O inconsciente, o ambiental e o orgânico
O INCONSCIENTE, O AMBIENTAL E O ORGÂNICO
Há uma tese central neste livro, espécie de idéia orientadora, unindo seus temas: a de que a obra de Freud segue sinuosamente um caminho que vai da rejeição das explicações que a biologia e a sociologia puderam, das mais variadas formas, alcançar com referência ao comportamento humano, rumo a um novo princípio e a uma lógica diferente.
Nesse sentido, o inconsciente, polêmico objeto da psicanálise, é um conceito cuja história reflete um percurso persistentemente seguido. São conhecidos os obstáculos que a psicanálise enfrentou e que, com maior ou menor justiça, receberam de seu criador o epíteto de resistências. Objeções erguidas pelo senso comum, pelo ceticismo científico, por uma filosofia escandalizada com a distinção entre psiquismo e consciência que a privava talvez do último objeto “concreto” a restar-lhe, ou pela ofendida religião institucionalizada. Não menos críticas são as ciências sociais, ciosas do alcance e da exclusividade de seu determinismo.
Apesar de tudo, Freud pôde cavar uma brecha na parede solidamente cimentada das explicações biologizantes e ambientalistas, sem desanimar diante de algumas lajes mais duras onde os preconceitos haviam-se instalado. Destino que teve início com a publicação de seus primeiros trabalhos, quando afastou provisoriamente a hipótese organicista com que Charcot pretendeu conservar a histeria dentro do campo da medicina. Permitindo-se deixar igualmente de lado a implacável lógica da teoria catártica de Breuer, cujo êxito no caso de Anna O. poderia parecer conclusivo, resolveu olhar pela fenda que abrira com hipóteses cuja originalidade imprudente só era superada pela coragem com que as defendia.
Entretanto, versões mais sutis dos pressupostos descartados reaparecem na própria psicanálise, que herda assim, a contragosto, um velho problema filosófico, presente para o pensamento ocidental desde a célebre oposição entre o realismo aristotélico e o idealismo de Platão. Mesmo após a formulação dessa noção tão fundamental em psicanálise, a fantasia, com sua derivação quase (ou decididamente?) epistemológica, a saber, a postulação de uma “realidade psíquica”, Freud ainda se perguntará por muito tempo sobre a origem do imaginário. Situa-o, em análises hesitantes, quer na história remota do sujeito, quer no passado pré-histórico da espécie, quer em relação direta com as fases de uma sexualidade infantil vista ainda pelo prisma de impulsos biologicamente determinados. Será necessário um longo período de elaboração para que a inquirição sobre a significação das fantasias eclipse a busca de sua origem, tornando a pergunta pela causalidade orgânica e ambiental progressivamente desnecessária, tanto na teoria quanto na prática clínica.
Alguns dos termos acima empregados exigem uma precisão. “Comportamento humano” está mais próximo do que a terminologia filosófica designa por “subjetividade” e situa-se portanto nos antípodas da expressão “atos voluntários”, cujo sotaque reducionista é inconfundível. Por “enfoque” ou “perspectiva organicista” entende-se a concepção apoiada no pressuposto de que todas as espécies, inclusive o homo sapiens, obedecem aos mesmos princípios, derivados da estrutura anatômica e conseqüentes possibilidades fisiológicas.
A abordagem organicista, de base darwinista, considera que os comportamentos se orientam pela finalidade da sobrevivência, tanto do indivíduo como da espécie. Construída assim uma noção de normalidade, seus desvios serão classificados como doença, à qual é acrescentada o adjetivo “mental” a partir do momento em que a neurologia se constitui como disciplina diferenciada dentro da medicina, ou seja, quando as funções do sistema nervoso, principalmente no que se refere ao comportamento voluntário, passam a ser estudadas e conhecidas. Os desvios do comportamento são doravante atribuídos ao substrato orgânico, postulado ao qual segue-se primeiramente a busca de lesões e depois de disfunções fisiológicas. Hoje as investigações se sofisticaram para atingir o nível bioquímico, sem que o Santo Graal da etiologia suprema tenha sido alcançado.
Constitui um corolário inevitável desse raciocínio que mesmo as formas de comportamento ditas normais obedecem ao funcionamento adequado dos circuitos neuronais. Essa afirmação, que a princípio restringiu-se à explicação dos automatismos, estendeu-se progressivamente à personalidade, considerada como epifenômeno do orgânico. Apesar que a neurologia e a psiquiatria (ou, como se prefere dizer atualmente, as neurociências) permanecem incapazes de justificar a expressão “doença mental”, o organicismo não recua diante da pretensão de expandir a sua jurisdição - propondo-se legislar igualmente sobre o que chama de “saúde mental”.
Se, apesar disso, os cientistas, por prudência, renunciam a certos excessos, por outro lado os leigos se comprazem em extrapolações que redefinem o sapiens como animal apenas um pouco mais complexo que seus congêneres. E se o efeito de certas substâncias sobre estados emocionais constitui para a psiquiatria a prova da adequação de seus métodos, a genética se compraz em aguardar o dia em que serão descobertos os mecanismos da transmissão hereditária do que a psicologia designa por subjetividade.
