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Comentários sobre “Feminilidade” (S. Freud, 1932/33)

Friday, May 15th, 2009

 

Feminilidade

(1932-33)

         Na primeira versão do Édipo, ou seja, a partir de A Interpretação dos Sonhos e rodapés acrescentados posteriormente, até A Dissolução do Complexo de Édipo  tem-se uma situação perfeitamente simétrica entre meninos e meninas (ambos se “apaixonariam” pelos progenitores de sexo oposto e a partir desse modelo e dessa experiência construiriam seus futuros objetos de amor).

         Na segunda versão (”A dissolução do C.Ed.” e “Algumas conseqüências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos” [1924/1925]), quebra-se a simetria, devido à aferição do “complexo de castração”. O Édipo masculino terminaria quando e onde o feminino começaria, embora pelo mesmo motivo (constatação da castração), concebido de forma simetricamente oposta. O menino ‘abandonaria’ sua pretensão à mãe devido à ameaça, a menina abandonaria sua pretensão à mãe devido ao reconhecimento de que a “castração” teria acontecido (em seu caso) e à promessa do bebê.

         Em Feminilidade, a diferenciação entre ambos os sexos é aprofundada mediante a constatação de que a menina teria uma fase “pré-edipiana”, de intenso apego à mãe, cujo encerramento Freud considera deva ser explicado. Ou seja, a questão de Freud, neste texto, é entender como na menina aconteceria a renúncia ao objeto materno (fonte de amor incondicional segundo os parâmetros psicanalíticos), renúncia que, diferentemente do menino, não poderia dever-se à ameaça de castração.

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         Os exemplos de Freud não incluem apenas os seres humanos mas também certas espécies animais. (Contudo, Freud perde de vista que, seja qual fôr a espécie não humana de que se trate, os comportamentos de machos e fêmeas são uniformemente diferenciados - ambos cumprem funções “especializadas” no âmbito da adaptação ao meio. Enquanto isso, no ser humano, a singularidade faz com que haja inúmeras maneiras de ser mulher e ser homem. O masoquismo, como assinala o próprio Freud, ocorre em ambos os sexos).

         A discussão coloca em pauta inicialmente a dificuldade de diferenciar os sexos. O critério anatômico é contestado (visto a “disposição bisexual”, visto os órgãos atrofiados pertencentes ao outro sexo, e, (poder-se-ia acrescentar), a questão hormonal (desconhecida na época de Freud): o organismo masculino também produz progesterona e estrógeno e o feminino também produz testosterona,).

         A diferenciação por critérios psicológicos também falha. (Freud a descreve pela associação entre atividade e masculinidade, feminilidade e passividade, e critica essa suposição).

         Freud chega a mencionar a bisexualidade, mas a atribui ao biológico: “…partes do aparelho sexual masculino também aparecem no corpo da mulher, ainda que em estado atrofiado, e vice-versa“.

         Antes da fase fálica, Freud considera que não há qualquer diferença fundamental entre meninas e meninos.  “Essas diferenças sexuais não possuem consequencia maior: podem ser sobrepujadas por variações individuais”.[1]

         (Cabe assinalar que a fase fálica coincide com a aquisição da linguagem [é o seu efeito] e que a diferença de gêneros tem por base justamente a linguagem e não a percepção).

         Porque a fase fálica coincide com a aquisição da linguagem, que determina o reconhecimento dos gêneros, e após a tentativa frustrada de recusar a diferenciação (teorias sexuais e fantasias originárias), se constrói na criança, durante a própria fase fálica, a identidade sexual e correspondentemente o modelo do objeto a ser desejado.  Via identificação.

         A partir da fase fálica, quando o pênis e o clítoris se tornam as partes corporais que mais chamam a atenção da criança, é que se instala a diferença. Desta vez, invertendo a descrição feita no texto anterior (A dissolução…) Freud considera que o Édipo feminino é mais complicado, pois a menina precisará efetuar duas mudanças: mudar de objeto (mãe para pai) e de centro corporal de prazer (clítoris para vagina).

