Revisitando a teoria do trauma
REVISITANDO A TEORIA DO TRAUMA
Cinco ou seis artigos, datados de 1882 a 1889, contêm o que se convencionou chamar alternativamente de teoria da sedução ou do trauma.
Berço etiológico da teoria psicanalítica, contém os primeiros balbucios de um jovem médico que dialoga respeitosamente com os mestres, buscando o timbre adequado à própria voz. Os fatos fazem parte de uma história muito conhecida, pelo menos enquanto aparência. Resumi-la talvez atenue a inevitável repetição.
Em 1885, Freud, recém-formado, especializado em neurologia, postula e consegue uma bolsa para estudar em Paris com um dos luminares da área, o Dr. Jean Marie Charcot. E o prêmio pelo talento demonstrado em alguns artigos de neuroanatomia que despertaram o interesse de seus professores e a recomendação decisiva para os membros da comissão responsável pela escolha do candidato.
Em Paris, a decepção provocada pela surpreendente precariedade das instalações destinadas à pesquisa neuroanatômica foi compensada pela descoberta de um mestre notável e, não menos, das investigações a que este se dedicava naquele momento, decididamente excêntricas para a medicina da época. Foi no mínimo uma conjunção notável o encontro do jovem vienense com Charcot e a histeria.
Os historiadores se dividem entre a celebração do feliz acaso que colocará Freud na pista e aqueles que julgam inevitável, uma mera questão de tempo, a direção que seguirá pouco depois. Charcot tornou-se retrospectivamente um antecessor brilhante, um dos iniciadores da psicologia clínica; foi provavelmente o considerável peso de seu prestígio que retirou da esfera do pejorativo um quadro sintomático atribuído até então à ociosidade dos genitais femininos. Entretanto, saiu de cena tão rapidamente quanto entrara, pois, fiel à sua formação médica, promovia a hipótese de que a histeria resulta de um comprometimento do sistema nervoso. Quanto a especificá-lo, também se inscreveu numa tradição: à ausência de provas reagiu menos através da dúvida do que mediante a certeza da futura confirmação.
O interesse de Charcot pela histeria tem sua explicação numa questão de ordem prática: grande número de pacientes encaminhados à ala de neurologia da Salpetrière queixava-se de sintomas orgânicos refratários a qualquer aferição mediante exames médicos. Uma lógica simples que incluía certa dose de coragem levou o neurólogo a fazer uma triagem inicial para evitar o dispêndio de tempo e trabalho requeridos pelos exames habituais. Coragem porque o método usado para tanto foi a hipnose, então não menos do que hoje ligada a conotações de charlatanice e misticismo. Charcot utilizou a desvantagem como um lutador de judô: para pacientes que simulavam sintomas, nada melhor que um método “falso” para descobrir a verdade. O mestre não comprometeu sua posição balançando correntes de relógio diante de olhos sonolentos, mas instruiu seus discípulos a fazê-lo. O resultado foi o esperado: os pacientes histéricos podiam ser rapidamente identificados e distinguidos dos portadores de problemas orgânicos, mediante o simples recurso à sugestão hipnótica.
Vantagem suplementar: os sintomas eram simultaneamente detectados e removidos. Charcot pôde concluir que a histeria era diagnosticável meramente pela possibilidade de serem hipnotizadas suas vítimas. Uma breve reflexão sobre o assunto levou-o a afirmar que não havia simulação no comportamento desses pacientes; eles realmente acreditavam na realidade de suas cegueiras, paralisias e anestesias. Esta observação levanta problemas que mais tarde Freud demonstrará serem extraordinariamente fecundos. Charcot, cujo interesse pelo tema não ia além do diagnóstico diferencial, fechou a porta entreaberta com a afirmação de que essa crença absurda em sintomas pseudoneurológicos só poderia encontrar explicação na fraqueza de certas funções mentais, as mesmas cujo comprometimento gerava os próprios sintomas e a facilidade com que esses pacientes eram hipnotizados.
