Crítica ao enfoque organicista da drogadição
Thursday, September 25th, 2008O neurônio tagarela
Capítulo IV
Crítica ao enfoque organicista da drogadição
“Devemos lembrar que a investigação científica meramente demonstrou que as propriedades mágicas dos cogumelos derivam das propriedades de dois compostos cristalinos. Seu efeito na mente humana é tão inexplicável e tão mágico como o dos próprios cogumelos“.[1]
“Nossas mentes não existem no vácuo; elas estão ligadas à química do cérebro”.[2]
“Em resumo, tudo o que é mental - tanto as funções normais como os distúrbios de pensamento e emoção - se originam de alguma ordem ou desordem correspondente no nível molecular”.[3]
As três citações em epígrafe foram extraídas do mesmo livro, Receptors, de Richard M. Restak, cujo conteúdo constitui um dos melhores exemplos da via preferencial - embora não única - seguida pela psiquiatria biológica, o reducionismo orgânico. As referidas citações tanto podem indicar uma contradição do autor (caso as três asserções sejam mantidas em pé de igualdade) como, se a asseveração final prevalecer sobre as anteriores, ilustrar a passagem da admissão do caráter enigmático das relações entre mente e cérebro à proclamação enfática da solução proposta pelo enfoque organicista.
Uma leitura cuidadosa demonstra que não há contradição em Restak. Depois de fazer as reverências de praxe ao mistério mente/cérebro, Receptors advoga a subordinação total do psíquico ao biológico, a tal ponto que seria possível - embora não seja nossa intenção perscrutar as motivações do autor - interpretar as raras ressalvas como uma rede de segurança cautelosamente estendida para o caso de fracassarem as expectativas mais do que ambiciosas expressas no último capítulo.[4]
Assim, se a primeira citação compartilha a circunspecta avaliação feita por Schultes e Hofmann com referência aos limites da neuroquímica, na seqüência é desenvolvida uma argumentação tendente a minar essa concepção - inicialmente de maneira sutil e depois mais explicitamente - partindo do princípio de que nossa “mente não existe no vácuo”. Enunciada nesses termos, trata-se de uma afirmação da qual ninguém em sã consciência poderia discordar, a menos que assuma uma forma de idealismo (religioso ou filosófico) dificilmente sustentável em nossos dias. Contudo, Restak passa sem escalas dessa formulação genérica e óbvia à conclusão de que a mente está subordinada ao cérebro. Em seu enfoque, o mistério que deixara perplexos os pesquisadores suíços teria sido dissipado pelas pesquisas recentes, cujos resultados favorecem a concepção de que pensamento e emoção, quer “normais” ou não, constituem a floração de um laborioso processo subterrâneo gestado nas catacumbas moleculares.
Ao longo deste capítulo serão apresentados argumentos frontalmente contrários a essa concepção. O escrutínio da literatura especializada - incluindo uma leitura atenta do próprio livro de Restak - permite não somente objetar ao reducionismo organicista sua falta de apoio factual mas também afirmar que, quando lidos através de outra perspectiva, os mesmos dados invocados pelas neurociências sugerem uma interpretação radicalmente oposta.
Como já assinalado, em seu trabalho quotidiano o psiquiatra depara com reações idiossincráticas, imprevisibilidade de resultados e multiplicidade de efeitos colaterais, simultâneos ou defasados em relação ao tratamento,[5] que obrigam a constantes modificações das prescrições iniciais. Trata-se de um dado particularmente incômodo, cujas implicações são evitadas pelos autores organicistas. Seguindo uma direção oposta e bem mais favorável a seu ponto de vista, Restak alicerça seus argumentos numa analogia travestida de evidência. A analogia em questão pode ser designada pela expressão “estratégia de similarização entre doenças neurológicas e doenças mentais“[6] ou “DN = DM” e merece ser cuidadosamente analisada.
Um exemplo pode conduzir-nos diretamente ao cerne da questão. Receptors descreve a coréia de Huntington e a doença de Parkinson[7] a partir das respectivas etiologia genética e fisiopatogenia, razoavelmente bem estabelecidas, e intercala a descrição com raciocínios que aproximam tais quadros neurológicos das psicoses funcionais. O argumento ganha força através da constatação de que a dopamina, neurotransmissor cuja escassez na doença de Parkinson constitui o principal mecanismo fisiológico desse quadro patológico[8], se apresenta em níveis consideravelmente aumentados na esquizofrenia. Assim, pareceria lógico supor uma etiologia simetricamente inversa; ao déficit do neurotransmissor no referido quadro neurológico corresponderia seu excesso nos surtos. A doença de Parkinson e a esquizofrenia seriam então enfermidades de etiologia contrastante, suposição que lembra outra oposição proposta nas primeiras décadas do século, entre epilepsia e esquizofrenia, amparada na relativa eficácia da convulsão (provocada pelas terapias de choque) nos surtos esquizofrênicos. [9]
O paralelismo parece ainda mais tentador quando se observa que os pacientes parkinsonianos tratados com L-Dopa, medicação destinada a aumentar os níveis de dopamina, não raramente exibem sintomas esquizofreniformes. Assim, como numa investigação policial, fecha-se o cerco em torno da dopamina, principal suspeito pela esquizofrenia. Uma investigação conscienciosa, porém, exige a contraprova. Antes de interrogar a relação entre fisiopatogenia e etiologia, cabe perguntar se já foi comprovada a incompatibilidade entre doença de Parkinson e esquizofrenia. De fato, se ambas coincidirem num mesmo sujeito, a dopamina ganharia um álibi de primeira e a referida hipótese enfrentaria um obstáculo considerável. Seus autores seriam obrigados a admitir pelo menos que a esquizofrenia obedece a uma etiologia mais complexa e que a dopamina não seria um malfeitor solitário, restando determinar o seu grau de nocividade. (E, de fato, ultimamente as hipóteses organicistas vêm abandonando as suposições monistas, admitindo crescentemente a existência de causas múltiplas).
Se examinado com mais detimento, o paralelismo entre doença neurológica e psicose funcional apresenta ainda outros problemas. De fato, nenhum neurólogo confundiria os sintomas eventualmente ocasionados pelo L-Dopa com um quadro esquizofrênico. Eles não são acompanhados pelos tipos de vivência comumente presentes nas crises esquizofrênicas.[10] Os efeitos evocados ocasionalmente pelo L-Dopa parecem inscrever-se no mesmo quadro lógico da sham-rage (falsa raiva) eliciada em sujeitos experimentais pelo acionamento de eletrodos implantados no sistema límbico - ou seja, o de um comportamento provocado pela estimulação do respectivo interruptor neuronal. Em contraste com tais experimentos, a mesma resposta, quando ocorre em condições comuns, ou seja, fora do laboratório, no caso de animais não humanos, situa-se no âmbito de uma reação a situações ambientais e está associada ao acionamento adaptativo do ramo correspondente do SNA.
Não surpreende que o acionamento experimental do sistema nervoso autônomo através de substâncias químicas altamente concentradas ocasione necessariamente uma reação global que, alterando a configuração vigente do SNA, elicia a postura comportamental associada ao novo quadro instaurado. Uma diferença fundamental, porém, separa animais e humanos. No animal, a alteração química do autônomo gera um comportamento desvinculado da situação ambiental vigente apenas para evocar a resposta adequada a outra situação ambiental. Um predador drogado com substância ativadora do parasimpático permanecerá inerme diante da sua presa, mesmo se estiver faminto. No ser humano, diferentemente, sendo o comportamento função do discurso, a nova configuração do autônomo fará emergir o conjunto de significações (discurso) ao qual está associada. Esse conjunto de significações é necessariamente singular.
Em outras palavras, a alternação entre simpático e parasimpático nos animais está diretamente vinculada à situação ambiental e expressa a base orgânica do repertório necessário à sobrevivência de cada espécie. No ser humano, porém, a singularidade discursiva imprime à expressão somática dos sentimentos, atitudes e emoções seus incontáveis matizes e suas infinitas variações, que não constituem respostas a estímulos mas manifestações da subjetividade.
Os experimentos com ratos, gatos, cachorros e chimpanzés apontam para a possibilidade de desvincular quimicamente o comportamento animal das condições ambientais vigentes. O comportamento induzido, porém, não é inédito; está necessariamente atrelado ao ramo do autônomo ativado pelas substâncias injetadas. Mesmo a intoxicação extrema, para a qual não haveria correspondência no repertório comum, constitui apenas um exagero das possibilidades do SNA em determinada espécie. Para além de certo limiar, a intoxicação ocasionará a morte do sujeito do experimento.
