Orelha, Contracapa, Índice (Freud, Marlowe & Cia)
Saturday, September 13th, 2008Orelha
Certamente não é muito comum fácil imaginar Philip Marlowe e Sigmund Freud discutindo animadamente entre goles de Bourbon e envoltos na densa nuvem exalada por um legítimo habana. Aparentemente, a distância entre ambos é comparável à que separa a refinada Viena imperial, na qual o detetive jamais pisou, da Califórnia dos anos 50. Mais difícil ainda seria imaginar sobre o que conversariam tais personagens, se não nos lembrássemos de seu interesse comum pela decifração de mistérios.
Poucas questões têm sido tão enigmáticas quanto a da linguagem, que mobilizou não somente a lingüística, mas toda uma série de disciplinas: entre outras, antropologia, psicologia, pedagogia, semiótica, neurologia e teoria da comunicação. Os filósofos tampouco escaparam à sua atração. A palavra, que durante muito tempo foi considerada mera auxiliar da razão, passou dessa condição subalterna ao papel de protagonista das principais indagações feitas pelas ciências humanas.
A psicanálise teve uma importante participação na revalorização do discurso. Pode-se dizer que a associação livre e a atenção flutuante promoveram a ressurreição científica de uma frase confinada ao universo da exegese bíblica. O número dos que se interessam pelo enunciado “No princípio era o Verbo” é cada vez maior.
Freud, Marlowe & Cia. aborda a linguagem a partir de três aspectos: enquanto instrumento terapêutico, em sua relação com o substrato cerebral e como interpretação das manifestações culturais.
A via escolhida é simultaneamente óbvia e pouco usual: a literatura. O recurso ao romance policial e à ficção científico-política permite evitar as armadilhas do hermetismo acadêmico, contumaz praticante do turvamento de águas com vistas a uma respeitável opacidade.
Talvez o leitor se surpreenda que a inquirição do universo simbólico, iniciada pelo decifrador de sonhos, seja prosseguida por um personagem da literatura policial, apreciador entusiasta de ovos mexidos, whisky de milho e louras esculturais - não necessariamente nessa ordem.
Entretanto, tudo indica que os crimes quase perfeitos da semântica exijam a sagacidade irreverente de Philip Marlowe e hipóteses tão pouco convencionais como o detetive marginal de Raymond Chandler.
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Contracapa
O que teriam em comum Sigmund Freud e Philip Marlowe, o detetive dos célebres romances policiais de Raymond Chandler, além do gosto pela exumação arqueológica - de recordações e cadáveres?
Freud, Marlowe & Cia. considera que a psicanálise compartilha da indagação detetivesca tanto quanto o romance policial chandleriano costuma consagrar-se ao sentido das motivações ocultas que movem personagens descritos com desencantado humor.
A partir desse paralelismo descortinam-se cenários incomuns.
Os temas abordados através da associação profissional entre o private eye e o private ear incluem a eficácia da palavra na prática terapêutica, a relação entre linguagem e substrato cerebral, bem como a importância do simbólico para a compreensão do social.
ÍNDICE
PRÓLOGO
Cap. I - MARLOWE COMO MODELO
O detetive do passado
Marlowe aluga um divã
Don Juan e a Virgem
Cap. II - A AFASIA E A QUESTÃO DA DELIMITAÇÃO ENTRE O PSÍQUICO E O ORGÂNICO
O múltiplo interesse da afasia
De Gall a Broca
Inteligência, linguagem e afasia
De Wernicke a Pierre Marie
Baillarger, Jackson e Freud
A afasia e sua relação com o inconsciente
Cap. III - UMA UTOPIA FREUDIANA
A ficção científico-política
Utopia, demografia e desejo
Mal-estar no Welfare State
Os quatro cavaleiros do anti-apocalipse
EPÍLOGO
