Sufi, Zen, os Hassidim, Tao e Borges
A TRADIÇÃO RELIGIOSA DISSIDENTE E A PSICANÁLISE
SUFI, ZEN, HASSIDIM, TAO E BORGES
A afirmação de que não existe nada de novo sob o sol da linguagem pode levar a pensar que o estruturalismo trocou esperanças ingênuas ou combativas pelo tédio. Será mais honesto reconhecer a parcial pertinência desse raciocínio do que negá-lo. Parte do caminho percorrido pelos caçadores de invariantes é consagrado ao afã de apagar as diferenças, algumas encantadoras, da infinita epifania, em benefício da exatidão geométrica.
Ir muito longe é afastar-se do ponto de partida; ir mais longe ainda é retornar a ele. A psicanálise talvez se situe nessa imprecisa confluência constituída pelo resultado da força reciprocamente anulada de alguns vetores. Ciência e arte; jogo e filosofia. Mas por que excluir a religião? Não lhe é estranho o profundo respeito pelo mistério nem a crença, indemonstrável, como qualquer outra, na eficácia da verdade. Mistério e verdade: a pauta do inconsciente.
Quem era a psicanálise antes desse nome pomposo? A maiêutica socrática, respondem seus órgãos oficiais, institucionalizando a rebeldia ética e martirizada do mestre da interrogação - todo maldito servirá de logotipo aos descendentes de seus juizes. Previsivelmente, os lacanianos inverterão os termos e queimarão incenso no altar daqueles mesmos sofistas a quem a história da filosofia só dedica a página inglória das falácias. Os lacanianos sempre torceram pela tartaruga contra Aquiles e pelos índios nos faroestes clássicos (quase sempre com razão, no último caso).
Lévi-Strauss propõe outro ancestral, o xamã, recusando qualquer distinção entre as duas práticas. Confinada a psicanálise ao estreito campo da medicina sugestiva, a confusão não deixa de ter suas vantagens. Se a tão alardeada crise piorar, bastará um curso intensivo regido por um currículo pródigo em mitos, rituais, técnicas de prestidigitação e expressão corporal, truques de expectoração e algum conhecimento de arte cênica, para que o analista possa ganhar a vida honestamente no seio de outras culturas sem dar-se sequer ao trabalho de carregar o divã na mudança.
É possível traçar outra genealogia, sem negar as já propostas. Os contos sufis e zen, algum provérbio hassídico, os aforismos do Tao, todos se alimentam com as podas da auto-ironia. Mestres que escondem as respostas de discípulos soterrados por obsessivos questionamentos e fabricam rápidos espelhos onde interlocutores agressivos são aprisionados pelo incômodo reflexo de suas próprias ameaças, encontram por sua vez seus próprios mestres nos simples, cuja pobreza de espírito pode ser às vezes uma boa vacina contra o vírus da glorificação do eu, abrindo a brecha por onde se infiltra sem qualquer anunciação um efeito de verdade.
O primeiro relato que vem à memória tem outra origem; provavelmente um livro de antropologia dedicado aos povos pré-colombianos. Uma tribo que habita savanas vizinhas a um grande deserto acha-se em vias de escolher seu novo líder. Os jovens candidatos submeter-se-ão, como é de praxe, a uma prova em que terão ocasião de demonstrar resistência, engenhosidade, persistência e coragem. Enveredando pelo deserto, deverão ir tão longe quanto possível; a comprovação da distância percorrida será feita mediante alguma dádiva da natureza; fragmento de planta ou animal reconhecidamente desconhecidos.
Os candidatos partem e dia após dia, semana após semana, retornam com um pequeno tesouro, testemunha da sede e do cansaço. O penúltimo candidato é ungido pela admiração derramada sobre os compridos ossos de um gamo muito maior do que os alimentados pelo ralo capim da escassez à qual a tribo se conformava. As peripécias de sua caça são repetidamente relatadas a ouvintes maravilhados. Ao redor da mesma fogueira estipula-se um prazo após o qual, se o último jovem não retornar, a chefia do grupo será outorgada ao hábil caçador.