         A idéia de uma mudança de objeto é algo novo, que não havia surgido na teorização anterior. Ela se deve a que, graças às psicanalistas de sexo feminino (como Hélène Deutsche, Ruth Mack Brunswick e Jeanne Lampl de Groot), descobriu-se, via transferência, uma fase pré-edipiana na menina.  Na primeira versão do Édipo, a menina dirigia-se “naturalmente” ao pai.

         “…portanto, uma menina tem de mudar de zona erógena e de objeto - e um menino mantem ambos. Surge então a questão de saber como isso ocorre…

         Freud relaciona as queixas da menina em relação à mãe, para entender como ela “muda de objeto” de desejo:

Uma das fantasias da menina é a de acreditar ter sido insuficientemente amamentada, porque a mãe guardou o leite para o bebê seguinte. Suplementarmente, a menina hostiliza a mãe porque esta a proíbe de explorar seu próprio corpo, impede as práticas auto-eróticas. Enfim, a educação, as restrições em geral, “… toda intervenção desse tipo na liberdade da criança deve provocar como reação uma inclinação à rebeldia e à agressividade“.

         Porém Freud não pode deixar de constatar o óbvio, ou seja, que tudo isso também pode estar presente na relação da mãe com o menino.

         O fator específico então, - essa é a resposta de Freud - , é que a menina atribui à mãe a responsabilidade (culpa) por não ter pênis. “…não perdoam por terem sido, desse modo, colocadas em desvantagem“.

         O que resultaria na “inveja do pênis”, sentimento universal nas crianças de sexo feminino. Em consequência, segundo Freud, três alternativas se colocam para a menina: “…uma conduz à inibição sexual ou neurose, outra à modificação do caráter no sentido de um complexo de masculinidade, a terceira, finalmente, à feminilidade normal“.

         Esta última alternativa, como as outras, resultaria da “inveja do pênis”, mas diferentemente das duas primeiras, se expressa pelo desejo de maternidade. O bebê, então, viria a indenizar a mulher pela ausência de pênis. Assim a menina ingressaria no Édipo, aceitando a “castração”. O mesmo motivo que faz com que o menino encerre “seu” Édipo representa o fator que daria início ao da menina.

         Quanto a não aceitar a ausência de pênis, Freud a considera derivada de um fator constitucional (biológico). Não faz qualquer menção à identificação. A sua explicação é contraditória com o que escreveu nas páginas iniciais deste mesmo texto, quando havia criticado a associação entre masculino/atividade, feminino/passividade. Desta vez, ele afirma: “Só podemos supor que é um fator constitucional, uma quantidade maior de atividade, tal como geralmente é característico do homem“. A conseqüência seria a homosexualidade. Ele menciona, nesse caso, um possível “desapontamento com o pai“, mas insiste que o fator principal, na homosexualidade feminina, seria constitucional. (Aqui novamente o biológico se sobrepõe ao conceito de identificação).

         Com relação à frigidez, que explicaria a neurose (conflito com a sexualidade), Freud hesita entre atribuí-la também ao fator constitucional, “…com um fator anatômico coadjuvante“, e ao fator psicológico.

Os preconceitos em relação ao feminino

        Primeiramente, a menção à inveja do penis.  Pg. 154 em diante):

…a inveja e o ciúme desempenham, mesmo, um papel de relevo maior na vida mental das mulheres do que na dos homens

A mãe era admirada enquanto “fálica”; “…com a descoberta de que a mãe é castrada, torna-se possível abandoná-la como objeto … como resultado da falta de pênis nas mulheres, estas são rebaixadas de valor pela menina, assim como depois o são pelos meninos, e posteriormente, talvez, pelos homens“.

No entanto, a situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for substituído pelo desejo de um bebê, isto é, se um bebê assume o lugar do pênis…”

A inveja do pênis tem uma parte, como efeito, também a vaidade física das mulheres, de vez que elas não podem fugir à necessidade de valorizar seus encantos, de modo mais evidente, como uma tardia compensação por sua inferioridade sexual original“.

A vergonha, considerada uma característica feminina par excellence… tem, assim acreditamos, como finalidade, a ocultação da deficiência genital“.