Conseqüentemente, os experimentos limitam-se a demonstrar que a indução química é capaz de substituir a situação ambiental comumente responsável pela configuração do autônomo, a partir da qual se dá a ativação dos efetores (músculos lisos e estriados) envolvidos nas ações adaptativas. Nesse sentido, a hipótese de James-Lange parece aplicável ao comportamento animal em situação experimental[11]; em seu habitat, porém, a seqüência do comportamento poderia ser descrita nos seguintes termos: situação ambiental ® configuração do SNA ® conduta. Caberia igualmente admitir a concomitância entre configuração do SNA e conduta, sem invalidar o raciocínio anterior.
No ser humano, porém, a modificação induzida por via química no sistema nervoso autônomo não acarreta a manifestação de um comportamento associado a outra situação ambiental, mas dá lugar à emergência de um discurso já existente e que se encontrava em estado inibido. O discurso em questão não poderia deixar de ter uma tradução comportamental; entretanto, cabe lembrar que para a psicanálise tal expressão nunca é direta. Manifesta-se invariavelmente através de uma refração, obedecendo à clivagem inconsciente / consciência. De acordo com essa premissa, o discurso nunca é homogêneo nem transparente. A referida clivagem se expressa tanto mediante a metaforização da lógica inconsciente pela significação consciente/pré-consciente, como pela alternância entre manifestação e latência.
Além disso, o sapiens, na ótica psicanalítica, não obedece ao princípio da adaptação ao meio ambiente; pelo contrário, é seu desejo que transforma o meio. A conduta humana mostra-se singular e imprevisível, visto ser mediada por uma interpretação do real, interpretação complexa, heterogênea, freqüentemente conflitiva. O simpático fornece o substrato orgânico para um amplo espectro de estados de espírito, como alegria, atenção, euforia, agitação, inquietação, expectativa, persecutoriedade, ansiedade, compulsão, hiperatividade, etc. Seria preciso acrescentar ainda que tais sentimentos são vivenciados de maneira particular por cada sujeito. Quando a medicação altera a configuração do SNA, o discurso que retorna ou emerge, por estar associado à polarização do simpático ou do parasimpático, não expressa um padrão unívoco mas obedece à mesma complexidade.
Organicismo versus psicanálise
Desse ponto de vista, todo discurso se traduz necessariamente numa determinada configuração do SNA. Daí resulta a possibilidade de percorrer essa via na contramão, alterando quimicamente a relação discurso manifesto/discurso latente, como o álcool e a maconha parecem demonstrar, situação que se repete, de maneira menos drástica, nas modificações da disposição ou do estado de ânimo (humor) provocadas pela cafeína e pela nicotina. Mas é importante insistir no fato de que, diferentemente do que acontece com outras espécies, as reações do ser humano às substâncias químicas não são unívocas. Os estados discursivos associados a determinado modo de predominância do simpático ou do parasimpático variam de pessoa para pessoa bem como na mesma pessoa em momentos diferentes. Parafraseando Heráclito, não se entra duas vezes no mesmo rio discursivo, ainda que a canoa bioquímica permaneça igual.
Em decorrência, as próprias configurações do sistema nervoso autônomo apresentariam, no ser humano, uma gradação cuja sutileza acompanha a diferenciação entre os diversos sentimentos e emoções. Por exemplo, haveria que distinguir entre as formas de predomínio do parasimpático associadas a estados de espírito e sentimentos como serenidade, contemplatividade, repouso, desânimo, apatia, tristeza, angústia e depressão. Cabe mencionar ainda a possibilidade do equilíbrio entre os dois ramos do SNA, mediante a otimização da homeostase, meta perseguida por uma série de práticas como Yoga, meditação, homeopatia, acupuntura e outras disciplinas ligadas à medicina alternativa e à filosofia oriental.
Conseqüentemente, através da ativação do ramo do SNA inibido, os remédios podem trazer à tona uma conduta incompatível com a que se deseja erradicar, sem que se possa prever aquela que irá emergir. A imprevisibilidade vai ao ponto de que tampouco se tem qualquer garantia (apenas certo grau de probabilidade) de que as alterações fisiológicas induzidas provoquem a modificação psicológica desejada. Em um caso o surto será interrompido, em outro não, num terceiro ele se exacerbará. Essa descrição, aliás, ainda é excessivamente genérica; muitas vezes será preciso variar a dosagem, bem como levar em conta a diversidade dos efeitos colaterais, aferir o limiar a partir do qual a medicação passará a agir ou não agirá mais (fenômeno da tolerância), bem como analisar os efeitos da homeostase, o grau de remissão do surto, etc.
Os raciocínios anteriores têm por implicação a suposição de que, no ser humano, qualquer conjunto de crenças (interpretações, discurso) é necessariamente acompanhado de determinada configuração de seu sistema nervoso autônomo. Essa conclusão nada mais é do que o reconhecimento da existência de uma contrapartida emocional/somática para qualquer estado mental (discursivo). Embora vinculados, discurso, emoção e comportamento não estão articulados através de uma correspondência simples, em virtude dos fenômenos que a psicanálise designa pelos conceitos recalque, manifestação e latência.
A aptidão das drogas em suscitar alterações mentais indica que a relação entre discurso, emoções e configuração do SNA é uma via de mão dupla, embora a direção do tráfego flua, quando não há intoxicação, no sentido preferencial discurso ® emoções ® SNA.
A medicação provoca não apenas a alteração orgânica desejada, mas em acréscimo uma série de efeitos colaterais, devido à propriedade do organismo de reagir globalmente, na medida em que constitui um sistema altamente integrado. É possível compreender o fenômeno do mimetismo a partir dessa ótica. Admite-se a existência de drogas psicotomiméticas, ou seja, substâncias químicas que a partir de certa quantidade freqüentemente eliciam alguns comportamentos semelhantes aos de determinados quadros psicóticos[12] - sem que, apesar da similaridade formal, se possa falar em psicose. Segundo a hipótese acima desenvolvida, é possível que as drogas psicotomiméticas devem suas propriedades à brusca alteração induzida na configuração vigente do sistema nervoso autônomo, com o correspondente acionamento do discurso vinculado à nova configuração.
Levando em conta que a dopamina é um ativador dos circuitos neuronais acionadores do simpático, não deveria surpreender que o paciente parkinsoniano eventualmente dotado de um discurso persecutório inibido, cuja tradução somática inclui a exacerbação da motricidade, exiba, quando medicado com L-Dopa, idéias paranóides. Nesse caso, diríamos que o L-Dopa dispara o simpático e conseqüentemente o respectivo conjunto de significações, percorrendo na contramão o circuito discurso ® emoções ® SNA. Conseqüentemente, dá-se a inversão da relação manifestação/latência.
Podemos perguntar pelas implicações dessa hipótese em relação à psicose propriamente dita, ou seja, a psicose espontânea. Trata-se de uma questão de sumo interesse. Se as vivências pessoais mantêm estreita correspondência com a configuração do sistema nervoso autônomo, então será possível dizer que, no caso da psicose, o conjunto de significações dominante tem como criar uma interpretação do real capaz de produzir desequilíbrios no funcionamento simpático/parasimpático, gerando estados de inapetência, bulimia, letargia, insônia, prostração, agitação, etc. bastante comuns nas síndromes paranóicas, nos estados maníaco-depressivos e nos surtos esquizofrênicos produtivos. (Tais comprometimentos de funções definidas biologicamente contribuem sobremaneira para a crença na etiologia orgânica da psicose, na medida em que o discurso é invisível para o observador em contraste com o alarde das respectivas manifestações orgânicas).
Por outro lado, o quadro psicótico denominado esquizofrenia negativa, em que não há manifestações delirantes nem alucinações, parece associado a um funcionamento orgânico bastante adequado. O bom estado de saúde do paciente pode ser referido, nesse caso, à ausência do discurso pessoal (despersonalização), que permitiria ao seu sistema nervoso autônomo funcionar sem qualquer perturbação derivada das crenças pessoais do sujeito.
Nos outros quadros psicóticos, em que o funcionamento do SNA é alterado pelos conflitos emocionais resultantes do discurso, a alteração em questão exibe a propriedade de bloquear ou inibir a homeostase, visto que o conjunto de crenças mantém vigente e inabalável uma determinada interpretação do real que, traduzindo-se na longa permanência de determinada configuração do autônomo, com predominância maciça do simpático ou do parasimpático, dá lugar à cronicidade do surto. (Podemos exemplificar esse raciocínio hipotetizando um acionamento duradouro do simpático nos estados paranóicos, maníacos e de esquizofrenia produtiva, e do parasimpático na depressão. Na esquizofrenia negativa e no autismo, conforme indicado, pareceria haver uma otimização no funcionamento do autônomo, pelas razões já mencionadas).
Se essa hipótese for correta, não há porque surpreender-se com as correspondentes alterações quantitativas nos neurotransmissores e nos neuroreceptores, que constituem os mecanismos de ativação e inibição do sistema nervoso autônomo.
