Saturday, September 13th, 2008
O oráculo e a esfinge
(Primeiro capítulo de A Metáfora Opaca - acesso parcial)
Assim, o analista que evocasse a situação analítica como algo de real e falasse do amor de sua paciente como alguma coisa ilusória não teria muita autoridade, justamente no momento em que acreditava exercê-la (…)
(…) o amor de transferência é, além do mais, um sintoma como qualquer outro, e será preciso admitir, então, que os sintomas são mais ou menos ‘normais’ .[1]
Mais do que as divergências teóricas, o principal indício da diversidade de abordagens psicanalíticas é a ausência de consenso metodológico. Apesar disso, os autores que se dedicam ao tema, não importa sua filiação (kleiniana, lacaniana, “ortodoxa”), jamais deixam de apontar a transferência como o principal diferencial da intervenção psicanalítica em relação às outras modalidades psicoterápicas.
Em compensação, o próprio conceito de transferência varia conforme o enfoque teórico. A ótica lacaniana apresenta o analisando como um pirata intelectual cuja intenção, mais do que a transformação pessoal, é apropriar-se do saber que atribui ao psicanalista. Os kleinianos exumam as emoções arcaicas de que acreditam ser alvo enquanto os freudianos, por sua vez, procuram enquadrar as manifestações afetivas do paciente nos vértices do triângulo edipiano.
Tais diferenças, porém, não alteram o fato de que todas as correntes compartilham do mesmo pressuposto. Os sentimentos dirigidos ao analista prevalecem sobre qualquer outro tema na abordagem padrão da psicanálise contemporânea. A descoberta do fenômeno transferencial, feita por Freud a partir de uma reflexão retrospectiva sobre o caso Dora[2], integrou ao âmbito da intervenção clínica falas até então tidas como extrínsecas ao tratamento, porque diziam respeito a questões factuais, contratuais e… a um inesperado interesse do divã pela poltrona.
É comum que o paciente inicie sua incursão “extra-muros” fazendo perguntas teóricas ou metodológicas. Não raro pretende discutir, durante a própria sessão, mudanças de horário e preço, bem como reposições e arranjos de férias. A tentativa de mesclar o processo analítico com o que poderia parecer uma temática extrínseca costumeiramente precede a intensificação de expectativas referentes a um contato mais pessoal.
Até perceber que essas atitudes inocentes transportavam mercadoria contrabandeada, digna da maior atenção, Freud considerava como material legítimo da alfândega psicanalítica apenas as queixas, relatos sobre a vida afetiva, descrições de sintomas e conflitos, fantasias sexuais, recordações de infância, sonhos e atos falhos. A extensão da escuta rigorosa a todo e qualquer conteúdo representa uma aplicação coerente dos conceitos associação livre e atenção flutuante, pilares do método psicanalítico.
Como se sabe, a regra fundamental existe para ser transgredida. Em relação aos pacientes, os silêncios, atrasos, faltas, atuações e falas truncadas são perfeitamente compreensíveis - a resistência foi uma das primeiras evidências com que Freud se deparou. Quanto aos psicanalistas, a tendência a hierarquizar e priorizar determinados temas, em obediência a esta ou aquela concepção teórica, carece de qualquer justificativa. Se no momento de sua descoberta a transferência representou um avanço metodológico considerável na medida em que resultou na inclusão de todo e qualquer conteúdo no âmbito da associação livre, sua hipertrofia levou à situação exatamente oposta. Hoje, o interesse quase exclusivo pelas expectativas afetivas do paciente detém a principal quota de responsabilidade pela transformação do divã no proverbial leito de Procusto.
Em seus primórdios, a psicanálise seguia o modelo médico tradicional, que distinguia ciosamente o joio (contato pessoal) do trigo (dados clínicos). (A posterior valorização do rapport relativiza mas não elimina essa distinção, que permanece vigente em medicina). Quanto à psicanálise, na medida em que a fantasia, em sua concepção inicial, era concebida como deformação das recordações infantis, os relatos de eventos transcorridos no presente eram considerados de menor interesse, porque “lógicos” e “objetivos”. Graças à escuta da transferência é que puderam ser incorporados à jurisdição da clínica. Daí em diante o interesse deslocou-se não só do passado para o presente mas também, algo menos notado, do discurso para a afetividade. Essa dupla perspectiva passou a guiar a compreensão do material associativo. Em acréscimo, quando o enfrentamento da resistência tornou-se prioridade máxima, a transferência adquiriu importância ainda maior visto que Freud não tardou em reconhecê-la como a mais significativa das defesas.
Quando o passado era o objeto por excelência da escuta psicanalítica, as manifestações transferenciais, contemporâneas do tratamento, portanto “reais“ e atuais, se afiguraram como obstáculo aparentemente intransponível. Pareciam inviabilizar o processo psicanalítico da mesma forma que o grito de incêndio esvazia os teatros, segundo uma comparação sugestiva feita pelo próprio Freud.
Uma vez entendida como radiografia do padrão emocional, a transferência começa sua ascensão irresistível ao zênite do firmamento metodológico, na qualidade de objeto principal (e na perspectiva kleiniana talvez único) da intervenção clínica. A confiabilidade dos relatos acerca da infância havia sido abalada pela descoberta das distorções da memória, a que se deu o nome de fantasia.[3] Considerou-se então que seria possível deduzir as vivências infantis das modalidades de vínculo estabelecidas entre os ocupantes do divã e da poltrona. Os psicanalistas kleinianos promoveram a transferência ao duplo estatuto de objeto e instrumento da prática clínica. Desenvolveu-se uma nova atitude metodológica, a de identificar os próprios sentimentos, entendidos como reativos, para melhor auscultar os do paciente.
Assim descrita, a transferência parece permitir acesso ao que há de mais concreto na situação clínica e de mais recôndito na afetividade do paciente - a matriz da afetividade, construída na primeira infância. Com efeito, se a descoberta da fantasia aproximou acontecimento e ficção a ponto de torná-los indiscerníveis, os sentimentos aferíveis no hic et nunc da sessão devolvem ao psicanalista a segurança de estar diante da realidade, com a vantagem suplementar de permitir-lhe sondar diretamente, em carne e osso, o padrão de relacionamento afetivo governado pelas vivências primárias.
Entretanto, se a indagação acerca das emoções transferenciais amplia a jurisdição da associação livre, por outro lado resulta numa escuta seletiva que colide com a atenção flutuante.
O modelo clínico fundado na análise da transferência consubstanciou-se numa prática freqüentemente padronizada, visto que guiada por conceitos teóricos. O psicanalista equipado com o contador Geiger transferencial tende a desconsiderar o sentido subjacente às associações livres e se concentra no objetivo de conhecer as causas do conflito, supostamente situadas na infância. Acredita que o mapeamento dos sentimentos transferenciais permitirá compreender as relações objetais do paciente mediante a identificação de suas origens.
