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Apresentação

Tuesday, January 26th, 2010

Apresentação (acesso integral)

 Édipo 3 x 4 reúne textos correspondentes às aulas do programa de estudos da disciplina Psicanálise IV, do curso de Psicologia da PUC/SP.Em 2007, Marcelo Ribeiro, estudante da graduação em Psicologia, sugeriu fossem transformadas em livro as aulas que haviam sido escritas para facilitar aos alunos do curso o acesso à vertente estruturalista da psicanálise. Marcelo se encarregou da primeira leitura e fez sugestões importantes em relação à elaboração dos temas tratados. A sua colaboração foi mais do que fundamental.

 

Este livro visa estender e aprofundar a reflexão sobre os textos utilizados durante o curso, partindo da respectiva descrição e acrescentando os comentários feitos durante as aulas, que eventualmente se desdobram em novas hipóteses, questionamentos e críticas.

 

A primeira parte do programa de Psicanálise IV focaliza obras que ocupam um lugar central no que se convencionou chamar de estruturalismo. A primeira parte do curso aborda os antecedentes, em lingüística e antropologia, da psicanálise estrutural. Após a apresentação da perspectiva lacaniana e das linhas gerais da interpretação que propõe acerca da psicanálise freudiana[1], são inquiridos dois textos de Benveniste[2], referentes à história da lingüística, aos conceitos centrais elaborados por Saussure e às relações entre linguagem e sociedade. Essa unidade é encerrada com a descrição, análise e discussão dos dois primeiros capítulos d’As Estruturas Elementares do Parentesco, de Claude Lévi-Strauss, cujas idéias centrais - a função da exogamia e o papel da linguagem na instauração da fronteira entre natureza e cultura - são relacionadas a algumas derivações fundamentais, raramente comentadas e menos ainda discutidas, da conhecida tese lacaniana sobre a consubstancialidade entre inconsciente e linguagem.

 

A segunda parte do livro (Heresias sobre a teoria da constituição do sujeito em Freud e Lacan) propõe-se discutir certos aspectos do processo de formação da identidade, com base nos conceitos de auto-erotismo, narcisismo, corpo despedaçado, estádio do espelho, metáfora paterna, Nome-do-Pai e supereu.

 

Em seguida, essa reflexão é estendida para abranger a tópica lacaniana (real, simbólico, imaginário) e a nosografia - isto é, a relação entre os momentos estruturais do processo de constituição do sujeito e as diferentes modalidades de psicose (incluindo o autismo), neurose e perversão. Em acréscimo, a sublimação é objeto de uma inquirição que interroga a sua relação com os conceitos de falo e falta, bem como com a segunda teoria das pulsões.

 

O último capítulo - Édipo e Gênero - se ocupa da articulação entre a teoria freudiana do complexo de Édipo e a teoria lacaniana da constituição do sujeito. É proposta uma reinterpretação, cujo ponto de partida é o questionamento da diferenciação do Édipo em masculino e feminino. Os textos comentados pertencem a Introdução à Leitura de Lacan e O pai e sua função em psicanálise, de Joël Dor, e a Lacan - a formação do conceito de sujeito (1932-1949), de Bertrand Ogilvie.

 

Dor não é muito popular entre os barões lacanianos - isto é, aqueles que elegem os representantes autorizados da esfinge doublé de ogro e guru residente nessa esquina mítica, Bergasse 19 com rue de Lille 5. A provável razão desse (relativo) desprestígio é a propensão de Dor ao didatismo - algo imperdoável para os guardiães dos códigos herméticos em que se encontra aprisionado o teor dos Escritos e Seminários. O empenho em fazer-se entender - até onde essa intenção é compatível com a cidadania lacaniana - custou ao herege o descaso blasé dos comungantes. Entretanto, os seus livros fazem transparecer essa mescla de compreensão e incompreensão de que os conceitos lacanianos são objeto entre os membros do clã. Em acréscimo, retratam - geralmente de maneira involuntária - certas lacunas e contradições presentes na própria teorização lacaniana.

 

A perspectiva deste livro é que a psicanálise estrutural não constitui propriedade privada de Lacan & sucessores e associados. Como todo empreendimento que, assumidamente ou não, pertence ao campo do conhecimento, está aberto a discussão, questionamento, crítica, reformulação e contribuições. Outrossim, trata-se de demonstrar que o estruturalismo, ao contrário do que dizem seus coveiros, não morreu. Os oficiantes das exéquias despediram com honras a moda à qual julgaram poder reduzi-lo, mas tudo leva a crer que o cadáver enterrado se parece mais à sua própria dificuldade em entender os efeitos da linguagem sobre a subjetividade e a cultura.


[1] Com base no texto “Freud e Lacan” (1964), de Louis Althusser.[2] Vista d’olhos sobre o desenvolvimento da lingüística (in Problemas de Lingüística Geral I ) e Estrutura da língua, estrutura da sociedade’(in Problemas de Lingüística

Geral II).