Cap. I - Marlowe como modelo (acesso parcial)
Saturday, September 13th, 2008Marlowe como modelo
Não havia nenhuma outra maneira de se olhar o caso. Há coisas que são fatos, estatisticamente falando, no papel, numa fita gravada, nas provas. E há coisas que são fatos porque têm de ser fatos, porque não existe mais nada que faça sentido.
Philip Marlowe[1]
A psicanálise apóia-se mais nos sentidos do que nos fatos. É uma espécie de semântica - considerando-se sobretudo que no tocante à semântica não temos absolutamente nenhuma outra…
Octave Mannoni[2]
Não existe, obviamente, qualquer motivo para surpresa diante da aproximação entre os dois ofícios consagrados à intrusão ; a etimologia, por sua vez, não vai além de confirmar prosaicamente que a raiz latina para “detectar” significa “descobrir”.
Quando se tratou de encontrar no mundo profissional uma analogia esclarecedora para ilustrar o tipo de trabalho feito pelo psicanalista, Freud recorreu à arqueologia. Enfatizava assim a exumação de um passado remoto, cujo acesso é tão pautado por dificuldades como marcado pela imprevisibilidade. A comparação se estendeu a outro aspecto: o caráter fragmentário das recordações individuais e dos vestígios de civilizações extintas impressiona pela aparente aleatoriedade e insignificância.
A caça ao tesouro dos faraós e a localização exata do trauma sexual infantil são para a arqueologia e a psicanálise o que a alquimia representou em relação à química. Salvo raras - e enganosas - exceções, o “… então, isso foi tudo o que restou de…?” parece impor-se enquanto primeira e inevitável reação diante das ruínas. Na seqüência, a persistência, virtude que brota nos escombros da decepção, moverá toda a maquinária do esforço dedutivo. Há, porém, na démarche psicanalítica, um aspecto cujo símile a comparação com a arqueologia seria incapaz de oferecer : a sedimentação da infinita poeira em nada evoca algo parecido às razões pelas quais tantos ex-votos recusados são sepultados com vida em cemitérios ignotos cuidadosamente murados.
O detetive do passado
Numa época em que a psicanálise buscava afirmar a própria respeitabilidade para escapar ao estigma proveniente dos mais diversos credos ofendidos pelas suas inconveniências, esse sábio que protegia o valioso crânio do sol tropical com o mesmo chapéu dos exploradores coloniais emprestou-lhe a simpática imagem de um aventureiro sério e responsável.
Algo semelhante emerge quando se examinam os laços entre a ciência dos sonhos e a “grande arte”. A presença contumaz de autores como Sófocles, Shakespeare e Goethe em páginas dedicadas à ejaculação precoce, coprofilia e sado-masoquismo, além da finalidade precípua de ilustrar com personagens e situações célebres os paradoxos da alma humana, certamente tornava mais respirável a sombria atmosfera das catacumbas mentais. Criava-se assim uma aura capaz de tranqüilizar aqueles contemporâneos - especialmente o “leigo culto” a quem Freud se dirigia preferencialmente - já isentos de hipocrisia mas mesmo assim sujeitos, em maior ou menor grau, aos preconceitos vigentes.
A ilustre companhia e o belo estilo uniram-se para angariar o apoio do argumento “dize-me com quem andas” e atenuar o impacto provocado por certos detalhes escabrosos não escamoteados pelo autor. No pior dos casos, o testemunho e a reivindicação de uma herança cultural compartilhada com seus críticos se apresentava como elemento de conciliação e compensação para a radical ruptura instaurada.
Sabe-se que o anseio de Freud pelo reconhecimento científico permaneceu frustrado ao longo de toda sua vida, situação em relação à qual os aplausos colhidos junto ao mundo artístico não ofereciam senão um pálido consolo. Nessa perspectiva, talvez até mesmo a outorga do prêmio Goethe (1930), motivada pelas características formais de sua obra, se assemelhasse a uma bofetada com luva de pelica: a homenagem pela destreza no emprego da pena soava à maneira de um irônico comentário em relação às pretensões teóricas - como homem da ciência, Freud não passaria de um excelente escritor… Da aproximação tentada pelos surrealistas, atraídos pela valorização dos fenômenos oníricos e o “automatismo inconsciente”, tampouco restou muito mais do que um célebre desenho de Dali.