…as mulheres fizeram poucas contribuições para as descobertas e invenções na história da civilização; no entanto, há uma técnica que podem ter inventado - trançar e tecer“.      

Os fatores determinantes da escolha objetal da mulher… onde a escolha pode mostrar-se livremente, ela se faz, frequentemente, em conformidade com o ideal narcisista do homem que a menina quisera tornar-se“.

A mãe somente obtém satisfação sem limites na sua relação com seu filho menino; este é, sem exceção, o mais perfeito, o mais livre de ambivalência de todos os relacionamentos humanos. Uma mãe pode transferir para seu filho aquela ambição que teve de suprimir em si mesma…

O fato de que as mulheres devem ser consideradas possuidoras de pouco senso de justiça sem dúvida se relaciona à predominância da inveja em sua vida mental… consideramos as mulheres mais débeis em seus interesses sociais e possuidoras de menor capacidade de sublimar as pulsões, do que os homens … uma mulher da mesma idade (30 anos) porém, muitas vezes nos atemoriza com sua rigidez psíquica e imutabilidade“.

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Comentários

        

         Seria necessário separar no Édipo dois momentos.

       

Primeiro

Passagem da condição de objeto para a condição de sujeito. Em que não se trata absolutamente da construção da identidade sexual. É em relação a esse momento que valeria a afirmação freudiana acerca da existência do único orgão sexual cuja existência a criança pode admitir: o falo.

         O que significaria tal afirmação? Que ao passar para a condição de sujeito, a criança ’suporia’ (inevitavelmente, como indenização para a saída da posição de objeto único, absoluto) a possibilidade de possuir totalmente o amor do objeto.

Por que essa possibilidade (possuir totalmente o amor do objeto) seria representada pela posse do falo?

É que a criança teria descoberto a relação masculino/feminino, ou melhor ainda, a relação entre adultos (não apenas a diferença de gêneros) e suporia que o masculino está na posição de sujeito (domínio).

(Mas, e no caso de um casal homosexual que houvesse adotado crianças?)

         Na explicação freudiana, o masculino seria visto pela criança como equivalente à posição de dominação, de poder.

Necessariamente? Universalmente?  Há, aqui, “pano pra manga”, muita matéria para discussão e reflexão. A questão é: o amor incondicional, que não coloca limites, seria sempre melhor representado pelo feminino do que pelo masculino? Em virtude da gestação? Mas, nesse caso, como ficam as mães adotivas?

         De qualquer maneira, “falo” não significaria nem representaria pênis, mas metáfora da posição de domínio da função normativa em relação à função desejante. De maneira mais estrutural, pode-se dizer que a criança descobre, ao lado da função desejante, a função normativa. Quem a representa pouco importa. As afirmações de Freud em relação ao fato da criança só conceber um órgão sexual seriam então interpretadas da seguinte maneira:

A criança metaforiza através da diferença masculino/feminino as posições de sujeito e objeto e, tendo saido da posição de objeto em decorrência da aquisição da linguagem, “descobre” inevitavelmente a relação entre adultos, geralmente representada pela existência dos gêneros, ou seja, a diferença masculino/feminino. Mas pode não ocorrer essa descoberta - se não houver aquisição de linguagem, isto é, se no lugar da aquisição de linguagem (saída da posição de objeto), prevalecer o imaginário, a criança permanecendo em posição de objeto absoluto. O que equivale à psicotização.

         Então, o “falo” enquanto poder atribuído ao masculino metaforizaria a função normativa, cujos desempenhantes (pai, Deus, o patrão da mãe, o trabalho em geral, as obrigações, o tio, o avô, o guarda da esquina, o médico, o zelador, o síndico do prédio, o padre, o rabino, o pastor, etc., enfim, quem quer que limite o desejo de domínio da criança sobre os representantes da função desejante, teria esse poder). Com tais “obstáculos” à posse exclusiva do amor do objeto desejado (representado pela mãe), a criança, ao entrar no Édipo (1º momento), passaria então a rivalizar. O falo (metaforizado pela figura masculina adulta) significaria o poder de colocar limites à relação dual.

