Uma utopia freudiana
Saturday, September 13th, 2008
Uma utopia freudiana
Quando girou o ano e retornaram as estações, com as minguas das luas e muitos dias findaram… Elas iam ao Olimpo exultantes, com a bela voz, imperecível dança. Em torno gritava a terra negra… Elas lhe vertem sobre a língua o doce orvalho e palavras de mel fluem de sua boca… [1]
Hesíodo
A ficção científico-política
Quando se tratou de nomear os seus precursores, Freud não hesitou em reconhecê-los nos escritores, principalmente aqueles que, conforme uma expressão gasta mas talvez insubstituível, “mergulharam nas profundezas da alma humana”. Há aqui, sem dúvida, uma referência não só ao romance psicológico, cujo apogeu situa-se justamente no século XIX, mas também aos gigantescos vultos de Goethe e Shakespeare. Trata-se de um tema que certamente mobilizará os interessados na conjunção literatura/psicologia: a substituição dos alegóricos heróis medievais por um personagem de carne e osso (ou sentimentos e motivações), com o correspondente deslocamento da importância da ação em benefício da descrição de emoções profundas. Do conflito resultante, nunca menos que dramático, o protagonista raras vezes sai vitorioso e jamais ileso.
Na esteira dessa renúncia a um ideal de felicidade plena cabe ver o nostálgico abandono, por Freud, do idílico “curados para sempre” com que gostaria de despedir-se dos pacientes…
Mas é preciso reconhecer igualmente que, desde o momento inicial, a psicanálise recolheu em sua rede, democrática ou indiscriminada, não só a nobre pesca da boa literatura como também uma arraia miúda cujo interesse obedecia a prosaicas razões temáticas - a Gradiva, por exemplo.
Encontramos a mesma atitude com relação ao humor: de um lado, as anedotas do livro de 1905 sobre o chiste, exigindo do leitor senão requintada cultura pelo menos certo refinamento, e de outro as chulices que Freud se digna a remexer com vara curta (Os sonhos no folclore, escrito em mancomunação com Oppenheim em 1911), numa busca quase informal de confirmação para a frequência com que certos objetos e situações escatológicos representam o mundo das travessuras sexuais.
Desde então as águas que nunca foram plácidas da classificação literária se agitaram definitivamente com o aparecimento de gêneros híbridos e novas espécies, para cujo batismo se cunharam expressões às vezes incidindo sobre a temática, outras privilegiando as características do estilo, quando não designativas da etnia ou do credo político do autor. “Ficção científica”, “Nouveau Roman”, “Realismo Fantástico”, “Literatura Latino-Americana”, “Dissidência leste-européia”, etc.
Mesmo assim continua havendo quem drible com facilidade qualquer tentativa de enquadramento, como Borges, mediante o recurso rocambolesco de misturar gêneros supostamente incompatíveis. De fato, os escritores comentados em seus pequenos ensaios se tornam personagens ao mesmo tempo que as criaturas nascidas de sua pena se materializam em rodapés cheios de informações… falsas? Há quem tenha procurado as obras de Pierre Ménard, segundo autor do Quixote, nas livrarias. Pior ainda é não poder descartar de todo a possibilidade de encontrá-las - à maneira dos estranhos objetos de Tlön, Uqbar e Orbius Tertius.
Nem todos os hibridismos literários apelam para esse humor minimalista que não faz a mínima questão de defender sua própria tese, antecipada por Calderón em “La vida es sueño”, talvez por julgá-la óbvia demais. Seja como fôr, no extremo oposto à poderosa corrente literária impregnada do mote estilístico surge uma forma combinando a ficção científica com o debate de cunho sociológico.
Não é necessário qualquer esforço interpretativo para reconhecer traços comuns nos seguintes livros cuja referência central gira em torno à preocupação com as rápidas transformações sociais decorrentes do avanço tecnológico: Admirável Mundo Novo, A Ilha, Walden II e Revolução no Futuro. Um outro texto premonitório, que desse ponto de vista toma a direção contrária - o futuro não seria outra coisa que o presente congelado - integra-se ao grupo por compartilhar o pessimismo resultante da ameaça cada vez mais próxima representada pelo controle crescente do estado sobre o indivíduo. Trata-se do livro-data 1984, de Orwell.