O questionamento dessa atitude soará como uma heresia para aqueles que se mantêm fiéis ao modelo médico. Todavia, não é difícil perceber que a preocupação com a etiologia e o diagnóstico insufla nova vida ao conceito de realidade material, incompatível com a interpretação, cujo objeto é o discurso, ou seja, a realidade psíquica. Possivelmente esse estado de coisas resulta de que a interrogação sobre o sentido, proposta metodológica de A Interpretação dos Sonhos, não foi estendida a conteúdos não oníricos. Se, como observa Octave Mannoni, a interpretação é o ato pelo qual se reconhece o psicanalista, a psicanálise pós-freudiana (quer kleiniana, lacaniana ou de qualquer outra extração), parece convencida de que se deve “ir além” da associação livre e empenha seus esforços em descobrir esse “plus“. A psicanálise pós-interpretativa se transforma numa “pós-psicanálise”.
Cabe suspeitar, porém, que a renúncia à interpretação deve-se sobretudo à falta de compreensão e conhecimento, que por sua vez decorre da inexistência de uma teoria do método.
Interpretação e transferência no caso Dora
O caso Dora inspirou numerosas reflexões, tanto teóricas como metodológicas. Deste último ponto de vista, parece ter tido a função de demonstrar que o psicanalista não pode restringir-se a interpretar as associações mas precisa manter-se atento sobretudo àqueles aspectos da fala do paciente que tem por referência a própria situação terapêutica. Foi à desatenção com os sentimentos da jovem em relação a ele - bem como a um possível erro de interpretação[4] - que Freud atribuiu a interrupção do tratamento.
Temos assim duas explicações para o fim precoce da análise de Dora. Em vias de enamorar-se pelo analista, na esteira de sua relação com o sr. K., Dora deixou o divã no intuito de preservar a paixão infantil pelo pai ou, bem diferentemente, para evitar saber a respeito de seus sentimentos pela senhora K. (A última hipótese postula a identificação de Dora com o pai, amante da Sra. K.).[5]
Os dois sonhos de Dora manifestam sua recusa em deixar a redoma familiar. No primeiro, o perigo representado pela relação com o casal K. é metaforizado pelo incêndio do chalé e no segundo o interesse pelo casamento (a cidade desconhecida onde ela vagueia) é interrompido pela urgência de retornar a Viena (à relação com o pai).
Freud parece ter extraído da análise de Dora a lição de que interpretar é insuficiente para vencer a resistência. O surpreendente é que, apesar disso, a redação do caso foi empreendida com a finalidade explícita de exemplificar o papel da interpretação de sonhos no procedimento clínico, a ponto de poder ser considerado um apêndice ao famoso livro de 1900. A hesitação entre interpretar ou ficar à espreita da transferência, questão que nasce com Dora, retrata não apenas a dificuldade específica desse caso mas um impasse não solucionado que perdura na psicanálise contemporânea.
Lacan observou que a resistência ao tratamento é sempre a resistência do psicanalista. Que o paciente freqüentemente “nada queira saber” é bastante compreensível (a resistência é legítima e faz parte da situação). A contra-transferência do analista costuma manifestar-se simultaneamente pelo “querer saber” e pelo “querer curar”.
A “recusa em expor-se” pode ser descrita, em termos genéricos, como um pedido de amor (daí a postura do psicanalista ser julgada fria e distante), que ao não ser atendido pode transformar-se em hostilidade. O apelo afetivo tem várias acepções: proteção, amizade, preferência, cooperação, aconselhamento, orientação, ajuda, cumplicidade e inclusive amor no sentido comum da palavra. Em última instância significa: “Aceite-me como sou, não exija que eu me transforme”.
A contra-transferência como resistência do analista está presente no caso Dora. A herança médica de Freud não poderia deixar de manifestar-se dessa forma. O desejo de curar e a preocupação em demonstrar a cientificidade da psicanálise o impeliam nessa direção. O querer-saber refere-se à causalidade imediata (quem é o verdadeiro objeto da paixão reprimida?) e o querer-curar tem por matriz a suposição etiológica de que Dora sofria de uma ligação excessiva ao pai. Esta, portanto, deveria ser combatida. Freud, em conseqüência, exibe uma empenhada militância anti-edipiana e procura convencer a moça de que ela está enamorada do marido da amante do pai, sentimento que em parte colide e em parte deriva de sua paixão infantil - mas que, em todo caso, parece-lhe menos “grave”.
Quando Dora deixa a análise, Freud faz a pergunta que desde então será repetida muitas vezes pelos psicanalistas: “Onde foi que eu errei”?[6] Conjectura então que o objeto do amor secreto, causa do conflito, não era o senhor K. mas sua esposa. A metodologia não é questionada; Freud acredita ter cometido apenas um erro de atribuição. Lacan, ao debruçar-se sobre a questão, concorda com a auto-crítica freudiana. Para ele, Dora, como boa histérica, ama a Sra. K. Essas suposições mostram a adesão de ambos, Freud e Lacan, a uma concepção clínica diagnosticante. O conflito de Dora resultaria quer da ligação ao pai quer da identificação com ele, e se expressaria pelo desejo e pela recusa simultâneos de um(a) substituto(a) da figura paterna.
A hipótese não deixa de ser plausível em termos de atribuição causal tendo em vista a “realidade” dos sentimentos de Dora. O problema é que se trata de algo irrelevante. Pois cabe perguntar se pertence ao escopo de uma análise estabelecer a quem se dirige tal ou qual sentimento recalcado. Se a resposta for afirmativa, ela inclui a suposição que as associações livres serviriam como pistas para identificar o “verdadeiro” padrão afetivo.
Algo bem diferente resulta da concepção de que as associações livres constituem o conteúdo manifesto de um sentido específico a ser desvendado em cada ocasião. Nessa perspectiva não se trataria de saber quais são os “verdadeiros sentimentos”[7] de quem se analisa mas, bem diferentemente, que sentido subjaz ao que se manifestou na “sessão” em questão.
“Recomendações aos médicos que praticam a psicanálise“[8], um dos artigos sobre técnica, publicado sete anos depois, preconiza uma postura clínica que a psicanálise contemporânea parece ter abandonado. Enquanto o trabalho está em andamento, escreve Freud, o psicanalista deve abster-se de construir hipóteses abrangentes, evitando avaliações e prognósticos.[9] Em Dora, Freud ainda aderia à atitude médica por excelência; a insistência em fazer com que a paciente admita seu amor pelo Sr. K. lembra um xarope empurrado goela abaixo. O procedimento não parece muito adequado, principalmente quando a própria transcrição das sessões revela um material (o segundo sonho, por exemplo) bem mais rico.
Pode-se dizer que Freud, acreditando ter chegado ao âmago do conflito, impõe o seu saber como uma espécie de remédio que a paciente deve aceitar para curar-se. Priva-se assim de entrar em contato com a especificidade de cada sessão, concedendo mão preferencial à hipótese genérica. Supor que houve um erro (a Sra. K. é que seria o verdadeiro alvo da paixão proibida) apenas altera o diagnóstico e deixa intacta a atitude.
A plausibilidade da hipótese genérica não esgota a compreensão do conflito. Duas observações podem ser feitas a esse respeito: primeiramente, a ligação ao pai talvez seja uma metáfora representando a identidade de filha, que Dora tem dificuldade em abandonar; por outro lado , os sentimentos dirigidos ao Sr. K. (e/ou à Sra. K.) servem de metáfora à identidade feminina. Em pleno conflito, Dora não adere nem renuncia plenamente a qualquer dessas posições.
