opacidade da operação substitutiva, graças à qual o sentido (inconsciente) se expressa metaforicamente na associação livre. A elaboração secundária constitui a maquiagem racionalizante que outorga coerência ao discurso. Somente a figurabilidade, responsável pela transformação dos pensamentos em imagens, se afigura como procedimento intrínseco ao sonho. No discurso comum a manifestação mais próxima da imagem onírica é o relato concreto de acontecimentos e situações com pouca participação da reflexão (”elaboração secundária”).
Se em relação ao sonho a elaboração secundária mal consegue atenuar a sensação de absurdo, os relatos não oníricos costumam expressar-se mediante raciocínios coerentes, que cooptam facilmente o ouvinte. Essa aparência, todavia, não deveria despistar o psicanalista. O método psicanalítico requer a suspensão de qualquer tipo de juízo, não só moral mas também lingüístico e lógico (valor de existência, correspondência ou adequação). O sentido do discurso sempre difere da significação, por mais plausível ou implausível que esta seja. O sintagma “John Smith, rei dos Estados Unidos” não possui qualquer correspondência em relação aos fatos mas nem por isso é menos compreensível.
Na semântica da língua o referente da palavra é um objeto, ação, qualidade, estado, situação, conceito ou função sintática. Na semântica lógica trata-se da verdade/falsidade de uma proposição (ou seja, a sua adequação aos fatos e a respectiva compatibilidade com as premissas). Diferentemente, o discurso pensado enquanto manifestação de sentido não tem referente externo nem pode ser julgado em função de sua coerência; restringe-se a metaforizar a interpretação singular que determinado sujeito faz do que ele chama realidade. (E não deixa de ser, ressalvando-se que se trata da sua realidade, tal como se expressa em dado momento).
O sonho e o mito representam tipos de discurso onde a função organizadora da metáfora opaca é mais do que evidente. A literalidade é insustentável e nada pode ser compreendido sem fazer intervir o procedimento interpretativo. O mesmo raciocínio, a despeito das aparências, pode ser estendido a qualquer outra modalidade discursiva[4]. Quanto mais intensa a crença, mais pronunciada e visível é a metáfora. No extremo situa-se o sintoma, onde a máscara do real é precária e o sentido reina soberano. A concepção de linguagem subjacente ao ato interpretativo conduz à aposta de que mesmo na ausência de sintomas, sonhos ou atos falhos, o discurso permanece metafórico - isto é, dotado de um sentido que organiza a significação à maneira de uma “eminência parda”. A máquina do sentido se encontra nessa outra cena referida por Freud para designar os bastidores do palco em que os atores representam.
O método psicanalítico não se confunde com o da Análise do Discurso nem o da Pragmática, correntes da lingüística que também se valem da interpretação. A diferença entre os respectivos procedimentos não é atribuível à transferência. A Análise do Discurso e a Pragmática se ocupam em rastrear os pressupostos subjacentes aos proferimentos, aplicando-lhes as circunstâncias da interlocução. Trata-se de uma abordagem comparável à navegação de cabotagem, que não perde de vista a margem da consciência. Já o contrabando metafórico tem fôlego suficiente para percorrer a distância oceânica que separa inconsciente e consciência.
A interpretação do mito de Édipo por Lévi-Strauss
A metáfora transparente, seja coloquial ou pertencente ao léxico (como a catacrese macho-fêmea, que designa certos encaixes mecânicos), decorre quer de uma referência comum a dois signos quer de uma experiência considerada modelar para descrever situações típicas (”fulano e sicrano são como cão e gato”).
As expressões metafóricas sobrevivem ao eventual obsoletismo de seus termos. Na metáfora coloquial a palavra em desuso rejuvenesce sem esforço (não se cutuca onça com vara curta, macaco velho não mete a mão em cumbuca, fazer mesura com chapéu alheio, cão que ladra não morde). A expressão metafórica é entendida, aceita e integrada na língua não obstante a disparidade entre os termos empregados e o sentido visado.
Revela-se assim a existência de um universo simbólico perenemente ativo, graças ao qual a ponte semântica entre dois enunciados desconexos é construída num átimo. Nenhum outro fenômeno lingüístico parece mais propício para comprovar a subordinação do significado (referencial) ao sentido (subjetivo).
Tais considerações podem contribuir para chamar a atenção sobre uma notável peculiaridade do discurso mas não resolvem a questão do método psicanalítico. Se a metáfora transparente é visível a olho nu, como proceder para identificar a metáfora opaca?
