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Freud e Lacan, segundo Althusser

Friday, August 14th, 2009

 

Freud e Lacan, segundo Althusser[1]

O texto de Althusser “Freud e Lacan” constitui um manifesto destinado a legitimar a releitura de uma obra clássica (mesmo se constantemente contestada), com o intuito de recuperar os seus fundamentos e renová-la mediante uma interpretação que visa extrair plenamente suas conseqüências. O tema não é estranho à situação do próprio autor, que empreendeu a releitura estruturalista da obra de Marx. Pode-se dizer que, nos anos 60, Lacan está para Freud e a IPA (Associação Internacional de Psicanálise) como Althusser para Marx e o partido comunista francês.

Althusser e Lacan são iconoclastas que combatem a burocracia institucional, considerada por eles como usurpadoras de obras originais e revolucionárias, domesticadas a serviço dos interesses do partido comunista e das associações de psicanálise.

O filósofo descreve inicialmente a situação da psicanálise na década de 50, quando o mundo europeu retornou à normalidade, após o fim da segunda guerra. A morte de Freud precipitou a obliteração dos valores que ele representava (estudo, pesquisa, independência face ao saber constituído e à moral vigente) e o resultado foi a cooptação da psicanálise pelas áreas de conhecimento contíguas - biologia, psicologia, sociologia, filosofia.

A anexação fora facilitada pelo fato de que, pioneiro desprovido de instrumentos intelectuais adequados ao campo da sua descoberta, Freud formulara os conceitos da psicanálise numa linguagem imprópria aos fenômenos estudados.

Valeu-se assim de “conceitos teóricos pré-existentes às descobertas psicanalíticas“, extraídos principalmente da física e da biologia, como processo primário, processo secundário, descarga de energia, redução das tensões, aparelho psíquico.

Althusser descreve o caminho que Lacan percorrerá em busca do ethos perdido da psicanálise: “…trabalho sério de crítica histórico-teórica… identificar e definir… a verdadeira relação epistemológica existente entre esses conceitos e o conteúdo que eles pensavam“.                                                                                                                                             

Outros aspectos importantes discutidos por Althusser se referem à necessidade da reflexão sobre pressupostos ideológicos (inclusive uma auto-crítica por parte do marxismo em relação à sua incompreensão da psicanálise)[2] e ao escrutínio dos acordos feitos pelas instituições psicanalíticas oficiais com as abordagens teóricas reconhecidas e as corporações profissionais dotadas de prestígio.

Lacan encarregou-se empreender a inquirição epistemológica relativa ao objeto da psicanálise, o inconsciente. Sem esse gesto, a psicanálise permaneceria prisioneira do “revisionismo biopsicosociológico”, mantendo-se em posição subalterna face às ciências que reivindicam legislar sobre a teoria e a prática psicanalíticas mediante o argumento de que o inconsciente seria um fenômeno secundário, regido por determinantes extrínsecos.

O autor dos Escritos questionará a conceituação de inconsciente dominada pela referência ao biológico, ao psicológico, ao sociológico e a uma filosofia centrada na consciência (o existencialismo).

Mas na medida em que a influência da medicina, da psicologia e das ciências sociais sobre a psicanálise se faz sentir de maneira mais direta e constante, Lacan recorre primeiramente, como antídoto, à filosofia, em busca de uma reflexão isenta, não tributária de interesses corporativos e sobretudo capaz de prover uma perspectiva elucidativa em relação aos fundamentos do conhecimento (epistemologia).

Após esse percurso pela filosofia (primeiramente Hegel e Heidegger, e bem depois, a partir de meados dos anos 60, Platão, Descartes, Kant, Spinoza… ), Lacan aproxima-se da lingüística, isenta de qualquer ambição em anexar a ciência dos sonhos a seus domínios e detentora da particularidade nada banal de ter por objeto um fenômeno central para a compreensão da subjetividade.

Althusser designa pelo termo “psicologismo” o enfoque que define o sujeito pela sua história, conforme as experiências e vivências emocionais ocorridas na infância, concebidas como somatória de fatores biológicos e sociais. Embora a psicologia se ampare no reconhecimento da subjetividade, as suas teorias não conseguem sustentar a especificidade de seu objeto e acabam por subordiná-lo a uma articulação entre a constituição orgânica e o meio.

Freqüentemente a psicanálise é apresentada como uma teoria que também adota esse prisma. E, efetivamente, é possível uma leitura do gênero, interpretando as fases de desenvolvimento da libido (oral, anal, fálica) como denotativas do aspecto “biológico” (”maturação psico-orgânica”), enquanto as vivências familiares retratariam a influência da cultura.

A família, segundo essa abordagem, seria concebida como um fenômeno cujas características obedeceriam às modificações que a história imprime às diferentes formações sociais.