Tais raciocínios não pretendem ampliar ou substituir os diagnósticos de Freud e Lacan. Visam assinalar que a causa, em psicanálise, somente pode ser concebida genericamente - e conseqüentemente seu valor clínico é nulo. O conflito entre infantilidade e condição adulta constitui o conflito por excelência[10].
Trata-se de uma afirmação aplicável, na perspectiva psicanalítica, ao conjunto dos seres humanos. Mas, por outro lado, suas manifestações se revestem de características absolutamente singulares, que é o que interessa ao trabalho clínico. Em decorrência, cabe reconhecer que o material de cada sessão é único.
A noção de repetição, muito difundida em psicanálise, refere-se sempre ao conteúdo manifesto e reflete muito mais o desejo de saber do analista bem como a correspondente dificuldade de ouvir sem preconceitos. O método psicanalítico se destina a captar a especificidade de cada conjunto de associações livres, para o que faz-se preciso renunciar à pretensão de qualquer expectativa prévia, tanto por motivos práticos como éticos.[11]
Cabe perguntar a que descoberta se consagra o método. Os adeptos da análise de transferência apontariam os sentimentos e emoções arcaicos como alvo privilegiado da escuta, que se assemelharia assim a uma prática pedagógica dedicada à superação dos resíduos infantis.[12] Para tanto seria necessário enfrentar as defesas que, a pretexto de preservar uma auto-imagem favorável, protegem a autonomia dos feudos edipianos ou pré-edipianos face aos decretos do eu adulto. Uma a uma as máscaras de uma maturidade falsa ou incompleta deveriam ser retiradas para aceder a essas regiões onde predomina a afetividade primária caracterizada pelo maniqueísmo, a expectativa de amor incondicional, o narcisismo, a onipotência, a desconsideração pelo desejo do outro, o temor à rejeição, a angústia da separação, a ambivalência, a clivagem, etc.
A referida enumeração e sua terminologia indicam por si sós o teor moralizante dessa concepção, bem como a escala de valores subjacente. Trata-se de uma perspectiva que apenas substitui a postura religiosa (condenação do prazer pecaminoso e preconização da virtude) pela psiquiátrica (condenação da “infantilidade” e preconização da “maturidade”). Como acontece com qualquer noção valorativa, não existe definição consensual de ‘prazer’, ‘maturidade’, ‘recalque, ‘infantilidade’ ou ‘perversão’. O psicanalista que adota esse enfoque acabará por operacionalizá-lo mediante critérios pessoais.
O diagnóstico de sentimentos e atitudes se apóia numa perspectiva teórica inspirada na medicina, pautada pelas noções de saúde (ou “equilíbrio”) e doença (ou “comprometimento”). Correspondentemente, também visa a “cura” (por transformação da infantilidade em maturidade). Como não ver nesses critérios a presença de uma contra-transferência que, como se diz habitualmente da transferência, já está presente antes do começo da análise? Não é de surpreender que, tratado como uma criança, o ocupante do divã seja compelido à rebeldia e à submissão, ao amor e ao ódio, à idealização e à projeção, à admiração e à decepção, à proteção e ao abandono… Suplementarmente, o paciente é cientificado que deixar de manifestar tais “emoções primárias” equivale a não se envolver com o tratamento, resistir-lhe, sabotá-lo.
O fundamentalismo lacaniano
Foi reagindo a esse estado de coisas que Lacan redigiu sua catalinária “A situação da psicanálise e a formação do psicanalista em 1956“. O texto é cáustico em relação às diretrizes dos institutos de psicanálise, responsáveis por práticas adaptacionistas e a conseqüente capitulação perante preconceitos e valores morais extrínsecos às questões do analisando. A essa denúncia da traição do pacto psicanalítico seguem-se outras críticas, não menos veementes, de teor metodológico. Não é claro se os exemplos mencionados por Lacan traduzem idiossincrasias deste ou daquele clínico ou se a invasão da prática por “técnicas” de intuição, adivinhação, escuta literal e escuta com o ‘terceiro ouvido’[13] refletem os desvios da própria formação. Em todo caso atestam suficientemente as falhas na transmissão da metodologia bem como uma política de laissez faire. Para Lacan, quase duas décadas após a morte de Freud, a psicanálise ingressara num processo de deterioração ética, teórica, metodológica e epistemológica.
A argumentação é extremamente convincente. Falta-lhe apenas a pá de cal, ou seja, a comparação com uma atitude metodológica coerente, para estabelecer o contraste da maneira devida. Como Freud havia legado exemplos práticos de interpretação mas não uma teoria do método psicanalítico (apesar de ter formulado dois conceitos básicos, associação livre e atenção flutuante), seria de se esperar que Lacan, sob o lema do retorno a Freud, inaugurasse um trabalho de reflexão acerca da prática freudiana. Não é o que acontece. Quando Lacan se refere às intervenções de Freud, reconhece a sagacidade, a sensibilidade e sobretudo a ética do criador da psicanálise, mas diferentemente do que aconteceu em relação à teoria, cuja inspiração se empenhou em recuperar, ele não inquire a metodologia freudiana. Em decorrência, não se encontra nos Escritos nem nos Seminários sequer o esboço de uma teoria da interpretação. Tal omissão parece mostrar mais uma vez que Lacan se sente muito mais à vontade no terreno da crítica, da denúncia, da desconstrução e do sarcasmo, onde seu talento é inegável.
Um especialista em demolições. Talvez a bandeira do retorno a Freud tenha inibido a discussão de uma prática com a qual Lacan não concordava - ou não concordava plenamente. Constrangimento? Seja qual for o motivo, constata-se que, ao contrário do que aconteceu com os conceitos teóricos, examinados minuciosamente, é inútil vasculhar os textos lacanianos em busca de uma reflexão sistemática acerca da ‘Deutung’.
A alternativa de percorrer vias indiretas tampouco remedia a situação. Nesse caso, o mais aconselhável seria consultar os numerosos comentários lacanianos sobre A Interpretação dos Sonhos, principal texto metodológico de Freud[14]. Decerto Lacan se debruça sobre os sonhos da injeção de Irma, da bela açougueira e do filho que está sendo velado, mas o que está em pauta pouco tem a ver com a discussão metodológica. É principalmente à tradução dos mecanismos de condensação e deslocamento pelos conceitos metáfora e metonímia, inerente à preocupação de levar água ao moinho da definição lingüística de inconsciente, que suas incursões são consagradas. O prosseguimento lógico desse esforço, ou seja, a definição da interpretação como processo intrinsecamente discursivo, não é empreendido.
Correspondentemente, na mesma época (final da década de 50), os seminários e escritos passam a veicular cada vez mais freqüentemente o termo significante, primeiramente como contrapartida lingüística e depois substituto daquilo que os psicanalistas designam habitualmente por “inconsciente”. É difícil precisar quando a prática clínica lacaniana promove o significante a objeto de intervenção, mas não deve estar muito longe desse momento teórico. Tem-se a impressão que se na abordagem kleiniana o crescente privilégio concedido à transferência acabou por promover a contra-transferência à função de instrumento, ubiqüidade que privilegia a afetividade em ambos os pólos da situação clínica, algo semelhante ocorre com a noção de significante no campo lacaniano. O discurso do analisando é decomposto em seus elementos mínimos, sobretudo fonológicos, operação que exige do analista uma intervenção igualmente oracular, ou seja, esquiva à compreensão. Esta última é desautorizada enquanto atitude pedagógica subserviente à consciência.