As drogas psicotomiméticas justificam a distinção entre comportamento e estrutura (ou discurso, conforme argumentação anterior), na medida em que o primeiro pode ser eliciado elétrica ou quimicamente, de maneira relativamente isolada e por um tempo limitado.[13] Uma das drogas com propriedades psicotomiméticas mais conhecidas é o ácido lisérgico, cujos efeitos incluem alterações perceptuais eventualmente alucinatórias, mas ainda assim compatíveis com a lucidez. Isso dependerá, conforme argumentação supra, das características pessoais do usuário. O próprio Albert Hoffman, que descobriu a fórmula química do LSD, passou pela experiência e descreveu-a do ponto de vista de um pesquisador. Foram relatadas igualmente vivências criativas, estados de fruição estética e serenidade mas também tentativas de suicídio, ocorrência de delírios persecutórios e sentimentos de euforia ou melancolia. A mesma variação de respostas (em pessoas diferentes e/ou na mesma pessoa) é comum em relação a outros psicotrópicos (maconha, álcool, cocaína, etc.)
Pode-se argumentar, do ponto de vista organicista, que tais intoxicações, por serem exógenas, ocorrem num prazo de tempo limitado, enquanto a disfunção orgânica, no caso da psicose, é crônica, visto que as alterações orgânicas supostas como causas derivariam de um desequilíbrio bioquímico endógeno. O argumento é logicamente plausível (embora não explique as variações relacionadas ao efeito das drogas) e será examinado ao longo deste capítulo.
O organicismo considera a loucura uma doença e coerentemente rastreia sua causa na fisiologia cerebral. Sempre que alguma pesquisa correlaciona estados delirantes e alucinatórios a alterações na taxa de neurotransmissores ou receptores, proclama-se que o(s) fator(es) causal(is) foram identificados. Por outro lado, a remissão de quadros psicóticos conseqüente à administração de substâncias químicas representa para o organicismo a prova da pertinência de suas hipóteses. (Esse argumento já foi analisado criticamente nos dois primeiros capítulos).
O enfoque organicista ainda abre espaço para a influência ambiental e é capaz igualmente de levar em consideração determinantes ligados à história individual, embora não explique de que maneira ambos poderiam desencadear ou contribuir para o desencadeamento do desequilíbrio orgânico considerado como fator fundamental responsável pela psicose. Mais ainda, o organicismo não dispõe de um quadro teórico que integre os dois fatores etiológicos (orgânico e ambiental) nem discute o aspecto epistemológico relacionado à questão.
A psicanálise (estruturalista) lê a lógica dos delírios, alucinações e alterações de humor a partir de uma teoria que focaliza a condição humana a partir da função simbólica (linguagem). Se à suposição de que cada pessoa é equiparável a um sistema interpretativo forem acrescentados os argumentos derivados da hipótese que propõe vincular discurso, emoção e sistema nervoso autônomo, torna-se possível explicar as modificações orgânicas constatadas nos quadros psicóticos como decorrência da estrutura discursiva do sujeito. A sintomatologia psicosomática, tema do próximo capítulo, se inscreve no mesmo quadro.
As hipóteses organicista e psicanalítica divergem claramente em relação aos aspectos etiológico, teórico e epistemológico. Para a primeira, a causa fundamental da psicose é fisiopatogênica e sua origem deve ser buscada numa disfunção genética (mesmo que a situação atual ou a história de vida possam participar do desencadeamento do surto). Para a segunda, as alterações da fisiologia cerebral decorrem do sentido que cada pessoa - ou sistema interpretativo - confere à sua própria realidade, sentido que, via configuração do sistema nervoso autônomo, modifica quantitativamente as taxas de neurotransmissores e receptores, além de exercer influência considerável sobre os sistemas endócrino e imunológico. O reconhecimento dessa última relação inaugura uma nova disciplina, a psicosomática. Para a abordagem psicanalítica, a loucura seria uma possibilidade inerente à função simbólica, que diferencia a humanidade das outras criaturas da natureza, nas quais não se constatam fenômenos como neurose, psicose, perversão, doenças psicosomáticas e sublimação.
Haveria alguma maneira de pôr a prova e comparar as duas concepções?
Em princípio, ambas são coerentes com os respectivos postulados e parecem igualmente plausíveis. As alterações orgânicas verificáveis na psicose podem ser colocadas tanto na categoria de causa como na de efeito. O “estado atual de nossos conhecimentos” não tem permitido, até agora, comprovar ou refutar um desses enfoques. Na seqüência, serão examinadas as implicações contidas nas hipóteses organicista e psicanalítica para melhor confrontá-las com as evidências disponíveis.
A drogadição e o fator social
A cronicidade não se limita à psicose. Qualquer que seja a abordagem, psiquiátrica ou psicológica, a conduta humana é comumente compreendida através dos conceitos de repertório ou personalidade, dos quais deriva a concepção de padrão (emocional, comportamental, atitudinal). Para uma posição organicista coerente, o comportamento voluntário seria função do funcionamento cerebral e a personalidade (ou repertório de comportamento), uma expressão comportamental devida à bioquímica dos circuitos neuronais. Desse ponto de vista, os termos repertório ou personalidade são qualificados com os adjetivos “normal” e “patológico”, de acordo com a nosografia médica. Correspondentemente, qualquer atitude, conduta, crença, sentimento, emoção, traço de caráter, etc. estaria necessariamente enraizada em determinantes biológicos.[14] Kramer e Restak não fogem a essas implicações dos pressupostos organicistas e procuram efetivamente estendê-los a uma ampla gama de comportamentos, fenômenos e conceitos.
(A medicalização à ultranza da vida quotidiana seria um prato cheio para as diatribes de Michel Foucault. Levando em conta que a crítica ética ao reducionismo organicista já foi empreendida por vários autores, este livro seguirá outra direção e examinará a argumentação elaborada para sustentar o enfoque néo-darwinista, discutindo a interpretação dos experimentos bem como os conceitos formulados por autores como Kramer e Restak).
No caso de Kramer, é a própria noção de eu (ego) que recebe uma redefinição bioquímica; quanto a Restak, seu interesse maior reside em demonstrar que a biologia molecular detém a última palavra quando se trata de entender a ampla gama de atividades e características humanas, da timidez à psicose, da apreciação musical ao abuso de drogas. Trata-se da mesma posição, expressa por vias diferentes mas complementares.
A drogadição tem certamente um valor estratégico para a discussão acerca da relação entre o psíquico e o orgânico. Com referência às suas causas, os diferentes posicionamentos são praticamente idênticos aos existentes em relação à psicose, com a diferença de que aqui o fator social costuma assumir o protagonismo, seguido de perto pela importância concedida à dependência química (hipótese organicista), da qual se espera a elucidação das razões pelas quais o drogadito permaneceria escravizado a tal ou qual psicotrópico. Nesse quadro, o determinismo inconsciente comparece como coadjuvante. A contribuição psicanalítica para o estudo da drogadição tem-se restringido à tentativa de identificar traços comuns nos usuários de drogas, pautando-se sobretudo pela descrição de determinado tipo de personalidade. Assim, o usuário é qualificado de dependente, termo cuja significação é ambígua, já que na acepção organicista do vocábulo tratar-se-ia de uma dependência específica a certa substância. Daí a expressão “dependência química”. Para a psicanálise, a dependência seria psicológica.
É lícito supor, porém, que a ciência dos sonhos tenha muito mais a dizer a respeito da drogadição. A indagação acerca da relação entre drogas e subjetividade não requer outro ponto de partida senão o mesmo já utilizado com referência à medicação psiquiátrica, visto que, em princípio, o problema é idêntico: trata-se, afinal, de compreender a relação entre a fisiologia cerebral e os respectivos estados mentais. Na seqüência, será preciso interrogar as implicações inerentes ao fato da medicação psiquiátrica ser prescrita, enquanto a droga é consumida por opção. Evidentemente, ao termo opção caberia aplicar aspas, já que não se sabe em que medida se trata de compulsividade ou livre arbítrio, ou a que combinação entre ambos. (Essa indecidibilidade, aliás, na ótica psicanalítica, vale para todo e qualquer comportamento humano).
Obviamente, atrás de compulsividade e livre arbítrio perfilam-se os termos inconsciente e consciência, cuja mútua determinação escapa a qualquer tentativa de definição apriorística. Antes de confrontar os enfoques organicista e psicanalitico a respeito da drogadição, seria preciso preliminarmente refletir sobre o fator social e justificar a afirmação de que, para a discussão em pauta, ele é pouco relevante. Tal afirmação parece tanto mais absurda quanto se sabe que a drogadição, nos moldes atuais, é um fenômeno típico das sociedades industriais contemporâneas. Contudo, é preciso lembrar que a questão não está sendo abordada a partir do ponto de vista estátistico nem pensada pelo ângulo das conseqüências sociais. A drogadição será interrogada em relação a seu sentido.