Em A Estrutura dos Mitos Lévi-Strauss propõe uma técnica interpretativa cuja demonstração será feita mediante o mito de Édipo. A primeira característica chamativa do procedimento diz respeito à extensão. Os episódios protagonizados pelo herói tebano são relacionados aos eventos anteriores, desde o rapto de Europa por Zeus até a epopéia de Cadmo, fundador da cidade onde quatro gerações mais tarde terá lugar o drama imortalizado por Sófocles. Tudo se passa como se Lévi-Strauss fizesse o mito associar livremente, descentrando-o em relação ao episódio capital. Como na interpretação de sonhos, trata-se de descompactar o discurso, devolvendo-lhe as dimensões necessárias.
A estratégia tem por objetivo aumentar a amostragem para identificar reiterações temáticas e através delas descortinar o sentido. Lévi-Strauss designará tais reiterações por mitemas.
“1º) Como todo ser lingüístico, o mito é formado de unidades constitutivas; 2º) essas unidades constitutivas implicam a presença daquelas que intervêm normalmente na estrutura da língua, ou seja, os fonemas, os morfemas e os semantemas. Mas elas estão para os semantemas assim como os semantemas estão para os morfemas e assim como os morfemas estão para os fonemas. Cada forma difere da que a precede por um mais alto grau de complexidade.
Por esta razão denominaremos os elementos que provêm particularmente do mito (e que são os mais complexos de todos): grandes unidades constitutivas”.[5]
O procedimento apóia-se na suposição de que ao longo do relato certos conjuntos semânticos reaparecerão constantemente, sob manifestações diversas. Tais conjuntos subdividem-se em unidades de valor semântico reciprocamente inverso. Um fenômeno semelhante já havia sido detectado pela fonologia: em toda língua o continuum sonoro é discretizado em pares de fonemas mutuamente opostos, condição necessária para sua diferenciação (p/b, b/v, v/f, t/d, m/n, por exemplo). Similarmente, as unidades básicas de significação - os mitemas - não comparecem isoladamente mas participam de uma relação opositiva, condição para a emergência do sentido.
O procedimento de Lévi-Strauss parece-se sobremaneira ao de Freud, que definiu o sintoma pela maximização do conflito entre as instâncias psíquicas e em seguida estendeu esse postulado ao conjunto das manifestações humanas. Todo comportamento traduziria uma forma de compromisso entre inconsciente e consciência. Como Freud, Lévi-Strauss também formulou sua hipótese tendo em vista um fenômeno particular - o mito - mas a idéia da oposição constitutiva também se aplica aos sistemas de parentesco e às instituições em geral.
Exemplos não faltam, como o sistema constituído pelos casamentos bilateral, matrilateral e patrilateral, que rege os intercâmbios matrimoniais vigentes entre as populações ditas primitivas. No caso da antropologia estrutural há a vantagem de uma auto-reflexão metodológica de que A Estrutura dos Mitos talvez constitua o melhor exemplo. A psicanálise parece ter-se contentado com a afirmação de um pressuposto - o determinismo psíquico - que garantiria a eficácia da associação livre. A importante discussão em torno dos conceitos causa e sentido, empreendida incipientemente em O sentido dos sintomas, não foi desenvolvida posteriormente.
A relativa similaridade entre as perspectivas metodológicas entre Freud e Lévi-Strauss não deixa de ser um convite à comparação entre a hipótese que define a interpretação como leitura de metáforas e o procedimento preconizado pelo etnólogo. É preciso descrever preliminarmente a abordagem lévi-straussiana do mito de Édipo. Os mitemas obtidos a partir do escrutínio inicial são organizados em quatro colunas, divididas em dois pares de oposições:
(Coluna 1):
Cadmo procura sua irmã Europa, raptada por Zeus.
Édipo esposa Jocasta, sua mãe.
Antígona enterra seu irmão, Polínice, violando a proibição.
(Coluna 2):
Os Spartói se exterminam mutuamente.
Édipo mata seu pai, Laio.
Eteócles mata seu irmão, Polínices.
(Coluna 3):
Cadmo mata o dragão.
Édipo imola a esfinge.
(Coluna 4):
Lábdaco, pai de Laio (= coxo?).
Laio, pai de Édipo (= torto?).
Édipo (= pés inchados?) [6]
Lévi-Strauss atribui às duas primeiras colunas as significações opostas “relações de parentesco superestimadas” e “relações de parentesco subestimadas”, ou seja, aproximação e hostilidade excessivas entre consangüíneos.
As duas colunas seguintes são objeto das seguintes considerações: visto que os monstros (dragão e esfinge) têm em comum a identidade ctônica, sua derrota simbolizaria a “negação da autoctonia humana” (negação de que os seres humanos tenham emergido da terra). Inversamente, o defeito ambulatório comum aos três personagens da dinastia labdácida representaria a “persistência da autoctonia humana”.