A celebração do significante, inconsciente feito verbo, e sua coroação como conceito chave, se inscreve na adesão lacaniana ao estruturalismo, seguindo a via traçada por Roman Jakobson e Claude Lévi-Strauss. À subversão da lingüistica por Saussure segue-se, meio século depois, a leitura subversiva do genebrino por Lacan. O signo saussureano é focalizado com a lente da primeira tópica, de maneira a fazer prevalecer o significante (inconsciente) sobre o significado (consciente), em seguida redefinidos como simbólico e imaginário. Nesse momento a argumentação corre paralela à fórmula epistemológica “o inconsciente está estruturado como uma linguagem“. Como matriz da linguagem, o significante, emancipado das armadilhas do significado, torna-se o núcleo do inconsciente.
Na esteira dessas reformulações Lacan enrigece a relação inconsciente/consciência, subordinando ferreamente o imaginário ao simbólico. As conseqüências na prática clínica serão consideráveis; tudo o que portar a presença do significado será considerado espúrio. O significante, por seu turno, concebido segundo o modelo do fonema, é designado pelo termo letra, o que lhe assegura proteção face a toda e qualquer questionamento proveniente da lingüística. O discurso, em vez de ser entendido como efeito da articulação entre os níveis fonológico, morfológico, sintático e semântico, é definido como enunciado e nessa medida associado ao significado. O pecado capital do discurso é o de situar-se na jurisdição da consciência. A partir daí o destino da interpretação já está traçado.[15]
A retomada da linguagem como objeto e instrumento da prática clínica, longe de constituir um retorno ao Freud da associação livre e da atenção flutuante, privilegia o fonema, átomo da linguagem e modelo da letra lacaniana, encarnação viva do significante , logo do inconsciente[16]. Parece datar desse momento o descarte do discurso como objeto da intervenção clínica. O lacanismo participa à sua maneira de um movimento mais amplo que atravessa a psicanálise, cujo denominador comum é o abandono do procedimento interpretativo formulado com base no modelo metodológico da interpretação de sonhos. No caso lacaniano, um dos indícios mais claros dessa escolha é a oposição conceitual “palavra plena” / “palavra vazia”, que do ponto de vista da regra fundamental constitui um verdadeiro absurdo.
A interpretação cai em desgraça
Nem kleinianos nem lacanianos explicitam os motivos pelos quais o discurso deva ser eclipsado pela transferência e pelo significante, mas não é improvável que isso decorra da ausência de uma teoria dedicada à compreensão da articulação entre manifestação e latência. A afirmação pode surpreender, mas se A Interpretação dos Sonhos consta de numerosos exemplos ilustrativos do método formado pelo par associação livre/atenção flutuante, é preciso reconhecer, por outro lado, que nem nesse nem em qualquer outro texto de Freud se encontra o equivalente a uma reflexão sistemática sobre o método interpretativo e suas condições de possibilidade. Além disso, e apesar de algumas passagens em que Freud afirma que a interpretação de sonhos constitui o modelo do próprio método psicanalítico, a utilização do procedimento interpretativo em relação a conteúdos não oníricos, mesmo se eventualmente praticada, jamais foi teorizada e sequer tematizada.
Outra possível razão do abandono do método interpretativo já foi mencionada. Trata-se da “lição” extraída do caso Dora: interpretar é perigoso para a continuidade da análise.
Cabe acrescentar que O manejo da interpretação de sonhos em psicanálise[17], graças a um possível mal-entendido, pode ter jogado a pá de cal no túmulo da interpretação. Nesse artigo de 1911 Freud recomenda não prosseguir em sessões posteriores a interpretação incompleta de um sonho, dando mão preferencial à associação livre. Em seu arrazoado ele adverte o psicanalista a não manifestar interesse especial por sonhos, atitude que intensificaria a resistência, tornando as charadas oníricas mais difíceis de lembrar e mais indecifráveis.
A argumentação em si é inquestionável. Contudo, na medida em que Freud não preveniu contra possíveis mal-entendidos, tudo leva a crer que o corolário, para muitos, foi o de que a própria interpretação (e não apenas o interesse seletivo por sonhos) aumenta progressivamente as dificuldades do trabalho terapêutico. O que, por outro lado, não deixa de ser plausível: os progressos da análise, alcançados via interpretação, costumam mobilizar a resistência, intensificada pelo catalisador transferencial. Mas, se para evitar a resistência for necessário renunciar ao avanço da análise…
“E, no entanto, a interpretação é o ato pelo qual se reconhece o analista; podemos mesmo nos perguntar o que mais ele poderia fazer“. Como diria Pompeu[18], navegar é preciso. As associações livres que expressam a resistência e a transferência permanecem tão metafóricas como qualquer outro conteúdo discursivo e, nessa medida, igualmente interpretáveis.
Além disso, O manejo da interpretação de sonhos em psicanálise pode dar a impressão de que o interesse pelo sonho se opõe à regra da associação livre. Freud permaneceu, por iniciativa própria, analisando os dois sonhos de Dora durante várias sessões seguidas. A responsabilidade por esse deslize metodológico, porém, não recai sobre o método interpretativo. O erro consistiu em privilegiar determinado conteúdo (o sonho), em detrimento da associação livre.
Como o procedimento interpretativo permaneceu indevidamente restrito ao sonho, compartilhou seu destino, ou seja, a destituição do papel central que até então ocupava na prática psicanalítica. É provável que O manejo da interpretação de sonhos em psicanálise constitua o resultado final (e paradoxal) da reflexão sobre o valor clínico da interpretação de sonhos, ou seja, da interpretação propriamente dita. De certa maneira representa o prosseguimento do mea culpa freudiano proferido por ocasião da interrupção do tratamento de Dora. Em suma, a suspeição que recaiu sobre o método interpretativo resulta da auditoria a que foi submetido em virtude do insucesso da referida análise.
Entretanto, uma leitura atenta permite, como nos processos judiciais, reabrir o caso. É possível que Dora tenha deixado tão rapidamente a análise não em virtude dos “excessos interpretativos” mas justamente porque Freud foi além da interpretação, dando mostras eloqüentes do que ele mesmo denominaria posteriormente furor sanandis.
Nada disso, porém, foi discutido ou ventilado. Uma espécie de decreto administrativo, proferido sem alarde, faz a interpretação cair em desgraça. Tão secreto foi o procedimento que ninguém parece ter-se dado conta, nem os próprios protagonistas. Para isso contribuiu decisivamente o prestígio do termo, que continuou a ser usado, mas para designar outras práticas. (Houve um rei sueco cujo cadáver foi mantido sobre o cavalo para evitar que os inimigos, a quem inspirava terror, soubessem da sua morte).
