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Sonhos (comentários sobre três textos de Freud acerca dos sonhos)

Friday, June 5th, 2009

Os sonhos

(Comentários sobre três textos de S. Freud acerca dos sonhos)

Sobre os sonhos (1901) (volume V das Obras Completas de Sigmund Freud)

Sobre os sonhos” foi escrito em 1901, como um resumo do volumoso “A Interpretação dos sonhos” (1900), de quase setecentas páginas.

Trata-se de um pequeno ensaio de 50 páginas, que descreve as hipóteses principais d’ “A Interpretação…“.

O primeiro capítulo faz uma descrição panorâmica das abordagens sobre o onirismo. Durante o predomínio da concepção religiosa, o sonho era tido como um meio de comunicação dos poderes sobrenaturais com o ser humano. Requeria a mediação de um intérprete (”onirócrita”), capaz de decifrar as mensagens dos deuses, associadas à previsão do futuro, ao contato com os mortos, a alertas e advertências, recomendações, guias de conduta. De acordo com o famoso relato bíblico, o sonho do Faraó (sete espigas e sete vacas magras devorando sete espigas férteis e sete vacas gordas), interpretado por José, permitiu ao soberano preparar o Egito para os sete anos de escassez que se seguiriam a sete anos de colheitas abundantes.

(Note-se a semelhança entre as concepções de José e Freud a propósito do sonho enquanto manifestação metafórica: sete “espigas, vacas”, são compreendidas como sete “anos”. “Vacas gordas e espigas fecundas” retratam abundância, fertilidade, enquanto “magras e sem grãos” constituiriam metáforas de escassez. A própria ordem das ações é compreendida como seqüência temporal, em que se dá a substituição da abundância pela escassez).

Na era da ciência, o sonho foi considerado uma produção do próprio ser humano. A abordagem biológica procurou explicar o onirismo como conseqüência da atividade elétrica cerebral, que durante o sono, ou seja, na ausência das faculdades da consciência (como percepção, raciocínio, memória, volição), estimulava circuitos neuronais responsáveis pelo “armazenamento” de sensações.

A metáfora para ilustrar essa concepção é a de uma criança pequena, sem qualquer conhecimento de música, que apóia as mãos sobre o teclado de um piano. O sonho seria equivalente a notas tocadas aleatoriamente.

Em contraposição, artistas e teóricos ligados à arte, e eventualmente à filosofia, viram no sonho uma demonstração marcante da liberdade do espírito humano, testemunhando sua independência em relação às coerções da percepção e do raciocínio, além de plenamente capaz de prodígios de memória (visto que acontecimentos há muito esquecidos retornam freqüentemente nas imagens oníricas).

Essa valorização do sonho é típica da escola romântica [século XIX], que enaltecia sentimentos e emoções em detrimento da razão, bem como priorizava o indivíduo face às regras sociais. O surrealismo, corrente de pintura do início do século XX, entre cujos expoentes se contam Salvador Dali e Giorgio De Chirico, é particularmente ilustrativo do prestígio do sonho no campo da arte.

A dicotomia cérebro/mente aparece claramente nessa contraposição entre as concepções médica e artística do sonho. Para a ciência, a mente é um epifenômeno da base orgânica cerebral. Para a filosofia e a arte, a mente (o “espírito humano”) mantém a sua independência face ao substrato neuronal.

A opinião popular considera que o sonho é portador de uma mensagem cifrada, cuja elucidação seria valiosa para o sonhador. Objeto de zombaria por parte das pessoas cultas, essa concepção foi de certa forma defendida pela psicanálise, embora através de um enfoque bem diferente, tanto em relação ao método como com referência à função do sonho.

Ou seja, para a psicanálise o sonho possui efetivamente sentido, desde que abordado mediante um método que consiga relacioná-lo aos pensamentos conscientes e à identidade. Em vez de retratar a comunicação com poderes sobrenaturais, o sonho, para a psicanálise, constitui a evidência mais marcante (e surpreendente) da existência (e da atividade) da parte inconsciente do psiquismo.

 II

Conferências introdutórias à psicanálise (1916/1917) (Volume XV das Obras Completas de Sigmund Freud)

Os sonhos

Conferência VII

O conteúdo manifesto dos sonhos e os pensamentos oníricos latentes

A hipótese teórica desenvolvida por Freud sobre o sonho distingue o sonho propriamente dito, tal como foi sonhado e/ou é recordado, dos pensamentos e percepções dos quais foi extraído o material empregado em sua elaboração.

Esse material corresponde a certas vivências ocorridas durante o dia do sonho. Essas vivências são descritas como pensamentos e percepções e designadas pela expressão “restos diurnos”. Nada impede que entre essas vivências se encontrem recordações de épocas remotas da vida do sonhador, ou fantasias e pensamentos acerca do seu futuro.

Esses pensamentos e percepções, os “restos diurnos”, por sua vez, estão vinculados ao “desejo”, ou seja, à identidade (”personalidade”) do sonhador. Vinculados ou, talvez seria melhor dizer, subordinados, determinados por.

Segundo Freud, o sonho será composto por um material (restos diurnos) selecionado em função da sua capacidade de representar e ocultar, simultaneamente, um aspecto importante do desejo (isto é, do sentido, ou seja, de um componente essencial da identidade), do qual não se tem consciência.

O verbo “ocultar”, no parágrafo anterior,  designa a hipótese de que o desejo (sentido) que constitui o motivo fundamental de determinado processo de elaboração onírica,  seria, por definição, inconsciente. O seu acesso à consciência implicaria no enfrentamento da barreira da “censura”, do que resulta necessariamente a deformação imprescindível ao ocultamento do sentido. Daí o aspecto aparentemente absurdo do sonho.