Cinqüenta anos depois da morte do patriarca, muitas coisas mudaram, embora a suspeição permaneça pairando sobre a prática do divã como uma eterna espada de Dâmocles. O descrédito atual, entretanto, parece restringir-se essencialmente à eficácia do tratamento. As críticas endereçadas ao psicanalista assemelham-se cada vez mais às que visam o especialista médico: honorários altos ou inacessíveis, resultados discutíveis, frieza ou indiferença perante o sofrimento do paciente. Mas assim como a existência de Deus não era posta em dúvida pela prevaricação dos párocos e a crença em células e vírus sobrevive sem abalo aos óbitos devidos à eventual imperícia dos esculápios, um paradoxo semelhante parece reger o contraste entre o crescente prestígio da obra freudiana e as queixas de que são alvo seus representantes.
Contesta-se preferencialmente o método, a duração do tratamento, os riscos e desconfortos, suas limitações (psicose); o busto do homem de olhar penetrante e charuto empunhado, metade do rosto mergulhado em sombra, permanece ao abrigo desses dardos inoportunos. O valor teórico da psicanálise passa por uma fase de consolidação incólume à existência de críticas e maledicências. O seu poder de atração multiplica-se, parece quase impossível ignorá-la enquanto ponto de referência. Demonstração suprema, o termo inconsciente incorporou-se definitivamente ao vocabulário científico. Por vias independentes - e sem excluir a polêmica - a lingüística de Saussure e a antropologia estrutural certamente contribuíram para essa assimilação.
A imagem do psicanalista hoje parece oscilar entre duas posições tão distantes como as evocadas de um lado pelo solene pragmatismo britânico e de outro pelos salões que servem de palco à brilhante intelectualidade parisiense. O tempo dirá se Lacan pode ser considerado um misto de Voltaire, Robespierre e Napoleão, isto é, alguém que após inspirar e promover a revolução instaurou uma tirania semelhante à que fôra derrocada, com a mesma vocação expansionista. Talvez a analogia seja apressada e maladroite, mas uma coisa, pelo menos, é certa: após a passagem do furacão lacaniano, a geopolítica do continente psicanalítico jamais será a mesma. O funcionamento e o poder das instituições, a transmissão da doutrina, o processo de formação do analista, as diretrizes da terapia, suas regras e principalmente a teoria foram convulsionadas a um grau extremo. Nenhum dos paradoxos do lacanismo é tão interessante como esse contraste entre sua popularização endêmica e o absoluto hermetismo da rede conceitual que o envolve.
Um quadro bastante diferente se configura quando ouvimos o discurso da psicanálise através do sotaque inglês. Aqui parece ter prevalecido o modelo médico; as disputas internas são abafadas por tapetes suficientemente espessos para abafar gritos e diatribes, estabelecem-se acordos entre as facções discordantes e o esprit de corps impõe-se enquanto regra fundamental. Kleinianos, ortodoxos e independentes convivem pacificamente no seio da Sociedade Britânica, ou pelo menos mostram-se cientes de que qualquer alarde sobre as eventuais discrepâncias internas só servirão a interesses alheios.
Os textos primam por um tom acadêmico, reservado, através do qual as hipóteses ou contribuições mantêm-se dentro de expectativas moderadas, revelando autores ciosos em não transgredir os cânones vigentes. Ao contrário do que aconteceu em Paris, as inovações kleinianas não resultaram em dissidências e fracionamentos disruptivos ou incontornáveis. O modelo britânico parece ter conseguido a façanha de combinar uma imagem douta de profissional universitário - fleugmático, sério, levemente cordial - com o incômodo material, arriscado e contaminante, destilado nessas consultas onde as luvas protetoras não fazem parte do equipamento.
No caso do kleinismo, poder-se-ia quase falar de um xamanismo de gravata (ou tailleur). O paciente é convidado a reviver as agruras de seu primeiro ano de vida, com a correspondente exacerbação afetiva e os extremos transferenciais de praxe, em paralelo às queixas e louvações canalizadas para um personagem tão essencial como só pode sê-lo a figura materna perante seu bebê. Tangida pelos ventos das projeções e idealizações, a análise busca promover a integração da personalidade cindida e ruma em direção à terra firme de uma visão de mundo onde a tolerância perante a frustração constitui o exemplo máximo de amadurecimento.