Se o sistema nervoso central adquiria o direito de sediar os comportamentos humanos bem como o de explicar seus desvios patológicos, o corolário da hipótese de Charcot foi o confisco das atribuições até então outorgadas à sexualidade. O remédio para a histérica deixou de ser o casamento, ou. Os histéricos, doravante de ambos os sexos, salvos pela medicina da chacota, paradoxalmente viam-se agora privados de esperança, pelo menos até que algo resultasse dos futuros progressos da neurologia. Esse pessimismo, inerente à teoria de Charcot, derivava de que os pacientes, curados ao mesmo tempo que diagnosticados (no que prometia ser uma feliz combinação entre o útil e o agradável), acabavam retornando ao hospital pouco depois com sintomas iguais ou semelhantes. Charcot concluiu que o problema neurológico causador da histeria teria caráter degenerativo, o que está muito próximo do adjetivo “incurável”.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008 16:45:40
O interesse que os estudos nessa área despertaram levou pelo menos um dentre os discípulos de Charcot (excluindo Freud, naturalmente) a prosseguir na trilha aberta pelo mestre. Janet esforçou-se em precisar o mecanismo da degeneração nervosa; diante da mudez obstinada do cérebro, não lhe restou mais do que recorrer a certas metáforas: fraqueza mental, dissociação psíquica, dupla consciência. Escorregando ao longo desse declive, chega a falar de “idéias inconscientes”. É então que, assustado com as próprias palavras, se dá conta do caminho que a sedutora histeria parece obrigá-lo a percorrer. Abandona-a a tempo, reafirmando sua fidelidade à ciência. Não é muito diferente do que aconteceu a Breuer, não só com a mesma histeria como com sua primeira dama, Anna O.
Charcot elevara a histeria à dignidade de uma verdadeira doença e Breuer abriu o caminho para a sua abordagem terapêutica. Se acatarmos a teoria do acaso feliz, então Freud era um sujeito de sorte. Breuer foi um misto de amigo e irmão mais velho, cuja admiração protetora só falhou quando se tratou de defender o jovem pesquisador dos ataques que a sociedade vienense passou a dirigir às suas arrojadas teorias. Coube-lhe demonstrar com antecedência - visto ter tratado Anna O. entre 1880 e 1882 - que o pessimismo de Charcot quanto ao prognóstico da histeria era excessivo. Freud, que conhecia o caso, tão logo pôde exprimir-se em francês relatou a Charcot a impressionante história da moça de vinte anos curada de uma verdadeira coleção de sintomas, incluindo paralisias, alucinações, macropsia e espasmos, ao qual não faltavam os requintes de uma pseudo-afasia (perda da língua materna, o alemão, substituída pelo inglês) e de uma espécie de hidrofobia (impossibilidade de beber água em copos).
Consta que o neurólogo francês não se interessou pelo relato.
Foi a própria Anna que descobriu o método terapêutico, ao superar um de seus sintomas mediante o desabafo que se seguiu à recordação de uma cena desagradável. Trata-se da hidrofobia, do qual Freud disse ser o primeiro sintoma verdadeiramente curado através da palavra. Essa afirmação traz implícita uma distinção entre o método de Breuer, chamado catártico, e a sugestão hipnótica que Charcot usava para fins de diagnóstico. Dois métodos, dois resultados: talvez isso explique o pessimismo de Charcot e o moderado otimismo de Breuer.
Na sugestão hipnótica, o agente transformador permanece externo; trata-se da influência exercida pelo hipnotizador sobre o paciente. O efeito apenas transitório da sugestão hipnótica tornou-se compreensível graças ao conceito de transferência, desenvolvido posteriormente por Freud: o retorno do sintoma constituía um apelo indireto ao retorno do carismático terapeuta. Mais tarde, quando estudou o papel do ideal na formação da personalidade, Freud postulou a surpreendente semelhança entre fanatismo político, paixão amorosa e hipnose.
