‘Orelha’ (Futebol, arte ou guerra)
Saturday, September 27th, 2008Futebol, arte ou guerra - Elogio ao drible e crítica à retranca pura
Orelha
Aparentemente, nada mudou. O cenário permanece igual: essas monumentais e toscas crateras de concreto onde o mesmo ritual se repete, semana após semana; o oásis de grama bordada com cal cujo verde viçoso cede espaço à calvície apenas nesses lugares inexplicavelmente mágicos, demarcados por três pedaços de madeira envoltos em lingerie esvoaçante.
Os devotos continuam fiéis à estranha fé que os une e separa. Todos os domingos enfunam suas bandeiras e exercitam uma paciência ansiosa nas filas lentamente engolidas pelo gigante entediado, para entrar e ver… o que?
Há muito os sumo sacerdotes deixaram de oficiar e os gritos de júbilo e surpresa foram trocados por resmungos de raiva e decepção.
Nada - ou pouco - mudou, mas é como se o futebol fosse agora outro esporte, regido por um código diferente. As regras são as mesmas, porém os gols escasseiam, o drible transformou-se numa ofensa digna de agressão, o apito do juiz paralisa o jogo de trinta em trinta segundos, não raramente a bola é disputada simultaneamente por três ou quatro jogadores, os escanteios parecem-se cada vez mais a cenas de luta livre…
Este livro procura entender o paradoxo. As regras foram criadas quando não era necessário preocupar-se com o anti-jogo. Partia-se do princípio que o prazer de jogar bem e vencer com méritos fazia parte do uniforme, como as chuteiras, calções e camisetas.
Já não é bem assim. Dribles, tabelas, lançamentos, malabarismos variados e desarmes limpos foram trocados por obstruções, cotoveladas, empurrões, comandos de impedimento forçado e agarrões. Joga-se com vinte atletas concentrados numa das metades do campo. O torcedor vive um triplo congestionamento, antes, durante e depois da partida.
A “falta necessária” tornou-se um recurso normal, a habilidade é exilada nos bancos de reservas (quando chega até ele) e a “aplicação” é escalada enquanto o talento torna-se cada vez mais suspeito ou desacreditado.
Os legítimos sucessores de Garrincha e Pelé começam a ser barrados desde os testes, para dar lugar a futuros robôs…
Mas o futebol — deixando de lado os julgamentos ideológicos - é, ou pode voltar a ser, uma arte. Popular. Desde que as regras sejam repensadas para possibilitar o aumento exponencial da média de gols (que tal sete ou oito?) e a correspondente diminuição do número de infrações (que tal nove ou dez?) por partida.
E, sobretudo, é urgente proceder à regulamentação da disputa de bola, punindo severamente pontapés, carrinhos, puxões, obstruções, empurrões, agarrões, trombadas, de maneira a torná-los espécies em extinção, para dar lugar novamente ao drible, à tabela, ao lançamento, ao jogo fluente, enfim.