Ao contrário de Huxley e Vonnegut, e mesmo Skinner, Orwell parece apostar no fracasso do sistema produtivo menos pela via da hecatombe ecológica do que devido à ineficiência da economia organizada segundo os padrões socialistas. (Apenas seis anos depois da data-título, os fatos parecem comprovar plenamente a exatidão das profecias orwellianas). Mas será que é isso mesmo? As páginas desse livro tão pessimista que é 1984 denunciam antes uma certa estratégia na qual a escassez cumpre o papel de amarrar a população à mesquinha problemática da sobrevivência a qualquer custo. O poder totalitário vale-se desse estratagema para sabotar a discussão de questões essenciais, relacionadas à difícil harmonia entre justiça social e direitos individuais, segurança e liberdade.
Na visão orwelliana, o fracasso do sistema produtivo coletivista deve-se sobretudo ao desvio da economia para fins militares. A beligerância entre as potências, por outro lado, constitui o resultado de um acordo tácito entre as cúpulas supostamente inimigas, com a finalidade de manter o poder absolutista a pretexto de uma situação de exceção, a guerra. Orwell previu brilhantemente que a internacional socialista seria confrontada pela internacional dos grandes interesses, muito antes que as palavras “multinacional” e “globalização” entrassem em voga.
Aproveitando as lições da primeira grande guerra, em que a desestruturação do tzarismo abriu a brecha para o aparecimento do primeiro regime comunista, agora é sob a máscara de uma rivalidade levada quase até as últimas conseqüências que as classes dominantes das nações hegemônicas em conflito e seu aparato militar se apoiariam mutuamente.
É preciso considerar, entretanto, a existência de uma objeção óbvia a esse raciocínio: por que os avanços tecnológicos não seriam utilizados à maneira de um suborno, mantendo a população alada ao status quo por uma corda feita de migalhas?
Essa possibilidade, que Orwell parece não ter admitido, ou não suficientemente, é a que está sendo efetivamente posta em prática nos países opulentos ou avançados. (Nitidamente distinguíveis: Emiratos Árabes e EUA, por exemplo). Entretanto, nem por isso a tese anterior fica descartada.
No planeta tal como descrito em 1984, dividido em três impérios continentais que alternam alianças e conflitos entre si, o autor não considera as fundamentais diferenças econômicas referidas por expressões como desenvolvimento e subdesenvolvimento, ou primeiro e terceiro mundos. É que certamente ele apostou na inevitabilidade da centralização econômica, como se as sociedades industriais, centrais ou periféricas, não pudessem conhecer outra forma de organização senão a fundada no poder absoluto do Estado.
Some-se a isso a integração dos blocos, encerrando um período de relativa autonomia nacional que evoca o feudalismo, e ter-se-á um espaço totalmente fechado, no qual não resta às nações outra alternativa que a da aglutinação e ao indivíduo senão submeter-se ao Grande Irmão ou morrer. O requinte do regime de Oceania consiste em oferecer as duas possibilidades a seus rebeldes, como Winston terá ocasião de perceber.
Essa perspectiva trágica não pode ser deixada de lado apenas porque o autor se apressou um pouco na data-título. Em Sementes Malditas, Anthony Burgess, cuja fama se deve a outra capa metafórica (A Laranja Mecânica), introduz outra variável para tornar plausível um quadro bastante semelhante ao descrito por Orwell: a explosão demográfica. Manejando com precisão a ironia, o autor nos apresenta uma sociedade que foi levada a discriminar a heterosexualidade e fez do infanticídio um dever moral. O livro começa descrevendo sugestivamente o sofrimento de uma mãe cujo filho morrera em virtude de uma reles infecção na garganta agravada pela intervenção médica, e que após receber a notícia no consultório do pediatra (a criança fôra internada à sua revelia), compartilha o elevador com mais cinco pessoas, das quais quatro formam pares homossexuais.
Na seqüência, e aproveitando o farto know-how dos filmes do gênero, monta-se uma pseudo guerra entre os países com excesso populacional, estrelada pelos anônimos da grande massa, que marcham para a morte programada nos computadores governamentais ao som estridente das marchas patróticas. O restante da história é bastante previsível: narrativas de heroísmo, pensões para a família, aparições relâmpago em TV, entrevistas nas trincheiras, o “V” da vitória nos dedos, o retomo triunfal dos sobreviventes.