Do outro lado da Mancha, tais preocupações são objeto de sarcasmos, ainda que os mais corrosivos atravessem o Atlântico como mísseis de longo alcance. O “ortopedismo” da psicanálise kleiniana seria um desvio quase insignificante quando comparado aos males do culturalismo norte-americano, considerado por Lacan uma verdadeira degeneração da teoria freudiana, conseqüente à estratégia de misturar uma histologia tão incompatível como a das profundezas abissais psicanalíticas com determinações sociais inspiradas no ambientalismo skinneriano.
(De fato, a leitura dos textos culturalistas produz uma sensação de extravio; tudo se passa como se o turbulento mundo interno suposto por Freud houvesse desaparecido sem deixar vestígios, volatilizado em algum ponto entre Wall Street e Beverly Hills, meças da domesticação do desejo pela cornucópia da fortuna e do hedonismo impecavelmente instrumentalizado).
O figurino do lacaniano prototípico exige a absoluta sofisticação dos meios de expressão - oral e escrita - como condição sine qua non; a demonstração de posse do atributo hermético não dispensa, vez por outra, o sacrifício de algum interlocutor atônito deixado no caminho. Os reiterados cismas que subdividem incessantemente os grupúsculos lacanianos - por menores que sejam - além de justificar Zenon de Eléia e o cálculo infinitesimal oferecem uma excelente ocasião para a redação de alegatos eloqüentes, onde as alusões teóricas constituem o condimento básico.
Nesses torneios retóricos o importante é mostrar a que extremos de contradição com os ditames do credo professado - freudiano e/ou lacaniano - o adversário foi capaz de chegar. Uma ironia demolidora, inoculada preferencialmente em reticências maliciosas, costuma proliferar em tais exercícios.
É evidente que a prática exercida por personagens tão dispares teria que refletir essa distância. Cedendo ao risco da simplificação, propor-se-á o termo educação para caracterizar um dos aspectos mais persistentes da terapêutica kleiniana, enquanto o sentido figurado do verbo épater, visto condensar o campo semântico dividido entre a estupefação e o escândalo, fica encarregado de ilustrar aquela que seria, por excelência, a atitude clínica lacaniana.
O divã torna-se assim uma espécie de arena onde se trava o duelo entre os modelos paramédico e parafílosófico da psicanálise, este último tão próximo do relativismo sofista quanto o primeiro do Bildungsroman. Um lacaniano convicto apontará a própria demanda de análise como o pior dos sintomas, mesma situação do contrabandista que atravessa a fronteira com o carrinho de mão repleto de mercadorias isentas de taxação - o contrabando era o próprio carrinho. O desejo de saber sobre o desejo supõe um saber e seu agente “suposto saber”; logo, o fio de Ariadne será precisamente esse aspecto da relação, privilegiado a ponto de eclipsar as outras formas que a transferência possa assumir. Caberia ao analista oferecer-se e esquivar-se incessantemente como um toureiro cuja excelência reside na capacidade de exacerbar, graças às expectativas simultaneamente despertadas e frustradas, a ilusão que anima as investidas (e os investimentos…) do analisando. Assim, a interpretação, instrumento essencial da intervenção freudiana, cai sob o anátema de uma visão tão anti-intelectual na prática clínica como enamorada da erudição a nível teórico.
No extremo oposto, os discípulos de Melanie Klein conferem plena legitimidade ao pedido de um paciente definido muito mais prosaicamente - alguém que espera construir um novo padrão de relacionamento com a finalidade de evitar frustrações e atritos. Ao consentir com esse tipo de demanda, o ocupante da poltrona desloca-se estrategicamente de maneira a poder interceptar e canalizar a mensagem ambivalente, graças à qual as escolhas objetais e a natureza do vínculo assumirão precisamente a forma que motiva a queixa.
