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Prólogo

Saturday, September 13th, 2008

 

Prólogo

(A Metáfora Opaca- acesso integral)

 

“E, no entanto, a interpretação é o ato pelo qual se reconhece o analista; podemos mesmo nos perguntar o que mais ele poderia fazer. Não obstante, essa questão é particularmente negligenciada. Ela só foi aprofundada a propósito dos sonhos, e isso também pode colocar muitos problemas curiosos…” [1]

 

O andarilho chegou a uma encruzilhada e não sabe qual é a via correta, aquela  que o conduzirá a seu destino. Dois informantes estão à espera. Um deles invariavelmente mente e o outro sempre diz a verdade. Não há como distingui-los e o andarilho tem direito a uma única pergunta. Como formulá-la?

         O interessante problema lógico, que traduz o interesse dos concidadãos de Aristóteles pela dedução, admite uma solução. “Se eu pedisse ao outro informante que me indicasse a direção correta, que caminho ele apontaria?”

         Seja qual for o informante inquirido, a resposta será necessariamente a mesma, isto é, o caminho errado[2].

         O  ”informante” do divã não tem como dizer a verdade, por mais que se empenhe, e simultaneamente é em vão que tentaria mentir, omitir, exagerar, minimizar, etc.

A trajetória errante das associações livres deixa pegadas sutis, pistas metafóricas. Essa constatação é a base da atitude interpretativa.

Diferentemente do enigma lógico, constituído pela encruzilhada verdadeiro/falso, as associações livres constroem um labirinto cujo percurso exige o fio de Ariadne capaz de esgueirar-se entre suas estreitas paredes. A interpretação, como uma roupa bem feita, terá que ajustar-se rigorosamente ao discurso que a suscitou.

Ao longo da história da psicanálise, porém, o próprio termo ‘interpretação’ foi destituído de seu contorno e passou por tantas reformulações e acréscimos que atualmente designa qualquer coisa. Praticamente todo tipo de intervenção  recebe essa denominação. Por razões que serão examinadas pormenorizadamente, perdeu-se de vista que a interpretação tem como único objeto o discurso - ou seja, um conjunto específico de enunciados/enunciações.

Os conteúdos que a escuta psicanalítica tem privilegiado, segundo as particularidades de tal ou qual abordagem[3], desviaram a atenção do psicanalista, subtraindo-a a seu habitat, a associação livre. Trata-se de um estado de coisas que decorre da indistinção entre teoria do método e teoria do sujeito, confusão que tem prejudicado a prática psicanalítica desde sempre.

Ainda não se percebeu suficientemente a incompatibilidade entre o método interpretativo, que Freud desenvolveu em seu livro sobre o sonho, e a leitura das associações livres mediante conceitos teóricos. A última atitude é muito mais comum na clínica atual. Paradoxalmente, o marco inicial desse desvio é o próprio caso Dora, escrito com a finalidade explícita de demonstrar a pertinência da interpretação de sonhos para o trabalho terapêutico.

O resgate da metodologia interpretativa passa pela interrogação teórica da prática construída por Freud para desvendar o enigma onírico. A Lacan devem-se tanto o pioneirismo como o abandono prematuro desse empreendimento. Se “A instância da letra no inconsciente…” revoluciona a compreensão do sonho propondo que as operações oníricas sejam concebidas como operações de linguagem, por outro lado confunde metáfora com condensação e metonímia com deslocamento. Além disso, privilegia o significante em detrimento do discurso. A conseqüência é um novo impasse, que se soma ao pré-existente.

A teorização do método psicanalítico inclui necessariamente uma reflexão sobre seu fundamento, a linguagem. Certamente a associação livre não é a única manifestação discursiva que dá margem ao procedimento interpretativo. As questões com as quais se depara a interpretação psicanalítica são exatamente as mesmas enfrentadas pela imemorial tradição hermenêutica. A atitude interpretativa não somente freqüenta os textos sagrados com o manto cerimonial da exegese como comparece (constrangida ou assumidamente) nas perguntas sobre o sentido dos relatos mitológicos, textos literários e obras artísticas em geral.