Evidentemente não há qualquer guerra porque nenhum governo está interessado em destruir seu custoso parque industrial - substituído pelo boi de piranha da sucata que arde nas telas dos noticiários para testar a eficiência do arsenal bélico. Cada país elimina conscienciosamente suas sobras populacionais e máquinas obsoletas. Na seqüência abre-se um pouco de espaço nos meios de comunicação para as viúvas inconsoláveis mas pensionadas e seus filhos cada vez mais raros. Os órfãos totais, por seu turno, dão pleno emprego à bondade institucionalizada das damas beneficientes.
Isso pode levar a uma interessante reinterpretação dos conflitos, sob a clave de Malthus. A tal da bomba limpa, de neutrons, parece constituir a viabilização técnica desse ideal, com a vantagem suplementar de economizar cenários e deslocamento de contingentes humanos.
Não deve ser a primeira vez, nem será a última, que o fantasma do excesso populacional percorre as páginas da ficção científico-política, que é como provisoriamente podemos chamar esse gênero (ignorando se já foi batizado antes e mais adequadamente).
Salvo engano, Sementes Malditas deve ser um dos raros livros que abordam a questão a partir do ângulo feminino. A protagonista não deixa por menos: de volta do consultório médico, recebe o amante e o marido (irmãos, aliás) na mesma tarde, em sucessão vaudevillesca, e numa burla equânime às normas conjugais, às leis da genética e às restrições da política demográfica em vigor, vinga-se fecundando dois óvulos com espermas de distinta procedência, uma clandestina e outra oficial, ambos proibidos.
Huxley vê a mesma questão a partir de outro enfoque. Em Admirável Mundo Novo o processo de fecundação artificial é apresentado como uma notável solução técnica que eliminou de vez esse mal até então necessário constituído pela família.
Inaugura-se assim a era onde homens e mulheres podem entregar-se sem remorsos aos outrora condenados prazeres carnais, tornando igualmente supérfluos a literatura romântica e os sintomas neuróticos. A dissidência perante esse estilo de vida encarna-se no ato falho de Linda, membro da elite do sistema, que se perde numa reserva de primitivos cujos costumes retrógrados, cuidadosamente preservados pela civilização hipertécnica, incluem a procriação pelos métodos tradicionais. Escrutinados pelo desconfiado olhar psicanalítico, tanto Huxley como sua personagem revelam saber mais do que dizem.
Seja como fôr, se permanecermos restritos ao seu discurso oficial, o autor inglês certamente adere à corrente que proclama a igualdade da significação do ato sexual para ambos os sexos, dando-lhe o sentido de uma função biológica exigindo satisfação. Essa posição sem dúvida pode reivindicar o mérito de combater os resquícios do puritanismo remanescente da década de 30. Hoje, entretanto, já podemos suspeitar, a partir da lupa freudiana, que a biologia é apenas uma máscara aposta ao recôndito território das fantasias, absolutamente singular. Não se discute que os parceiros tenham motivos para fazer o trajeto da cama - mas cada um tem os seus.
Trata-se de um enfoque que contraria a tese hegemônica nos dias atuais, resumível da seguinte forma: a partir da pílula, com a conseqüente embora lenta modificação dos valores incidindo na própria estrutura da família, o prazer se encontraria ao alcance das mulheres sem que seja preciso pagar-lhe o preço na espécie da gravidez ou com a falsa moeda da culpa. A ideologia do progresso apóia entusiasticamente essa argumentação, acrescentando que nunca o ser humano foi tão livre para liberar seus impulsos mais profundos como na atual fase da revolução industrial - e trata-se apenas do começo.
Os arautos do paraíso tecnológico não negligenciam a contribuição que o sistema faz à família. Dos eletrodomésticos aos detergentes, sem esquecer do creme embelezador, a maravilhosa técnica se esmera para oferecer ao público feminino tanto o necessário como o supérfluo - este último essencial. O golpe de mestre ou de misericórdia consiste em ressaltar que graças à produtividade e à automação elas foram finalmente redimidas do penoso trabalho doméstico e agora gozam de direitos e oportunidades iguais, podendo competir com o “sexo forte” em qualquer território. Que mulher resistiria a tal apelo?