Dir-se-ia que no momento atual a prática psicanalítica passa por vicissitudes semelhantes às que presidiram o intenso debate teórico travado, na primeira década do século, entre Freud e dois de seus discípulos mais próximos. Não se trata de tomar posição em relação à questão das dissidências, tema geralmente abordado através do viés das filiações e contaminado de praxe por adesões prévias e posturas apriorísticas em relação aos aspectos envolvidos na controvérsia.
A um exame retrospectivo mais isento, aquela crise teórica se afigura simultaneamente necessária e benéfica. Para além das questões pessoais, amplamente exploradas pelos biógrafos, restou o confronto de idéias e seus resultados. O teor das teses freudianas sobre a sexualidade infantil sofreu críticas provenientes de ângulos bem diferentes, e se Freud foi capaz de manter as próprias posições airosamente, não conseguiu, entretanto, incorporar aquilo que, descartado o invólucro contestatário, poderia constituir um conjunto de contribuições significativas.
Tanto a ênfase concedida por Adler à luta pelo poder, consubstanciada pela disputa em torno ao falo (mesmo se na sua ótica reificadora este permanecesse confundido ao pênis), como o conceito de fantasia retrospectiva formulado por Jung (que pleiteava a reavaliação dos laços entre sexualidade e afetividade na infância), teriam facilitado certos avanços na concepção freudiana do Édipo caso pudessem ter sido devidamente avaliados. Por outro lado, não é menos verdade que, a longo prazo, a trajetória freudiana acabou por recuperar o terreno perdido, reintegrando a dimensão inerente a esses fatores (agressividade, rivalidade, ligação entre erotismo e vida afetiva) então relegados ao exílio das heresias.
A mesma marca de unilateralidade que caracterizou as posições de Adler e Jung parece onerar agora as inegáveis contribuições de Lacan e Klein. A insistência em questionar o desejo do analista, trazendo à tona os efeitos de identificação produzidos no analisando, constitui certamente uma aquisição significativa por todas as implicações decorrentes, sobretudo a denúncia dessa tendência à mimetização entre um suposto saber e o lugar da verdade.
Similarmente, a constatação da intensidade e da vigência dos efeitos referentes às vivências precoces, com suas derivações expressas pela cisão e pela ambivalência, representa um passo fundamental para a compreensão do processo de constituição do sujeito, ao fazer emergir suas primeiras camadas, compostas de material “psicótico”. Resta saber, entretanto, se essas verdadeiras descobertas justificam a secundarização, ou mesmo a obliteração, do modus operandi freudiano. Examinando em detalhe as preconizações das duas correntes, tem-se a impressão que uma sabe de antemão que nenhum achado vale tanto como a astúcia prévia de erigir em alvo absoluto o próprio desejo de “achar”; a outra, transitando em direção oposta, antecipa o material a ser captado, invariavelmente o mesmo, visto que ele se encaixa à perfeição no molde destinado a filtrar e acolher - mais à moda de Procusto do que à maneira de Proust - os derivados das primeiras angústias e respectivas defesas, conferindo assim ao comportamento do paciente a estereotipia do bebê.
Os lacanianos estão demasiadamente avisados da inutilidade de qualquer trabalho a serviço de determinado “saber” e adotam uma estratégia semelhante à de certa heresia medieval cujos seguidores mortificavam a carne entregando-se contritamente ao prazer “desregrado”, sem trégua nem quartel. Em compensação, os seus antípodas positivistas acreditam piamente na possibilidade do conhecimento. Dir-se-ia que o “nada sei senão que nada sei” de uns e o “sei que sei ou que saberei” de outros se unem para calafetar os respiradouros do mistério. Entre o niilismo paradoxalmente militante dos primeiros e certo realismo ingênuo dos segundos perde-se justamente o essencial da aposta freudiana, esse “não sei mas talvez possa descobrir” que constitui o mote de sua intervenção. Uma tendência a identificar-se com os emblemas de um mestre sarcástico e inacessivel ou à continência de uma educadora firme e compreensiva parece orientar alternadamente as escolhas modelares dos postulantes à herança dessa vocação referenciada entretanto pelos riscos da decifração.
Na contramão, há razões para conjeturar se já não é tempo de recuperar a imagem inspiradora do arqueólogo, acrescida de um toque detetivesco; algo que poderia sintetizar-se através de uma fórmula não muito canônica: Champollion + Marlowe.