Como já foi assinalado inúmeras vezes, a ponto de constituir quase um truísmo, a drogadição parece intimamente associada a certas características da sociedade industrial, intensificadas sobretudo a partir da segunda metade do século XX: anomia[15], desigualdade social, sensação de descartabilidade, incerteza face à velocidade das transformações tecnológicas que afetam a identidade profissional e os vínculos afetivos, competição cada vez mais exacerbada, perda de segurança, desestruturação da família, invasão da privacidade, excesso de informação, e outras.
O resultado se expressa através de uma considerável instabilidade e não surpreende que o stress constitua o sintoma por excelência do atual mal-estar na civilização. A partir dessa constatação, trata-se de entender como os psicotrópicos participam do quadro em questão. Tudo leva a crer que eles desempenham um papel nada desprezível, simultaneamente paliativo e agravante, cuja compreensão, porém, pouco pode esperar do enfoque estatístico. Aqui também é lícito conjeturar que o fator social não faz senão desencadear e multiplicar as proporções de algo cuja razão de ser é de outra natureza, mesmo porque as características da sociedade industrial não são alheias à mesma subjetividade. Quaisquer sejam suas instituições e valores, não há nada na sociedade que já não esteja presente no próprio sujeito. Tal como aconteceu em relação à hipótese da origem orgânica da psicose, e apesar da sua ampla aceitação, a hipótese da origem social da drogadição também pode ser contestada.
O uso de drogas ultrapassa os limites de classe, cultura e história; substâncias capazes de modificar estados mentais foram e são conhecidas por todas as sociedades. As diferentes modalidades de consumo - coletivo, individual, ritualizado ou não - podem ser importantes em relação à estatística da drogadição; sem dúvida, em sociedades onde a margem de liberdade individual é relativamente pequena, como as ditas primitivas, não somente a dependência química como qualquer outro comportamento desviante esbarra nos estritos e estreitos limites estipulados pelo grupo. Mas as razões pelas quais os seres humanos, não importa a sociedade e/ou época considerada, descobriram e usaram substâncias psicotrópicas, quer através de rituais amparados em crenças culturalmente aceitas, quer no marco da contra-cultura, permanecem opacas para o raciocínio estatístico e sociológico. Postulamos que tais razões dizem respeito ao sentido (portanto ao valor psicológico) associado ao efeito (fisiológico) das drogas.
No que se refere à questão sócio-econômica e estatística, admite-se sem qualquer discussão que as características da sociedade industrial favorecem a drogadição, tanto do ponto de vista da oferta (indústria das drogas) quanto da procura (alienação, desamparo). Desse ângulo, quer se trate dos avanços da química ou do hedonismo, quer se leve em conta a realidade brutalmente competitiva que prevalece no mundo criado pela segunda revolução industrial, é evidente que o aumento exponencial do número de dependentes químicos constitui uma conseqüência. A sociedade de consumo, com seu imenso aparato publicitário a serviço do estilo de vida inerente, vende os produtos da farmacologia, oficial ou clandestina, como qualquer outra mercadoria. É obvio que o termo drogadição pode ser perfeitamente aplicado ao uso crescente de pílulas (somníferos, estimulantes, ansiolíticos, inibidores de apetite), plenamente integrado aos padrões socialmente aceitos.
Tudo isso é inegável. Mas o que interessa à discussão ora proposta é algo de outra natureza e se refere à motivação do “dependente químico”, questão básica sem cuja elucidação seria inútil prosseguir. Quando se examina esse ponto, a singularidade reaparece, apoiada pela constatação da diversidade de reações no interior de uma mesma categoria sócio-econômica e/ou cultural. Assim, é possível deparar tanto com a satanização da droga (pelo estado e pela religião) como indiferença, curiosidade (que motiva uma ou mais experiências seguidas de adesão ou desinteresse), drogadição com e sem criminalidade, com ou sem tratamento, tratamento com maior ou menor êxito, para mencionar apenas algumas das atitudes e situações mais freqüentes.
Não bastaria apenas dizer que os adolescentes das favelas e as crianças de rua exibem um alto grau de vulnerabilidade aos traficantes em virtude de suas condições de vida; seria preciso perscrutar o fator específico subjacente às estatísticas, sem o que não há como compreender porque nem todos os membros desses grupos se tornam drogaditos, nem porque alguns abandonam a dependência química e outros não, nem a razão pela qual adolescentes de classe média ou alta, cujas famílias permanecem relativamente estruturadas, optam (ou “optam”) pela adição. Cabe lembrar que o alcoolismo e o tabagismo tampouco conhecem diferenças de classe e que o mapa da drogadição possivelmente acabará tendo a mesma configuração que o do consumo de álcool e cigarro, variando apenas a qualidade do produto consumido (cigarros de filtro vs “arranca-peito”, whisky escocês vs pinga, morfina pura vs morfina misturada com talco).
O estudo do aspecto social da drogadição é certamente relevante. Permite planejar intervenções institucionais, corretivas ou preventivas, com diversos graus de êxito,[16] mas não tem como auscultar o fenômeno em sua intimidade. Diferentemente, o organicismo e a psicanálise radiografam o dependente em busca dos determinantes internos. Assim como em relação à etiologia da psicose, depararemos com as mesmas divergências entre ambas as abordagens. Se descartarmos a solução eclética, que visa conciliar as posições divergentes a partir da idéia de uma co-determinação, a indagação que incide sobre a articulação entre as manifestações orgânicas e psicológicas da drogadição presume a primazia de um dos fatores, considerado condicionante, em relação ao outro.
A própria expressão “dependência química” já prejulga o encaminhamento comumente dado à questão. Ela atesta que os efeitos orgânicos da drogadição são muito mais chamativos e costumam eclipsar o fator psicológico. Sempre na contramão desse enfoque e assim como foi feito em relação à medicação psiquiátrica, a argumentação a seguir procurará demonstrar que o comportamento do drogadito é ditado pelo discurso. As manifestações orgânicas relacionadas ao abuso decorrem do efeito dos psicotrópicos sobre o sistema nervoso autônomo, e não, como geralmente se pensa, a dramática expressão da invasão do metabolismo por uma substância diabólica. A demanda por psicotrópicos, como o hábito e a síndrome de abstinência, dependem primariamente do discurso e secundariamente de seu efeito sobre o sistema nervoso autônomo.
A argumentação organicista
A premissa organicista é extraída do princípio darwinista referente à adaptação do organismo ao meio. O enfoque darwinista pressupõe que o comportamento de toda e qualquer espécie seja funcional, sendo ditado pelas condições ambientais às quais as espécies, incluindo o homo sapiens, respondem para sobreviver. A partir desse alicerce elabora-se o enunciado segundo o qual as condutas inadequadas são manifestações de deficiências biológicas que afetam negativamente a adaptação.
É possível construir por dedução um silogismo organicista:
- a) As disfunções neurológicas são doenças causadas por fatores orgânicos e entre seus sintomas contam-se alguns que expressam um severo dano infligido às funções intelectuais e emocionais, resultando em comportamentos inadequados (ou seja, não adaptativos).
- b) As psicoses funcionais afetam as funções intelectuais e emocionais, resultando em comportamentos inadequados (não adaptativos). A similaridade entre os sintomas psicóticos e alguns sintomas ditos psíquicos das doenças neurológicas justifica a suposição de que as psicoses funcionais também constituam doenças e que sua etiologia específica deva ser buscada igualmente em alterações patológicas do sistema nervoso central.
- c) A drogadição compromete similarmente o intelecto e as emoções, resultando em comportamentos inadequados; a intoxicação aguda produz freqüentemente quadros similares a sintomas psicóticos. Conseqüentemente, por analogia, pode-se considerar que a drogadição decorre dos mesmos fatores subjacentes às doenças neurológicas e às psicoses funcionais. A respectiva etiologia específica residiria numa falha do metabolismo cerebral, de provável origem genética, que promoveria o consumo compulsivo de substâncias nocivas.
- d) Todos os desvios de comportamento (drogadição, criminalidade, tendências transgressivas menos graves)[17], que infringem o princípio da adaptação ao meio, prejudicam o intelecto, as emoções e a sociedade da qual a sobrevivência individual depende; tais desvios são, portanto, comportamentos inadequados; suas causas, conseqüentemente, devem ser buscadas na patologia cerebral, a exemplo das doenças neurológicas, das psicoses funcionais e da drogadição.
