Archive for the ‘Freud, Marlowe & Cia’ Category

A afasia e a questão da delimitação entre o psíquico e o orgânico (acesso parcial)

Saturday, September 13th, 2008

 

A afasia e a questão da delimitação entre o psíquico e o orgânico

 

O múltiplo interesse da afasia

Se o impacto da primeira frase vale o risco da boutade inglória, este capítulo procura acertar com o subtítulo alegórico supra. Além da cumplicidade na sutileza que toda paródia ameaça ou promete angariar, a alusão ao conhecido frontispício freudiano pode justificar-se através da intenção de apontar para uma área cujo esquecimento deve-se sobretudo ao cerco protetor de tabus que ameaçam o intruso (não-médico) com toda força de seu arsenal anatêmico.

Há muito estabeleceu-se um  acordo tácito entre a psiquiatria e a psicanálise, ou, melhor dito, entre suas respectivas cúpulas, lembrando um pouco a divisão do mundo em áreas de influência que sucedeu à segunda grande guerra. Famílias aliadas, não surpreende que entre colóquios, debates e congressos tenha acontecido algo mais sério. Seja como for, a psicodinâmica está aí e não caiu exatamente do céu. Nem todos os bastardos são párias, ensina a história da aristocracia. As velhas dinastias decadentes sabem socorrer-se onde é necessário, e, por outro lado, reconheça-se que não é fácil ignorar os acenos de um brasão prestigiado como o da medicina.

Os poderes se atraem na razão direta do peso de suas elites. Entretanto, este texto não pleiteia minimamente as atribuições da crítica social, menos por discordância que por sabê-la suficientemente empreendida, dentro e fora dos círculos psicanalíticos, oficiais ou dissidentes. Assim, do casamento por interesse entre psicanálise e psiquiatria só se tratará na medida em que for necessário demonstrar sua impossibilidade de gerar senão híbridos estéreis, por mistura de pressupostos in­compatíveis.

A pretensão é outra; trata-se de levar o foco a um terreno vi­zinho à epistemologia, palavra excessiva para designar a seriedade modesta dos temas que se quer discutir. A afasia e sua história, rica em debates cujo interesse excede amplamente o âmbito clínico, permite, mais do que qualquer outra via, percorrer os si­nuosos labirintos de uma questão não menos fundamental porque abandonada em represália à dificuldade de resolvê-la.

Está em pauta mais uma vez a questão das relações entre o neurológico e o psicológico, o substrato orgânico e a subjetividade, questão que em época não tão remota recebia a marca eloqüente de duas palavras ora repudiadas devido a uma imprecisão que hoje nos parece inaceitável: cérebro e mente. A lamentar, uma perda de sonoridade.

Acrescente-se, retomando a primeira argumentação, que às dificuldades inerentes a um tema tão complexo, soma-se o peso de algo conhecido como interesses adquiridos. A psicanálise oficial tornou-se adaptacionista, logo não se precisa quebrar a cabeça para saber com quem anda. Quando o paciente ou analisando resiste aos bons ofícios da Circe cuidadosamente escolhida/recomendada, só resta enviá-lo ao Procusto de Plantão nas encruzilhadas psiquiátricas, em cujo leito, graças a exercícios de alongamento, prótese e amputação, todos acharão a medida exata. Talvez soe muito denunciativo;  o  problema  é  que,  ressalvas  à parte, parece  difícil conseguir um ângulo mais fotogênico.

O acima exposto está longe de constituir um inventário exaustivo das   dificuldades a enfrentar. Há também o que poderíamos chamar de clinch neurológico. Cansado de bater num joão-teimoso, o organicista passa a evitar a resposta abraçando o contedor ou aproximando-se tanto dele que a distinção entre ambos fica difícil. De fato, parte imersa do iceberg, a recente literatura neurológica sobre o assunto tem ares de confissão: todos os autores recenseados parecem concordar finalmente com algo que Hughlings Jackson proclamava há muito, quando os exércitos da ciência só ouviam as fanfarras que anunciavam sua vitória imi­nente. As atuais concessões centram-se na admissão de que os conhecimentos adquiridos sobre a anatomia e fisiologia do cérebro, bem como suas relações com as chamadas funções psíquicas superiores, são insuficientes para reduzir a significação do re­pertório humano ao substrato orgânico.