Mas o derradeiro candidato chega a tempo de aquecer-se nas brasas agonizantes; exibe a olhos apertados pela desconfiança algumas raízes pequenas e ligeiramente arredondadas, quase indistinguíveis da terra escura e seca de onde haviam sido arrancadas. Haviam constituído seu providencial alimento quando a travessia do deserto esgotara as magras provisões com que partira. Foi então que viu a montanha e os grandes gamos. A corda do arco partiu-se em resposta ao exagerado entusiasmo com que fora retesada; o caçador jamais vira animais desse porte. Perseguindo-os doravante com sua pequena faca iniciou a escalada das alturas que ao longe pareciam azuladas e agora quebravam-se em arbustos, pedregulhos, sonoros fios de água, guinchos, trinados e zumbidos.
Os gamos eram mais rápidos; teve que contentar-se com raízes e diminutos roedores não muito diferentes dos que habitavam a outra extremidade do deserto. Novamente a aridez se fez presente, desta vez nas grandes rochas que emolduravam a montanha, cuja nudez era atenuada por franjas de musgos. Pensou em voltar, hesitando sobre a planta ou animal a escolher para testemunha. Mas a montanha exercia uma estranha atração; não era fácil deixá-la. Percebeu então que durante todo o percurso, desde que vira sua imprecisa silhueta prometendo o fim do deserto, não deixara de imaginar o que poderia divisar do alto, do último cume; nunca estivera a maior distância do chão do que as pequenas e raras árvores da savana haviam podido permitir.
Continuou portanto a escalar, decidido a regressar tão logo alcançasse uma pequena gruta. Mas antes mesmo de lá chegar seus olhos já haviam interrogado uma estridente cachoeira situada a oeste, de maneira que retornou apenas o suficiente para recolher mais raízes. Quando empreendeu caminho novamente já não pôde esconder de si o que sempre soubera; só pararia ao escalar a última rocha. Nem a chuva ou a noite puderam detê-lo. Aceitou com resignação o castigo do frio úmido, ao qual não faltou a cega bruma das nuvens baixas. Seria uma temeridade descer. Mas na manhã seguinte o arrependimento se desfez tão rapidamente como as trevas. O dia amanhecera esplêndido. Viu então o que jamais poderia esquecer: embaixo do céu azul deitara-se um outro céu, quase da mesma cor, que se movia junto com suas estranhas nuvens, delgadas franjas aparecendo e desaparecendo em estranho contraponto a outro vento. Não saberia dizer quanto tempo permaneceu em maravilhada contemplação. Lembrava-se de ter tentado, aos escorregões, achar um caminho para descer as escarpas pontiagudas que se interpunham entre ele e a planície azul, mas só encontrou aterrorizadores abismos onde duas pedras caíram em eloqüente silêncio. A fome e o frio obrigaram-no a voltar antes da descida do sol, a cujos últimos raios os dois céus responderam diversamente.
Podemos imaginar agora o perplexo conselho de anciões. As raízes comprovavam a travessia do deserto. Mas os ossos do grande gamo também, e suplementarmente diziam da sabedoria do seu caçador ou, não menos importante, de sua sorte, que nunca é casual. Por outro lado, como saber se a inacreditável história desse céu deitado era ou não verdadeira? E que bem traria à tribo necessitada de alimentos?
Várias significações adejam em torno ao conto: quem vai muito longe jamais terá provas convincentes; para os que nunca o viram, o mar é impossível; a sobrevivência não passa de uma pobre raiz perto desses raros momentos em que a coragem nos coloca frente a frente com a suprema fonte, da qual regressamos simultaneamente expulsos, iluminados e desprovidos de tudo, menos da convicção intransmissível de sua inacessível beleza.