Breuer viu-se assim conduzido pela mão de sua paciente a ingressar numa área decididamente psicológica, cuja inospitalidade provocará em breve seu recuo. As dificuldades atacam em duas frentes: Anna O. se apaixona por ele e por outro lado a teoria catártica levanta novas questões. Nem todos fazem sintomas histéricos em conseqüência de preocupações e estados de tensão nervosa, como por exemplo uma grave doença que aflija entes queridos. Como se explicam as diferentes reações perante situações semelhantes? Para responder, Breuer retorna a tese da predisposição orgânica, beco sem saída, já que não há como prová-la nem desmenti-la.
A histeria desafia seus intérpretes e as pistas que deixa são demasiadamente sutis para que mesmo médicos experientes do porte de Charcot e Breuer possam segui-las.
Da teoria de Charcot pode-se dizer que é puramente médica, se com isso for caracterizada uma concepção em que não há lugar para outros fatores que os orgânicos. O fator ambiental faz-se presente através do evento traumático, mas este não é mais do que um “agente provocador”: a histeria que Charcot descreve é uma reação exagerada a acontecimentos quase banais que não teriam provocado conseqüências nem de perto semelhantes em pessoas sem predisposição patológica.
Por outro lado, tais acontecimentos, desagradáveis mas insuficientes para pretender a condição de trauma, funcionam de acordo com uma lógica muito clara. Trata-se de ameaças diretas à integridade. Os exemplos descrevem acidentes, doenças, morte de parentes, significando insegurança e perda de proteção. O adjetivo “traumático”, mediante o qual Charcot descreve a histeria, tem conotações muito mais concretas do que psicológicas.
Com Breuer, a psicologia é introduzida no esquema explicativo da histeria, ainda que timidamente. Sem descartar a predisposição biológica, o médico austríaco enfatiza um mecanismo que capta a lógica da medicina ambientalista e o transplanta para o terreno da histeria. O “estado hipnóide”, conceito fundamental da teoria catártica, constitui a tradução psicológica das relações entre o organismo e seu ambiente, visto como favorecedor ou agressivo. O resultado dessa interação dependerá da predisposição do indivíduo, de sua relativa força ou vulnerabilidade. O histérico, para Breuer, é alguém cujas “defesas” (Freud dará a esse termo outra significação) estão debilitadas.Portanto será mais vulnerável ao efeito deletério daquilo que em medicina derivaria da infestação virótica ou bacteriana e que, na extrapolação para a psicologia, decorrerá do trauma psicológico. Comuns no cotidiano, os eventos desagradáveis adquirirão para o histérico um poder desestabilizador.
A compreensão da teoria de Breuer exige a descrição do que ele designou por estado hipnóide e também as respectivas causas. O texto chave para isso é sem dúvida o seu capítulo teórico em Estudos sobre a Histeria (1895). Por estado hipnóide entende-se o enfraquecimento das funções da consciência: memória, percepção, volição, atenção e emoção. O comprometimento dessas funções se traduz respectivamente em amnésia ou lacunas de memória, alucinações, apatia ou falta de iniciativa, dispersão ou falta de concentração, frieza ou excessos emocionais - tais como os ataques histéricos.
As funções da consciência teriam para o psiquismo um papel organizador e protetor análogo ao dos anticorpos em relação ao organismo. Quanto à etiologia da histeria, Breuer invoca dois fatores: situações penosas e predisposição orgânica, já que condições semelhantes não teriam perturbado pessoas constitucionalmente “saudáveis”. Em relação a Anna O., a tensão nervosa propiciadora do estado hipnóide teria sido causada tanto pela preocupação com a saúde frágil do pai como pela “predisposição mórbida”.
Dessa maneira, a teoria catártica relativiza sem eliminar a importância do fator orgânico, combinando-o com as circunstâncias de vida. Mesmo se predisposta a tanto, sem a doença do pai, Anna O. não teria construído seus sintomas. É fácil compreender a posição intermediária da teoria catártica entre o organicismo de Charcot e a psicologização radical de Freud. O capitulo teórico que Breuer assina nos Estudos sobre a Histeria revela a preocupação conciliadora de conceder o mesmo peso a ambos os fatores.
