Sumário e Introdução
Friday, September 19th, 2008SUMÁRIO
1. Introdução
2. Do trauma ao complexo de Édipo
Justaposição x articulação
A teoria do trauma
A descoberta da fantasia e a revelação da sexualidade infantil
Édipo vem à cena, na forma de um mito
O complexo de Édipo em sua versão empírica
Pretensa universalidade do complexo de Édipo
O viés masculino da primeira versão do Édipo
A diferenciação crucial entre necessidade e desejo
Limites e alcances da primeira formulação do Édipo
A situação edipiana no modelo clássico
3. Antropologia, psicanálise e a questão da origem da cultura
Rumo à pré-história
As críticas de Malinowski
Réplica de Jones
Um mito para explicar o desejo
A problemática do incesto
Psicanálise e ciências sociais
4. O complexo de Édipo estrutural Édipo
O objeto inexistente do desejo humano
As fantasias originárias e as teorias sexuais infantis
O enigma da supervalorização do pênis
Sentido x origem
O complexo de Edipo e a feminilidade
A diferenciação entre pênis e falo
O desejo feminino heterossexual
Édipo, maternidade e falo
As fases da sexualidade infantil à luz da teorização do falo
Falo e homossexualidade
Falo e heterossexualidade
Falo e sublimação
A nosografia psícanalítica e o falo
Falo, Édipo e a questão das origens
Freud, Reich, Jung, Adler, Klein e a epistemologia
Psicanálise e ciências sociais
5. Vocabulário crítico
6. Bibliografia comentada
1. Introdução
O menor dos problemas, quando se aborda um tema como o complexo de Édipo, não é precisamente o de revisar e ponderar o que se disse e escreveu a respeito, dos mais diversos pontos de vista. De fato, sabe-se que a psicanálise e seus conceitos foram assimilados pela cultura de massa, passando a ser conhecidos e divulgados através de certos estereótipos que costumam indignar os profissionais do ramo e os teóricos dedicados a seu estudo. Em geral, a abordagem popular ou popularesca privilegia, como seria de se esperar, os aspectos mais escabrosos do pensamento freudiano, visando gratificar uma curiosidade e um senso de humor primários. A retificação das distorções e exageros cometidos por essa via constitui na verdade um trabalho relativamente fácil.
As coisas se passam de outra maneira quando se trata de compreender o que já pode ser denominado de confusão teórica reinante no campo do saber psicanalítico oficial. Freqüentemente - para não dizer sempre - as revoluções, não menos as teóricas que as políticas, têm o seu movimento detido pelo retorno sub-reptício de obstáculos aparentemente superados. Muito provavelmente esse processo se repetiu na história da psicanálise, e é compreensível que assim acontecesse; os primeiros escândalos provocados por Freud, sempre ligados à importância concedida à sexualidade, puderam ser absorvidos à medida que o consumismo inerente à sociedade industrial subvertia a escala de valores vigente para entronizar o hedonismo. A busca irrestrita de prazer tornou-se a própria bandeira da moral contemporânea e a psicanálise foi aliciada, em sua vertente reichiana, para coonestar o dilema: “liberdade sexual ou neurose”.
Não que a teorização freudiana veja virtude na repressão ou preconize uma estratégia adaptativa por parte do indivíduo. Na verdade, o ímpeto da investigação psicanalítica deve-se consideravelmente à sua recusa em colocar-se a serviço de causas, movimentos, ideais, por mais louváveis que sejam ou se pretendam. Isso pode ser visto e criticado como uma tendência conducente a uma cômoda neutralidade apolítica, mas para Freud representava a condição essêncial da pesquisa independente, comprometida apenas com a impossível mas nem por isso menos desejável meta de toda disciplina científica: a verdade.
E a verdade (ou os conceitos que pretendem dar conta do trajeto feito em sua direção) não pode surgir como “Palas Atena da cabeça de Zeus”, súbita e definitivamente (Freud tinha um fraco pela mitologia grega), mas constrói-se lenta e arduamente ao longo de um processo o mais das vezes penoso, não imune a contratempos, rodeios e impasses.
Tem-se a impressão de que o complexo de Édipo, “descoberto” ou formulado tardiamente na obra freudiana, permanece representando a psicanálise conjuntamente com outros “símbolos” cronologicamente distintos, como a teoria do trauma e a sexualidade infantil enfocada biologicamente, para citar apenas dois dos mais conhecidos, gerando considerável confusão na medida em que raramente se procede a uma articulação desses diferentes momentos da teorização do inconsciente, que acabam sendo justapostos desordenadamente.
