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Recomendações aos médicos que exercem a análise

Wednesday, May 6th, 2009

Comentários sobre Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912)

            Um texto dedicado à atenção flutuante (e portanto à associação livre). Ou seja, ao método psicanalítico.

A expressão “atenção uniformemente suspensa” é mais conhecida em psicanálise como atenção flutuante.

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 (Na introdução, Freud apresenta uma ressalva que prepara o futuro relativismo: “não me arrisco a negar que um médico constituido de modo inteiramente diferente possa ver-se levado a adotar atitude diferente em relação a seus pacientes e à tarefa que se lhe apresenta“. Mas, no último parágrafo, ele propõe o antídoto para esse relativismo, mediante o comentário:  “Permitam-me expressar a esperança de que a experiência crescente da psicanálie cedo conduza à concordância sobre questões de técnica e sobre o método mais eficaz de tratar os pacientes neuróticos“.

A memória está relacionada ao recalque. O que parece ser um grande problema (como lembrar de tudo o que é dito  nos encontros — ou “sessões” — de psicanálise?), não é. Porque, se não houver recalque, o psicanalista (e essa afirmação aspira à universalidade, ou seja, vale para todas as pessoas) conseguiria lembrar. (Esquecer o que é importante não poderia deixar de ser um “ato falho”, afirmação que se aplicaria a todos).

(De qualquer maneira, há uma discussão a ser feita em relação a se a memória deve participar das sessões, ou seja, se as sessões anteriores deveriam ser levadas em conta na sessão atual. Não é difícil demonstrar que se o psicanalista tiver essa atitude, a atenção flutuante será prejudicada. E se a atenção flutuante é parte essencial do método, então…).

(Por outro lado, o comentário que versa sobre uma possível discussão entre o paciente e o analista a respeito de se algo foi ou não dito nas sessões anteriores mostra que Freud ainda não depurou o método psicanalítico da contaminação médica).

Não se toma notas. Porque nesse caso a atenção ficaria concentrada no ato de escrever, registrar.  (Excelente essa recomendação, também porque mostra que não devemos prestar atenção especificamente neste ou naquele aspecto do conteúdo das associações livres. Ou seja, tampouco se deveria”tomar notas”mentalmente, ou, conforme comentário anterior, menos recomendável ainda seria trazer “as notas” (a lembrança) de outras sessões e misturá-las com o que se está escutando).

Enfim, o “mandamento metodológico” por excelência é “Não selecionarás”

…ao efetuar a seleção, se seguir suas expectativas (o psicanalista) estará arriscado a nunca descobrir nada além do que já sabe; e, se seguir as inclinações, certamente falsificará o que possa perceber. Não devemos esquecer que o que se escuta, na maioria das vezes, são coisas cuja significado só é identificado posteriormente”.

(Excelente para ilustrar a metáfora de que as frases da associação livre vão compondo, lentamente, a lógica da sessão, que finalmente será expressa como interpretação, através de poucos enunciados. Há uma metáfora elaborada pelo escritor argentino Jorge Luis Borges, em que as linhas da vida de um ser humano vão compondo a figura que, finalmente, coincide com seu próprio rosto).

Também Lacan entendeu que que os enunciados são compreendidos retroativamente, a partir de estudos feitos pela lingüística.

A atenção flutuante é a contrapartida da regra da associação livre. Se não agir assim, o “médico” (!!!!) estará jogando fora todo o valor da associação livre.

A regra para o médico pode ser expressa assim:’ele deve evitar todas as incluências conscientes de sua capacidade de prestar atenção e abandonar-se inteiramente à ‘memória inconsciente (…) Ele deve simplesmente escutar e não se preocupar se está se lembrando de alguma coisa”. (Esse “simplesmente escutar” também vai na direção oposta à pergunta pela transferência e igualmente colide com a preocupação de “ajudar o paciente a tomar decisões” utilizando a influência que se teria sobre ele).

b, c ) Ainda: jamais se deveria tomar notas, nem sequer para fins científicos. Se se quiser fazê-lo para estudo de caso, então somente após a sessão, mas não durante.

d) Pesquisa e tratamento coincidem até certo ponto. Não é bom trabalhar cientificamente num caso enquanto ele está em andamento, escreve Freud.

Mas acrescenta: “…a distinção entre as duas atitude seria sem sentido se já possuíssemos todo o conhecimento (ou pelo menos o conhecimento essencial) sobre a psicologia do inconsciente e a estrutura das neuroses…

(Entretanto, é possível discordar em relação a essa meta. Tal “conhecimento essencial“…. seria mesmo possível? Freud parece confundir aqui a teoria do sujeito [teoria acerca do ser humano, pensado genericamente] e a teoria do método, dedicada à singularidade).  