Duvidar-se-á da sinceridade dessas declarações? Questão ociosa. Por uma parte, são o que há de visível. Infinitamente menos divulgadas (salvo se podem alardear um resultado imponente), as pesquisas prosseguem e é inevitável que sua direção seja a mesma, reducionista, ainda que a esperança e a ambição tenha mudado. Em compensação, nos níveis mais baixos da hie-rarquia científica, os inspetores de quarteirão não deixam de sonhar com camisas de força químicas feitas sob medida. A elegância no caso consistiria em descobrir drogas que incidissem apenas sobre o comportamento que se deseja alterar. A exaustiva demonstração da impossibilidade desse ideal - o conhecido princípio da solidariedade cerebral - apenas afeta seus defensores, cuja preocupação com a integridade do indivíduo não peca exatamente por excesso.

Em outras palavras, se se desiste progressivamente de ver na loucura uma doença cerebral, o louco, agora definido cada vez mais pelo ângulo da inadaptação ou dissidência (vide a URSS pré-perestroika, mas não só), é alvo de uma nova pretensão, não menos ambiciosa do que a de sua cura, e certamente mais polêmica: trata-se de controlar o comportamento desviante que tenha escapado às várias formas de persuasão existentes, da TV ao psicólogo compreensivo, mediante desativação, inibição ou bloqueio de certos botões neuronais.

Tudo o que não mata engorda mas nem sempre o que engorda deixa de matar. Na impossibilidade de curar, a psiquiatria aceita humildemente a   sua  nova  missão  a  serviço  do poder; promover a objetivo principal os anteriores malefícios secundários do tratamento.

Eis-nos novamente extraviados no terreno da crítica social, à qual parece condenado todo aquele que resolve falar de psiquiatria…

Os paradoxos não cessam de brotar num terreno tão heterogêneo. Se os luminares da ciência professam agora uma arrependida humildade, nem por isso o âmbito profissional fica isento da disputa de mercado. Então, como se nada tivesse acontecido,  o establishment psiquiátrico abaixa periodicamente o polegar imperial dando sinal verde para que os conselhos profissionais instruam representantes parlamentares no sentido de fazer aprovar uma legislação restritiva ao exercício de atividades ditas clínicas aos não-médicos.

Bem feito! Seríamos tentados a exclamar dirigindo-nos a estes últimos; quem mandou abusar do pó-de-arroz para freqüentar o baile dos brancos em vez de bater-se pelo fim do apartheid? Seja como for, Eurídice continua esperando, talvez não tão impaciente como deveria - ainda não percebeu que a flauta de Orfeu soa melhor que os atordoantes megawatts das discotecas. O caminho para o reino de Belzebú, no caso, está menos calçado de boas intenções do que cuidadosamente minado. Entende-se: seus construtores perceberam, ao empreender a retirada, que a via pela qual haviam atacado tornara-os subitamente vulneráveis.

De Gall a Broca

Para o abelhudo, cujo mínimo conhecimento do sistema nervoso e respectiva nomenclatura remonta à longínqua fase  acadêmica, retomar a essas paragens é o mesmo que soletrar dois adjetivos homófonos, árduo e árido, com os quais um bom lacaniano brincaria páginas a fio, embevecido. Mas se por acaso ou necessidade o candidato a paladino revelar ter bom coração, então o destino irá presenteá-lo com um velhinho sábio, versado em todos meandros da questão e dotado de uma notável capacidade analítica que misteriosamente se abstem de prejudicar seu poder de síntese.

Chama-se André Ombredane; por uma dessas coincidências evocadoras de augúrios residiu no Brasil e o seu livro tem por título L’Aphasie et l’ élaboration de la pensée  explicite [1].

Ombredane tem o dom de atingir o máximo equilíbrio possível entre a exposição detalhada das diversas teorias propostas para decifrar o enigma da afasia e a discussão de questões mais ambiciosas, referentes à relação cérebro/mente, cujas derivações não são menos fundamentais: a articulação entre linguagem, pensamento, comportamento voluntário, inteligência e simbolização. Evidentemente, a abordagem de uma temática com esse pedigree só será profícua se baseada no exaustivo escrutínio dos dados clínicos disponíveis.