Marlowe aluga um divã
Quanto a Champollion, il va de soi. O decifrador da escrita hieroglífica não carece de apresentação e suas credenciais mais do que justificam uma homenagem honoris causa. Não é, certamente, o caso de Marlowe. O oficialismo psicanalítico provavelmente franza um nariz contrafeito perante essa materialização do xeretismo semi-clandestino, repetindo os guarda-costas dos milionários e gangsters (freqüentemente reunidos numa pessoa só) que infestam os enredos de Chandler. O fato, em si, tampouco é necessariamente desencorajador; Sherlock não se consagrou patrono de imediato e a maiêutica socrática foi acumulando sua pátina de glória ao longo de lentos séculos.
Elaboremos, portanto, antes de mais nada, um rápido inventário das razões alegadas, à maneira do cartão que o detetive oferece ao olfato desconfiado de seus involuntários anfitriões:
1) relacionamento variando de tenso a abertamente hostil entre o investigador particular e a polícia, cujo paralelismo com a guerra fria entre a psicanálise e a psiquiatria será abordado adiante;
2) caracterização do cliente através da intenção contraditória; alguém que quer saber (achar, reaver) “tudo” …menos aquilo que o compromete;
3) busca de sentido, suposto necessário e presente nos ínfimos detalhes (que nos livros de Chandler deixam de ser “pistas”, “provas” ou “indícios”, típicos do romance policial tradicional, para se transformarem em atitudes, motivações e valores dos implicados);
4) enfrentamento de inúmeros obstáculos que se interpõem no caminho da investigação. Todos os protagonistas em posse de alguma informação têm um bom motivo para escondê-la, exatamente à maneira de uma resistência, obrigando o detetive a elucidá-lo;
5) confronto plural com a sedução (personificada geralmente por louras esguias confortavelmente instaladas em algum ninho de águia da escala social), a violência (o mundo do crime, sempre institucionalizado e operando através de fachadas estritamente legais, o que é quase dizer: superego), e o poder econômico (interessado sobretudo em imunidade e silêncio, metáfora do “benefício secundário”).
Os atritos com a repressão a serviço da lei, já mencionados, não fazem senão complementar o último item. A polícia tem um papel claramente definido nos livros de Chandler; serve à justiça quando pode, e a interesses bem menos abstratos sempre.
Cabe lembrar que essa visão corrosiva constitui uma novidade considerável, já que costumeiramente a literatura do gênero restringe o confronto entre o herói solitário e a instituição às dicotomias inteligência/força, agilidade/lerdeza, sigilo/alarde. Em Chandler, a organização é menos poderosa, lenta e invasiva que brutal, desonesta e exorbitante; empenha-se com zelo desde que a ameaça criminosa coloque em risco membros de um determinado segmento social.
Caso contrário, prefere dedicar-se à caça bem menos arriscada de bodes expiatórios. Marlowe move-se numa senda estreita, espremida entre a transgressão e a repressão, freqüentemente mancomunadas nos mesmos termos da célebre metáfora fotográfica de Freud[3], e seu combate se dá em duas frentes. Qualquer semelhança…
A démarche demonstrativa precisará ziguezaguear continuamente entre o conteúdo manifesto das páginas de Chandler e o latente dos textos freudianos. Antes de ingressar nesse arriscado exercício de barras paralelas, será útil, à guisa de procedimento propedêutico, visitar um livro onde o parentesco entre o onirócrita de Viena e o private eye californiano se ofereça diretamente a partir da própria temática. A finalidade não é outra senão plausibilizar de imediato a aproximação bem mais ambiciosa visada a seguir.
The High Window, publicado em 1942, não ficaria nem um pouco deslocado entre os históricos de caso relatados em Estudos sobre a Histeria (1895). Tampouco Miss Merle Davis é uma heroína que destoe de congêneres como Lucy R., Elizabeth von R. e Katharina, esta última sendo protagonista de um verdadeiro conto policial escrito por Freud. (Trata-se aliás de uma rara ocasião em que o mestre do divã agiu sem seu instrumento favorito - desarmado, por assim dizer. Protagonizando uma das mais clássicas situações encenadas pela novela detetivesca, o ex-neurólogo é chamado a intervir quando gozava merecidas férias alpinas, para desencavar mais um trauma sexual oculto entre os enigmáticos indícios fornecidos pela memória solidamente bloqueada da vítima, sobrinha da estalajadeira que o hospedava).