- e) Finalmente, mas não menos importante, se os comportamentos inadequados dependem de falhas no substrato biológico, os comportamentos “normais”, ou seja, adaptativos, decorrem de um funcionamento orgânico adequado, ou seja, saudável.
Como já foi comentado, a psiquiatria biológica poderá conceder um papel auxiliar, maior ou menor, dependendo do autor, a fatores ambientais, quer atuais quer passados, na esteira dos conceitos de “psicose exógena” e/ou “psicose reativa”, categorias nosográficas descritas pela psiquiatria tradicional. Desconhece-se, contudo, qualquer tentativa teórica de articular os fatores ambientais considerados acessórios com os orgânicos tidos por necessários e específicos, no sentido de explicar sua eventual conjugação para desencadear um surto.
Quanto à argumentação organicista propriamente dita, é interessante comparar os caminhos paralelos percorridos por Kramer e Restak. O primeiro centra sua atenção nos neurotransmissores e examina as propriedades da serotonina em relação ao humor. De acordo com a premissa de que a modificação de comportamento induzida por uma substância comprova sua ação causal, ele deduz que a depressão e eventualmente os estados de inibição, insegurança, baixa auto-estima, falta de espontaneidade, apatia, desânimo, ansiedade e angústia decorrem da diminuição acentuada da taxa de serotonina.
Compartilhando o pressuposto de que a toda alteração orgânica significativa corresponde uma patologia, Kramer inscreve-se decididamente na ótica adotada pela psiquiatria biológica. Tal pressuposto freqüentemente utiliza extrapolações do tipo: se a medicação empregada para erradicar determinada afecção somática evoca, na qualidade de efeito colateral, uma outra sintomatologia, de natureza psíquica, então cabe considerar o elemento psicoativo da referida medicação como causa da respectiva disfunção. Mais especificamente, pesquisas com essa orientação visam relacionar as alterações constatáveis na taxa normal de neurotransmissores com determinados quadros psicóticos (excesso de dopamina e esquizofrenia, por exemplo), no intuito de estabelecer a respectiva causalidade.
Tal gênero de abordagem, cujos resultados foram inicialmente acolhidos com grande entusiasmo, tem enfrentado crescentes objeções, já mencionadas anteriormente: reações idiossincráticas (como por exemplo os suicídios e homicídios decorrentes do mesmo aumento de serotonina que a hipótese organicista associa à erradicação da depressão), graves efeitos colaterais concomitantes ou defasados em relação ao tratamento psiquiátrico (como a discinesia tardia), aumento da tolerância à medicação, evidências de inespecificade (p.ex., constatação de que alterações nas taxas de outros neurotransmissores, às vezes de ação antagônica, provocam efeitos semelhantes às ocasionadas no neurotransmissor pesquisado), bem como o comportamento paradoxal do lítio, inexplicavelmente atuante nos casos opostos da mania e da depressão. O organicismo desenvolveu hipóteses etiológicas para explicar as alterações na taxa de neurotransmissores. Nessa perspectiva, as pesquisas tem rastreado causas genéticas, viróticas e anatômicas.[18] As objeções aos resultados dos estudos sobre correlação entre taxa alterada de neurotransmissores e sintomatologia psicótica têm afetado obviamente as hipóteses etiológicas, que visam dar lastro aos referidos estudos. Cabe acrescentar que as hipóteses etiológicas tem enfrentado objeções semelhantes às das hipóteses fisiopatogênicas.
Se tal situação enfraquece significativamente o impacto da argumentação de Kramer, resta ainda assim saber como uma interpretação não organicista poderia explicar os eventuais efeitos positivos comprovadamente decorrentes do aumento da taxa de serotonina. De acordo com a hipótese apresentada no capítulo anterior, a ação principal da fluoxetina (Prozac) ocorreria na região pré-frontal (cujos circuitos neuronais estão associados ao movimento voluntário), produzindo a liberação da motricidade inibida em nível cortical. (Caso essa hipótese seja confirmada, a ação da serotonina demonstraria algo que a intoxicação alcoólica tem ilustrado desde sempre, isto é, que o controle exercido sobre impulsos, sentimentos e ações pode ser “afrouxado” quimicamente).
Assim como a via preferencial (discurso ® emoções ® SNA) pode ser percorrida na “contramão” por indução química (SNA ® emoções ® discurso), cabe supor que o mesmo processo aconteça em relação ao pré-frontal. Caso em que a via preferencial discurso ® emoções/motricidade, invertida quimicamente, resulta no percurso motricidade ® emoções ® discurso. Dessa forma, os circuitos corticais liberados quimicamente do controle acarretarão por sua vez a manifestação do discurso anteriormente inibido, do qual constituem a expressão motriz. A estimulação química da motricidade voluntária e de seu conteúdo ideacional inibido constitui o que se chama metaforicamente de “rebaixamento da censura”. Com a finalidade de investigar essa hipótese poder-se-ia formular uma situação experimental para elucidar o modo de ação do álcool e da cannabis sativa, cujos efeitos de desinibição parecem bastante semelhantes aos provocados pelo aumento da serotonina. Estudos comparativos poderiam igualmente revelar algo sobre a dosagem, os colaterais e a duração das modificações induzidas, ainda que estas difiram de pessoa para pessoa.
Efetivamente, a compreensão dos efeitos idiossincráticos não exige outras considerações a não ser o acréscimo do referido postulado da singularidade, uma propriedade da identidade discursiva inerente ao ser humano. Em relação às tentativas de suicídio e homicídio atribuídas ao Prozac, supõe-se que o conteúdo discursivo associado à motricidade quimicamente desinibida, ao invés de caracterizar-se por sentimentos de auto-estima e espontaneidade no convívio social, expressaria, pelo contrário, a exacerbação da auto e/ou da heteroagressividade.
Portanto, diferentemente de Kramer, é possível considerar que a serotonina, se mantida em níveis elevados durante determinado período de tempo, promoverá a desinibição de circuitos nervosos ligados à motricidade voluntária e conseqüentemente liberará a manifestação do respectivo discurso. A mesma hipótese também pode ser utilizada para entender o comportamento de outros agentes psicoativos de ação semelhante, como o álcool e a maconha, tanto em relação à desinibição como com referência aos efeitos posteriores (arrependimento e prostração, por exemplo).
Aqui reside uma diferença importante: a administração lenta e constante de fluoxetina, ao contrário da embriaguez alcoólica e dos efeitos do THC, poderia garantir a permanência da referida desinibição motora e do respectivo discurso por um tempo maior. Além do que, sendo um remédio receitado (e portanto respaldado pela sociedade), o tratamento com Prozac não costuma ser associado pelos seus usuários à transgressão. Quem consulta o psiquiatra para tratar a depressão não é alguém que tenda à transgressão, ao contrário do usuário de drogas “de abuso”. Resumindo, é possível comparar o tratamento com Prozac a uma leve embriaguez constante, com autorização social e sob supervisão médica.
Um apoio a essa hipótese provém da constatação de que, em pacientes deprimidos hospitalizados (casos mais severos), os inibidores de retomada de serotonina, como o Prozac, são menos eficazes do que os antidepressivos tricíclicos.[19] Na medida em que os últimos atuam basicamente no sistema nervoso autônomo[20] e os primeiros em nível cortical, seria possível entender a diferença da respectiva ação a partir do contraste entre a relativa incolumidade do discurso inibido, no caso das depressões leves, e seu comprometimento no caso das depressões severas. No primeiro caso, a desinibição do discurso latente, por acionamento do simpático, costuma ocasionar alteração no humor; nas depressões mais graves, há bloqueio da homeostase, resultando na manutenção de um duradouro predomínio do parasimpático. Nesse caso, a respectiva alteração química dependerá de uma intervenção maciça sobre o sistema nervoso autônomo.
Neurotransmissores e receptores
As questões tratadas por Restak dizem respeito a uma questão paralela, que passa pela alimentação e incide principalmente na drogadição. Se Kramer chega à conclusão de que os estados de humor decorrem da neuroquímica cerebral[21], ou seja, das características internas do sistema nervoso central, geneticamente determinadas, Restak acrescenta que a complexa arquitetura neuronal também é desenhada pela matéria que a nutre, ou seja, o tipo de ‘combustível’ empregado para mantê-la em ação. A sua questão, portanto, ultrapassa a da etiologia da psicose e não se restringe a celebrar uma descoberta farmacológica como o Prozac; trata-se de estender o postulado organicista às razões pelas quais serão escolhidos, por mecanismos internos do próprio organismo, determinados ingredientes e não outros para alimentar os circuitos nervosos. Cabe ao abastecimento determinar, em boa medida, se o respectivo comportamento será normal ou patológico.