Seria o caso de concluir que a reflexão retrospectiva sobre Dora modifica as diretrizes metodológicas de Freud, transformando a interpretação em procedimento estético mas ineficaz, espécie de “agente provocador” da resistência? É muito provável. Sobretudo se introduzirmos a ressalva de que a interpretação e o sonho mantiveram sua importância teórica como demonstrações inexcedíveis da “outra cena”, enquanto eram demitidos silenciosamente da prática clínica. O sonho passa assim de “via real para o inconsciente” a fenômeno perigosamente sedutor. Abria-se dessa maneira o caminho para que a transferência herdasse do sonho a posição de principal conteúdo a ser perscrutado.
A hierarquização de conteúdos não cessou de afirmar-se cada vez mais na prática psicanalítica. Trata-se de uma atitude incompatível com a associação livre e a atenção flutuante. Os respectivos efeitos serão nefastos. É lícito desconfiar que o anátema em relação à interpretação tampouco é alheio à preocupação de manter o paciente em análise, mediante a priorização do vínculo.
Exagero? Talvez. Mas há como que uma admissão disso na idéia - tão comum entre psicanalistas - de que a motivação fundamental da demanda por análise resulta mais da transferência do que da queixa.
Não que a transferência deixe de comparecer com o candidato na primeira entrevista. É óbvio que toda análise se funda numa expectativa dirigida a seu praticante - mas o que acontece nesse momento inicial não difere substancialmente do que ocorre em muitas outras relações profissionais. É no decorrer do processo que a transferência, na acepção freudiana do termo, enquanto intensificação da resistência, passa a refletir a especificidade da situação analítica.
É difícil evitar a suspeita de que a hipertrofia da transferência aproxima a psicanálise das práticas amparadas na sugestão. Isso não escapou a Freud. Os textos Transferência e Terapia Analítica, das Conferências Introdutórias à Psicanálise, de 1916/17, abordam a citada objeção sem conseguir refutá-la.
A inexistência de uma teoria do método interpretativo deve muito à incompreensão das relações entre linguagem e inconsciente. Esse, aliás, foi um dos principais motes da intervenção lacaniana, mas sua aplicação conduziu ao impasse visto a primazia concedida ao significante em detrimento do discurso.
Na ausência de uma teoria da interpretação, a psicanálise deslizou ao longo de três caminhos. Um deles conduziu ao pragmatismo de inspiração médica, cuja marca é o abandono da palavra em prol das emoções. Outro tomou a sociedade como fons et origo do inconsciente e enfatizou estratégias adaptativas, preconizando a aliança com a “parte saudável” do eu. O terceiro orientou-se por uma visão iconoclasta, amalgamando surrealismo e non-sense zen, amparados num esforço de erudição sobre cuja autenticidade somente os crentes convictos deixam de alimentar dúvidas.
Primazia do significante e interpretação
A revolução lacaniana, da qual caberia esperar a teorização da interpretação, descartou-a por confundi-la com aplicação da teoria ao discurso e/ou análise das relações de objeto. Vista a partir do ângulo lacaniano, a interpretação pecaria por favorecer a inoculação dos valores do analista no paciente. O lacanismo entende que o método deve ater-se ao manejo do significante, o que supostamente vacinaria o analista e o impediria de contaminar o analisando com sua subjetividade. Em decorrência, o discurso passa a ser ciosamente evitado, quer como instrumento quer como objeto da prática psicanalítica. O enunciado cai sob o anátema proferido em nome da primazia do significante. Mesmo assim, o termo ‘interpretação’ freqüenta os textos lacanianos, embora numa acepção bem diferente da que lhe havia sido dada por Freud.
O estado de coisas atual reflete essa notável confusão, tanto metodológica como terminológica. Sem que sua teorização tenha ultrapassado os conceitos associação livre e atenção flutuante, sobre os quais raras e sobretudo improfícuas reflexões foram empreendidas, o procedimento interpretativo enquanto método ficou restrito aos sonhos e ao mesmo tempo o termo interpretação conheceu um desvio semântico, passando a designar quase qualquer tipo de intervenção psicanalítica. Tem sido empregado para descrever tanto a aplicação da teoria ao discurso (freudismo ortodoxo) como a captação dos sentimentos transferenciais e sua atribuição a protótipos infantis (kleinismo). Até mesmo a atomização lacaniana (que desintegra palavras e frases em fonemas, sílabas e sintagmas) foi descrita como interpretação, embora os termos pontuação, escansão e corte sejam bem mais adequados.
A atenção dedicada aos atos falhos, a ênfase nas aliterações, sílabas, anagramas e trocadilhos, consubstanciou-se em intervenções destinadas a surpreender, desmistificar, desexplicar, desinterpretar, desintelectualizar e sobretudo desconstruir, verbo que antes de ser cunhado por Derrida já portava a marca registrada do ethos lacaniano, sempre a serviço da denúncia militante dirigida a qualquer pretensão de compreensão.
O significado é o alvo principal das enigmáticas invectivas proferidas nas sessões de tempo variável. As anedotas do budismo zen parecem ter fornecido o modelo exato para o modus operandi lacaniano. Agente de uma crítica ao ritual psicanalítico, o psicanalista lacaniano visa o estupor do analisando à maneira de um pintor que usa a tinta para destruir a tela. O exemplo não é inteiramente gratuito. A arte contemporânea, em seu aspecto mais contestador, parece ter inspirado o consultório surrealista apto a registrar a escrita automática do significante.
Não estaria muito enganado quem buscasse no dadaísmo a raiz oculta do non sense lacaniano.
Adepto do paradoxo pelo paradoxo, Lacan não tardou em proclamar o desejo de analisar-se como sintoma por excelência, já que embute a idealização do analista, sujeito suposto saber. Em decorrência, a principal diretriz clínica lacaniana é a esquiva a qualquer expectativa. No consultório, bem entendido, já que fora dele a imagem do erudito é construída com afinco exemplar nos cartéis, supervisões, seminários, publicações, debates, etc. Lacan se autorizava a supervisionar e coordenar grupos de estudo com analisandos, bem como convocar para seu divã interlocutores e alunos que considerava “interessantes”. A mesma prática costuma ser seguida por seus discípulos. Mesmo que nem todo lacaniano tenha um trânsito intenso pelo milieu ou pela mídia, ele se beneficia da atribuição de saber (suposto ou não) simplesmente por pertencer a instituições dirigidas por herdeiros e êmulos do mestre. À sedução exercida por esse mesmo saber sobre o neófito é que será atribuída sua decisão de analisar-se. Fecha-se então o círculo. O totem da rua Lille criou um novo tipo de clã, em que o tabu do incesto foi revogado e a endogamia tornou-se a regra.
A resistência do psicanalista
Já foi observado que os pacientes costumam trazer às sessões conteúdos que contemplam as expectativas de seus psicoterapeutas. É difícil dizer até que ponto tal observação é plausível, mas na medida em que for será preciso reconhecer que ela retrata uma prática situada nos antípodas da regra fundamental. Esta, de fato, estipula que não há, por definição, qualquer conteúdo preferencial. A menção ao desejo incestuoso vale tanto quanto uma queixa de coceira no dedão ou a descrição minuciosa do teto do consultório. A única atitude da qual se poderia dizer que transgride a regra fundamental é a resistência. Contudo, na medida em que também se trata de uma manifestação inconsciente, torna-se paradoxalmente legítima. Assim, tem pleno direito a participar - ainda que pelo avesso - da situação analítica.