Entretanto, e mesmo antes de qualquer exame mais detido, esse discurso faz água no próprio estaleiro: os “penosos trabalho domésticos” constituem uma obrigação especifica criada pela sociedade industrial. Como alguns historiadores da família (Mark Poster, por exemplo) afirmam, o papel das mulheres na produção, à qual o lar estava integrado, era fundamental em épocas anteriores e garantia essa condição de igualdade que agora se faz tanto alarde em recuperar.
Nivelando mulher e homem ao parafuso. Pois gratamente emancipadas da posição de objeto sexual e animal reprodutor, resta-lhes louvar a parafernália técnica que, se inutiliza primeiramente os músculos, é ainda muito mais eficaz em mutilar a habilidade responsável pelo prazer que o trabalho poderia proporcionar. Não por outra razão conquistaram um lugar junto ás máquinas, das quais, tanto quanto os homens, se transformaram em meros apêndices.
Os livros comentados raramente focalizam essa questão - a exceção de Revolução no Futuro, que não por acaso minimiza o papel da liberação sexual. A importância concedida aos comportamentos criativos no âmbito profissional é escassa, embora o tema nunca esteja completamente ausente. Como a luminosidade nos primeiros quadros impressionistas, domina o segundo plano a partir de uma presença difusa.
O protagonismo é reservado à questão da sexualidade. Sob esse aspecto, tanto Huxley como Orwell costumam ser mais realistas que o rei. Sexualidade é habitualmente reduzida a genitalidade, embora a agressividade possa expressar-se mais sutilmente, geralmente através da questão do poder político, exercido mediante persuasão, suborno ou aliciamento.
Seja como for, abre-se dessa maneira um espaço para pensar em conjunto a política e a sexualidade, questão raramente abordada em termos teóricos e mais raramente ainda a contento - mesmo levando em conta a obra de Marcuse.
A novidade principal desse enfoque talvez consista na tomada em consideração, para além das questões relativas à justiça social, do direito à felicidade individual, definida em função do prazer e o prazer enquanto decorrência da satisfação sexual. O resultado é que a habitual subordinação da problemática humana à satisfação das necessidades orgânicas e à justa distribuição dos excedentes pode ser relativizada em nome do fator até então esquecido, o desejo.
A melhor ilustração das possibilidades inéditas previstas pelo pensamento utópico moderno é apresentada em Admirável Mundo Novo. Supondo que uma tecnologia altamente eficaz resolva de vez o problema da escassez e suplementarmente se responsabilize pelas obrigações familiares, hipertrofiando as possibilidades do prazer individual, quais seriam as conseqüências?
Os desdobramentos não são menos importantes que a indagação. A solução alcançada no regime previsto por Huxley parece exigir o preço da mutilação mental para fins de controle social, e repousa na premissa implícita de que a fabricação de robôs, relativamente dispendiosa, poderia ser vantajosamente substituída pela produção artificial de uma população oligofrênica.
A inquietação suscitada por esse raciocínio talvez indique que já estamos a caminho de algo semelhante. Enquanto o álcool no sangue dos fetos ou seu equivalente ainda permanecem nos planos, os meios de comunicação de massa fazem o possível para facilitar o acesso à imbecilidade, embora o processo seja um pouco mais lento e não inteiramente seguro em termos de irreversibilidade.
Em Admirável Mundo Novo a preconização do comportamento sexual, teleguiada por uma moral hedonista incessantemente apregoada desde a infância, não basta para evitar a dopagem da população, adepta de altas e freqüentes doses de “soma”. Como Freud, e a contra-corrente dos reichianos (ou de uma certa interpretação do Reich?), Huxley parece constatar que a angústia não é inteiramente eliminável pelo mesmo canal que conduz o sêmen.
Contudo, mesmo se precisando de um ladrão para expelir periodicamente seus dissidentes, o sistema funciona. O seu ‘calcanhar de Aquiles’ não se situa em terreno econômico. Cabe suspeitar que mulheres e homens não consintam tão facilmente em renunciar a uma relação privilegiada com “His Majesty, the Baby”, quer por amor, quer por narcisismo (que não deixa de ser amor) e bem provavelmente por ambos.
Mais uma vez está em jogo a questão da domesticabilidade do desejo pelo poder. Desde Marx sabe-se que nenhum sistema é imune às contradições responsáveis pelo seu futuro desmoronamento.