Desse ângulo, os fatores genéticos continuam explicando o funcionamento básico mas o ambiente comparece fornecendo a matéria prima que poderá, via alteração do metabolismo, determinar as particularidades individuais, ou seja, o mapa metabólico de cada sistema nervoso central, dando conta assim da variabilidade do comportamento humano. Não por acaso Restak cita aprobatoriamente o conhecido adágio anglosaxão “you are what you eat“. Trata-se, em última análise, de entender a relação entre os fatores orgânicos (essenciais) e os elementos ambientais (acessórios), bem como construir a ponte entre o comportamento observável e suas causas moleculares.[22]
Nesse ponto da argumentação, Restak exibirá um organicismo coerente, afirmando que a ingestão de ingredientes inadequados decorre das mesmas falhas que produzem a psicose, embora infinitamente mais sutís, a ponto de poderem ser atribuídas pelos leigos a características pessoais ou determinantes sócio-econômicos. Contudo, segundo Restak, o estudo acurado dos diversos tipos de adição, da morfina ao açúcar, da cocaína à cafeína, da anfetamina à nicotina, da maconha ao álcool, mostraria que o consumo abusivo de tais substâncias seria em sua origem um comportamento adaptativo, já que o organismo busca, dessa maneira, suprir uma carência. Portanto, a referida carência é que, no caso das drogas ou dos hábitos compulsivos em geral, deveria ser considerada não adaptativa, ou seja, patológica. Cumpre-se, assim, uma exigência capital do silogismo organicista: “A respectiva etiologia específica residiria numa falha do metabolismo cerebral, de provável origem genética, que promoveria o consumo compulsivo de substâncias nocivas“.
Restak também assinala que às vezes é difícil estabelecer a fronteira entre o uso aceitável e o abuso de estimulantes e calmantes. (Não deixa de ser interessante que ele passe por alto os hábitos “não-ingestivos”, como por exemplo o jogo - cavalos, cartas, dados, roleta, loteria). Seja como for, o reducionismo de Restak situa resolutamente o comportamento humano no interior do paradigma darwiniano/mendeliano, definindo a não adaptação ao meio como patológica. Quanto à origem do déficit orgânico, trata-se de uma questão que deve ser endereçada à genética.
Assim, se para Restak a etiologia orgânica da psicose é ponto pacífico, o organicismo não deveria restringir-se a essa constatação mas abordar também afecções menos chamativas, às quais se aplicaria o mesmo raciocínio. Ele advoga a ampliação da jurisdição coberta pelo sistema nervoso central, essa máquina extraordinariamente complexa, capaz de explicar tanto os estados saudáveis como as disfunções patológicas. Em conseqüência, toda a gama de comportamentos voluntários repousaria, em última análise, no nível molecular[23]. Assim como Kramer não se contenta em constatar a excelência da fluoxetina mas, a partir de seus efeitos, deduz a constituição bioquímica do eu, Restak também reivindica a extensão da neurologia ao comportamento em geral, liberando-a dos limites estritos da anátomo-fisiologia.
O considerável progresso da farmacologia nas últimas décadas despertou nas neurociências a mesma ambição que instigou o ambientalismo, a fenomenologia e a psicanálise a construir uma teoria abrangente acerca da condição humana. Assistimos à segunda floração do darwinismo, que primeiramente foi tomado como modelo para pensar a sociedade e atualmente ingressa no território da subjetividade, adquirindo os contornos próprios a um sistema filosófico.[24]
Em grande medida, esse gesto se apóia no conceito de receptor, cuja abrangência ultrapassa os limites que restringiam seu correlato, o neurotransmissor.[25]
A descoberta das funções cumpridas pela neurotransmissão permitiu ao organicismo reivindicar sua autonomia face aos determinantes ambientais e inconscientes, tornando a psiquiatria biológica uma corrente referendada pela medicina.[26] A psiquiatria abandona as concepções psicanalíticas sobre a loucura, consideradas inoperantes, para valorizar o aspecto pragmático da intervenção medicamentosa, que sempre produz algum efeito - para melhor ou pior. Tais alterações permitem a Kramer, em Ouvindo o Prozac, imaginar um futuro onde, em virtude do progresso ininterrupto das neurociências, os animadores de humor colocarão ao alcance da humanidade a programação do estado de ânimo, determinando assim a relação com a realidade (o outro) a partir da auto-imagem preferida.
Por mais que tal perspectiva já pareça extremamente ambiciosa, o conceito de receptor permite ultrapassá-la. Se a modulação dos neurotransmissores torna possível codificar adequadamente a auto-estima, Restak postula que a alimentação planejada dos receptores permitirá influenciar a própria capacitação, dando acesso à utilização plena desse computador de alcance infinito, o cérebro humano, não somente em termos de auto-aceitação mas também com referência ao poder de modificar a realidade. Cada pessoa poderia assim programar seu desenvolvimento intelectual, otimizando o binômio inteligência/memória.
Restak e as descobertas da farmacologia
Para debater com Restak, será preciso antes descrever detalhadamente sua argumentação e a maneira pela qual ele entrelaça os conceitos de doença neurológica, doença mental e drogadição, de acordo com o arcabouço lógico do silogismo organicista acima descrito. Conseqüentemente, trata-se de examinar as seguintes questões:
- 1. Apresentação da argumentação de Restak em relação à biogênese da drogadição e da psicose, com base no modelo das doenças neurológicas cuja etiologia ou fisiopatogenia é conhecida.
- 2. Exame das hipóteses de Restak sobre o modo de ação das substâncias químicas, quer medicamentosas, quer de abuso.
- 3. Reinterpretação, na perspectiva da psicanálise, dos mesmos dados que Restak invoca para sustentar as teses organicistas.
- 4. Descrição e análise da drogadição de animais, do fenômeno da tolerância e das hipóteses relativas à etiologia genética da psicose. Comparação entre a discinesia tardia, síndrome decorrente do tratamento prolongado com neurolépticos, e a síndrome de abstinência.
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A argumentação de Restak não peca por falta de abrangência. Receptors oferece um panorama extremamente revelador acerca do interesse da humanidade por substâncias psicotrópicas, quer se trate de culturas que permaneceram adscritas à economia de caça e coleta, como as populações da bacia do Amazonas, quer se trate de suas congêneres mais complexas dos altiplanos peruano, boliviano, da América Central e da América do Norte[27], quer por parte de civilizações cuja influência na história do ocidente é considerável, como as da África do Norte e do Oriente Médio. quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A tentativa de teorizar os efeitos das substâncias psicotrópicas tem início com o livro de Louis Lewin, Phantastica: Narcotic and Stimulating Drugs, publicado em 1924 na Alemanha. Nele se encontra a primeira tentativa de classificar os estupefacientes, categorizados por esse autor como inebriantes, hipnóticos, euforizantes, excitantes e “fantasticantes” (alucinógenos), de acordo com a sua incidência sobre o humor, a alternância vigília/sono e a percepção. Lewin, um brilhante precursor das neurociências, afirma categoricamente que os alteradores de consciência devem seu poder às modificações induzidas no cérebro. Se ainda fosse necessário prová-lo, de seu livro depreende-se o interesse que todas as populações humanas dedicaram a esse aspecto da botânica. A classificação de Lewin especifica as modificações provocadas no comportamento, sem ocupar-se com a respectiva composição química.
Vinte anos depois, as pesquisas de Albert Hofmann sobre o ácido lisérgico (LSD) resultam na primeira descrição química dos psicotrópicos. Na primavera de 1943, o químico da Sandoz, que estudava as propriedades analépticas ou estimulantes de amidos do ácido lisérgico, ingeriu acidentalmente (provavelmente através de absorção pela pele) certa quantidade do composto batizado LSD-25 e não pôde continuar seu trabalho. “Ao chegar em casa, deitei-me e mergulhei numa espécie de embriaguez que não era desprazeirosa, caracterizada por uma extrema atividade imaginativa…“.[28]
Os efeitos da absorção do LSD sobre a percepção e as emoções, experiência repetida posteriormente de maneira deliberada para estudar os efeitos da droga, levaram-no à suposição que inaugura o vislumbre da relação entre química cerebral e psicose.[29] Pela primeira vez era apresentada “…a hipótese de que certas doenças mentais, consideradas até então de natureza puramente psíquica, possuíam uma causa bioquímica, porque agora parecia provável que os traços indetectáveis de uma substância psicoativa produzida pelo próprio corpo poderiam causar distúrbios psíquicos“[30]. É o que será denominado, na terminologia psiquiátrica, de capacidade psicotomimética das drogas. No caso do LSD, trata-se de um notável potencial para alterar a percepção.[31]
O interesse de Hofmann, a partir da descrição feita por Lewin e Heffter, leva-o a descobrir a similaridade entre o LSD, sinteticamente produzido no laboratório da Sandoz suíça, e a mescalina, extraída de um cacto, utilizada pela população indígena centroamericana em cerimônias religiosasHeffer, que haviam conseguido isoladar a mescalina. Heffter. É interessante notar que tais práticas culturais, banidas pelo catolicismo no início da colonização, ingressaram na clandestinidade - antecipando o que viria acontecer com as drogas no século XX. Juntamente com o cacto peyotl, o cogumelo conhecido como teonanacatl também fazia parte do acervo de conhecimentos botânicos dessas populações, sendo usado para fins terapêuticos. Hofmann isolou seus princípios ativos, encontrando semelhanças estruturais entre mescalina, epinefrina e norepinefrina, bem como entre LSD e serotonina. Por sua vez, a psilocibina e a psilocina, substâncias ativas do cogumelo teonanacatl, são derivados de triptamina, mesmo caso da serotonina.