Freud já segue outro caminho e seu fio de Ariadne no labirinto da histeria é o conceito de defesa, que encerra em germe o desenvolvimento da teoria psicanalítica. Encontram-se aí conotadas as idéias de conflito, de divisão psíquica (primeiro como característica da histeria, depois universalizada) e a primeira tópica (teoria dos sistemas psíquicos), definida pelos lugares de onde provém o que “ataca” (inconsciente) e “resiste” o que “se defende” (consciência).
Não é absurdo pensar que se trata de uma tradução do esquema de Breuer para o interior da psique. Em Freud, o conflito ambiente vs. indivíduo tornou-se uma luta do sujeito consigo mesmo. Naquele momento inicial, as conseqüências desse deslocamento mal poderiam ser vislumbradas pelo seu próprio autor.
O caso de Anna O., relatado por Breuer em Estudos sobre a Histeria, ilustra fielmente o método catártico e sua teoria.
Tinha havido, no verão, uma época de calor intenso e a paciente sofria de sede horrível, pois sem que pudesse explicar a causa, viu-se de repente impossibilitada de beber. Tomava na mão o cobiçado copo de água, mas assim que o tocava com os lábios repelia-o como hidrófoba. Nesses poucos segundos, ela se achava evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente de frutas, melões, etc. Quando isso já durava perto de seis semanas, falou, certa vez, durante a hipnose, a respeito de sua dama de companhia inglesa de quem não gostava, e contou então, com demonstrações da maior repugnância, que, tendo ido ao quarto senhora, viu, bebendo num copo, o seu cãozinho, um animal nojento. Nada disse, por polidez. Depois de exteriorizar energeticamente a cólera retida, pediu de beber, bebeu sem embaraço grande quantidade de água e despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu definitivamente. Grande número de caprichos extremamente obstinados foi eliminado de forma semelhante.[1]
Para Breuer, a seqüência dos acontecimentos é a seguinte: 1) tensão nervosa (originada por uma situação constante de significado ameaçador, como a grave doença do pai para Anna O.); 2) estado hipnóide (ou absence) que se expressa pelo comprometimento das principais funções da consciência (emoção, percepção, volição…) conseqüente à tensão nervosa; 3) acontecimento desagradável/banal que ocorrendo nesse estado de ânimo se transforma em trauma[2]. À retenção da emoção segue-se então 4) o esquecimento do evento traumático e, finalmente 5) o sintoma surge como “símbolo” do que fora esquecido.
À predisposição orgânica fica reservado o papel de explicar por que algumas pessoas são mais suscetíveis do que outras a certas situações e, portanto, apresentam tendência mais pronunciada a ingressar em “estados hipnóides”.
O método catártico promove a cura possibilitando a lembrança do trauma através da hipnose, abrindo caminho para a exteriorização da emoção retida. Torna-se necessário recorrer à hipnose como instrumento de memorização, sem o que a lembrança do trauma permanecerá inacessível. Uma vez restaurada a memória, a emoção concomitante poderá ser vivenciada sem entraves, resultando numa espécie de desintoxicação afetiva. Se Breuer houvesse prosseguido suas investigações certamente teria de se haver com algumas questões, como a de saber por que a hipnose aumenta o campo da memória e o que é exatamente esse “lugar” psíquico onde ficam depositadas as lembranças dos traumas.
Cabe a Freud seguir nessa direção e sabemos que seu conceito de inconsciente é modelado inicialmente em torno à noção de uma memória independente da vontade. Às primeiras críticas recebidas responde citando os clássicos experimentos que fizeram a fama de mais de um hipnotizador e a delícia de incontáveis auditórios: pessoas que cumprem ordens após o transe hipnótico ignorando a verdadeira causa dessas ações.
O próprio Freud assistira em Nancy a demonstrações desse tipo, quando fora aperfeiçoar-se em técnicas hipnóticas com dois médicos franceses, Liébault e Bernheim. Também dessa vez o objetivo da viagem não foi cumprido. Como acontecera quatro anos antes, em Paris, a decepção foi generosamente recompensada. Os pacientes de Bernheim não se lembrariam do que acontecera durante o transe hipnótico se não fossem insistentemente interrogados. Um esforço dessa natureza invariavelmente resultava na rememoração da ordem recebida. Com esses elementos Freud constrói seu primeiro modelo de inconsciente, acrescido de um indício sobre o funcionamento da resistência.