Talvez a principal seja a demonstração desse outro princípio, o mais além do poder. A tribo jogou uma pedra e colheu dois frutos, um chefe e um xamã…
O behaviorismo ainda futuro é homenageado antecipatoriamente no anedotário sufi com a história do homem que buscava uma invisível agulha no sorrateiro mato de seu quintal. À pergunta de um passante solícito responde que a deixara cair enquanto costurava em seu quarto.
“Mas se você perdeu a agulha em casa, porque está buscando aqui fora?” ”
É que lá dentro está muito escuro.”
Um estudioso do Corão passeia às margens do lago quando ouve ao longe uma oração proferida com todos os erros de pronúncia cabíveis. A voz do ignorante deformando o sagrado arcaísmo da prece incomoda o erudito que se dá ao trabalho de achar uma canoa com a qual rema para a pequena ilha onde encontra um pescador vociferando sua devoção.
Demonstra pacientemente a forma correta da reza e após uma série de repetições, mais remediativas que eficazes, volta à canoa, já um pouco arrependido do esforço, apesar da boa ação praticada. Ao voltar, já cansado de puxar os remos, lembra de uma velha máxima: o homem verdadeiramente puro receberá o poder de andar sobre as águas como prêmio pela vitória diante da matéria.
Pergunta-se se algum dia será digno dessa graça. Imerso nesses pensamentos já percorreu a metade do trajeto quando ouve uma voz tristemente familiar; volta-se assustado pela inesperada companhia e depara com o ofegante pescador que parou de correr para perguntar-lhe mais uma vez a pronúncia exata de um trecho da reza.
As vezes, é o discípulo que quer corrigir o guia. Um monge zen em peregrinação enfrenta dura noite de inverno e pede abrigo num templo. Nada lhe é dado além do telhado e das paredes da suntuosa sala dedicada à estátua de Buda. Pouco depois o guardião do templo sente cheiro de madeira queimada e corre para evitar o incêndio. Horrorizado, depara com o monge aquecendo-se ao lado de uma fogueira alimentada com pedaços da estátua. Indignado pelo sacrilégio, invectiva o vândalo.
“Louvável e zeloso guardião” - responde o monge - estou queimando esta preciosa estátua para encontrar em suas cinzas o sagrado espírito do Buda.”
“Que besteira! Como monge você deveria saber melhor do que ninguém que o sagrado espírito do Buda nunca será encontrado nas cinzas de uma reles estátua de madeira!”
“Já que é assim, posso continuar queimando?
Outra história aponta na mesma direção por uma via diferente. Não somente o sagrado pode deixar de sêlo mas também o execrável. A famosa ambivalência a que a psicanálise se refere encontra algumas de suas mais convincentes ilustrações em relatos imemoriais.
Dois monges regressam a seu templo nas montanhas quando deparam, passando pelas enlameadas ruas de uma aldeia, com uma bela gueixa que hesita em sujar seu quimono. Um deles dispõe-se a transportá-la, oferta que a moça aceita com um sorriso. Logo depois os dois homens retomam seu caminho, percorrido agora em pesado silêncio, que apenas o monge gentil tenta quebrar, em vão.
Terminada a escalada, com o umbral do templo já à vista, seu companheiro silencioso não se contém e recrimina-o por ter tocado numa mulher, quebrando assim o voto de castidade ao qual se consagra a seita.
“Acabo de entender o seu silêncio” - diz o monge gentil- “você estava muito cansado para falar.”
“E o que tem a ver isso com o pecado que você cometeu?”
“É que eu deixei a moça no outro lado da rua, mas você a carregou até aqui.”
A próxima história também é ambientada na bela paisagem japonesa. O seu protagonista é um jovem viúvo que jurara fidelidade à esposa até reencontrá-la no outro mundo.