A seleção de material, pretextando graus variados de importância e pertinência, ilustra à perfeição a resistência do analista. A famosa aliança entre os protagonistas da cena clínica ganharia assim um significado inesperadamente irônico… Algo semelhante pode ser dito acerca da transferência. A auto-imagem construída pelo lacaniano, se for possível generalizar[19], é representada pela erudição enigmática, tanto quanto a do kleiniano procura transmitir maturidade e continência e a do freudiano alardeia franqueza e neutralidade. Os psicanalistas também costumam receber seus pacientes ou analisandos com expectativas prévias. Os diferentes divãs de Procusto estão preparados de antemão para hospedar quer o desejo de saber, quer a dependência ou a ambivalência.
Haveria como isentar-se da auto-imagem profissional e da expectativa prévia em relação aos demandantes? A questão é espinhosa e será abordada adiante. De qualquer maneira, o psicanalista não tem qualquer motivo para antecipar o movimento transferencial, a não ser o afã por controle e segurança, contraditório com os princípios da sua prática.
Em um dos escritos sobre técnica Freud critica o “…procedimento insensato de alguns analistas que”preparam freqüentemente suas pacientes para o surgimento da transferência erótica de modo a que o tratamento possa progredir ou até mesmo instam as pacientes a “ir em frente e enamorar-se do médico“.[20] Cabe perguntar se as expectativas acima mencionadas não traduzem algo semelhante: “Vá em frente e manifeste seu desejo (de apropriar-se de meu saber, de aprender, de ser protegido e orientado, de seduzir, agredir, rivalizar, admirar, decepcionar-se, etc.) para que eu possa utilizar as fórmulas padronizadas de intervenção“.
Precisamente a partir do momento em que os psicanalistas entendem legítimo utilizar a teoria no consultório é que, parafraseando Freud, passam a correr o risco de selecionar, condenando-se a nunca descobrir nada além do que já sabiam de antemão (ou seja, teoricamente). A previsão relativa aos sentimentos transferenciais que surgirão no decorrer da análise não deixa de veicular uma expectativa apoiada em suposições teóricas. A ênfase na transferência tipo “sujeito suposto saber” constitui claramente uma antecipação que contraria a recomendação lacaniana de agir como se não se conhecesse a teoria[21].
Por outro lado, não deixa de ser interessante que Lacan descarte a possibilidade de superar (alterar, atenuar) a transferência pela respectiva interpretação, alegando que esta última depende da própria transferência para ter eficácia. Se, por outro lado, a transferência não é senão uma das manifestações do imaginário, do ilusório, da idealização, da projeção, da infantilidade, etc., então o ceticismo lacaniano se estende obrigatoriamente a qualquer transformação que caiba esperar de uma análise. Além disso, subordinar a eficácia do método psicanalítico ao fenômeno que representa por excelência a resistência é, também de antemão, e mediante um diktat, condenar a psicanálise ao impasse. Interpretar na transferência parece representar a impossibilidade, auto-infligida, de interpretar a transferência (ou, mais precisamente, o discurso que a manifesta). Suplementarmente, conforme observado acima, tal enfoque situa a psicanálise no âmbito dos tratamentos por sugestão.
Enfim, a hipertrofia da transferência manifesta-se atualmente sob duas formas. É considerada simultaneamente o objeto e o instrumento da intervenção psicanalítica (kleinismo) ou uma de suas formas (a apropriação do saber do analista) é promovida à condição de modalidade exclusiva (lacanismo).
Pesquisa e sublimação
Que outra resposta poderia ser dada à pergunta pelo objeto da prática psicanalítica? Se tomarmos por base os dois conceitos que permanecem referenciando o método - e cuja substituição, independentemente de seu desuso, ainda não foi proposta - a resposta é relativamente simples. A atenção flutuante não elege qualquer tema em particular - por definição. Ou não seria atenção flutuante nem teria sentido pedir ao paciente que associe livremente. A regra é chamada fundamental porque propicia material para a interpretação. Transforma, por assim dizer, a palavra em texto apto a ser lido. Seu objetivo é abrir espaço para o discurso, no qual os sentimentos transferenciais e o significante (principalmente via ato falho e repetições vocabulares) podem ter seu lugar, como aliás qualquer outro tema ou manifestação. Nem mais nem menos.
Não surpreende que a associação livre e a atenção flutuante tenham se tornado incômodas para o lacanismo e o kleinismo. Menos ainda é por acaso que o respectivo questionamento se assemelhe às críticas que tem por alvo a interpretação. A argumentação é similar e lembra boatos e maledicências propagados a boca pequena. A não oficialização do enfrentamento talvez se explique pelo respeito a uma tradição já consagrada e também por deferência e reverência ao próprio Freud, mas fundamentalmente se deve a que para propor uma nova concepção é necessário previamente discutir a questão metodológica, tarefa capaz de desencorajar a muitos.
Razão pela qual são preferidas as críticas en passant, destiladas em surdina.
“(…) a partir de que elementos específicos o analista intervirá, se nenhum dos materiais é a priori privilegiado em sua escuta?” questiona um autor lacaniano que dedica alguns comentários ao tema.[22] Se Dor acredita que a escuta deve privilegiar certos temas (ou significantes) certamente supõe que o ato clínica não prescinde da teoria, pois quem decide que certos temas são mais importantes que outros é a teoria.
Contudo, é precisamente a renúncia a qualquer saber prévio que Freud advoga em Conselhos aos médicos que exercem a psicanálise. Dor, para quem o conceito atenção flutuante se deve a uma “intuição freudiana”, argumenta que procurando captar o ‘inconsciente’ do analisando com o mesmo instrumento o psicanalista corre o risco de ser perturbado pela sua subjetividade. “(…) no exercício da atenção flutuante, como pode o analista desvencilhar-se da influência de suas próprias motivações inconscientes?”
Instalado o impasse, o crítico concede que “(…) as concepções metapsicológicas elaboradas por Lacan não permitem solucionar profundamente esses diferentes problemas“. Mesmo assim, elas teriam o mérito de “(…) pelo menos introduzir um ponto de vista técnico original a esse respeito“.[23] Que não é outro senão permanecer “(…) receptivo aos significantes que advêm, através do dizer, para além dos significados que se organizam no dito“[24].
A primeira pergunta (a partir de que elementos o analista intervirá?) revela que para Dor a noção de discurso não entra absolutamente em conta, sequer para ser criticada. Demonstra também que sua concepção clínica é guiada pela busca de determinados conteúdos (”significantes”), julgados mais importantes do que outros, à maneira da famosa boutade de Orwell. Nada mais distante da atitude que levou Freud a propor o que chamou de associação livre. Por outro lado, a menção ao risco das influências inconscientes devidas à atenção flutuante tem por implicação que se o psicanalista permanecer com o dedo devidamente apoiado no gatilho teórico, no caso o da teoria do significante, suas motivações inconscientes se dissiparão ou diminuirão significativamente. Concepção intrigante, na medida em que provém de um psicanalista.