Reciprocamente, o 4º caso dos Estudos sobre a Histeria poderia ser perfeitamente incluído numa pulp magazine. O texto obedece às mais típicas convenções do gênero policial: é narrado em primeira pessoa, não dispensa um discreto humor irônico e instila lentamente o clima de mistério necessário à atmosfera de suspense desejável.
Nas férias de verão do ano de 189… fiz uma excursão ao Hohe Tauern, de modo que por um momento pudesse esquecer a medicina e mais particularmente as neuroses. Quase havia conseguido isso quando um belo dia…
começa Freud, e após descrever a bucólica paisagem descortinada de uma elevação, prossegue:
… estava tão absorto em meus pensamentos que a princípio não as relacionei comigo quando as palavras alcançaram meus ouvidos: “O senhor é médico?” Mas a pergunta fôra endereçada a mim, e pela moca de expressão um pouco amuada, de talvez dezoito anos de idade, que me servira a refeição e à qual a senhoria se dirigira por “Katharina”. Voltando a mim respondi: “Sim, sou médico; mas como soube disso?”
A moça responde prosaicamente que folheara o livro de registro da hospedaria e acrescenta:
… A verdade é, senhor, que meus nervos estão ruins. Fui ver um médico em L. por causa deles e ele me receitou alguma coisa, mas ainda não estou boa.
A medicina não dá conta (exatamente como a polícia em Chandler). Ao melhor estilo do especialista incapaz de fugir à sua sina, o autor comenta, entre lisonjeado e aborrecido:
Assim, lá estava eu novamente às voltas com as neuroses - pois nada mais poderia haver de anormal com aquela moça de constituição forte e sólida e de aparência infeliz. Fiquei interessado em constatar que as neuroses podiam florescer a uma altura superior a 2000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas.
O problema se resolve ao cabo de dez páginas dominadas por diálogos e encerradas com uma sucinta avaliação metodológica:
Se alguém afirmasse que o presente relato não é tanto um caso analisado de histeria quanto um caso solucionado por conjeturas, nada teria a opor.
Mais tarde, quando a teoria do trauma já fizer parte da história, Freud abandonará a distinção entre “caso analisado” e “conjeturas” - na mesma medida em que os sólidos fatos supostos na origem da neurose se volatilizam para assumir a forma imprecisa e cambiante das nuvens sopradas pela fantasia.
Também Chandler parece ter aderido, uma vez pelo menos, e ainda que a nível manifesto, à concepção traumática. É o que se depreende da trama desenvolvida em The High Window. Desta feita a cliente está longe de ser a habitual beldade ambígua; parece-se mais a um dragão feminino cuja incandescência dir-se-ia regada a doses intermináveis de Porto, seu remédio contra a asma.
Marlowe é chamado a recuperar uma raridade numismática desaparecida da coleção herdada por essa sombria viúva reincidente cuja semelhança com a célebre aranha não seria de estranhar. A intenção nem tão oculta é incriminar a nora pelo roubo, ato prévio à reintegração de posse do filho, cujo casamento parece constituir um tardio gesto de revolta. Unindo o útil ao agradável, a comprovação de um delito tão conveniente poupará à Sra. Murdock o desembolso de qualquer pensão conseqüente ao divórcio.
Ao longo da história o foco desloca-se lentamente para uma figura secundária, a secretária da entusiasta apreciadora de vinhos portugueses. A moça, por seu turno, é portadora de certos sinais inequívocos. ” Não me toque“, pede a Marlowe assim que se conhecem. ” Por favor. Nunca consenti que um homem me tocasse“.