Althusser enfatiza “a solidão teórica de Freud“, que não teve alternativa senão “…pensar sua descoberta e sua prática em conceitos importados, emprestados à física energética, à economia política, à biologia“.[3]

Entretanto, seria preciso assinalar que simultaneamente Freud recorreu aos grandes poetas, dramaturgos e romancistas (Sófocles, Shakespeare, Heine, Anatole France, Goethe), tomando personagens literários como representações exemplares de atitudes e sentimentos que os conceitos psicanalíticos procuram descrever.

E onde se diz literatura, menciona-se a linguagem.

Em relação à conceituação, porém, a referência freudiana, em obediência ao ethos cientificista de sua época, não poderia deixar de ser a física e a biologia: “Foi assim que recebemos de Freud uma longa cadeia de textos…obscuros … enigmáticos … contraditórios …  problemáticos …  armados por conceitos muitos dos quais nos parecem, à primeira vista, caducos, inadequados a  seu conteúdo, ultrapassados”.

O objeto da psicanálise é assim descrito por Althusser: “Uma prática (a cura analítica)”, “uma técnica (o método da cura)”, “uma teoria, que está em relação com a prática e a técnica”.

(Há outra maneira de expressar o desdobramento da psicanálise em suas áreas constituintes, ligeiramente diferente da proposta por Althusser: metodologia [a prática clínica e a correspondente teoria do método], teoria (do sujeito, ou seja, da condição humana) e epistemologia [inquirição acerca do objeto e dos fundamentos da respectiva teoria e da metodologia]).

Embora sob a pena de Freud a psicanálise seja apresentada como uma ciência, Althusser considera que antes se trata de uma promessa ainda não concretizada. Em parte, pela dificuldade que seu objeto opõe à abordagem científica, visto tratar-se de um campo que jamais se considerou propício a um estudo rigoroso. O território do imaginário, dos sentimentos e das emoções, das ilusões, enfim, do desejo e da fantasia.

Essa área da experiência humana constitui a matéria prima da arte e eventualmente recebeu a atenção de alguns filósofos, mas o fato de consistir em vivências subjetivas fez com que fosse considerada refratária e inóspita à ciência. O estudo do mais íntimo e recôndito no ser humano exige a renúncia a instrumentos como mensuração, previsão e controle.

A possibilidade de estudar a subjetividade a partir da linguagem, sem renunciar ao rigor científico, constitui o núcleo da aposta freudiana. Retomada por Lacan.

Para tanto, será necessário redefinir o estatuto do inconsciente, empreendimento de natureza epistemológica. Algo que, devido à antecipação da psicanálise em relação às ciências que poderiam auxiliá-la nesse terreno, não pôde ser abordado por Freud, capaz de desenvolver significativamente a teoria e o método mas sem condições de elaborar seus fundamentos.

Lacan compreende que Freud fundou uma ciência carente da necessária dimensão epistemológica. O teórico francês propõe encarregar-se dessa tarefa e encontrará na linguagem, concebida a partir do enfoque estrutural, o fenômeno que permitirá repensar o inconsciente fora da perspectiva biológico-cultural cujo reducionismo relegava a simbolização a mero instrumento comunicativo.

Como em qualquer ciência autêntica constituída, a prática não é o absoluto da ciência… mas… o momento em que a teoria tornada método… entra em contato teórico (conhecimento) ou prático (a cura) com seu objeto próprio (o inconsciente)”.

Althusser enfatiza assim o papel fundamental da teoria em relação à prática, gesto que orientou a sua releitura de Marx assim como a lacaniana de Freud.

Se é o conhecimento empírico (advindo da prática), que põe em movimento a construção da teoria, esta, por sua vez, a partir de certo desenvolvimento, retroage, deixando de ser um mero resultado da prática para tornar-se uma indagação acerca das condições de possibilidade do fenômeno. Suplementarmente, a teoria passa a orientar estudos e pesquisas paralelos, necessários para a melhor compreensão do objeto de que trata cada ciência em particular.

O conceito de inconsciente, elaborado por Freud inicialmente a partir das evidências clínicas (sintomas, conflitos) e ulteriormente referido a fenômenos comuns à experiência humana (sonhos, atos falhos, humor), é estendido por Lacan ao campo da linguagem (gesto prefigurado pela formulação do método psicanalítico, associação livre & atenção flutuante).

Poder-se-ia dizer que a prática teve, em Freud, o papel fundamental de prover os primeiros conceitos e hipóteses que visam responder as questões relativas à finalidade clínica.

Com Lacan, a teoria psicanalítica empreende uma auto-reflexão acerca da sua lógica e das suas condições de possibilidade, ainda mais necessária visto o abandono, por parte das instituições psicanalíticas, do nível metapsicológico[4] onde estão situadas questões efetivamente cruciais, que Freud havia vislumbrado (e legado) sem poder elaborar.

A palavra de ordem adotada por Lacan, nesse primeiro momento (década de 50 até meados de 60), será: retornar a Freud. Não com a finalidade de restaurar a teoria em seu estado de “pureza original”, diz Althusser. Pelo contrário: Lacan assume plenamente o risco de reinterpretar a obra freudiana, a partir de uma discussão sobre seus fundamentos.