Função desempenhada por uma figura necessariamente masculina? Talvez não. Num casal de mulheres homosexuais, uma delas poderia representar tal papel. E não esqueçamos que tal papel, por outro lado, só funciona se devidamente reconhecido pelos representantes da função desejante. (Caso contrário, psicotização).

         Se a criança se identificar com esse lugar (a posição de sujeito), tem início o processo que, passando pela pretensão do poder absoluto,  culminará na aceitação das normas (limites), isto é, na formação do superego.

         Segundo

         Aqui, sim, se dá a construção da identidade sexual, que significa a derrocada do falo (poder absoluto). A partir desse momento a criança é situada necessariamente no âmbito do gênero, isto é, no conjunto dos seres “masculinos” ou “femininos”. (Mesmo que o comportamento venha a ser, após a puberdade, bisexual, sempre se tratará de uma pessoa bissexual de sexo feminino ou masculino).

De qualquer forma, a construção da identidade sexual significa necessariamente a saída da posição de sujeito absoluto, na qual a criança aspirava a ser a única detentora dos objetos que representam o amor incondicional.

         Aqui o falo dá lugar ao pênis e à vagina, ou seja, à descoberta da diferença anatômica.

         Situação que, por sua vez, se expressa por um conjunto de possibilidades: 1) identificação com o próprio sexo biológico e escolha do objeto do sexo oposto (heterosexualidade) 2) identificação com o outro sexo e escolha do objeto do mesmo sexo (homosexualidade) 3) identificação com o próprio sexo e escolha de objeto do mesmo sexo (homosexualidade) 4) recusa da identidade sexual (neurose). 5) Identificação com ambos os sexos e escolha de objetos de ambos os sexos (bisexualidade).                

         Portanto, nesse momento, a questão passa a ser a da valorização / desvalorização relativas de ambos os gêneros. Não há mais “somente um sexo” para a criança como supunha Freud. A existência de “apenas um órgão sexual”, o pênis (enquanto “falo”), metaforiza a luta da criança contra a diferenciação de gêneros que a colocaria no lugar de terceiro excluído.

A “inveja do pênis” denotará apenas uma situação específica, a de uma família onde a valorização será defasada, privilegiando o masculino. Portanto, a “inveja do pênis” não poderia ser considerada como a atitude que definiria o feminino.

Porque, similarmente, constata-se a situação recíproca. Ou seja, a modalidade de homosexualidade em que o menino se identifica com o modelo feminino. E, por outro lado, a decorrência de que a “inveja do pênis” é universal é que toda menina deveria identificar-se com o modelo masculino, a menos que aceitasse desvalorizar-se, proposição insustentável.

         A partir do fim da prevalência do falo (expressão aceitável desde que aplicável ao primeiro momento do Édipo), a mãe incorpora os atributos do feminino, o pai do masculino, o que significa que a relação entre feminino e masculino passa a ser concebida pela criança como relação de desejo entre dois “faltantes” ou “desejantes”, e não como relação em que o masculino se confundiria com o poder absoluto sobre o objeto absoluto representado pelo feminino.

A criança se insere nesse mundo agora habitado pelos gêneros através dos respectivos modelos de identificação e de relação de objeto (ser e ter). Modelos, aliás, nunca absolutizados (daí a latência homosexual nos heterosexuais e a latência heterosexual nos homosexuais e, além dessa latência, os conflitos latentes/manifestos, ditos neuróticos, que expressam a dificuldade na aceitação do desejo, ou seja, da falta,  em sua expressão sexual, isto é, na expressão da relação desejante com o outro).

         O processo de construção da identidade sexual, uma vez diferenciado do primeiro momento, implica na revogação do falo e culminará com a aceitação do não dirigido ao próprio desejo… de não aceitar o não (de não desejar).

A que Freud chamou de formação do superego, e Lacan de internalização da lei, metáfora paterna, Nome-do-Pai. Esse processo teria duas etapas: primeiramente, a aceitação da autoridade apenas quando presente; depois, a internalização da regra (a aceitação do não auto-dirigido), que prescinde da presença da autoridade.


[1] Aliás, mais uma presença da singularidade na teoria freudiana do Édipo, que tende ao genérico.