Cabe reconhecer, porém, que a situação pode ter mudado. Até a era da revolução tecnológica, a divisão de classes acentuava a desigualdade na distribuição da produção relativamente escassa, a ponto de obrigar periodicamente os oprimidos a uma batalha pela sobrevivência que convulsionava decisivamente a sociedade. As primeiras fases da revolução industrial intensificaram os conflitos sociais, exacerbados pela política demográfica do primeiro capitalismo, para o qual o excesso populacional era duplamente vantajoso - enquanto oferta de mão-de-obra barata e ampliação do mercado consumidor.
Os subseqüentes progressos técnicos permitiram chegar a um patamar onde a abundância material alcançada toma legítimo o questionamento de alguns pressupostos da análise marxista tradicional, já que pela primeira vez na história da humanidade existe a possibilidade de que um sistema fundamentalmente desigual e injusto possua, via tecnologia, suficiente capacidade de suborno e persuasão para sobreviver às mais graves conseqüências de seu mau funcionamento. Perto do novo ópio, o antigo entorpecente religioso seria uma brincadeira de criança.
Tudo se passa como se um mecanismo homeostático se houvesse rompido. A gravidade do problema consiste em que, de certa forma, a exploração do proletariado foi alternativamente complementada e/ou substituída pelo saque ao planeta, com a impressionante seqüela de crises ambientais e a associada queda da qualidade de vida.
Cabe perguntar se a distribuição em massa de certas benesses industriais compensa a destruição do ambiente cujo valor em termos de espaço, calma, Iazer e sentimento de integração escorre como areia dos ávidos dedos com que a ciência econômica executa tradicionalmente seus cálculos. Pelo menos uma suspeita torna-se de imediato inevitável: a de que o ambiente artificial e agressivo das megalópoles de concreto, asfalto, aço e vidro está associado ao elevado índice dos assim chamados “problemas mentais”.
Não se trata de aceitar sem discussão a hipótese pessimista de uma oposição necessária entre progresso e preservação do ambiente - mesmo porque se o primeiro seduz com suas promessas de fartura, a última constitui a condição ineludível de sobrevivência. Os tecnocratas legitimam a vasta gama de atentados ao meio mediante o argumento da desejabilidade e inevitabilidade do consumo de bens como condição para o desenvolvimento econômico. Mesmo que se queira admitir esse enunciado dilemático, ainda assim seria preciso fazer entrar nos cálculos o custo real da opção pela economia poluidora, totalmente escamoteado pelos ideólogos da produtividade “über alles“.
Todas as teorias econômicas não marxistas apostaram até o último centavo de seu capital intelectual no progresso tecnológico. A lógica subjacente afirma a possibilidade e desejabilidade de uma intensa competição entre os produtores, cujos resultados beneficiariam a todos, ainda que a uns (poucos) muito mais do que a outros (muitos).
A resposta marxista, ou seja, a tese da pauperização crescente do proletariado, foi abalada nos anos do pós-guerra, quando o mundo como um todo adotou a industrialização, associada com índices crescentes da renda per capita nos países desenvolvidos e um processo semelhante, incipientemente posto em marcha, na periferia.
Por outro lado, e como Galbraith apontou, as diferenças entre os sistemas capitalista e socialista foram perdendo importância, não só em termos da atuação de seus representantes no palco das relações internacionais - onde prevalecem as “razões de estado” - mas também no que se refere à política social interna. Tudo se passa como se a produção industrial impusesse sua lógica às ideologias, tornando-as frágeis camuflagens incapazes de tapar com sua peneira o sol das relações de produção. Marx não teria ido tão longe na negação do papel da consciência face à infra-estrutura econômica - mas um economista “freudiano” não se surpreenderia com essa demostração de força a cargo dos mecanismos inconscientes, mesmo que fossem aqui os de um “inconsciente econômico’ .