Alguns medem a manutenção da promessa por meses ou anos, os mais céticos falam em semanas. Fato é que algum dia ele se apaixona e na mesma noite recebe a recriminadora visita do fantasma. Daí em diante sua vida torna-se o proverbial inferno. Nenhuma precaução consegue impedir que a ex-mulher saiba de todos os seus atos, pensamentos e intenções. Instado por amigos, dirige-se à choupana onde reside um monge conhecido pela sabedoria, que após ouvir o relato do visitante traz-lhe uma caixa de madeira finamente trabalhada:
“É uma caixa mágica, legada pelo meu antecessor, que a recebeu de seu mestre, e este do seu mestre, e este de seu mestre, que ergueu o templo. Em seu interior depositei três grãos de arroz. Hoje, quando o onisciente fantasma chegar, você lhe perguntará sobre o conteúdo da caixa. Não poderá responder e deixará de atormentá-lo“.
O viúvo parte e desta vez aguarda ansioso o cair da noite. O fantasma não falta e antes de qualquer pergunta declara saber de tudo; dos conselhos dados pelos amigos, da visita ao monge, da caixa mágica, dos três grãos de arroz… Desesperado, o homem leva as mãos à cabeça e com raiva joga a caixa no chão. Na queda, a tampa se quebra e cai uma enorme quantidade de arroz… Surpreso, o viúvo volta-se na direção do fantasma, mas ele desapareceu.
E não volta nos intermináveis dias seguintes, sem que, surpreendentemente, o estado de ânimo do viúvo melhore por isso. Lembra-se então que precisa devolver a caixa. Conserta-a com muito cuidado para que o monge não perceba o seu gesto de ira.
O caminho da cabana é percorrido com raiva crescente. Ao chegar, encontra o monge aquecendo-se junto a uma fogueira crepitante. Entrega-lhe a caixa sagrada, esculpida pelo fundador do templo e transmitida a cada monge que o cuida. O viúvo tem duras palavras a dizer, e se queixa do estratagema indigno. O monge limita-se a receber a caixa mágica e, ao atirá-la na fogueira, pergunta: “De que caixa você está falando?”.
Bom exemplo de como analisar “na” transferência e não “a” transferência. A ingratidão contraditória sequer é mencionada. Em vez disso, a demonstração prática de como o sagrado pode ser queimado em benefício de algum calor. Nenhuma pretensão pedagógica que certamente tenderia (e não sem razão) a explicar o fantasma como consciência culpada (o superego conhece tudo, até, ou principalmente, as intenções, dizia Freud). As certezas da consciência desabam devido à sutil rasteira do truque, espelho onde se mostra ao autor sua inconfundível assinatura no conflito.
Surpresa bem poderia ser a meta por excelência; está presente no curto diálogo travado entre Tokusan e Ryuzan, discípulo e mestre. “Já é muito tarde” - começa Ryuzan após um dia de estudos. “Por que não se retira?” O jovem obedece, mas ao entreabrir a porta volta-se hesitante. “Está muito escuro lá fora.” Ryuzan acende uma vela e entrega-a ao rapaz. Este agradece com uma inclinação mas quando acaba de descer o último degrau o sopro inesperado do mestre apaga a chama.
“Então Tokusan iluminou-se“. A luz da vela ofusca mais seu portador do que ilumina o caminho. Nenhuma mera coincidência com a função do ego - talvez uma lição visando os analistas que abriram academias para fortalecer o princípio da realidade em pacientes que se querem musculosos.
O furor sanandis, essa motivação de base que impele todo analista, protagoniza a história do rabino que indignado com as blasfemas canções entoadas por um morador da sua aldeia escala o muro da casa após golpear em vão a porta. Surpreende então um velho totalmente bêbado e passa-lhe o devido sermão. “O santo rabino tem toda a razão do mundo, mas eu não o chamei à minha casa nem lhe pedi que me aumentasse a desgraça com o fardo de mais uma culpa.” O rabino retira-se envergonhado e no dia seguinte pode ensinar aos fiéis na sinagoga que o blasfemo erra uma vez, enquanto seu juiz peca duplamente.
A duração da terapia, seu ritmo lento e o inerente sacrifício encontram ilustração interessante na história do prisioneiro trêmulo de frio numa torre tão alta que seus carcereiros nem se deram ao trabalho de repor as grades serradas em vão. Tanto trabalho serviu apenas para que, colocando a cabeça do lado de fora, ele pudesse desanimar diante da imensa distância que o separa do chão, onde as pessoas passeiam indiferentes, reduzidas ao tamanho de uma formiga. É quando lhe ocorre a idéia de desfiar a magra túnica de algodão.