(Em Freud a atitude perante a transferencia difere da preconizada pelas abordagens kleiniana e lacaniana. Segundo estas últimas, o movimento transferencial poderia ser antecipado: tanto seria assim que as modalidades de transferência - a agressividade esquizo-paranoide, a dependência depressiva (Klein), o desejo de aprender com o sujeito suposto saber (Lacan), seriam simultaneamente previsíveis e inevitáveis).

e) O cirurgião como modelo. Freud critica à ambição terapêutica (”furor sanandis“). E principalmente, ao contrário de “Transferência” e “Terapia Analítica”, Freud revela sua aposta no poder da palavra: “Um cirurgião dos tempos antigos (Ambroise Paré) tomou como divisa as palavras: “Je le pansai, Dieu le guérit”. (”Eu o pensei, Deus o curou”). O analista deve contentar-se com algo semelhante“. Mais ainda: “…o sentimento mais perigoso para um psicanalista é a ambição terapêutica de alcançar, mediante este método novo e muito discutido, algo que produza efeito convincente sobre outras pessoas. Isto não apenas o colocará num estado de espírito desfavorável para o trabalho, mas torná-lo-á impotente contra certas resistências do paciente, cujo restabelecimento, como sabemos, depende primordialmente da ação recíproca de forças nele“.

A argumentação é exatamente oposta àquela que foi elaborada em Transferência e Terapia Analítica.

Verifiquemos:

Transferência: (pgs. 518/519): “A fim de que o paciente enfrente a luta do conflito normal com as resistências que lhe mostramos na análise, ele tem necessidade de um poderoso estímulo que influenciará sua decisão no sentido que desejamos, levando à recuperação. De outro modo, poderia acontecer que ele venha a optar em favor da repetição do resultado anterior, e permitiria que aquilo que fôra trazido à consciência deslizasse novamente para a repressão. Nesse ponto, o que é decisivo em sua luta não é sua compreensão interna (insight) intelectual - que nem é suficientemente forte, nem suficientemente livre para uma tal realização - mas simples e unicamente a sua relaçao com o médico. Na medida em que sua transferência leva um sinal ‘mais’, ela reveste seu médico de autoridade e se transforma em crença nas suas comunicações e explicações. Na ausência de tal transferência, ou se a transferência fosse negativa, o paciente jamais daria sequer ouvidos ao médico e a seus argumentos. Aqui sua crença está repetindo a história de seu próprio desenvovlimento; é um derivado do amor e, no princípio, não precisa de argumentos. Apenas mais tarde ele lhes permite suficiente espaço para submetê-los a exame, desde que os argumentos sejam apresentados por quem ele ama. Sem esses apoios, os argumentos perdem sua validade; e na vida da maioria das pessoas, esses argumentos jamais funcionam“.

Terapia Analítica, 526: “O tratamento analítico faz seu impacto mais retrospectivamente, em direção às raízes onde estão os conflitos que originaram os sintomas, e utiliza a sugestão a fim de modificar o resultado desses conflitos”. (…)Esse trabalho de superar as resistências constitui a função essencial do trabalho analítico; o paciente tem de realizá-lo e o médico lhe possibilita fazê-lo com a ajuda da sugestão, operando em um sentido educativo“.

Terapia Analítica, 527: “O paciente não sugere a si mesmo o que quer que seja que lhe agrade; guiamos sua sugestão na medida em que ele, de algum modo, é acessível à sua influência“. Terapia Analítica, pg. 529:  “Ao final de um tratamento analítico, a transferência deve estar, ela mesma, totalmente resolvida: e se o sucesso então é obtido ou continua, ele não repousa na sugestão, mas sim no fato de, mediante a sugestão, haver-se conseguido superar as resistências internas e de haver-se efetuado uma modificação interna no paciente“.

Terapia Analítica, pg. 530: “A parte decisiva do trabalho se consegue criando na relação do paciente com o médico - na transferência - novas edições dos antigos conflitos; nestas, o paciente gostaria de se comportar do mesmo modo como o fez no passado, ao passo que nós, concentrando todas as forças mentais disponíveis (do paciente), compelímo-lo a chegar a uma nova decisão“.

Terapia Analítica pg. 531: “A modificação decisiva para um resultado favorável é a eliminação da repressão nesse conflito reconstituido, de modo que a libido não possa ser retirada do ego, novamente, pela fuga para o inconsciente. Isso se torna possível pela mudança do ego realizada sob a influência da sugestão do médico“.