É bem mais difícil ilustrar a teoria do trauma/sedução de Freud com os quatro históricos de caso apresentados nos Estudos sobre a Histeria. Já no seu primeiro livro deparamos com essa peculiaridade que consiste em expor um esquema teórico plausível ao mesmo tempo que as respectivas insuficiências, além de antecipações ainda não formalizadas.
Há um caso - “Emmy von N.” - tratado mediante sugestão hipnótica, em que uma rude recriminação da paciente ao autoritarismo do terapeuta abre caminho para a descoberta da associação livre. Em “Lucy” e “Elizabeth” observa-se um procedimento diferente bem como outros resultados; as pacientes não são analisadas em transe hipnótico e os traumas não são acontecimentos sexuais infantis esquecidos mas impulsos afetivos - amor pelo patrão, amor pelo cunhado - não reconhecidos.
O capítulo dedicado a “Katharina” se distingue exatamente por não cnstituir o relato de uma terapia. No melhor estilo das histórias de detetive, o cansado herói, enfim gozando de merecidas férias alpinas, vê-se às voltas com mais um mistério. A sobrinha da dona da hospedaria onde se alojara busca a sua ajuda para livrar-se de um “acesso histérico cujo conteúdo era a ansiedade“. A investigação culmina com a rememoração de um ataque sexual da parte de seu tio. É a única das quatro descrições que poderia ilustrar a teoria do trauma, com a ressalva de que este ocorre após a puberdade.
Em compensação, um manuscrito publicado postumamente em 1950 (fazia parte da correspondência entre Freud e Fliess) contém um exemplo adequado. Sintoma: impossibilidade de entrar desacompanhada em lojas. A paciente, uma adolescente, relata a Freud a primeira vez em que isso aconteceu. Fora comprar roupas e pediu uma peça ao balconista; este vai buscá-la e no fundo da loja troca algumas palavras com outro vendedor, inaudíveis para a jovem. Ambos parecem divertir-se. A moça sai precipitadamente e desde então não consegue mais fazer compras sozinha.
A investigação conduz à evocação de uma cena ocorrida aos oito anos de idade. Ela fora então acariciada no interior de uma mercearia pelo dono do estabelecimento, cujo sorriso malicioso ficara associado ao episódio. Voltara lá ainda uma vez e depois evitara fazê-lo.
Freud relaciona o trauma infantil e o incidente da adolescência sem dificuldade. (Os elementos comuns: estar numa loja, fazer um pedido a alguém do sexo masculino, e o riso.) A lembrança do episódio na mercearia fora expulsa da consciência como conseqüência da compreensão de seu significado após a puberdade. Essa operação, visto a sua importância, merecerá um termo específico: recalque. Como representante do evento recalcado, surge o medo de uma agressão sexual, simbolizada pela série: pedido (compra), loja, homem, riso.
(Mais tarde, quando a teoria do trauma for substituída pela da sexualidade infantil, o ponto de vista psicanalítico defenderá a polêmica idéia de que a aversão à sexualidade não deriva de acontecimentos traumáticos mas do conflito entre o prazer, considerado indevido, e as regras morais. A partir dessa hipótese, o sintoma em questão poderia prescindir tanto do primeiro incidente na mercearia como do segundo na loja de roupas. O sintoma deixa de ser o efeito de um acontecimento para transformar-se em metáfora de determinada dificuldade; a impossibilidade de entrar em lojas desacompanhada está apta, como qualquer outra situação, a representar o conflito da paciente com a sexualidade).
A hipótese freudiana subverte a teoria catártica em alguns pontos importantes. Breuer postula uma banalidade que o estado hipnóide eleva à posição de trauma; Freud, um trauma verdadeiro que a condição infantil do sujeito reduz à insignificância. A sua posterior recordação na adolescência evoca uma situação paradoxal: “…a lembrança terá um efeito de excitação muito mais forte do que a experiência“.