A partir da dupla oposição, é proposta a seguinte interpretação:
“O que significaria, pois, o mito de Édipo assim interpretado “à americana”? Ele exprimiria a impossibilidade em que se encontra uma sociedade que professa a crença na autoctonia do homem (assim Pausânias viii, xxix, 4: o vegetal é o modelo do homem) de passar, desta teoria, ao reconhecimento do fato de que cada um de nós nasceu realmente da união de um homem e de uma mulher”.[7]
E se perguntarmos a Lévi-Strauss como essa conclusão se relaciona com os mitemas descritos, ele nos responderá:
“…o mito de Édipo oferece uma espécie de instrumento lógico que permite lançar uma ponte entre o problema inicial - nascemos de um único ou de dois?- e o problema derivado, que se pode formular, aproximadamente: o mesmo nasce do mesmo ou de outro? Por este meio, uma correlação se evidencia: a superestima do parentesco consangüíneo está para a subestima deste como o esforço para escapar à autoctonia está para a impossibilidade de conseguí-lo”[8].
A interpretação em questão levanta mais de uma dúvida. A claudicação estaria na mesma categoria que a aproximação amorosa excessiva entre parentes, metaforizando a dificuldade da separação? A vitória sobre monstros se articularia com a hostilidade entre consangüíneos, representando a idéia de que o preço da separação é outra transgressão, desta vez agressiva?
Seja como for, a interpretação de Lévi-Strauss evoca as fantasias originárias e as teorias sexuais infantis, mediante as quais a criança se empenharia em negar a participação do pai em seu nascimento para manter a relação dual. A dificuldade de reconhecer “…que cada um de nós nasceu realmente de um homem e de uma mulher” se manifesta agora no social e o conflito é situado no campo intelectual e não afetivo. Não deixa de ser irônico que embora o etnólogo elabore sua interpretação do mito de Édipo no âmbito de uma crítica à psicanálise, o resultado evoque alguns conceitos centrais dessa teoria.
Ainda que em termos metodológicos o mitema se avizinhe da metáfora, o procedimento do etnólogo é diferente de uma leitura decididamente desmetaforizante, que conduziria a outra região semântica.
O mito tebano confere às figuras femininas associadas ao poder (a princesa Europa, Harmonia - esposa semidivina de Cadmo -, a rainha Jocasta, e sua filha Antígona), o papel de incitar a rivalidade entre os homens. O conflito resultante se expressa quer pela luta fratricida quer pela contenda entre pai e filho. Exemplos da primeira alternativa são a busca de Europa, que dispersa seus irmãos, a rivalidade entre os Spartói, filhos da serpente da Tessália, e o duelo mortal entre Eteócles e Polínices, este preferido por Antígona, que enterra seu cadáver, violando a interdição. A outra vertente é representada pela filicídio fracassado perpetrado por Laio e o posterior assassinato do velho rei pelo príncipe desterrado.
O mito parece ainda diferenciar os conflitos segundo sua gravidade. A aproximação entre irmão e irmã e a rivalidade entre irmãos de sexo masculino têm conseqüências menos drásticas (dispersão, invasões, guerras) que o filicídio, o parricídio e o incesto, associados a grandes desgraças (sacrifício dos jovens à Esfinge, peste, suicídio da rainha, exílio do rei).
A leitura desmetaforizante do mito tebano extrairia dos respectivos episódios as seguintes significações:
1) A tentativa de filicídio e o extermínio dos jovens tebanos pela esfinge metaforizam a impossibilidade da transformação política, representando a permanência do passado a expensas do futuro.
2) Em oposição à metáfora anterior, a vitória do príncipe sobre a Esfinge e o rei traduzem a mudança de poder (supremacia do futuro sobre o passado).
3) Esse estado de coisas, porém, é seguido de acontecimentos nefastos: incesto, peste, suicídio de Jocasta, cegueira auto-infligida e exílio de Édipo. Tais episódios podem ser interpretados como metáforas de um dilema em que o passado (=manutenção da ordem vigente, representada por Laio) e o futuro (= transformação, representada por Édipo) se confrontam de maneira trágica. Nem transformação nem manutenção do status quo são possíveis.
4) O enigma proposto pela Esfinge metaforiza o caráter inevitável da transformação, inerente à própria passagem do tempo: o que é novo se torna velho e perece. A decifração do enigma por Édipo metaforiza a compreensão dessa idéia, da qual o príncipe se torna o agente. A peste metaforiza a concepção oposta: a transformação viola as leis mais sagradas e deve ser castigada. O resultado é a perenização do conflito, situação metaforizada pelo duelo em que os gêmeos Etéocles e Polínices se matam.