Eis-nos portanto atentos como bons alunos, seguindo o passo seguro de mais um mestre francês, dando graças a Deus por ser um pré-lacaniano, imune às obrigações estilísticas do hermetismo. Elegante mas funcional, seu trajeto pode lateralizar-se em obediência aos obstáculos, nunca pelo prazer de andar em círculo.

Antes de capinar em torno ao marco inaugural devido a Broca, Ombredane conduz-nos ao clima mental (traduzir zeitgeist  pode ser pior ainda do que tentar pronunciá-la…) das primeiras décadas do século XIX, quando os espíritos mais audazes da pesquisa científica  perpetravam  a  tomada  da cidadela espiritual mediante a conquista do sistema nervoso, com a finalidade de inviabilizar de vez qualquer pretensão ao benefício da dúvida e impedir as reincidências do pensamento religioso ou filosófico.

A doutrina de Gall (a frenologia) ilustra os exageros de um ataque precipitado, mas seria injusto negar-lhe algum mérito, apesar da anatomia cerebral algo fantástica que propõe. O cérebro, para Gall, sedia desde funções responsáveis pela tendência a prover-se de bens materiais - algo como um instinto da propriedade que certamente deixaria os marxistas apopléticos - até o sentimento da existência de Deus, posto em marcha por neurônios especializados em celebrar rituais religiosos.

A sua teoria desemboca numa craniologia, ou seja, a suposição de que a forma do crânio “…deve-se à ação centrífuga que exerce sobre ele, e que, nas circunstâncias ordinárias da vida, o cérebro preenche de tal forma a cavidade craniana que a forma desta reproduzirá exatamente a superfície cerebral“[2]. Conclui então que bastaria aferir as reentrâncias ou protuberâncias cranianas para julgar do estado de desenvolvimento das estruturas subjacentes. Não é de estranhar a severidade do julgamento a que tal doutrina será submetida quando a neurologia houver decolado. Ombredane clementemente evoca um testemunho mais equânime, e talvez surpreenda a quem o imagine um fanático da parcimônia científica que seu autor seja o próprio Paul Broca:

Gall teve o incontestável mérito de proclamar o grande principio das localizações cerebrais que foi, pode-se dizer, o ponto de partida de todas as descobertas de nosso século sobre a fisiologia do encéfalo… Esquecemo-nos muito facilmente hoje que Gall e Spurzheim foram anatomistas de primeira ordem… Mas constatamos que negligenciaram, como aconteceu com todos os seus antecessores, e como aconteceria durante muito tempo com todos os seus sucessores, a anatomia descritiva das circunvoluções; ora, aí precisamente jaz o nó da questão, pois justamente nas circunvoluções é que eles situavam a sede da maior parte das faculdades intelectuais. O seu sistema repousava portanto numa base anatômica notoriamente insuficiente. As outras bases, a base fisiológica e, se quisermos, a psicológica, eram ainda mais insuficientes[3].

É-se levado a pensar, lendo a descrição de Ombredane, que além das insuficiências em anatomia, fisiologia e psicologia apon­tadas por Broca, Gall revelou-se capaz de uma confusão dir-se-ia típica a julgar pela frequência com que comparece na história da afasia, justamente a decorrente da indistinção entre esses três cam­pos. A sua causa principal talvez resida no afã de pretender derivar as “faculdades intelectuais” do substrato neuroanatômico.

Os seus sucessores serão mais cui­dadosos. De fato, a precipitação de Gall, seguida de uma con­trovérsia onde as vozes leigas se misturaram às do mundo científico, não poderia deixar de desagradar os guardiães da lei. As emoções, crenças e desejos haviam usurpado o trono dos fatos. Gall defendera tão mal a tese de anatomização do espírito quanto um evolucionista que se limitasse a argumentar a favor de nossa ancestralidade símia apelando para a semelhança entre homens e macacos.

Antes do debate assumir a devida circunspecção, a candência do tema reserva o primeiro plano a controvérsias onde as opiniões - mais do que as teorias - em choque ressentem-se da falta de dados. Entretanto, já existe alguma evidência para emprestar certa verossimilhança às pretensões de ancorar a mente no porto seguro do cérebro. Em 1822, Thomas Hood havia relatado um caso de afasia em cuja autópsia revelara-se uma lesão do lobo frontal esquerdo. Bouillaud aventurara-se a propor uma localização cerebral para a linguagem em seu Traité clinique et physiologique de l’encéphalite. No mesmo ano de 1825, ele resume suas opiniões numa comunicação à Academia Real de Medicina sob o título: Pesquisas clínicas destinadas a demonstrar que a perda da palavra corresponde à lesão dos lóbulos anteriores do cérebro e a confir­mar a opinião do Sr. Gall sobre a sede do órgão da linguagem articulada.