A partir de tais análises, escreve Restak, “…os neurocientistas agora tinham razões para acreditar que as afecções emocionais poderiam resultar de mudanças bioquímicas situadas no cérebro“.[32]
Entretanto, as pesquisas de Hofmann não desembocaram na psicofarmacologia psiquiátrica, a não ser indiretamente[33]; em compensação, na década de 60, os alcalóides encontrados no peyote reapareceram sob forma sintética na atmosfera comunitária e pacifista da contra-cultura hippie, que ressuscitou no seio da economia industrial mais desenvolvida do planeta os rituais das culturas pré-colombianas da América Central, inclusive a figura do xamã (no caso, Timothy Leary). O império contra-atacou e as instituições governamentais norte-americanas patrocinaram pesquisas cujos resultados advertiram os usuários dos altos riscos incorridos com o LSD. Se retrospectivamente é possível ver no trabalho de Hofmann a menção pioneira à correlação entre química cerebral, drogadição e psicose, o desenvolvimento do primeiro remédio criado no interior do campo psiquiátrico se deu por outra via.
Em 1948, John Cade, psiquiatra australiano, realizou um experimento destinado a verificar a hipótese de que os estados maníacos resultariam da ação de uma toxina. Partindo da suposição de que tal toxina deixaria vestígios nas excreções, ele comparou o efeito da urina de pacientes maníacos em cobaias com a de um grupo de controle, verificando que a primeira exibia um maior índice de letalidade. Em seguida, isolou os três componentes básicos da urina -: uréia, ácido úrico e creatinina - constatando que a primeira era a única a causar danos. A creatinina era não-tóxica e o ácido úrico apenas intensificava a ação tóxica da uréia. Prosseguindo a pesquisa, buscou estudar mais especificamente o ácido úrico, mas verificou que seus cristais não se dissolviam em água; o urato mais solúvel e mais próximo em composição química do ácido úrico era o urato de lítio. Com essa adaptação, fez então o experimento, mas em vez da ação tóxica esperada constatou que o lítio reduzia consideravelmente a toxicidade da uréia, ao invés de aumentá-la (como acontecia com o ácido úrico). O urato de lítio foi substituido por sua vez pelo carbonato de lítio (melhor tolerado pelo organismo), dando lugar ao mesmo efeito calmante. Depois de um auto-teste, Cade aplicou a substância em pacientes maníacos, com resultados bastante favoráveis. Em 1949, o artigo Lithium salts in the Treatment of Psychotic Excitement é publicado no The Medical Journal of Australia. “Sua descoberta dos efeitos anti-maníacos do lítio inaugurou a moderna ciência da psicofarmacologia” escreve Restak, e comenta: “Mesmo agora, quarenta anos após o experimento de Cade, o mecanismo de ação exato do lítio permanece desconhecido. Mas sabe-se com certeza do seguinte: a mania não resulta de uma deficiência de lítio no corpo“[34].
O tom categórico de Restak quando recusa ao lítio propriedades etiológicas não deixa de surpreender, já que, como Kramer, ele julga perfeitamente razoável construir uma hipótese com base no raciocínio de que se uma substância erradica determinado sintoma, cabe supor que o mesmo foi causado pela sua ausência ou diminuição[35]. A atitude de Restak deixa de surpreender se for levado em conta que o lítio é paradoxalmente tão eficaz na mania como na depressão, evidência que Receptors, reveladoramente, deixa de mencionar… Essa propriedade do lítio, que o torna tão ilegível como incômodo para o organicismo, explica por que Restak lhe nega peremptoriamente qualquer dimensão etiológica. Diaz, que admite os dados a favor e contra as hipóteses organicistas com a isenção própria de um cientista, escreve no capítulo Ações cerebrais das drogas:
“Paradoxalmente, acumulou-se evidência que o lítio não somente é o melhor agente anti-maníaco à disposição do clínico, mas também um bom antidepressivo para um subgrupo de pacientes. Em terceiro lugar, afirma-se que o lítio é um profilático ativo no tratamento dos distúrbios afetivos, ainda que para sustentar este ponto alguns autores exijam um número maior de estudos controlados. Constata-se uma heterogeneidade, cuja natureza não foi identificada, na resposta a este íon, em virtude do que inexiste qualquer análise capaz de predizer sua eficácia farmacológica, a não ser o teste em cada caso. Apesar disso, adverte-se que a terapia deve ser cautelosa e que os níveis de lítio devem ser freqüentemente rastreados no sangue e nos eritrócitos para prevenir a toxicidade central e periférica do íon“.[36]
O artigo de Cade foi recebido com reservas. Segundo Kramer[37], apenas no final dos anos 60 foram reconhecidas e saudadas as propriedades do lítio. Eficaz igualmente para prevenir ou debelar quadros maníaco-depressivos, é inócuo em relação à esquizofrenia. O lítio revela-se assim uma substância duplamente paradoxal: no seio de uma inespecificidade absoluta (age tanto na mania como na depressão, condições exatamente opostas), define nitidamente a fronteira entre mania-depressão e esquizofrenia, oferecendo pela primeira vez à psiquiatria a possibilidade de estabelecer um diagnóstico diferencial confiável. Nenhuma outra substância química pôde repetir esse feito notável… nem o próprio litio.
“O firme vínculo entre uma droga e um diagnóstico tornou-se um modelo ideal ao qual nem mesmo o lítio se aplica. Com uma medicação disponível eficaz, os psiquiatras americanos tornaram-se diagnosticadores tão entusiastas de depressão maníaca (sic)[38] que hoje somente metade dos pacientes que recebem esse diagnóstico respondem bem ao lítio, e duas ou três outras drogas estão em uso comum para a doença. E o lítio está agora sendo usado para tratar outras formas de perturbação“.[39]
O lítio, desta vez através de seu histórico como substância terapêutica, acaba por provocar um terceiro paradoxo, agora na própria psiquiatria biológica. Na seqüência dos comentários anteriores, Kramer escreve: “Os medicamentos, é cada vez mais reconhecido, alteram os sistemas neuroquímicos. Eles não tratam doenças específicas. E a proliferação de doenças tornou-se tão perturbadora que a pesquisa de ponta envolve tentativas de elucidar vínculos entre elas” (…) “Esse anuviar de fronteiras constitui um efeito não esperado - humanístico - de se ouvir drogas: como a psicanálise, a resposta positiva a drogas pode enfatizar a banalidade bem como a futilidade de tentativas de categorização mecânica“.[40] A breve referência à psicanálise provavelmente significa que o método psicanalítico (associação livre, atenção flutuante) é aplicável tanto à histeria de conversão, como à neurose obsessiva e à fobia (histeria de angústia). A conclusão é surpreendente: em vez de preocupar-se com o diagnóstico e a etiologia dos distúrbios mentais, pilares da psiquiatria biológica, Kramer considera pragmaticamente que a nosografia e a etiologia são menos importantes do que o efeito da medicação. Mais ainda, propõe que a resposta aos fármacos passe a constituir doravante o critério do diagnóstico, mesmo que essa atitude subverta a modalidade tradicional de intervenção psiquiátrica.
Se a proposta relativista de Kramer for aceita, é de se temer (ou rejubilar?) que ela resulte, cedo ou tarde, na abolição da nosografia psiquiátrica. De fato, a “proliferação de doenças” mencionada por Kramer não seria outra coisa senão o reconhecimento de que a idiossincrasia se sobrepõe aos quadros nosográficos. Na clave psicanalítica, um dos
[1] (Plants of Gods, Richard Evans Schultes e Albert Hofmann, citado por Restak).[2] (Restak, op.cit. pg. 59).
[3] (Restak, op.cit. pg. 7).
[4] “À medida em que avançamos na última década do século vinte, que foi declarada a Década do Cérebro, o conceito abrangente de receptor provavelmente se mostrará ainda mais propenso a facilitar o conhecimento do cérebro, propiciando, na esteira desse processo, a compreensão de nossos pensamentos, estados de espírito e comportamento. Graças a essa pesquisa, pela primeira vez na história da humanidade, teremos a possibilidade de programar nosso próprio cérebro” (op.cit., pg. 216).
