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Prólogo (Freud, Marlowe & Cia) (integral)

Saturday, September 13th, 2008

Prólogo

O que a literatura policial, a afasia e a utopia têm em comum com a psicanálise? Aparentemente não mais do que uma considerável distância recíproca ou, no máximo, o registro esmaecido desse rápido contato proveniente de uma conjunção de fatores que a primeira vista parece fortuita.

Comecemos com a afasia. Em 1891 Freud escreveu uma monografia sobre distúrbios de linguagem causados por lesões cerebrais, na qual criticava as teorias neurológicas vigentes, comprometidas em maior ou menor grau com a tese da localização cerebral estrita. Num texto recente, Joel Birman relê esse pequeno ensaio para encontrar no aparelho da linguagem de 1891 o precursor do famoso aparelho psíquico, conceito cujos termos por si só denotam a difícil separação entre o fantasma e a máquina na concepção freudiana.

De fato, mais de cem anos depois, o problema das re­lações entre mente e corpo, biologia e personalidade, hormônios e libido, sistema límbico e estrutura emocional, não só permanece aberto como parece ter-se multiplicado. A própria psicanálise mostra-se dividida a respeito (M. Klein, J. Lacan), ao mesmo tem­po que prossegue a discussão com a psiquiatria a propósito da etiologia da psicose, sem que a solução esteja à vista.

A afasia e a questão da delimitação entre o psíquico e o orgânico aborda o tema, reconstituindo primeiramente a história da afasia a partir da descoberta de Broca para depois propor uma hipótese - que certamente não agradaria muito a Noam Chomsky - sobre as relações entre cérebro e linguagem. A seqüência conduz a uma espécie de mirante de onde é possível vislumbrar o modus operandi dos anti-delirantes. Em outras palavras, o intrigante distúrbio que atinge o domicílio neuronal dos signos parece feito sob medida para ajudar-nos a compreender as intrincadas relações entre substrato nervoso e função simbólica, além de contribuir para o esclarecimento das razões pelas quais certas substâncias químicas, como dizia Jorge Luis Borges, podem “…borrar el cosmos y erigir el caos“.

Quem diz Borges diz literatura. Inclusive policial. Talvez poucos saibam que o escritor argentino incursionou pelos mean­dros dessa espécie de lógica aplicada, menos interessado, é ver­dade, na monótona batalha entre o bem e o mal do que nos labirintos mentais da decifração. Lacan tampouco pôde escapar ao fascínio exercido pelo conto que inaugurou o gênero e dedicou à Carta Roubada de Poe um dos seus seminários. Sherlock Holmes e Freud já trabalharam juntos em pelo menos um caso (The seven per cent solution) e o próprio Freud considerou Sófocles um mes­tre do suspense graças a seu Édipo Rei, talvez a mais engenhosa elucidação de um crime. O método utilizado pelo rei-réu metaforizaria à perfeição o próprio pro­cesso psicanalítico na medida em que o detetive e seu oráculo íntimo falam com a mesma voz.

Entretanto, os modelos atuais da clínica psicanalítica pare­cem desconsiderar uma herança tão honrosa, cujo legado inicial remonta proclamadamente à maiêutica. Na poltrona lacaniana de­senha-se a silhueta de um mestre-zen, especialista nas surpresas do non-sense e senhor inconteste do tempo, enquanto a psicanálise conhecida como inglesa promove a primeiro plano a figura de uma educadora continente a quem se endereçariam invariavel­mente todas as palavras proferidas na posição horizontal.

Marlowe como modelo questiona esse estado de coisas, confrontando o modus operandi freudiano com o de seus sucessores, e coloca em pauta a dupla questão das relações entre trans­ferência e discurso (Klein/Freud), significante e discurso (Lacan/Freud).

Marlowe?

Marlowe foi contratado para resolver o mistério da desaparição da venerável arte de in­terpretar, e para tanto precisará transitar incessantemente entre Sausalito Drive, o Quartier Latin, Tavistock e Bergasse… afinal, nem todas as investigações podem transcorrer em cenários tão ensolarados como a Califórnia de Raymond Chandler.

Finalmente, e na esteira dos recentes acontecimentos que pulverizaram o mapa da Europa, julga-se necessário ou pelo menos conveniente retornar a alguns aspectos da (transitoriamente?) abandonada articulação entre psicanálise e marxismo. O objetivo é inquirir a desconsideração da subjetividade por parte da economia política, principalmente no que se refere à indiferenciação entre necessidade e desejo.

Há motivos de sobra para suspeitar que certo idealismo tenha algo a ver com os escombros do assim chamado socialismo real. Território minado e quase intransitável, sabe-se que a démarche investigativa deverá evitar cuidadosamente qualquer tipo de partidarismo para manter tão incontaminada como possível a inquirição sobre as relações entre o social e o inconsciente.

Retoma-se em A Utopia Freudiana um dos caminhos indicados pela Escola de Frankfurt, embora através de um enfoque muito diferente. Mais uma vez a literatura, e novamente através de um gênero não muito afeito à excelência do estilo (a ficção científico-política), ajudará a montar o cenário.

O objetivo é percorrer, com a orientação da bússola psicanalítica, especialmente a teoria da sublimação, uma bela e íngreme região teórica referenciada por autores como Marx, Freud, Lévi-Strauss e Ivan Illich.