Já há muito não se duvidava da relação entre cérebro e linguagem. A natureza dessa re­lação é que constituía o pomo da discórdia, opondo globalistas a localizacionistas. Bouillaud filia-se abertamente à última tendência, seguindo Gall. “A observação“, diz Ombredane, “de que as funções musculares podem ser atingidas de forma dissociada em conseqüência a lesões localizadas do cérebro“[4]  justifica sua adesão. Por banal que pareça essa formulação, será preciso lembrar, adverte o historiador, que somente em 1870 Fritsch e Hitzig puderam demonstrá-la experimentalmente. Um contemporâneo de Bouillaud ainda tinha o direito de recalcitrar: “…o cérebro não exerce qualquer influência imediata e direta sobre os fenômenos musculares“[5]. Até prova em contrário, Bouillaud combaterá decididamente heresias do gênero e de forma coerente proporá que a palavra, esse “grande fenômeno’“, não depende menos de movimentos musculares do que a locomoção e a preensão, devendo portanto possuir uma sede cerebral.

O primeiro round do debate é vencido previsivelmente pelos localizacionistas, malgrando certas deselegâncias de Gall e alguns golpes baixos de Bouillaud, que dir-se-ia trava um duelo pessoal contra seus adversários. Tem-se a impressão que os globalistas procuram minimizar o alcance do mapeamento cerebral, movidos por uma espécie de temeroso respeito. Nos velhos seriados sobre as pirâmides nunca faltava o cientista arrependido que no último momento recua diante do mistério presente nas câmaras milenares onde a múmia repousa protegida por uma maldição expressamente destinada ao violador de túmulos sagrados…

O combate entre a ciência e a religião desloca-se para o interior do campo científico, onde vai beneficiar-se pelo menos de um critério comum aos contendores; a primazia cabe aos fatos.Dificilmente poderá exagerar-se a importância auferida pela afasia nesse momento inicial do estudo das funções do córtex. Realmente, se há algo que simultaneamente reúne a concretude de um comportamento manifesto com a possibilidade de discriminar entre humanos e outros animais é justamente o fenômeno da linguagem.

Ao contrário de conceitos como “inteligência”, “pensamento” ou “vontade”, portadores do duplo estigma associado às suas origens filosóficas e/ou psicológicas,  a expressão verbal é tão aferível como qualquer outro estímulo, sem deixar de caracterizar a especifidade do bípede sem pêlos nem penas em relação a seus companheiros da Criação - ou  assim parece, apesar de todas as descobertas que a etologia continua fazendo sobre a comunicação entre animais.

Em outras palavras, há um poderoso impulso a subsumir “in­teligência”, “pensamento” e “vontade” em “linguagem”, depois que se descobre a possibilidade de situar a última no mapa desse novo mundo intracraniano cuja exploração se tornara subitamente possível graças ao avanço da técnica.

É dentro desse quadro que podemos compreender o impacto da comunicação de Broca à Sociedade de Antropologia. Em 11 de abril de 1861, um certo senhor Leborgne, internado há 21 anos em Bicêtre, é levado até a enfermaria do hospital com gangrena do membro inferior direito. Dois ou três meses antes de ingressar no nosocômio. Leborgne já perdera o uso da palavra. “Era então perfeitamente válido e inteligente e não diferia de qualquer homem sadio senão pela perda da linguagem articulada“[6], escreve Broca. Restara-lhe uma única palavra: “tan”, origem do apelido.

Compreendia tudo quanto se lhe dissesse, mas respondia in­variavelmente pelo monossílabo resquicial. Quando seus interlocutores deixavam de compreender a mímica pela qual se comunicava, a irritação aumentava consideravelmente seu vocabulário: “sacré nom de Dieu”!