Emendando fio em fio, pode enviar a tênue mensagem, até o chão. Quem quiser ajudá-lo fará bem em amarrar um fio apenas mais grosso ao que desceu da torre, sem o que a solidariedade terá um peso excessivo. Se assim for feito, os fios cada vez mais grossos culminarão na corda resistente a ponto de suportar o corpo. Antes de tudo, será preciso que o prisioneiro aceite sentir um pouco mais de frio. Nenhuma analista deixará de reconhecer na torre a altivez dos ideais que nos encarceram e nos ínfimos transeuntes o nosso binóculo invertido que diminui o outro.
Dois outros contos recorrem a metáforas semelhantes. O primeiro narra a inveja de um humilde sentinela ao ver o desfile do rico botim que o rei trouxe de uma campanha vitoriosa. “Quem me dera estar rodeado de ouro e prata!”
O lamento chega aos ouvidos reais e o soberano decide cumprir o desejo do sentinela, encerrando-o na sala do tesouro. O prisioneiro golpeia a surda indiferença da espessa madeira até se dar conta que do outro lado certamente estará postado um guarda. Volta-se então resignadamente para as grossas paredes do erário e reitera quase sem esperanças uma mensagem destinada a algum benfeitor incerto. A sua persistência é recompensada por uma resposta que a relutante muralha transmite abafadamente. Daí em diante, o sentinela concentra a atenção em indicar a direção correta para a perfuração, ajudando com algum objeto mais duro que coabite ilicitamente com o ouro e a prata reais.
Quando um pequeno buraco é finalmente aberto, o precioso instrumento libertador, uma broca de ferro, parte-se. Do outro lado uma voz explica que seu dono e inventor terá que construir outra, um trabalho difícil e custoso…
Para bom entendedor, meia palavra; resta ao sentinela usar as riquezas que antes guardara na troca por comida e água; a sala do tesouro tem assim o seu conteúdo transformado conforme a célebre equação que serviu para descrever as vicissitudes dos impulsos da analidade. Indiferente ao que, o jovem entoa seu destino nas tristes melodias da flauta que um piedoso benfeitor desconhecido deixou no buraco. Tempo, talento e sofrimento podem, confinados numa realidade mal-cheirosa, produzir um artista. Pelo diminuto orifício o sinuoso fio sonoro chega à filha do rei - uma família que ouve longe - e ela consegue do pai a abertura das portas. Quando em vez de um esqueleto ou do vingativo fantasma musical surge o pálido guarda, a história pode conjugar um final feliz com sua moralidade imprevista.
Não convém desprezar a pieguice das interpretações iniciais: a inveja aprisiona; do lobo o cordeiro não deve queixar-se ao leão; bater na parede certa é melhor do que ter a chave da porta errada; todo pedido é ouvido; toda ajuda é cobrada. Riqueza guardada apodrece; a arte opera onde a força fracassa.
Espera-se que o analista deixe de identificar-se com o dono da broca e seu trabalho de manutenção mínima… e em troca se veja no personagem ausente através de quem o prisioneiro recebeu a flauta.
É hora de convidar um detrator da psicanálise. Os sábios a quem se devem os contos anteriores mergulharam de bom grado no anonimato da tradição oral, sabendo talvez que a voz se deve ao eco. O seu sucessor, que se pretendia melhor leitor que escritor, devotou-se em vão ao esquecimento.[1]
La cárcel es profunda y de piedra; su forma, Ia de un hemisfério casi perfecto, si bien el piso (que también es de piedra) es algo menor que un círculo máximo, hecho que agrava de algún modo los sentimientos de opresión y de vastedad.
Assim começa La Escritura del Dios[2]; como manda o figurino, o leitor é amarrado traiçoeiramente no primeiro parágrafo. Prisioneiro de uma viscosidade arenosa ou alcalina, só poderá evadir-se no ponto final.