A pesquisa científica, como qualquer outro ato humano, não tem porque ser desvinculada das determinações inconscientes (ou seja, da linguagem; já nos Três Ensaios…, de 1905, Freud mencionava a pulsão epistemológica). A existência de determinações inconscientes não faz com que a pesquisa seja invalidada pela subjetividade. Se for, que valor caberia dar à teoria psicanalítica, incluindo a vertente lacaniana? O inconsciente não consiste apenas no que é recalcado; isso é patente em Freud (cf. seu estudo sobre Da Vinci) e se torna mais evidente ainda quando o inconsciente é redefinido como linguagem. No caso da prática científica ou profissional bem desempenhada, analogamente ao que acontece com a criação artística, é fácil perceber que estamos diante do que Freud conceituou como sublimação. Por estranho que pareça, a maioria dos psicanalistas não leva em conta a sublimação e menos ainda sua relação com o inconsciente. E isso apesar do livro sobre o chiste…
De qualquer forma, se é óbvio que Dor tem pleno direito a defender esse ponto de vista, sua posição se beneficiaria muito de uma argumentação crítica que levasse em conta as razões alegadas por Freud para propor a regra fundamental.
A idéia de que observações e hipóteses ganham em isenção quando livres de viseiras teóricas é um truísmo bem mais recomendado do que efetivamente observado na prática científica. Provavelmente por essa razão as descobertas científicas são relativamente raras em comparação com repetições, dogmatismos, erros e impasses. Não obstante, a revogação do princípio é impensável. Aplicá-lo à psicanálise, como faz Freud ao preconizar que o psicanalista renuncie ao saber prévio, é perfeitamente condizente com a isenção que caberia esperar de um pesquisador. Aliás, é condizente também com uma recomendação feita nos mesmos moldes… pelo próprio Lacan[25].
Para Dor, pelo contrário, a isenção implica no risco de ser “influenciado pelas próprias motivações inconscientes”. Talvez Dor deseje exorcizar o risco da falha interpretativa, inevitavelmente presente em toda hipótese científica. Colocar em pé o ovo da isenção requer bastante disciplina e habilidade, mas é possível; em contrapartida, ainda não nasceu quem faça a omelete da hipótese sem quebrar os ovos da apólice do seguro contra erros.
A pesquisa não garante a descoberta. Se os erros se devem a distorções subjetivas, cabe afirmar que todo projeto dedicado ao conhecimento, em qualquer ciência, está sujeito ao equívoco. Desse ponto de vista, e ao contrário do que dizem os que enfatizam a dificuldade suplementar representada pelo estudo de um objeto a cuja categoria pertencemos, não há diferença entre ciências naturais e humanas.
Lacan redefine a função da intervenção psicanalítica (ainda que continue a designá-la pelo termo ‘interpretação’). Para ele,(…) o valor de uma interpretação não se mede pela sua “(…) correspondência com a realidade”[26], podendo ser inexata mas (…) não obstante verdadeira, no sentido de que possui poderosos efeitos simbólicos (cf. Escritos, pg. 237).”[27]
Do ponto de vista da regra fundamental, trata-se de uma afirmação totalmente questionável, porque a interpretação visa o sentido do discurso, não a ‘realidade’ (como quer que seja definida). Substituir ‘realidade’ por ‘verdade’ torna essa tese ainda mais discutível. Além disso, a posição lacaniana faz supor que “qualquer coisa” pode ser dita porque, em última análise, é capaz de provocar “poderosos efeitos simbólicos”.
Durante os milênios que antecederam seu enquadramento nas fórmulas matemáticas da física e da química, a natureza convocava poderosamente o imaginário da humanidade, como testemunha o animismo. Isso não impediu que se desenvolvesse paulatinamente o conhecimento de suas leis. A menos que o lacanismo descarte igualmente a ciência[28] não há como deixar de reconhecer que o modus operandi científico inclui a interpretação. Onde há interpretação há risco.
As teorias científicas são mais do que coleções de fatos e descrições de fenômenos; apóiam-se na aferição e na sistematização mas, fundamentalmente, constituem leituras. A interpretação sempre diz algo sobre o fenômeno, não “qualquer coisa”. Implica em compromisso, ou seja, aceita a possibilidade do erro para poder reivindicar, em contrapartida, sua eventual validade.
A preconização de permanecer “(…) receptivo aos significantes que advêm, através do dizer, para além dos significados que se organizam no dito…” resulta num tipo de intervenção minimalista cuja meta principal parece ser a fuga a qualquer responsabilidade maior. De fato, quando se faz trocadilhos e anagramas não há qualquer possibilidade de erro - nem de acerto.
A atitude clínica lacaniana se parece muito à preconização empirista de “deixar os fatos falarem por si mesmos”. Apenas substitui os “fatos” pelo “inconsciente”. Ao analisando é concedido o duvidoso privilégio de descobrir sozinho como lidar com as suas questões a partir das pistas fornecidas por pontuações, escansões e cortes. Intervenções tão enigmáticas que, como já se disse dos eletrochoques (cuja verdadeira função seria punir o paciente), poderiam ser úteis não em virtude de sua qualidade intrínseca mas por desviar a atenção para essas charadas ainda mais herméticas do que os conflitos pessoais.
Os que acreditam demonstrar a inoperância do método interpretativo pelo questionamento da atenção flutuante têm a sorte de estar sentados num galho mais forte do que o seu serrote. Há outras objeções ao método interpretativo, mas todas derivam fundamentalmente da incompreensão. Os críticos não se dignaram a teorizar o procedimento proposto por Freud em relação ao sonho e muito menos se interrogaram sobre a especificidade da interpretação face a outras modalidades de atuação. ‘Interpretação’, insistamos, passou a designar praticamente qualquer tipo de intervenção, do comentário descompromissado ao diagnóstico, passando por diversas categorias de atos verbais, geralmente extraídos de opiniões pessoais ou apoiados na teoria psicanalítica. Às vezes a palavra interpretação chega a designar a própria interpretação. Mas é raro, a ponto de causar estranheza.
Lacan e a interpretação
Praticamente qualquer texto poderia ilustrar essa asserção. Por pertinência e brevidade convirá recorrer ao respectivo verbete do Dicionário Introdutório à Psicanálise Lacaniana, de Dylan Evans, que apesar de participar da confusão reinante retrata alguns aspectos importantes do debate sobre a interpretação.
Após observar que o “(…) o analista oferece uma interpretação quando diz algo que subverte alguma maneira de ver “cotidiana” consciente do analisando“[29], o autor assinala que a interpretação teve como primeira função corrigir as omissões dos relatos, dando o exemplo do caso Lucy (Estudos sobre a Histeria, 1895), em que Freud diz à paciente que o verdadeiro motivo da sua dedicação aos filhos de patrão é o amor por ele. Em seguida, constata que o “(…) modelo de interpretação foi estabelecido por Freud em A Interpretação dos Sonhos (Freud, 1900), ainda que explicitamente o mesmo se referisse apenas aos sonhos“[30].