Seis anos após ter chegado ao hospital, foi atingido por uma hemiplegia direita que se instalou progressivamente, prejudicando primeiramente o membro superior e depois o inferior. Broca teve Leborgne a seus cuidados durante alguns anos; conhecia perfeitamente a sintoma­tologia do doente e voltou a examiná-lo cuidadosamente por ocasião da gangrena, aferindo a motricidade e a sensibilidade, di­reita e esquerda, testando a integridade das funções. As obser­vações sobre o comportamento voluntário revestem-se de especial importância para a questão das relações entre inteligên­cia e afasia:

Há quanto tempo estava no hospício de Bicêtre? Ele abria a mão quatro vezes seguidas, depois erguia um só dedo; isto significava 21 anos. e vimos pelo acima exposto que esta informação era perfei­tamente exata… Ele podia mesmo compreender idéias relativamente complicadas: assim, se eu lhe perguntasse em que ordem as paralisias haviam se sucedido, ele fazia de início, com o indicador da mão esquerda, um  pequeno gesto horizontal que queria dizer: saquei! De­pois mostrava sucessivamente sua língua, seu braço direito  e sua perna direita, Era perfeitamente exato, levando em conta que atribuia a perda de expressão verbal à paralisia da língua, o que é bem compreensível.

Entretanto, diversas questões as quais um homem de inteligência comum teria encontrado respostas por gestos, mesmo de uma única mão, permaneceram sem réplica. Outras vezes, não podendo transmitir o sentido de certas respostas, o doente se impacientava; outras vezes, enfim, a resposta era clara mas falsa: assim, não tendo filhos, ele pretendia tê-los. Não é pois, discutível que a inteligência desse homem tenha sofrido um comprometimento profundo, seja sob a influência de sua afecção cerebral, seja sob a influência da febre que o devorara; mas ele era evidentemente muito mais inteligente do que se precisa sê-lo para falar[7]

Deixemos de lado a oposição (ingênua) entre mentira e in­teligência, que poderia parecer tão óbvia para umcientista; os comentários de Broca marcam, desde esse momento inaugural, uma postura importante no debate de um dos temas centrais em pauta: a gravidade do sintoma afásico motor não é extensível ao que se chama de inteligência, no caso representada pela capacidade de compreensão e comunicação. Essa afirmação, entretanto, está longe de ser inabalável; ameaçará soço­brar a cada vendaval suscitado por uma nova descoberta.

Leborgne expira uma semana após seu ingresso na enfer­maria. Para a autópsia, efetuada decorrido o prazo de 24 horas. Broca convidou um colega que prometera renegar a tese localizacionista na primeira ocasião em que os fatos o exigissem:

Em resumo, os órgãos destruídos são os seguintes: a pequena circun­volução marginal inferior (lobo temporo-esfenoidal); as pequenas, cir­cunvoluções do lobo da ínsula e a parte subjacente do corpo estriado; enfim, sobre o lobo frontal, a parte inferior da circunvolução trans­versal, e a metade posterior das duas grandes circunvoluções desig­nadas sob os nomes de segunda e terceira circunvoluções frontais. Das quatro circunvoluções que formam o estágio superior do lobo frontal, apenas uma, a primeira e a mais interna, conservou, não sua integri­dade, pois encontrava-se “amolecida” e atrofiada, mas sua con­tinuidade; e se restabelecermos pelo raciocínio todas as partes que desapareceram, constataremos que três  quartos pelo menos da cavi­dade foram perfurados a expensas do lobo frontal.[8]

A partir dessa observação, comenta Ombredane, Broca julga-se autorizado a associar lobo frontal e linguagem. É lícito atribuir essa conclusão algo precipitada a considerações de outra ordem; boa ocasião, aliás, para compreender como preconceitos oriundos de esferas diferentes podem infiltrar-se no corpo da ciência:

Constatamos que há uma espécie de oposição entre o desen­volvimento dos lobos anteriores do cérebro e o dos lobos posteriores; que os últimos predominam nas raças etiópicas, aqueles nas raças caucásicas; e que, por consequência, o volume dos lobos anteriores está relacionado com o predomínio das faculdades intelectuais mais altas, as mesmas que fazem a superioridade ou a inferioridade das raças, aquelas que dão nascimento à civilização e ao progresso… as faculdades superiores do entendimento, consideradas na série humana, crescem e diminuem com os lobos anteriores do cérebro e parece-me difícil deixar de concluir que as mais altas faculdades têm sua sede nas circunvoluções frontais[9].