Algumas páginas adiante é introduzido um personagem cuja identidade secreta não é tão difícil de adivinhar, principalmente depois que o Dr. Carl Moss nos é descrito como “… um judeu corpulento com um bigodinho a Ia Hitler, olhos salientes e a calma de um glaciar“. Em contigüidade que não poderia ser casual, sua aparição é sucedida pela de um móvel peculiar: “Pôs o chapéu e a malinha em cima de uma cadeira, aproximou-se do divã e ficou parado a olhar para a rapariga estendida nele“.
O rápido diálogo seguinte desfaz qualquer dúvida que tenha permanecido:
- Onde lhe dói, Miss…
- Merle Davis… Não me dói nada - declarou ela, fitando-o com olhos muito abertos. - Nem… sequer sei o motivo porque estou aqui deitada. Pensei que o senhor era da polícia. Compreende, matei um homem.
- Bom, isso é um impulso normal da natureza humana …
e visivelmente inspirado por Grouxo Marx, Moss acrescenta: - “Tenho morto dúzias deles“. A seguir, faz um rápida demonstração de diagnóstico diferencial:
- Você sabe que não precisa fazer isso. Você sente os nervos tremerem aqui e ali e trata de dar a conhecer o fato e a dramatizá-lo. Você pode dominar a coisa, se assim o quiser.
- Posso? - murmurou ela.
- Se quiser - volveu ele - não tem necessidade de o fazer. Para mim, isso não faz a mínima diferença.
Tendo atraído o detetive para um cômodo contíguo, pergunta-lhe pelas circunstâncias da crise.
- Qual é a história?
- Ela é secretária de uma cliente… uma autêntica bruxa. Há mais ou menos oito anos um homem pretendeu meter-se com Merle. De que maneira, não sei dizer-lhe. Depois… não quero dizer que tenha sido imediatamente a seguir, mas, pouco ou muito tempo depois, esse homem caiu ou atirou-se de uma janela. Desde então ela não consente que um homem lhe toque, nem mesmo da forma mais casual e inocente.
- Hum-hum! - Os seus olhos salientes continuavam a perscrutar-me o rosto. - Ela pensa que ele se atirou da janela por causa dela?
- Não sei. A Sra. Murdock é a viúva do homem. Ela casou-se novamente e o segundo marido morreu também. Merle ficou na companhia dela. A velha trata-a como se ela fosse uma parente pobre e indesejável.
- Compreendo. Regressiva.
- O que é isso?
- Choque emocional e o subconsciente procura regressar à infância. Se a Sra. Murdock a trata mal, mas não muito, isso aumenta a tendência. Identificação de subordinação infantil com proteção infantil.
- Precisamos de nos meter em explicações que não explicam nada?
Ele sorriu cheio de calma.
- Ouça, meu velho. A rapariga é, sem qualquer dúvida, uma neurótica. Parcialmente induzida, parcialmente por deliberação própria. Quero dizer que ela goza com o fato. Mesmo que ela não se dê conta desse gozo. Contudo, isso não tem importância imediata. O que há a respeito de ela ter morto um homem?
É exatamente o que Marlowe se propõe a descobrir. O paladino da atribulada heroína acabará por provar-lhe a inocência, não só em relação ao crime que ela assume como no que se refere a um outro apropriadamente sepultado na memória - e tão atuante como os traumas segundo o velho testamento freudiano. A investigação segue linhas absolutamente semelhantes às que nortearam a atuação do discípulo de Charcot durante a vigência da famosa teoria do trauma, e não deixa de evocar os mesmos motivos que o teriam levado a elaborar o conceito da resistência:
Nesse momento tive um dos meus engraçados palpites, muitas vezes infundados.
- Ouça, há alguém que você conheça que exerça sobre si esse efeito? Uma pessoa mais do que outra qualquer?
… - Por que lhe hei de dizer uma coisa dessas?
… - Não o faça. Mas a verdade é que se sente inclinada a fazê-lo.
- Promete-me não contar a ninguém… a ninguém no mundo, nem mesmo à Sra. Murdock?
- Ela seria a última pessoa - declarei. - Prometo.
Ela abriu a boca, um pequeno sorriso confiante apareceu-lhe no rosto, mas depois tudo se escangalhou. A garganta paralisou-se-lhe. Um som muco e animalesco saiu-lhe de lá. Os seus dentes começaram a bater.