De fato, dificilmente alguém poderá questionar a existência de consideráveis disparidades de renda na ex-União Soviética e demais países socialistas, mesmo reconhecendo que seu alcance está longe de chegar aos extremos característicos do mundo capitalista - principalmente no que se refere aos países subdesenvolvidos. Ainda assim, alguns dentre os países ocidentais, como a Suécia e outras nações escandinavas, parecem representar uma alternativa bem mais condizente com os ideais igualitários. Por outro lado, essas mesmas democracias do norte europeu não deixam de beneficiar-se do desequilíbrio que rege os intercâmbios comerciais com os países do terceiro mundo…
Em compensação, nenhum economista liberal razoavelmente objetivo ousará negar o crescente grau de planejamento da economia ocidental, atingido, conforme previra Marx, pela união dos grandes grupos econômicos. Tornou-se assim praticamente fictícia a famosa tese da concorrência ideal das forças produtivas no mercado, ideal de ego do liberalismo, considerada benéfica tanto por estimular a eficácia dos agentes econômicos como conceder ao consumidor o poder do veredito.
sábado, 13 de Setembro de 2008 21:47:02
Galbraith fornece um quadro vívido do notável processo de simbiose entre os grupos econômicos dominantes e o estado norte-americano, unidos pela ponte de tecnoestrutura, e reatualiza dessa maneira o pensamento marxista a respeito. Ironicamente, coube a um liberal mostrar a inexorabilidade do planejamento dada a ultrapassagem de certo limiar de produtividade. No caso, a planificação consiste em priorizar os interesses do grande capital, eliminando da pauta dos investimentos o que quer que não maximize o lucro, com o que ficam relegadas a segundo plano as carências fundamentais da população. As áreas mais atingidas são a habitação, o transporte, a educação e a saúde, sistematicamente sabotados na elaboração da política econômica.
Sabemos que a resposta do marxismo à celebração da integração dos trabalhadores ao sistema via aumento real dos salários e instauração dos benefícios concedidos pela previdência social consiste na ressalva de que essas melhorias se restringem aos países desenvolvidos, cujos operários se beneficiariam assim indiretamente da cruel exploração a que se acham submetidos seus congêneres do terceiro mundo. A desigualdade que separava as classes a nível nacional só teria sido relativamente atenuada ao preço de uma transposição que a estendeu à escala planetária, multiplicando os oprimidos.
Desde o início do debate a situação já teve desdobramentos. Há bolsões de pobreza nos países opulentos e em contraposição podem ser recenseados alguns pólos de desenvolvimento no terceiro mundo.
A situação admite pelo menos duas interpretações. Pode-se pensar que, embora a ritmo lento, o progresso acabará beneficiando a todos, inclusive os atuais párias, ou, pelo contrário, ver no processo a infinita reprodução de um sistema com tendência à polarização.
sábado, 13 de Setembro de 2008 13-09-2008 21:47:02
Um dos argumentos mais fortes dos críticos consiste em postular que em nenhuma época anterior tantos contingentes populacionais estiveram sujeitos à inanição ou desnutrição endêmica - afirmação tragicamente ilustrada por dramas como o da Etiópia em 1984 e fundamentada no estado de miséria crônica que atinge segmentos significativos da maioria dos povos do terceiro mundo.
Poder-se-ia dizer que o livro de Orwell descreve, do ponto de vista de um idealista decepcionado, a situação nos países socialistas, embora haja indícios de que 1984 retrata sobretudo o período stalinista. O advento de Krushev inaugurou outra tendência, apoiada na diminuição dos gastos militares decorrentes da guerra fria, com a finalidade de elevar o padrão de vida. A queda do truculento líder indica o fracasso dessas diretrizes, por incompatibilidade com a lógica do sistema, dando certa razão a Orwell ou aos trotsquistas.
Um dado aparentemente secundário merece atenção especial; trata-se da aspiração ao estilo de vida ocidental por parte das populações do leste. Sob esse prisma, a afirmação da convergência dos valores de ambos os sistemas deixa de ser uma afirmação vazia apoiada nos exemplos anedóticos da popularidade do rock, da Cola-Cola e dos jeans atrás da “cortina de ferro”. Se a hipótese fôr verdadeira e se o fato decorre da semelhança entre o modo de produção de ambos os sistemas, seria preciso então concluir que a ética socialista é incompatível com a economia industrial? Seja qual fôr a resposta, a questão evoca a oposição entre um célebre lema leninista - “O socialismo é igual a sovietes mais a eletrificação do país” - e o comentário ainda pouco conhecido de Viera Gallo, Secretário da Justiça de Allende: “O socialismo só pode chegar de bicicleta“.
Por outro lado, Admirável Mundo Novo presta-se com muito menos controvérsias à descrição de um futuro crescentemente próximo, tanto no ocidente desenvolvido como nas ilhas de privilégio existentes no terceiro mundo.