A metáfora opaca poderia então ser enunciada nos seguintes termos: “tanto a manutenção da ordem vigente como sua transformação são igualmente inviáveis “. Se o sonho é revelador em relação ao sujeito, o mito tampouco deixa de retratar a sociedade pela qual é inconscientemente elaborado. Que o sentido seja produzido por mecanismos metafóricos tanto no mito como no sonho, independentemente da diferença entre os respectivos sujeitos (coletivo e individual), deve-se a que o discurso opera segundo as mesmas leis.
Haveria como estabelecer algum critério para comparar o valor heurístico das duas interpretações? Provavelmente não. A avaliação da interpretação é sempre problemática. Mesmo na prática psicanalítica, em que o paciente poderia em princípio parecer apto para avaliar a pertinência da interpretação, as dificuldades permanecem. O juízo pode ser influenciado não só porque quem julga é parte interessada mas também em virtude da transferência, incluindo-se aí a resistência. Quanto aos efeitos inconscientes da interpretação, que são decisivos, é difícil aferi-los e mais ainda estabelecer uma relação direta entre determinada(s) interpretação(ões) e suas (supostas) conseqüências. Com referência à interpretação de mitos sequer há como imaginar um árbitro.
Resta a análise crítica em relação à pertinência dos resultados alcançados. A interpretação final proposta por Lévi-Strauss (”nascemos de um único ou de dois? (…) o mesmo nasce do mesmo ou de outro? “) torna patente que o momento mais arriscado do gesto interpretativo reside na identificação da crença organizadora. De acordo com a terminologia proposta neste livro, é quando se atravessa o Rubicon que separa as metáforas transparentes da metáfora opaca.
O próprio Lévi-Strauss parece pouco satisfeito com sua primeira abordagem do mito de Édipo. Trinta anos depois, em A Oleira ciumenta (1985), evoca a possibilidade de que o tema subjacente à saga tebana seja uma crise institucional: “Que se releia o Édipo Rei: tendo por enredo um ponto de direito constitucional -quem pode pretender ao poder legítimo, o irmão ou o marido da rainha?- trata-se de um enigma policial (”todo o drama é de uma certa forma um enigma policial que Édipo deve elucidar”, escreve J. P. Vernant)…“[9]
Aqui Lévi-Strauss parece ter abandonado a perspectiva interpretativa, capitulando perante o conteúdo manifesto do mito. Ao contrário do procedimento abrangente preconizado em A Estrutura dos Mitos, A Oleira Ciumenta restringe-se a um episódio bem restrito, a sucessão de Laio. Tudo se passa como se a inquirição de sentido se degradasse na constatação de um significado parcial.
A hipótese da desmetaforização aplicada à mitologia grega
A observação precedente não pretende minimizar a importância das vicissitudes relativas à transmissão do poder, mas mesmo nesse terreno a interpretação de Lévi-Strauss parece demasiadamente tímida. O que está em jogo, muito mais do que a ordem dinástica, é o que os personagens de Édipo e Creonte metaforizam.
O tema da luta pelo trono é tão freqüente na mitologia grega que suas sagas familiares lembram menos uma crônica de façanhas sobrenaturais do que o registro de peripécias quase históricas, das quais os moradores do Olimpo participam de acordo com
[1] (Introdução à obra de M. Mauss, p. XXIII, C. Lévi-Strauss, in Sociologie et Anthropologie, Marcel Mauss. Tradução pessoal).
[2] O sentido dos sintomas, in Conferências introdutórias à Psicanálise (1916/17).
[3] O emprego da metáfora costuma usar o “subentendido”, uma espécie de comentário prévio que não precisa ser proferido. O metaforizador dirá: “Pois é, as uvas estão verdes…” de preferência a “essa situação lembra a fábula da raposa e das uvas…”.
[4] A exceção do discurso científico, ou seja, metodológico, categoria à qual pertencem tanto a atenção flutuante como a interpretação. Por que o discurso científico teria o privilégio de fugir à estruturação metafórica, ou seja, ao imaginário? Trata-se de uma questão epistemológica, espinhosa como poucas. Apenas como introdução a uma longa e árdua argumentação pode-se dizer que se todo discurso fosse regido pelo imaginário não haveria possibilidade de conhecimento. A existência do discurso científico tem por implicação que a crença fálica não constitui a única posição discursiva possível.
[5] [Antropologia Estrutural I, pg. 230].
[6] [Antropologia Estrutural I, pg. 234].
[7] [Idem, pg. 237].
[8] [idem, ibidem].
[9] [La Potière Jalouse, pg. 262.]