Essas palavras foram pronunciadas pelo mesmo Broca num debate realizado naquele ano de 1861, na Sociedade de Antropolo­gia. O exame post-mortem de Leborgne permite confirmar as teses de Bouillaud ao mesmo tempo que lhes dá o selo da precisão científica, deixando lugar apenas a uma pequena dúvida residual: “… nesse lobo frontal ele (Broca) descobre uma região limitada cuja lesão parece-lhe responsável, em Tan, pela perda da palavra: a segunda ou a terceira circunvolução frontal, mais provavelmente esta última“[10].

Que esses debates tenham por palco a Sociedade de Antro­pologia mostra por si só o quanto seu interesse excedia o âmbito clínico. Talvez seja essa a razão pela qual o próprio autor da ob­servação se dedique a explorar-lhe todas as conseqüências, sempre guiado pelo caráter paradoxal do fenômeno, por ele batizado de afemia, e cuja característica principal consiste na surpreendente dissociação entre a expressão verbal e inteligência, até então somente distingüiíveis nos casos de mudez, ou seja, um distúrbio do aparelho fonatório.

Não é difícil entender a predileção dos livros de história da ciência por Broca. Gall faz muito mais o gênero do visionário que combina um número ínfimo de fatos com conclusões extrema­mente ambiciosas; Bouillaud não vai muito além: há uma despro­porção notável entre suas afirmações e os dados de que dispõe.

A atitude correta do cientista diante do que parece ser uma descoberta importante acha-se plenamente ilustrada por Broca e cinge-se à circunspecção. Nada de certezas tonitruantes e menos ainda de extrapolações injustificadas; trata-se de coligir e analisar cuidadosamente os fatos. O rigoroso Broca dirige seu olhar para as circunvoluções, às quais o senso comum médico - supondo que se possa usar tal expressão - atribuía tanta importância como às dobras das tripas.

É possível propor uma espécie de quadro evolutivo da teoria localizacionista: Gall,  a forma do crânio; Bouillaud, a im­portância dos lobos cerebrais; Broca, o cuidadoso exame das cir­cunvoluções e a interrogação de suas funções.

Doravante tudo o que se pede é a multiplicação das autóp­sias de afêmicos (o termo afasia ainda está para ser cunhado). O próprio Broca dá o primeiro passo. Um paciente de 24 anos, Lelong, que perdera a fala um ano e meio antes de falecer, possui a marca da lesão também no lobo frontal, “imediatamente abaixo da extremidade anterior da cisura de Sylvius“.

sábado, 13 de Setembro de 2008 21:42:02

As duas observações princeps de Broca pareciam abrir uma nova era: elas traziam, com efeito, um método de exame do cére­bro mais preciso…“[11], escreve Ombredane. De fato, eis-nos em pleno terreno científico; hipóteses claramente enunciáveis, podendo ser confirmadas ou desmentidas pela observação acurada. Além do lobo frontal, impõe-se igualmente a constatação de que as lesões “preferem” o hemisfério esquerdo. Surge uma contra­prova: Parrot examina o cérebro de uma jovem mulher, tubercu­losa, hemiplégica esquerda desde a infância, sem prejuízo da inteligência e cuja fala permanecera intacta, e constata a destruição da terceira circunvolução frontal do hemisfério direito bem como a integridade da mesma circunvolução no hemisfério esquerdo.

Ao mesmo tempo, Charcot se debruça sobre os restos mortais de outro doente, uma mulher de 47 anos, hemiplégica e afêmica a partir de oito meses antes do óbito, para assombrar-se diante da lotai incolumidade da terceira circunvolução frontal esquerda. Que a ameaça a uma hipótese arduamente estabelecida e com perspec­tivas tão brilhantes não deixa de afetar os frios cientistas é o que Ombredane mostra com riqueza de detalhes:

…as três circun­voluções frontais antero-posteriores, designadas sob os nomes de primeira, segunda e terceira circunvoluções frontais, foram examinadas em toda sua extensão, uma a uma, com a maior atenção. Essas diversas circunvoluções não apresentavam à vista nenhuma alteração apreciável, seja no volume, seja na cor ou na consistên­cia“.

Além disso, estavam separadas do foco da lesão por trechos de tecidos sadios. “Em desespero de causa, pequenos fragmentos de substância nervosa extraídos de diversos pontos da  3º circunvolução foram examinados ao microscópio“[12], novamente com resultado negativo. Nada havia neles que não se encontrasse no restante do cérebro.