Utopia, demografia e desejo
Entre os debates que agitam nossa época um dos mais importantes é, sem dúvida, o relativo ao controle demográfico. O liberalismo tradicional se opõe (não pelas mesmas razões alegadas pelo Vaticano) a tal restrição da expansão do mercado e concomitante manutenção em estado de prontidão de um exército industrial de reserva.
Resta saber se o néo-liberalismo, ou “capitalismo esclarecido “, ligado à vanguarda tecnológica e cientificamente informado pelo Clube de Roma, adotaria a mesma posição. Seja como fôr, não é difícil vislumbrar a possibilidade de que, em prazo nem tão longo e por diversas vias, a opinião pública mundial acabe cedendo a certas evidências no sentido de encarar o aumento contínuo da população pelo ângulo da catástrofe.
Os argumentos mais fortes serão os provenientes da admissão de limites que a mais avançada tecnologia é incapaz de ultrapassar, bem como a confissão do efeito deletério da infra-estrutura da abundância - por exemplo os riscos inerentes ao uso de adubos e defensivos químicos altamente prejudiciais à saúde e resistentes à degradação, que destroem os ciclos regenerativos. Não menos preocupante é a atual tendência à nuclearização na produção de energia, exigindo um grau de segurança incapaz de ser atingido pelos sistemas de proteção utilizados, tão custosos ou sofisticados como possam ser.
Ivan Illich nos adverte contra outra ameaça: o establishment aceitaria o nec plus ultra dos ambientalistas, restringindo a produção de mercadorias e seres humanos, com a finalidade de congelar o status quo e evitar mudanças qualitativas.
É no âmbito desse quadro que Admirável Mundo Novo ganha dimensões de profecia. Se o sistema puder dispensar mão-de-obra barata via robôs e aceitar as limitações à expansão do mercado (baixa taxa de natalidade), nada impede pensar num futuro em que os países pobres se encaminhem para um modelo semelhante ao europeu.
Poderia o capitalismo dispensar o expansionismo que parece ser-lhe inerente? Seria conjeturável a erradicação da lógica do lucro ou pelo menos sua limitação, substituindo-a pela estabilidade? Talvez os economistas tenham meios para examinar a exeqüibilidade dessa tendência, mas dificilmente os psicólogos poderiam sentir-se autorizados a responder em que medida as sociedades humanas estão aptas a superar a agressividade, contentando-se com uma relativa afluência e canalizando a competitividade para comportamentos não destrutivos - como esportes e outras modalidades de emulação.
A possibilidade, entretanto, existe, tão pequena quanto quiser nossa desconfiança. O establishment começa a perceber os riscos de uma catástrofe ambiental. O que poderia resultar dessa espécie de conscientização? No melhor dos casos, um regime híbrido que limite e mantenha certo grau de desigualdade social, que continue saqueando o planeta mas em compensação se impeça de ultrapassar certos limiares fatais.
Já é possível ver o modelo desse comportamento em certos segmentos das classes sociais abastadas. Baixa natalidade, renúncia ao consumo perdulário, retorno a certas atividades manuais de baixa produtividade e grande prazer - o artesanato, a alimentação natural, roupa feita à mão, adequada mais ao clima que ao status. Dispensar a ostentação não deixa de ser um luxo ao qual só os muito ricos tem acesso, observou ironicamente Illich.
Tendo na retaguarda uma sólida base material, alguns membros da elite procuram subtrair-se à lógica da competição cada vez mais exacerbada que sempre marcou o capitalismo, cujo progresso foi invariavelmente tangido pela eterna ameaça de um rival mais forte e voraz. Os comportamentos da dissidência abastada não implicam em qualquer mudança significativa em termos sociais e sobretudo não afetam os direitos de herança, mas nem por isso deixam de mostrar os melhores efeitos de uma combinação improvável mas possível entre afluência e renúncia, equilíbrio que se desejaria ver estendido a todos.
Pena que para a grande maioria permaneça tão vedado como aos camponeses da Idade Média a caça nos bosques da nobreza. Em duvidosa compensação, é-lhes oferecido o álcool, a televisão, o tabagismo, os calmantes, o consumo de ídolos, as drogas, oficiais ou clandestinas. Por enquanto toleradas, estas
[1] Teogonia.