[5] O último item pode ser exemplificado através da discinesia tardia, isto é, o descontrole na motricidade voluntária que sobrevém freqüentemente após a suspensão do tratamento com neurolépticos.
[6] A expressão “doença mental” é própria da psiquiatria e sua utilização aqui não significa coonestá-la.
[7] Nos capítulos VIII e IX de Receptors, intitulados Russian Dolls e Double Agents.
[8] Seria mais exato dizer: um dos principais mecanismos. Ver adiante a ressalva de José Luis Diaz a esse respeito.
[9] Sempre em torno de 70% segundo a maioria das estatísticas. O mesmo tratamento (eletrochoque) foi transposto para a PMD (atual distúrbio bi-polar), com resultados semelhantes. Além da transitoriedade dos efeitos, essa inespecificidade é bastante significativa; constitui um argumento muito forte, senão decisivo, contra a suposição de que o eletrochoque seria um tratamento etiológico.
[10] “Em neurologia, a descoberta realizada em 1960 de um decréscimo de dopamina no corpo estriado ou striatum dos pacientes afetados pela doença de Parkinson levou a tratá-los com L-dopa, da qual a dopamina é o metabolito. Mas se esta droga permitiu melhoras espetaculares no que concerne aos transtornos motores, também produziu com bastante frequência complicações psiquiátricas com aparição de manifestações psicóticas que se assemelhan mais a episódios confuso-oníricos do que a verdadeiras psicoses esquizofrênicas e que cessam com a suspensão da terapia com L-dopa“. (Jean Garrabé, op.cit., pg. 190).
[11] Ela precisaria apenas ser atualizada em relação à descoberta do sistema nervoso autônomo, ocorrida duas décadas depois. O tema é abordado no segundo capítulo.
[12] Como a dopamina, acima mencionada.
[13] Cf. o exemplo da “sham-rage”.
[14] É o caso, por exemplo, da ‘inteligência’, cuja base genética começa a ser insistentemente afirmada. Em Receptors, Restak escreve: “Não apenas a inteligência mas traços de personalidade tais como timidez, introversão e suscetibilidade a certas formas de doença mental revelam-se fortemente influenciados pela genética” (op.cit., pg. 99).
[15] Termo cunhado por Durkheim para designar a perda do referencial constituído pelos valores tradicionais.
[16] O êxito provavelmente depende de que o sujeito esteja em conflito com referência à dependência. Nesse caso, os programas de recuperação (cursos de profissionalização, educação artística, esportes etc.) são eficazes. Freqüentemente a crença religiosa cumpre um papel importante enquanto motivação para o afastamento da droga e pode ser compreendida como um procedimento sugestivo.
[17] A imprecisão deste último item dará lugar a confrontos entre organicistas conservadores e organicistas liberais a respeito da inclusão ou não do aborto, maconha, homosexualidade, desobediência civil, contra-cultura e outros comportamentos na categoria do patológico.
[18] No final deste capítulo serão discutidas as hipóteses referentes à etiologia genética. Quanto à etiologia anatômica e virótica, a precariedade dessas hipóteses dispensa seu exame.
[19] Kramer menciona as evidências correspondentes a essa afirmação na pg. 137 e seguintes.
[20] A potência maior da imipramina (Tofranil) reside em que ela inibe não somente a retomada de serotonina mas também a de norepinefrina. Em compensação, o simpático será fortemente ativado - transpiração, palpitações cardíacas, boca seca, prisão de ventre e retenção urinária, segundo Kramer. O Prozac apresenta colaterais ‘simpáticos’ (como a perda de apetite) em grau menor, já que sua ação se exerceria, (segundo nossa hipótese), sobretudo no lobo frontal. Cumpre-se, assim, o previsto pela ‘Lei de Denniker’: quanto mais significativo for o efeito de um psicotrópico, maior a sua propensão a provocar fortes colaterais extra-piramidais.
[21] Em certos trechos de Ouvindo o Prozac encontrar-se-ão ressalvas e ponderações; em outros, a hipótese do eu bioquímico é afirmada enfaticamente. O resultado final reflete uma mescla entre cautela e radicalismo; mas a originalidade do livro, sua contribuição principal, repousa na defesa incondicional do reducionismo orgânico.
[22] “Este desajuste (desencontro) entre receptor e transmissor inclui não somente eventos no nível químico e molecular mas pensamentos e sentimentos que são os correlatos, no nível comportamental, das alterações químicas” (op.cit., pg. 216).
23 Conforme a tese subjacente ao trecho mencionado em epígrafe: “Em resumo, tudo o que é mental- tanto as funções normais como os distúrbios de pensamento e emoção - se origina de alguma ordem ou desordem correspondente no nível molecular“.
[24] “…estas drogas, utilizadas com propriedade e sensibilidade, podem ajudar-nos a alcançar o objetivo que muitos sistemas filosóficos e psicólogicos sugeriram como nossa melhor estratégia para enfrentar e vencer um mundo cambiante; modificando não o mundo mas nossas respostas a ele” (idem, pg. 215).
[25] “Na próxima década a pesquisa sobre receptores promete trazer avanços notáveis e de grande alcance em nossa compreensão do comportamento humano e no tratamento de doenças mentais até agora incuráveis bem como da drogadição. A aplicação desses avanços estende-se além da compreensão de estados mentais extraordinários. Também promete melhorar as funções normais: enriquecendo a memória, desenvolvendo a inteligência, aumentando a concentração e alterando os estados internos de humor das pessoas“. (Idem, pg. 5).
[26] Referindo-se às décadas anteriores ao surgimento das neurociências, Restak escreve: “Os psiquiatras tinham realmente mais afinidade com psicólogos, filósofos e outros estudiosos que consideravam a personalidade humana de maneira a excluir a biologia, do que com os outros médicos” (idem, pg. 9).
[27] “Embora não se saiba precisamente há quanto tempo estas plantas sagradas começaram a ser empregadas dessa maneira, descobertas arqueológicas de espécimes de peyote em cavernas do Texas sugerem seu uso cerimonial há mais de três mil anos“. (Restak, op.cit., pg. 52)
[28] Op.cit., pg. 48. Por outro lado, Jacques Postel e Claude Quétel, em Historia de la Psiquiatria, fazem recuar um século o gesto que atribui às drogas a propriedade psicotomimética. Segundo os referidos autores, o alienista Moreau de Tours preconizou em 1845 o uso do haxixe para esclarecer certos aspectos da ‘patologia mental’. Esse clínico considerava que somente através de uma vivência equivalente à de seu paciente o médico conseguiria entrar em contato com a loucura: “Fazei como eu, provai do haxixe, experimentai en vós mesmos”. (Postel e Quetel, pg. 395).-
[29] Vislumbre que por sua vez permite entrever , se adotarmos um ponto de vista não organicista, a comunhão entre o sentido que preside a alteração voluntária da química cerebral (ou seja, a motivação que conduzirá ao uso de drogas) e o sentido subjacente à psicose.
[30] Hofmann, citado por Restak (pg. 51).
[31] “”…LSD é de longe o mais ativo e potente alucinógeno…” (Restak, op.cit. pg. 52).
[32] (Idem, pg. 59).
[33] O LSD foi efetivamente utilizado como psicotomimético em pesquisas sobre a alucinação psicótica.
[34] (Op.cit., pg. 66). Diaz escreve que Mandell e Knapp (1979) supõem que “…os efeitos do lítio sobre o sistema serotoninérgico explicariam a eficácia do íon tanto na mania como na depressão“, ao incrementar a disponibilidade do triptófano, seu precursor, ao qual se atribui um papel de regulação na síntese da serotonina cerebral.
[35] Eis um exemplo: “De fato, em um ponto os cientistas discutiram seriamente a possibilidade da existência de um composto natural do tipo PCP no interior do cérebro, cuja disfunção, de maneira misteriosa, produziria esquizofrenia. (…) Se uma droga como o PCP provoca modificações tão profundas no funcionamento normal do cérebro, a ponto de que uma pessoa sob sua influência possa agir pela primeira e única vez em sua vida como esquizofrênica, raciocinaram, o PCP plausivelmente agiria no mesmo sítio ou sítios cerebrais responsável(is) pela esquizofrenia“. Mas, “…não houve como confirmar ou refutar esta hipótese perfeitamente razoável” (Restak, op.cit., pg. 129).
[36] Op.cit., pg. 18.
[37] Pgs. 61 e segs.
[38] Um erro do tradutor. A tradução correta é “mania-depressão”.
[39] (Kramer, op.cit., p.62)
[40] (Idem, p.62)