Assim, a hipótese da 3º frontal recebe simultaneamente uma boa e uma má noticia: a contra-prova de Parrot e a refutação de Charcot. Nos dois anos seguintes novas observações são relatadas; tem-se a impressão que todos os casos de afasia passam a ser cuidadosamente observados nos hospitais da Europa, o compor­tamento dos pacientes aferido e registrado, tudo cercado de uma expectativa post-mortem que, caso fosse percebida pelo paciente, poderia suscitar no afásico uma síndrome persecutória paralela plenamente justificada…

É a véspera da elaboração de uma vasta estatística que julgará a hipótese de Broca. Pois  bem, há confirmações e desmentidos; as primeiras prevalecem mas o número de exceções é tão alto que do primeiro balanço provisório não se pode extrair senão a conclusão de que o problema da localização não é tão simples como se supunha.

Há evidências suficientes para manter a hipótese do neurólogo de Bicêtre, entre outros o apoio de três casos de afemia de origem traumática, associadas, embora não exclusivamente, a uma lesão da 3º frontal esquerda. Trata-se de um testemunho particularmente valioso, pois até então todos os focos conhecidos haviam sido causados por doenças cerebrais, cuja própria natureza degenerativa e dimensão cronológica prejudicavam a precisão do exame, visto que evidentemente a lesão não respeitava a divisões anatômicas, esparramando-se secundariamente, por assim dizer, pelas vizinhanças; ao mesmo tempo, as observações relativas ao comportamento perdiam nitidez durante os longos anos de sobrevida do paciente e era difícil re­lacioná-las com o estado em que se encontrava o cérebro após o óbito. 

Em compensação, as lesões traumáticas, repentinas, circunscritas e freqüentemente fatais em prazo breve, remediavam essa situação. As mortes brutais associadas a acidentes de trabalho, criminalidade e intensificação dos conflitos nas grandes cidades constituem como que experimentos indiretos. A ciência não só forneceu à cirurgia o exato bisturi mas também a qualquer cidadão a possibilidade de infligir ferimentos mais sutis do que os provo­cados pelas grosseiras armas medievais.

No interior desse quadro, quase tão confuso como o combate entre os exércitos noturnos da metáfora poética, emerge ainda outra questão destinada a exercer um efeito positivo no ânimo dos soldados da ciência. Trata-se da lateralidade cerebral, já abordada. Um certo Marc Dax, clínico em Sommières, apre­sentara por ocasião de um congresso médico celebrado em 1836 uma comunicação cuja novidade residia nos dados surpreendente­mente unânimes da estatística utilizada, comportando 140 casos de afasia seguidos de exame do cérebro do doente; sem exceção, todos apresentavam lesões no hemisfério esquerdo.

Nenhum dos trabalhos oferecidos no referido congresso fôra publicado. É o filho do autor, Gustave Dax, que entrega à Academia de Medicina, em março de 1863, o relatório do pai seguido de algumas consi­derações pessoais, sob o título: “Observação tendente a provar a coincidência constante dos distúrbios da palavra com uma lesão no hemisfério esquerdo do cérebro“. Desde 1836 muita água cor­rera e o trabalho dos Dax desperta interesse suficiente para justi­ficar a nomeação de uma comissão encarregada de avaliá-lo.

Trata-se do melhor termômetro para medir o estado do de­bate. O relator da comissão, Lelut, provavelmente desencaminhado pela adesão do velho Dax a Gall, condena a conclusão a que che­gou o clínico interiorano com um “basta de frenologia!” Bouillaud, que observava de uma distância olímpica os últimos acontecimentos, volta ao campo de luta para massacrar sem di­ficuldade o imprudente.

Entretanto, a “fecundidade do princípio”, segundo Ombredane, é infinitamente mais importante que os eventuais “erros de aplicação e de prática“. Generoso com Dax, Bouillaud revela sua face menos favorável quando avalia Broca, talvez ressentido pela precisão que este concedera à sua vaga hipótese. Não surpreenderá que a competição pela glória crie di­visões até entre aliados. Seja qual for o motivo, Bouillaud objeta que a hipótese de Broca está ainda longe de poder ser demons­trada. E, de fato, uma outra estatística, de Trousseau, alinha 32 casos dos quais 14 confirmam e 18 recusam o domicílio broquiano da afemia. Em compensação, Dax recebe 125 votos a favor do hemisfério esquerdo contra apenas 10 exceções. Quanto à afir­mação de Bouillaud, estabelecendo a ligação entre linguagem e córtex, não existe agora qualquer sombra de dúvida quanto à sua validade.