Essa é a hipótese explicativa de Freud em relação ao caráter quase sempre incompreensível, expresso freqüentemente mediante imagens absurdas e desconexas, da produção onírica. O pesadelo corresponderia a um “disfarce” mal feito. No pesadelo, o desejo (sentido), ao ameaçar tornar-se compreensível, desencadearia o afeto da angústia, que acorda o sonhador, para que este não entre contato com algo que foi recalcado (ou que jamais pôde aceder à consciência).

O sonho se dividiria em:

1) conteúdo latente, [sub-dividido por sua vez em a) “desejo” (seria melhor dizer: sentido) inconsciente, de um lado, e b) pensamentos pré-conscientes, que seriam expressões indiretas (metafóricas) do desejo (sentido) em questão],

2) e conteúdo manifesto, composto por imagens (eventualmente trechos de pensamentos, falas ou passagens escritas, desenhos, esquemas). Por conteúdo manifesto entende-se o sonho tal como foi sonhado (e ao qual só se tem acesso mediante a memória).

III 

Capítulo XI - a elaboração onírica

A elaboração onírica designa os mecanismos responsáveis pela construção do sonho, ou seja, a seleção das imagens que irão compor o conteúdo manifesto, representando metaforicamente os pensamentos latentes pré-conscientes (aspectos da parte consciente da personalidade), que por sua vez representam, também metaforicamente, o desejo (ou sentido, isto é, algum aspecto inconsciente da identidade).

Os mecanismos da elaboração onírica são: deslocamento, condensação, figurabilidade e elaboração secundária.

A figurabilidade designa o fato de que o sonho é composto por imagens (ou manifestações lingüísticas — falas, escritos, esquemas, etc — que se comportam como imagens, em função de seu caráter metafórico) e descreve o processo pelo qual os pensamentos latentes, pré-conscientes, depois de “condensados” (compactados), são transformados em imagens (conteúdo manifesto do sonho).

A condensação é a operação que transforma em elementos mínimos (algumas imagens) uma longa cadeia de pensamentos latentes (pré-conscientes), que veicularão indiretamente o sentido do sonho. Essa cadeia de pensamentos latentes é compactada, sendo representada por um elemento mínimo, próprio a ser transformado em imagem (e próprio também a ser miniaturizado e separado de seu contexto, no caso de palavras e/ou esquemas, grafismos).

O deslocamento refere por excelência a característica “despistadora” do sonho, ou seja, a ação da censura, que torna o sonho ininteligível.  Representa da maneira mais indireta possível o desejo (sentido). As idéias que serão “escolhidas” para representar o conjunto ao qual pertencem contam-se precisamente, e não por acaso, entre as menos importantes de um grupo de pensamentos.

(Na seqüência, como foi visto, essas idéias sofrerão a operação da condensação [em que uma pequena parte representará o todo], e serão em seguida transformadas em imagens).

O quarto mecanismo da elaboração onírica é a elaboração secundária. Freud supõe que o sonho, tal como se apresentou à consciência do sonhador, é ainda mais caótico do que parece. O sonho, quando “sonhado”, constituiria uma sucessão desordenada de imagens. Ao ser lembrado (e eventualmente relatado), é organizado gramaticalmente. A elaboração secundária corresponderia à tentativa de conferir alguma lógica ao conjunto de imagens desconexas, de forma a apresentá-las no âmbito de uma seqüência temporal, que pode ser relatada.

Poderíamos metaforizar a descrição freudiana sobre os mecanismos de elaboração do sonho da seguinte maneira.

Imaginemos que o sujeito (o sonhador) possa ser representado por um livro com muitíssimos capítulos. (Talvez seja melhor imaginar um grande número de livros, todos com muitos capítulos).

Nesse caso, o sonho corresponderia ao capítulo de um desses livros (que metaforizam a identidade do sonhador) .

Para que o sonho seja construído, desse capítulo são extraídos alguns parágrafos, com a condição de que sejam pouco representativos do capítulo em questão.[1] Esses “parágrafos” corresponderiam aos pensamentos latentes pré-conscientes. Essa operação descreveria a ação do deslocamento, que em princípio deixaria o sonhador sem qualquer pista quanto à significação do capítulo (ou seja, do sonho).

Desses “parágrafos”, por sua vez, são extraídas “frases” isoladas. (Digamos: de cada “parágrafo” seria extraída uma “frase”, aquela cujo conteúdo mais facilmente se presta a ser representado por uma imagem). Essas frases, cuja escolha se deu em função da facilidade com que pode ser expressa por imagens, são superpostas. Ou seja, o sonho seria construído a partir da justaposição imagens que representam frases isoladas, cada uma das quais teria sido extraída de diferentes parágrafos, o que explicaria o seu caráter confuso e aparentemente incoerente. A essa representação de todo um conjunto por apenas um de seus elementos (”parágrafo” por “frase”), dá-se o nome de condensação.

Cada uma dessas frases, extraídas de diferentes parágrafos e superpostas em seqüencia, escolhidas justamente pela facilidade de serem representadas por imagens, são efetivamente transformadas em elementos visuais. Essa seria a operação chamada de figurabilidade.  

A elaboração secundária corresponderia ao trabalho de um revisor, que corrige as “falhas gramaticais”  e as “falhas de ilustração” do capítulo/parágrafos/frases transformados em “desenhos” (imagens oníricas). A elaboração secundária, que torna o relato do sonho possível, simultaneamente colabora para manter a sua ininteligibilidade.