O poço é compartilhado por um jaguar e um homem, separados por uma grade de metal. Tzinacán foi sacerdote asteca até a chegada das tropas de Cortez. Na única hora sem sombra, um carcereiro “que han ido borrando los años” abre a tampa do buraco e faz descer por uma roldana comida e água. Um longo tempo é necessário para que o contraste entre a glória da função sacerdotal e o atual suplício seja admitido. Pois diante da adversidade foi graças a seu orgulho que Tzinacán se manteve vivo:
… Ias hombres que bajaron de altos caballos me castigaron con metales ardientes para que revelara el lugar de un tesoro escondido. Abatieron, delante de mis ojos, el ídolo del dios, pero éste no me abandonó y me mantuve silencioso entre los tormentos.
E a convicção dessa lealdade que lhe permite a esperança da reciprocidade. O prisioneiro povoa seus dias inúteis com árduas tarefas de memória, o nome de alguma planta, as imprecisas formas dos objetos pousados lá em cima, na superfície. “Así, fui debelando los años, así fuí entrando en posesión de Io que ya era mío”. Até que, precedida pela mesma excitação com que o viajante vê o mar, a lembrança brota de uma antiga profecia.
O deus azteca, prevendo as infelicidades que varreriam a terra quando se aproximasse o fim dos tempos, escreveu, nos primórdios da criação, uma frase mágica para conjurar os males. De forma tal que fosse disponível para todos os homens, não importa quantas gerações nascessem e retornassem ao pó. Ninguém sabe onde ela se encontra escrita, nem quais são as suas letras; mas “consta que perdura, secreta, y que Ia leerá un elegido”. A frase seguinte é um primor de ironia: “‘Consideró que estábamos, como siempre, en el fin de los tiempos”. Dessa ingênua certeza o mago extrai uma terrível disciplina que o leva a interrogar rigorosamente todas as possibilidades.
Esa reflexión me animó y luego me infundió una espécie de vértigo. En el ámbito de Ia tierra hay formas antiguas, formas incorruptibles y eternas; cualquiera de ellas podía ser el símbolo buscado.
Montanhas, rios, o império ou a configuração dos astros. Entretanto, os séculos podem alterar a forma das montanhas; o leito dos rios não é imutável; até as estrelas aparecem e desaparecem, pois são indivíduos e os indivíduos caducam. “Busqué algo más tenaz, más invulnerable”. As gerações dos cereais, dos pastos, dos pássaros, dos homens. “Talvez en mi cara estuviera escrita Ia magia, quizá yo mismo fuera el fin de mi busca”. Empenhado nessa tarefa recordou Tzinacán que o jaguar era um dos atributos do deus.
Sentiu a força dessa revelação. A alma cheia de piedade evoca como:
… en Ia primer mañana del tiempo imaginé a mi dios confiando el mensaje a Ia piel viva de los jaguares que se amarían y se engendrarían sin fin, en cavernas, en cañaverales, en islas, para que los últimos hombres Io recibieran. Imaginé esa red de tigres, ese caliente laberinto de tigres, dando horror a los prados y a los rebaños para conservar un dibujo.
Longos anos são dedicados à difícil interpretação das manchas do pelo; riscos anulares e transversais que podem ser uma palavra, uma letra, um espaço; e o que significariam as filigranadas bordas vermelhas?
A tarefa é dificultada pela escassa luz. A hora do meio-dia é agora esperada não pela água ou comida que freqüentemente retornam intactas na mesma viagem da roldana. Dúvidas não deixam de inquietar o decifrador, perplexo diante da frase a cuja enunciação se dignará um deus. Mesmo na rudimentar língua humana não há proposição que não implique toda a realidade: “…decir el tigre es decir los tigres que Io engendraron, los ciervos y tortugas que devoró, el pasto de que se alimentaron los ciervos, Ia tierra que fué madre del pasto…” Talvez uma só palavra enuncie essa “infinita concatenação”, da qual as humanas “todo”, “mundo”, “universo” são pálidos ecos.