Segue-se a menção a um debate bem conhecido. Além do procedimento da associação livre, os sonhos também poderiam ser interpretados mediante uma atribuição de significados já codificados “(…) em virtude de suas relações com um sistema pré-existente de equivalências“. Essa possibilidade é de início parcialmente admitida por Freud, que posteriormente lhe opõe certas reservas[31]. Evans observa ainda que “(…) Muito depressa na história do movimento psicanalítico, a interpretação se transformou na ferramenta mais importante do analista, seu meio primordial para conseguir efeitos terapêuticos. Visto que se supunha serem os sintomas expressão de uma idéia reprimida, pensava-se que a interpretação curava o sintoma ao ajudar o paciente a tomar consciência de sua idéia“.
Mas, prossegue, “(…) depois de um período inicial no qual o oferecimento de interpretações parecia alcançar efeitos notáveis, na década de 1910/20 os analistas começaram a perceber que suas interpretações estavam se tornando menos efetivas. Em particular, o sintoma persistia inclusive depois de que o analista houvesse fornecido interpretações exaustivas“.
O motivo da súbita inoperância é atribuído pelos psicanalistas à resistência. Lacan diverge, afirmando que “(…) a eficácia decrescente da interpretação depois de 1920 devia-se a um fechamento do inconsciente que os próprios analistas haviam provocado (Seminário 2, pp. 10-11, Seminário 8, pg. 390)“. Reduzidas a fórmulas pré-estabelecidas e previsíveis, “(…) as interpretações careciam de importância e de valor de choque“.
Para outros analistas, acrescenta Evans, os problemas decorriam da crescente familiarização dos pacientes com a teoria psicanalítica. Em conseqüência, preconizou-se uma sofisticação do saber do analista para fazer frente a essa situação. Novamente Lacan diverge, propondo que
[1] O amor de transferência (Isso não impede de existir, Octave Mannoni, 1982).
[2] Freud analisou Dora nos últimos meses do século XIX e publicou “Fragmentos da análise de um caso de histeria” em 1905.
[3] Posteriormente o conceito de fantasia ganhou uma abrangência muito maior, passando a referir, em última instância, a singularidade intrínseca à subjetividade.
[4] Freud considerou, nos três meses de duração da análise, que Dora estava apaixonada pelo ‘Senhor K.’; em seus comentários retrospectivos, ao empreender a “autópsia” do caso, conjectura que o objeto da paixão talvez fosse a ‘Sra. K.’.
[5] Entretanto, nada impede a coexistência, pacífica ou não, de tais sentimentos.
[6] Posteriormente Freud entenderá que nem sempre os pacientes deixam a análise em virtude dos erros do analista. Às vezes, exatamente pelo motivo oposto…
[7] Tarefa impossível, se entendermos que entre “verdade” e “sentido” há um abismo.
[8] A palavra “médico”, no título do artigo, indica que Freud estava ciente do viés que essa formação ocasionava… talvez com base em sua própria experiência pessoal.
[9] “Não é bom trabalhar cientificamente num caso enquanto o tratamento ainda está continuando -reunir sua estrutura, tentar predizer seu progresso futuro e obter de tempos em tempos, um quadro do estado atual das coisas, como o estudo científico exigiria. Casos que são dedicados, desde o princípio, a propósitos científicos, e assim tratados, sofrem em seu resultado; enquanto os casos mais bem sucedidos são aqueles em que se avança, por assim dizer, sem qualquer intuito em vista, em que se permite ser tomado de surpresa por qualquer nova reviravolta neles, e sempre se os enfrenta com liberalidade, sem quaisquer pressuposições. A conduta correta para um analista reside em oscilar, de acordo com a necessidade, de uma atitude mental para outra, em evitar especulação ou meditação sobre os casos, enquanto eles estão em análise, e em somente submeter o material obtido a um processo sintético de pensamento após a análise ter sido concluida”. (Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, pp. 152/153, O.C., vol. XII).
[10] Essa descrição tampouco esgota a lógica do conflito. Ela conduz à teoria das pulsões (Thanatos vs Eros, desejo de não desejar vs aceitação do desejo), que por sua vez se vincula estreitamente à teoria da constituição do sujeito.
[11] “A técnica, contudo, é muito simples. (…) Consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma “atenção uniformemente suspensa” (como a denominei) em face de tudo o que se escuta (…) evitamos um perigo que é inseparável do exercício da atenção deliberada. Pois assim que alguém deliberadamente concentra bastante a atenção, começa a selecionar no material que lhe é apresentado (…)Ao efetuar a seleção, se seguir suas expectativas, estará arriscado a nunca descobrir nada além do que já sabe; e se seguir as inclinações, certamente falsificará o que possa perceber. Não se deve esquecer que o que se escuta, na maioria, são coisas cujo significado só é identificado posteriormente“. (Idem, pp. 149/150; grifo meu).
[12] O próprio Freud veiculou uma idéia semelhante (por exemplo, nas Cinco Lições de Psicanálise).
[13] Essa metáfora, de sabor anedótico, chegou a ser efetivamente proferida.
[14] E sumamente importante também do ponto de vista teórico e epistemológico.
[15] “Com efeito, na medida em que o inconsciente emerge no discurso do sujeito pelo processo de enunciação, a atenção flutuante aparece sobretudo ao nível do enunciado e de seu sujeito”. Joël Dor, “Introdução à leitura de Lacan“, pp. 119/120.
[16] Os textos mais ilustrativos desse movimento são o “discurso de Roma” (Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise, de 1953) e A instância da letra no inconsciente ou a razão a partir de Freud (1957/8).
[17] O primeiro, cronologicamente, dos artigos sobre técnica que Freud redigiu entre 1911 e 1915.
[18] E Camões, e Fernando Pessoa…
[19] Mas como não generalizar quando o adjetivo em questão (assim como “kleiniano”, “freudiano”, “bioniano”, “winnicotiano”) é brandido à maneira de uma carteira de identidade profissional?
[20] Observações sobre o amor transferencial, 1915, O.C., volume XII, pg. 211.
[21] É muito difícil encontrar uma obra que não encerre contradições. A intenção da frase anterior é a de mostrar que a crença na inevitabilidade da transferência “sujeito suposto saber”, alardeada a torto e a direito nos comentários sobre a especificidade da prática lacaniana, deveria antes ser motivo de reflexão e constrangimento.
[22] Joël Dor, Introdução à leitura de Lacan, pg. 119.
[23] Idem, ibidem.
[24] Idem,p. 120.
[25] Ver adiante.
[26] Sic.
[27] Citação extraida do Diccionário Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano, de Dylan Evans.
[28] E realmente o faz em uma de suas vertentes, embora por outro lado Lacan tenha iniciado seu trabalho de renovação invectivando o misticismo pseudo-técnico que infestava a psicanálise na época.
[29] A edição consultada é a tradução em castelhano, feita pela Editôra Paidós. A inserção da palavra “cotidiana” prejudica um pouco a inteligibilidade da frase mas de qualquer maneira a própria definição de Evans é imprecisa a ponto de ser equívoca.
[30] Afirmação pertinente, mas que não suscita em Evans uma reflexão sobre suas implicações.
[31] “(…) Freud sempre sustentou que a interpretação deve concentrar-se primordialmente no sentido particular, e preveniu contra a superestimação da importância dos símbolos na interpretação dos sonhos”.