Tantas vezes proposta quantas ridicularizada, a Ave Fénix da interpretação acompanha sorrateiramente os fanáticos da objetividade[4] como a sombra do meio dia - e não raramente se empenha em fertilizar seus respeitáveis crânios.

Em comparação com a transformação da alquimia em química, a metamorfose de chumbo em ouro é uma ambição banal. Magos toscos e desastrados pariram ao melhor estilo lunático uma ciência.

Freud orgulhava-se de ter recuperado a arte dos onirócritas, enfrentando o “dize-me com quem andas” proferido pelos bem-pensantes da época. Substituiu a previsão do futuro pela interrogação do desejo e as claves simbólicas pela associação livre. A história se repete. Faz-se necessário agora recuperar o método interpretativo do desdém sapiente ostentado pelos próprios psicanalistas.

A alegação de que a abordagem interpretativa psicanalítica exige o amparo da situação transferencial tem sido o principal obstáculo para o desenvolvimento de uma teoria da interpretação. Tal concepção confunde a demanda por análise e a relação entre os protagonistas da situação clínica com algo bem diferente: o ato interpretativo propriamente dito. 

A teoria do método interpretativo, antes de mais nada,  deveria responder a uma pergunta crucial, acerca da possibilidade de discernir rigorosamente o sentido de  determinada produção discursiva da significação mediante a qual é veiculada.

O primeiro passo a ser dado para alcançar a respectiva resposta consiste em retornar ao ponto de partida, recuperando o que a interpretação de sonhos, a partir de Freud, nos ensina sobre a linguagem. Em seguida, trata-se de conferir ao método interpretativo psicanalítico o devido respaldo teórico, definindo a associação livre como um caso particular de produção discursiva. O estudo do ato interpretativo não poderia restringir-se à associação livre, visto que pertence ao campo da discursividade, invariavelmente clivada segundo a linha que Freud designou por manifestação e latência.

Isso não significa pedir “licença de caça” para o furor interpretativo. A relação entre interpretante e interpretado resulta de um pacto voluntário, cujas cláusulas são regidas pela ética. Fora da situação clínica a interpretação renuncia a qualquer pretensão terapêutica e somente terá por objeto produtos culturais específicos, plenamente desvinculados de seus autores. Pode-se interpretar determinados mitos e determinados filmes, mas não culturas, roteiristas ou diretores.

Além do sonho, cujo estudo permitiu a Freud vislumbrar aspectos até então desconhecidos da linguagem, os mitos e os filmes favorecem a percepção da estrutura metafórica do discurso e conseqüentemente a legitimidade do procedimento interpretativo. As produções culturais têm a vantagem de estar ao alcance de todos e não exigem as habituais omissões e alterações destinadas a preservar o sigilo. Tais operações de censura tornam-se inevitáveis quando se relata um conjunto de associações livres.

A segunda parte deste livro apresentará exemplos de interpretação extraídas da mitologia grega, do cinema e de material clínico (devidamente modificado).

Os dois capítulos iniciais são consagrados ao exame dos parâmetros que têm norteado a psicanálise contemporânea. Um dos principais temas abordados é o dos modelos clínicos vigentes, principalmente o kleiniano e o lacaniano, bem como sua relação com o procedimento interpretativo.-




[1] (Octave Mannoni, Sobre a Interpretação, in Isso não impede de existir, 1982, pg. 82)

[2] Se o leitor não conhece o enigma, pode testar o efeito da pergunta através das respostas que seriam dadas pelo informante “confiável” e pelo informante “mentiroso”.

[3] Isto é, as diversas escolas psicanalíticas, cujas diferenças provém da ênfase concedida à obra desse ou daquele autor (Freud, Klein, Lacan, Bion, Winnicott, Ferenczi, etc.)

[4] Nelson Rodrigues preferia uma expressão mais contundente.