Um dia - ou uma noite, como sabê-lo? - o mago sonha com um grão de areia em sua cela. Dois, três, até que se sente sufocar por um deserto vertical; acorda do pesadelo para vê-lo transformado em realidade. A chuva de areia condena sua impossível empresa:
No has despertado a Ia vigília sino a un sueño anterior. Ese sueño está dentro de otro, y así hasta Io infinito, que es el número de los granos de arena. El comino que habrás de desandar es interminable y morirás antes de haber despertado realmente.
É a morte de toda esperança, mas Tzinacán grita: “Ni una arena soñada puede matarme ni hay sueños que estén dentro de sueños”. E nesse instante acorda de fato; a tampa do poço abriu-se e o prisioneiro vê o carcereiro, a roldana, a corda, a carne e os cântaros, o dele e o do tigre.
“Un hombre se confunde, gradualmente, con Ia forma de su destino; un hombre es, a Ia larga, sus circunstancias”. A frase seguinte confessa e renuncia a uma ambição. “Más que un descifrador o un vengador, más que un sacerdote del dios, yo era un encarcelado”. Finalmente desperto, Tzinacán retorna “…como a mi casa a Ia dura prisión. Bendije su humedad bendije su tigre bendije el agujero de luz bendije mi viejo cuerpo doliente bendije Ia tiniebla y Ia piedra“. À inesperada reconciliação com a sua sorte sucede o êxtase: uma estranha união com a divindade, com o universo (”…no sé si estas palavras difieren”). A bem-aventurança não repete seus símbolos; a sua foi a visão de uma roda que estava em todos os lugares. Ele era um dos elos dessa trama total, e Pedro de Alvarado, seu torturador, era outro. “Ahí estaban Ias causas y los efectos y me bastaba ver esa rueda para entenderlo todo sin fin”. A exclamação seguinte traduz desavergonhadamente um gozo secreto: “Oh dicha de entender, mayor que la de imaginar o Ia de sentir!”
Compreendido o universo, a pele do tigre oferece-se mansamente à leitura: “Es una fórmula de catorce palavras casuales (que parecen casuales)”. A linguagem divina não difere da nossa… não há por que invocar a transcendência, o sobrenatural ou a metalinguagem.
… me bastaría decirla en voz alta para ser todo poderoso. Me bastaría decirla para abolir esta cárcel de piedra, para que el día entrara en mi noche; para ser joven, para ser inmortal, para que el tigre destrozara a Alvarado, para sumir el santo cuchillo en pechos españoles, para reconstruir Ia pirámide, para reconstruir el imperio. Cuarenta sílabas, catorce palabras, y yo, Tzinacân, regiría Ias tierras que rigió Montezuma. Pero yo sé que nunca diré esas palabras, porque ya no me acuerdo de Tzinacân.
A essa compreensão o mago sacrifica pela última vez, agora seu próprio nome. Como não ver aqui a lenta desconstrução da procissão de máscaras que é nosso rosto? O conto oferece quase ponto por ponto uma perfeita analogia com o ofício da escuta, desde a recuperação do que insuspeitadamente sempre nos pertenceu - alusão às lembranças -, passando pela vizinhança ameaçadora do desejo que precisa ser decifrado antes que nos devore, sem esquecer o anseio de poder cuja renúncia exige a corrosão da própria estátua.
O rival e o opressor se esfumam no preciso instante em que seu reflexo - o eu - desaparece do espelho, transformado agora em vidro mais ou menos limpo de imagens invertidas. Deus não é senão a nossa íntima verdade; não podemos conhecê-la e muito menos pretender sua posse. Resta testemunhar suas manifestações, dolorosas ou absurdas, incômodas ou maravilhosas, sempre reveladoras.