Para tanto, criticará fortemente os efeitos da dispersão da psicanálise, consubstanciados na sua absorção (domesticação, anexação) por parte das diversas teorias, correntes, abordagens e disciplinas que compunham o panorama das ciências humanas no pós-guerra europeu.

Althusser lembra que nesse período a psicanálise sofreu uma série de influências: do behaviorismo (Dalbiez), da fenomenologia (Merleau-Ponty), do existencialismo (Sartre), da bioneurologia jacksoniana (Henry Ey), da sociologia culturalista (Kardiner, Mead).

Ainda que Althusser não as mencione, Lacan criticará também as diretrizes téoricas kleinianas e reichianas, impregnadas por concepções biológicas, e sobretudo a psicanálise culturalista norte-americana (Horney, Fromm, Sullivan).

Os psicanalistas, desejando deixar a condição de párias do mundo das profissões liberais, a pecha de “curandeiros modernos”, ávidos de reconhecimento por parte do establishment intelectual e científico, haviam caído facilmente na armadilha da “hospitalidade devoradora” de seus vizinhos.

Para tanto, aceitaram o preço de renegar a originalidade da descoberta freudiana. O mais humano do ser humano (o desejo, a fantasia) escapa à biologia, à história, à sociologia, à antropologia, à psicologia biográfica (ou história de vida), à filosofia da consciência.

Justamente esse nível recôndito constitui a especificidade do objeto psicanalítico. A psicanálise estuda o desejo e a fantasia mediante a interrogação que conduz à descoberta do inconsciente, primeiramente através de suas manifestações mais estranhas e enigmáticas. Os sonhos, os sintomas, os atos falhos e o humor mostram-se como a ponta emersa desse iceberg, o comportamento humano como um todo, percorrido de ponta a ponta pela significação e pelo sentido, que a prática e a reflexão empreendidas a partir da escuta clínica não têm como deixar de perceber como efeitos de linguagem.

Significação e sentido estruturam o discurso, constatação que por si só permite compreender o recurso de Lacan à lingüística, ciência de cuja importância nenhum psicanalista havia se dado conta, a não ser Freud, e mesmo assim apenas metodologicamente. Em A Interpretação dos Sonhos, Freud usa metáforas como “escrita”, “decifração”, “hieróglifos”, quando se refere ao sonho e ao trabalho interpretativo.

Lacan propõe a fórmula fundante: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”. Entretanto, é possível constatar que mesmo Lacan (sem falar dos lacanianos) teve dificuldades em extrair-lhe plenamente as conseqüências. Para melhor compreendê-la, seria preciso inclusive, para começar, retirar o restritivo “uma”.

A concepção de inconsciente como linguagem se opõe às outras concepções vigentes (não somente as professadas por Sartre, Merleau-Ponty, Jung, mas também Klein e o culturalismo da psicanálise norte-americana).

Donde se conclui que, talvez sem saber ou sem saber claramente, não só em psicanálise como nos campos contíguos (filosofia e psicologia sobretudo, mas também em relação às ciências humanas em geral), se discutia, no pós-guerra,  a “natureza”, ou seja, a epistemologia do inconsciente, através dos temas que permitem vislumbrar suas manifestações mais diretas.

Entre eles, a natureza de linguagem, a questão do sujeito e a relação entre desejo e lei.

Althusser menciona os aspectos intrinsecamente psicanalíticos dessa discussão, referindo a conceituação lacaniana a respeito - o pré-Édipo e o Édipo, a relação dual e a irrupção do terceiro (representado pela linguagem).

O encerramento do texto é extremamente significativo, visto um comentário que, na perspectiva marxista, não pode ser considerado senão como herético no mais alto grau: Althusser invoca a importância da teoria psicanalítica para pensar a questão da ideologia no campo da economia política.

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[1] Este capítulo constitui um comentário sobre “Freud e Lacan” (1964), de Louis Althusser, constante do livro “Freud e Lacan - Marx e Freud“, 3ª. edição, traduzido e prefaciado por Walter José Evangelista, Editôra Graal, RJ 1991. Todas as citações, salvo menção expressa em contrário, referem-se a esse texto.[2] Walter Evangelista refere que “Freud e Lacan” é uma resposta à coletânea “Auto-critique: La psychanalyse, une idéologie reactionnaire” (Bonnafé et alii), publicado em 1949 pela La Nouvelle Critique, revista teórica do Partido Comunista Francês, e que poderia ser considerado um manifesto marcado pela alternativa: “Freud ou Marx”.

[3] Em relação à economia política, talvez Althusser considere que certas analogias feitas por Freud justificam esse raciocínio (como a de que a sexualidade seria o equivalente a um povo explorado, ou dominado, cuja energia deveria ser usada para a produção, em virtude dos valores sociais prevalecentes na sociedade),

[4] Termo usado por Freud, e que poderia ser (re) traduzido por “epistemológico”.