As citações anteriores são exemplos perfeitos do que o próprio Freud critica, em “Recomendações aos médicos…“, como “ambição terapêutica” (”furor sanandis“).

f) O objetivo é que a associação livre deve ter como correspondente a atenção flutuante… (Freud está aqui em pleno território discursivo).

E a metáfora do telefone vem comprová-lo inteiramente: “…ele (psicanalista) deve voltar seu próprio inconsciente (discurso), como um orgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente. Deve ajustar-se ao paciente como um receptor telefônico se ajusta ao microfone transmissor. Assim como o receptor transforma de novo em ondas sonoras (leia-se sentido) as oscilações elétricas na linha telefônica, que foram criadas por ondas sonoras (leia-se sentido, expresso pelas significações [”oscilações elétricas”), da mesma maneira o inconsciente do médico é capaz, a partir dos derivados , do inconsciente que lhe são comunicados, de reconstruir esse inconsciente , que determinou as associações livre do paciente“.

(As observações entre parênteses e negrito não correspondem ao texto mas ao autor deste comentário)

Para interpretar com isenção, afirma Freud, o psicanalista deveria ter superado seus próprios recalques… E no parágrafo seguinte começa a discussão sobre como deve ser feita a formação do analista.

As duas respostas:

1) Pela análise (interpretação) dos próprios sonhos, que seria suficiente para muitas pessoas mas não para todos, já que nem todos conseguiriam interpretar os próprios sonhos…

A seguir, Freud elogia a Escola de Zurique (Jung) por ter estipulado o requisito de que…

2) todos os que desejem ser analistas se façam analisar.

As regras “acrescidas” (o “bonus track” do texto):

g) O psicanalista não deveria retribuir as “confidências” do paciente com as suas próprias (visando assim encorajar o paciente a “expor-se”). Pois dessa forma seriam criadas dificuldades consideráveis via transferência. (Aqui, bastante interessante que Freud se refira à solução da transferência como apenas “…uma das tarefas principais do tratamento“, e não como a finalidade principal do método).

Confrontar com a exclusividade da resolução da neurose de transferencia como ponto capital do tratamento (pg. 526, Terapia Analítica: “Esse trabalho de superar as resistências constitui a função essencial do trabalho analítico“).

Freud ressalva que o psicanalista possa combinar “certa quantidade de análise com alguma influência sugestiva, a fim de chegar a um resultado perceptível em tempo mais curto” (…) , mas não deixa de assinalar que ”…é lícito insistir em que ele próprio não se ache em dúvida quanto ao que está fazendo e saiba que o seu método não é o da verdadeira psicanálise“.  

Contrastar com Transferência ( pgs. 518/9): “A fim de que o paciente enfrente a luta do conflito normal com as resistências que lhe mostramos na análise, ele tem necessidade de um poderoso estímulo que influenciará sua decisão no sentido que desejamos, levando à recuperação“.

h) Neste item, Freud se mostra condescendente com uma atitude “educativa” por parte do analista. Na sequência, porém,  escreve: “Mas novamente aqui o o médico deve controlar-se e guiar-se pelas capacidades do paciente em vez de por seus próprios desejos“. Contrastar com:  “Esse trabalho de superar as resistências constitui a função essencial do trabalho analítico; o paciente tem de realizá-lo e o médico lhe possibilita fazê-lo com a ajuda da sugestão, operando em um sentido educativo“, dos textos anteriores.

Em Recomendações… há uma afirmação lapidar, que desautoriza a postura educativa: “A ambição educativa é de tão pouca utilidade quanto a ambição terapêutica“.

 i) Advertência para não buscar a cooperação intelectual do paciente. (O psicanalista não se apóia nas emoções - cooperação “transferencial”, inconsciente - nem intelectual, consciente. “Ele ( o paciente) tem que aprender acima de tudo - o que nunca acontece facilmente- que atividades mentais tais como refletir sobre algo ou concentrar a atenção não solucionam nenhum dos enigmas de uma neurose; isto só pode ser efetuado ao se obedecer pacientemente à regra psicanalítica, que impõe a exclusão de toda crítica do inconsciente ou de seus derivados“. 

Assim, o psicanalista não deve sugerir leituras, não condescende ao debate intelectual, nem tenta conquistar o apoio dos parentes do paciente com livros de psicanálise…

Ou seja, Freud mostra uma confiança total nos efeitos do discurso (interpretação e nada mais…), mesmo que a respectiva teoria do método ainda não tenha sido construída para além dos seus pontos iniciais (que no entanto permanecem cruciais) : a associação livre e a atenção flutuante.

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