E possível comparar ambas as hipóteses quase ponto por ponto. A tensão nervosa, momento inicial da explicação de Breuer, obedece a uma situação ambiental tão objetiva quanto circunstancial. Em Freud, ela é substituída por um elemento interno do sujeito, a saber, seus valores morais, adquiridos em função da educação recebida, ministrada por adultos que condenam a sexualidade e freqüentemente omitem sua menção.
Correspondentemente, o estado hipnóide postulado por Breuer cede lugar à noção de uma condição infantil que permite a utilização da criança como objeto sexual por um adulto perverso. O esquecimento, que na teoria catártica se explica pelo estado hipnóide, durante o qual a memória funcionaria deficientemente, é explicado por Freud mediante o recalque. O recalque, significando a expulsão de uma representação da consciência, deve-se ao conflito entre os valores morais do sujeito e a significação do prazer (sempre associado de alguma forma ao corpo e à sexualidade), que esses mesmos valores tornaram inaceitável. Em vez de um simples esquecimento, o recalque implica na atitude de fuga perante as idéias e sensações proibidas.
A referida fuga aponta para uma questão difícil, a da intencionalidade do próprio recalque - consciente ou inconsciente?
Por essa via Freud propõe outra explicação para uma das dificuldades com que Breuer se deparou, relativa ao motivo das diferentes reações individuais a situações semelhantes, que é resolvida sem recorrer ao conceito de “predisposição orgânica”. Basta supor uma variação no tipo de educação recebida, isto é, até que ponto vai a rigidez dos valores morais inculcados pelos adultos.
O contraste entre a teoria catártica e a primeira hipótese de Freud (trauma/sedução) pode ser esquematizado como segue.
A predisposição orgânica de Breuer transforma-se, em Freud, na infância; a tensão nervosa proposta pela teoria catártica, cuja causa se deveria a uma situação concreta (como a doença do pai de Anna O.), é substituída pelos valores morais transmitidos à criança, freqüentemente associados à intolerância perante a sexualidade.
O trauma, definido como ameaça inespecífica por Breuer, adquire em Freud o caráter de um acontecimento de significação sexual; para Breuer, ele ocorre próximo ao momento de surgimento do sintoma, na vida adulta, enquanto Freud o situa na infância, embora seus efeitos precisem esperar pela respectiva compreensão, que somente será possível na puberdade, quando os hormônios entram em ação e colocam o adolescente em contato com a sexualidade, tanto física como mentalmente.
O esquecimento do fato traumático e a retenção das emoções, postulados por Breuer como mecanismo específico do sintoma, são substituídos pela noção de recalque, que Freud define como conseqüência do conflito entre o prazer ligado à sexualidade e sua condenação pelos valores morais decorrentes do processo educativo.
Acrescente-se que a noção de recalque implica na divisão mental (consciência/inconsciente), sobre cuja origem Freud não desenvolve qualquer hipótese nesse momento.
Em correspondência com as divergências teóricas, a terapêutica freudiana não considera que a mera rememoração do evento traumático, somada à respectiva exteriorização afetiva, permita a cura. Esse é um ponto de delicada compreensão e importantes conseqüências. A remoção do sintoma deixa de equivaler à cura. Se toda cura implica na erradicação do sintoma, a recíproca não é verdadeira.
Papel fundamental é outorgado doravante à atenuação da intolerância da consciência, só o que possibilitará a não reincidência do sintoma. Freud, nesse momento, é um misto de detetive, confessor e professor liberal. Descobre o(s) trauma(s) infantil(is) sepultado(s) no inconsciente, recebe o desabafo e absolve seus pacientes em nome da ciência, procurando modificar-lhes a atitude perante a
[1] Obras Completas de S. Freud, Ed. Imago, vol. XI, pp.77-78.
[2] O testemunho do cachorrinho bebendo água no copo da governanta é suficiente para despertar um forte nojo que Anna O. não consegue exteriorizar e se transformará no sintoma de não usar copos para beber.