Entretanto, a segurança da afirmação parece inversamente proporcional à sua precisão… entre outros motivos,  pelas perguntas sem resposta, bem como hipóteses hesitantes e problemas não resolvidos.

Instado pelas circunstâncias, Broca dedica ao problema um último esforço. Aos 15 de junho de 1865, na Sociedade de An­tropologia, ele reconhece a importância da lateralidade cortical para a afemia e debita as poucas exceções à proporção existente de canhotos, cuja eventual afasia será causada por uma lesão correspondente no hemisfério direito.

Trata-se de uma faca de dois gumes, pois os intransigentes da 3º frontal poderão doravante atribuir ao mancinismo inverificado qualquer recalcitrância à localização proposta por Broca. Uma outra questão surge em paralelo: a do significado da persistência dos distúrbios da fala. Tudo indica que a incolumidade do hemisfério ileso não basta para remediar o dano sofrido no seu vizinho. Entretanto, Broca não é totalmente pessimista quanto à recuperação do afásico. Apoiado na pro­posição inversa, segundo a qual os canhotos “falam” com o hemis­fério direito, arriscou-se a afirmar que uma criança afásica poderá compensar seu handicap usando a outra metade do córtex. Em conclusão, apesar das dificuldades inerentes à reeducação do adulto, pode-se tentá-la com algumas perspectivas de êxito, mesmo se parcial.

Ombredane resgata da obra de Broca sobretudo as últimas considerações. Alguns anos mais tarde, Pierre Marie conduzirá um ataque que não deixará pedra sobre pedra da teoria do localizacionismo estrito. Mas com respeito à questão do

“…mancinismo cere­bral, sobre a possibilidade de problemas afásicos por lesão do hemisfério direito do canhoto, sobre a dificuldade senão a impos­sibilidade de uma substituição de hemisfério a hemisfério no adulto, sobre a possibilidade, enfim, da mesma substituição na criança  pequena, a opinião atual permanece idêntica à de Broca“[13].

Inteligência, linguagem e afasia

Talvez os irresolutos dados anatômicos tenham contribuído, mas, fatalmente, por sua própria natureza, o debate sobre a afasia teria rumado para um terreno minado. De qualquer maneira, e talvez mais cedo do que se poderia esperar, a discussão resvalou para a necessária e mais do que complexa questão das relações entre linguagem e inteligência, à luz dos comprometimentos corticais.

A incerteza provocada pelas observações contraditórias de Charcot e Parrot foi a ocasião aproveitada por Laborde para as­sinalar uma negligência perto da qual a preocupação com a exatidão do foco da lesão parecia mais uma brincadeira de tiro ao alvo no escuro: “… não nos preocupamos suficientemente em de­finir pela análise o distúrbio funcional muito complexo que cons­titui a dita lesão da linguagem articulada“[14] (p. 46).

Na primeira crítica dirigida à posição de Broca sobre a relativa imunidade da inteligência face às lesões causadoras da afasia, Laborde invoca o comportamento deficitário do afásico com relação à escrita, e pede mais prudência no que se refere à crença de que o aparelho fonatório se encontra intacto. O que nos engana, adverte, é que o afásico demonstra uma nítida impaciência para com seu estado e em geral é capaz de uma mímica suficien­temente expressiva para comunicar-se. Em resposta, Broca re­afirma a segurança do diagnóstico diferencial que permite distinguir uma lesão cortical de comprometimentos periféricos, ao mesmo tempo que admite a seriedade do problema colocado pela ambigüidade das relações entre linguagem e inteligência. Seja como for, não há como evitar a conclusão de que a afemia está longe de


[1] PUF, Paris, 1951.

[2] Op.cit., p. 11.

[3] Idem, p. 16.

[4] Idem, p. 17.

[5] Idem, p.18.

[6] Idem, p. 32.

[7] Idem, p. 33.

[8] Idem, p. 34.

[9] Idem, p. 29.

[10] Idem, p. 34.

[11] Pp. 36/7.

[12] Idem, p. 38.

[13] Idem, p. 44.

[14] Idem, p. 46.