Do indeterminismo profundo que inviabiliza qualquer pretensão diagnosticante é testemunha um curto relato hassídico. Agonizando em febre no leito, um doente implora em vão a presença de alguém que lhe mitigue a sede. Condoído, um cântaro rola em sua direção. Nessa tentativa, não pode impedir que o líquido se escoe. Ao chegar perto do enfermo, quase não resta água. A mão desesperada agarra o cântaro, o efêmero gole não mata a sede e o cântaro é despedaçado contra a parede.
Poderia o doente ter-se erguido para beber do cântaro? Se não, com que força o quebrou? Se sim, por que não o fez?
A responsabilidade é indecidível.
Toda renúncia à distância exata sacrifica a sua própria finalidade.
Nem sempre são os mestres que mostram o caminho. Às vezes, é apesar deles que as coisas acontecem. Um ingênuo buscador da verdade cansa as estradas com sua inútil peregrinação pedindo dos sábios que o ensinem a voar, pois esse é para ele o sinal da libertação. Pernoitando numa cabana de camponeses, cede à curiosidade de sua hospedeira e conta-lhe o motivo da peregrinação. A esperta mulher pisca um olho para o marido e diz que, mesmo sem ser versada nas escrituras, conhece os segredos do vôo. O rapaz se interessa, lembrando que as escrituras conferem muitas vezes aos humildes o papel de guia.
A instrutora exige uma recompensa antecipada; durante sete anos o discípulo deverá ajudar o casal, que não recebeu dos deuses os filhos esperados. Trato feito. Muitos plantios e colheitas se alternam até que ele possa pedir sua recompensa; mas recebe então a resposta de que a própria forma de sua pergunta revelara quão despreparado estava. Resignado, retorna ao campo e ao cabo de alguns anos, percebendo-o fraco para o trabalho, a camponesa condescende em retribuir-lhe o esforço.
Diante do desespero do marido, manda o rapaz subir no imenso carvalho cuja sombra protege a cabana. No topo da árvore, ele ouve as últimas recomendações. Obedientemente solta a mão esquerda do galho que segurava; depois a direita; flexiona as pernas e salta. Voando em direção ao poente, faz um gesto de agradecimento a seus benfeitores.
Estarrecidos? O epílogo é ambíguo; para alguns, os camponeses se surpreendem; para outros, só o marido. Há os que sustentam que a profissão do casal era justamente essa, a tal ponto que na manhã seguinte seria possível vê-los plantando ervas daninhas na terra arada, à espera de um novo candidato. O certo é que muitos têm subido ao carvalho sem ter passado pela plantação.
Deitar-se no divã, portanto, não garante muito.
As posições de discípulo e mestre voltam a fixar-se num relato atribuído à tradição zen. Preocupado diante do autoflagelamento com que um jovem monge buscava a via da libertação, seu mestre tenta em vão dissuadí-lo dos jejuns, do chicote, do esgotamento pelo trabalho árduo. Todas as formas de persuasão falham. Certa tarde, diante do penitente, põe-se a esfregar com denodo uma pedra tendo por modelo um fino jarro de cristal. O discípulo não tarda em compreender e cai em profunda tristeza. O mestre leva-o então até a janela, de onde se avista a montanha que domina o templo e a aldeia vizinha. Pede-lhe que descreva a paisagem. “Vejo terraços plantados com trigo” - diz o jovem. À pergunta seguinte responde que os sábios postulam ser a terra fértil originária do lento trabalho de erosão sobre a superfície das rochas. Já os terraços, acrescenta em resposta a outra indagação, são construídos mediante pequenas pedras, com a finalidade de impedir que a terra fértil seja arrastada pelas fortes chuvas. “Pedras como esta?” - pergunta o monge mostrando a que polira diante do jarro. Deixa o discípulo sozinho, confiando em que agora ele possa encontrar a chave das transformações ligando as pedras ao cristal através da terra, dos cereais e do homem.
Em complemento à imponente obra de arte literária que o Ocidente passou a produzir e venerar, os pequenos contos antimoralistas da tradição iconoclasta evocam o
[1] La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.
[2] J. L. Borges, Ficciones, Buenos Aires, EMECE, 1970.