Some-se a isso certo descaso com aspectos epistemológicos importantes e ter-se-á um resultado que talvez justifique o recrudescimento de críticas já ouvidas por Freud em sua época, relativas à falta de cientificidade da psicanálise, seja por não-explicitação de seus pressupostos, seja por uma explicitação malfeita ou feita sem clareza.
Tais críticas pareciam injustas ou pelo menos precipitadas no momento em que a pesquisa psicanalítica assentava as suas bases; inúmeras vezes Freud fez notar que se exigia da ciência do inconsciente o que não se havia sonhado pedir de outras disciplinas científicas em termos de leis, conceitos e resultados práticos. Hoje essa argumentação não conserva a mesma eficácia; já houve tempo e trabalho suficientes como para pretender que muitas questões fossem expostas de forma a serem debatidas amplamente. Entretanto, o panorama atual se caracteriza pelo hermetismo, freqüentemente sectário, de grande parte dos grupos ou associações de psicanalistas. Cindida em escolas no mais das vezes incomunicáveis entre si, a psicanálise parece dilapidar a herança freudiana - um discurso rigoroso - em aventuras inconseqüentes quando seus representantes se dão ao direito de explicar qualquer coisa, de um ritual primitivo ao último modismo metropolitano, através das clássicas categorias psicanalíticas manipuladas com uma desenvoltura só comparável à arbitrariedade subjacente.
Se as considerações anteriores forem razoavelmente plausíveis, torna-se aconselhável abordar o complexo de Édipo de um ponto de vista ingênuo, como se nunca se tivesse ouvido falar dele, sem recorrer ao pretexto da obviedade para eximir-se de debater qualquer aspecto que lhe seja inerente. Isso resulta na adoção de uma perspectiva histórica, ou seja, o rastreamento de sua origem na obra freudiana, as modificações - no caso sutis - pelas quais passou e o que poderia ser chamado de estado atual de sua teorização.
Visto que a abordagem escolhida visa evitar repetições, esta reflexão sobre o complexo de Édipo terá suas peculiaridades. Talvez a mais chamativa seja a diferenciação, operada nas páginas seguintes, entre um complexo de Édipo concebido empiricamente e seu correlato estrutural, distinção que se pretende justificar através do peso maior ou menor concedido ao conceito de fantasia em sua elaboração. O Édipo dito empírico, formulação inicial de Freud, apoia-se numa argumentação fortemente centrada nas vivências da criança no seio da família, entre 3 e 6 ou 7 anos aproximadamente. Foi a impossibilidade de atribuir a intensa ambivalência afetiva infantil a essa experiência que obrigou Freud a buscar a origem de tais emoções contraditórias - amor, ódio, ciúmes, admiração - em outro lugar. Ou melhor, em outros lugares: a especulação pré-histórica e a teorização radical da fantasia, culminando com a descoberta do sentido das fantasias originárias e das teorias sexuais infantis, núcleo do complexo de Édipo estrutural.
Em decorrência, o criador da psicanálise se defrontou com uma questão paradoxal: como pode uma ciência não só ter por objeto a ilusão mas apoiar-se precisamente no estudo de suas manifestações mais evanescentes, diáfanas, fugidias? Em outras palavras, é possível teorizar sobre fantasmas? Assim, a problemática filosófica que ele pretendera expulsar retorna pela porta dos fundos, exigindo uma solução compatível com as dimensões desse novo enigma cuja esfinge ironicamente é o próprio complexo de Édipo.
Pode-se dizer que o perplexo decifrador deteve-se exatamente nesse ponto, como Moisés diante de Canaã ou Aníbal nas próprias portas de Roma. Talvez tenha sido esse o sinal para que a maioria dos seus seguidores retornasse a posições ultrapassadas, enfatizando quer os fatores biológicos, quer os culturais, quer uma combinação entre ambos, em detrimento do impreciso esboço que entretanto continha o núcleo da inegável originalidade do pensamento freudiano.
Seja como for, a história do complexo de Édipo permite refazer um trajeto similar a essas aventuras mitológicas que Freud tanto gostava de evocar, e que no campo da ciência, sem o saber, ele próprio protagonizara.