Bloqueado o acesso direto ao trauma, Marlowe percorre um meândrico trajeto no mesmo labirinto onde Freud foi obrigado a reinventar o fio de Ariadne. Não é de surpreender que sua cliente oficial, a Sra. Murdock, se arrependesse de tê-lo chamado. Numa última tentativa de fechar a caixa de Pandora, ela dirá ter reencontrado a moeda. Mas há muito o detetive se desinteressou por esse “sintoma” que apenas escondia algo bem mais importante.
- Sr. Marlowe - observou ela - eu e o senhor teríamos feito muito melhor se não tivessemos feito qualquer contrato. Em primeiro lugar, cometi um erro em o contratar… teria sido muito melhor se eu nunca tivesse levantado o problema. A perda da moeda seria muito mais fácil de suportar do que a sua pessoa. Mesmo que não conseguisse sua devolução.
- Mas a verdade é que conseguiu…
- Sim. Consegui a sua devolução. O senhor ouviu como.
- Não acreditei na história.
- Nem eu - retorquiu ela calmamente. - O louco do meu filho estava simplesmente a querer arcar com as culpas de Linda. Uma atitude que eu acho de criança.
- A senhora tem uma espécie de dom - comentei - de se rodear de pessoas que tomam tais atitudes.
Eís aí Marlowe às voltas com dois tipos de resistência bem diferentes; a primeira reivindica a culpa em nome dos secretos prazeres associados ao sacrifício ou ao martírio, a segunda procura a imagem da inocência ultrajada. Se Merle Davis e a Sra. Murdock forem as efígies da mesma moeda roubada não será absurdo conjeturar que Chandler constrói uma teoria do desejo muito semelhante à do seu êmulo radicado em Viena…
A proximidade entre ambos não se esgota nesses aspectos. Pressionado a revelar suas informações aos policiais designados para o caso, Marlowe resguarda a identidade da cliente invocando sua ética de investigador particular, cujo primeiro dever é o sigilo. Mas quando seus interlocutores lembram que se trata de um caso de assassinato, o detetive expõe abertamente as razões, bem mais contudentes, pelas quais se reserva o direito de não cooperar. Os argumentos invocados valem-se do exemplo de um certo “caso Cassidy”, não muito lisonjeiro para seus interlocutores. Levado às cordas, o tenente Breeze não pode furtar-se a ouvir pesadas críticas, muito parecidas aliás àquelas que Freud dirigia à psiquiatria quando ainda precisava reivindicar contra o corporativismo médico um espaço de atuação1.
Após mostrar que a polícia se empenha muito mais em inventar soluções convenientes do que “procurar a verdade e encontrá-la”, o detetive reafirma que “enquanto isso acontecer “, ele se dará o direito de seguir os ditames “da própria consciência e de proteger o cliente da melhor forma que possa… até ter a certeza de que vocês não lhe farão qualquer mal…”
No último diálogo do texto, antes que Marlowe possa retornar a seus problemas de xadrez (”…uma partida de xadrez bela, fria, quase arrepiante em sua implacabilidade silenciosa…”) o tenente reconhecerá - com essa mistura de arrogância e condescendência que marcou durante décadas a atitude do mundo oficial psiquiátrico em relação à talking cure - que a investigação particular e marginal talvez tenha conquistado um lugar ao sol. “Por causa do caso Cassidy e pela sensação que produziu em mim, muitas vezes dou uma oportunidade a tipos que talvez não a merecessem… “
Mas se a maioria das circunstâncias descritas em The High Window lembra sobretudo a fase heróica da psicanálise, com sua fé quase inabalável no poder transformador da verdade, a auto-avaliação de Marlowe enquanto terapeuta de miss Davis segue os critérios bem mais cautelosos do Freud maduro que restringia os benefícios da psicoterapia ao modesto alcance de resgatar o paciente preso no “inferno da neurose” apenas para depositá-lo, menos são que salvo, na “miséria do quotidiano”. Similarmente, quando miss Davis está prestes a retornar ao regaço familiar devidamente transportada por sua segunda cegonha, Moss é incapaz de alimentar as ilusões do detetive e responde à
[1] Playback, de Raymond Chandler.[2] A psicanálise e a ciência.
[3] A neurose como negativo da perversão.