Às vezes em contraposição, geralmente em combinação (ainda que litigiosa…), mas sempre como uma alternativa para o ponto de vista biológico, a história das teorias do comportamento humano reserva um lugar de honra para aquelas que enfatizam a importância do ambiente. Mesmo concedendo certo peso à “natureza”, esse enfoque vê no meio o fator principal na formação da personalidade. Analogamente ao papel que o darwinismo teve com relação às ciências naturais, a obra de Marx tem sido freqüentemente chamada para avalizar teorias apoiadas em outro substrato, o social, para compreender a subjetividade.
O processo pelo qual o ambientalismo se transformou numa abordagem com amplo grau de aceitação repete a história do organicismo. O momento inicial recorda o triunfalismo algo ingênuo que sucedeu os embates entre a ciência e a religião, marcando os avanços decididos da primeira num campo até então reservado ao sobrenatural. O poder explicativo do marxismo foi tal que durante muito tempo a questão da subjetividade pôde ser desprezada ou tida por resolvida. O seu teimoso reaparecimento nos poros da teoria não poderia deixar de suscitar a estigmatização: “individualismo burguês”. Seguiu-se inevitavelmente um contrariado reconhecimento e o início da reflexão sobre o problema.
Não surpreende que uma teoria autodenominada materialismo dialético tenha buscado seus primeiros contatos com a psicologia na área da reflexologia de inspiração pavloviana ou no ambientalismo behaviorista. De fato, a partir de certa interpretação do marxismo (que só uma extrema prudência impediria designar por primária…), a psicanálise não poderia parecer menos que o próprio diabo encarnado: idealista como epistemologia, reacionária em política, conservadora por afirmar a refratariedade da subjetividade ao substrato cultural, pessimista face ao futuro da humanidade, individualista e elitista em termos sociais.
Paradoxalmente, nunca faltaram tentativas de relacionar psicanálise e marxismo. A julgar pelos resultados, uma tarefa tão ingrata como misturar água e óleo. A perplexidade perante essa insistência desaparece quando se constata o parentesco entre certas noções, centrais para ambas teorias, que sugerem um universo comum.
Exemplificando: o conceito de conflito (entre as instâncias psíquicas e as classes sociais) como motor da história (individual ou social); a importância atribuída à conscientização como processo precursor da ação transformadora; os problemas tão semelhantes enfrentados ao tentar explicar tanto a alienação como o recalque bem como o processo inverso, a tomada de consciência; a análise do fetichismo como perversão (econômica não menos do que sexual). Sem pretender esgotar o tema, é possível deixá-lo provisoriamente citando uma famosa frase de Marx, que parece prever o espaço onde brotará a psicanálise: “Os homens fazem a sua história, mas não sabem que a fazem“.
Analogamente ao que a psiquiatria representa com relação às ciências biológicas, o ambientalismo também desenvolveu sua análise “interna” do comportamento humano. Trata-se da psicologia, mais precisamente do behaviorismo, pensamento que nasce rudimentarmente empirista através de Watson e se transforma com a obra cuidadosamente elaborada de Skinner, na qual a pesquisa experimental séria não impede uma reflexão cuja profundidade faz fronteira com questões de âmbito decididamente filosófico.
Face ao behaviorismo, a maioria das teorias psicológicas empalidece por falta de rigor ou excesso de inconseqüência. Skinner tem o mérito suplementar de desafiar um humanismo tão desacreditado na prática quanto afirmado em teoria, aspecto em que revela uma insupeitada afinidade com Freud.
Essas considerações, necessariamente incompletas, inevitavelmente polêmicas, exigiriam por certo um exame mais detido. Pede-se indulgência com o argumento de que sua presença aqui consiste menos em preparar a análise de temas tais como a história das interpretações do comportamento humano à luz do darwinismo e do marxismo do que em descrever o acidentado terreno em que a psicanálise foi chamada a provar a sua fecundidade.
Pois o que emerge desse quadro é uma concepção que, grosso modo, se deixa metaforizar assim: ao declínio abrupto das explicações teológicas sobre o ser humano seguiu-se um efêmero reinado da filosofia, cuja metafísica se diferenciava da religiosa por pouco mais do que afirmar a primazia da razão sobre a fé. O rápido avanço da ciência ultrapassou os enfoques anteriores, levando-a a ocupar todos os espaços da realidade observável, com uma ou outra lacuna residual. O conhecimento científico estabeleceu então uma continuidade que partindo dos fenômenos físicos mais básicos passava pela ponte da química em direção à margem da biologia, onde o ritmo não arrefecia, estimulado pelas aplicações práticas relacionadas à medicina. Em breve, e como conseqüência de uma dupla preocupação, prática (o controle dos comportamentos desviantes ditos patológicos) e teórica, a ciência chegou diante da fronteira do psiquismo, último refúgio das aniquiladas forças da religião e da filosofia.
Das considerações anteriores provém um elemento que exige inclusão na analogia: surgem divisões internas nas fileiras científicas, pouco antes do assalto final. As críticas reciprocamente trocadas pelas facções permitem aos combalidos defensores do humanismo (as sucessivas derrotas empurraram a religião e a filosofia para as trincheiras da ética), a duvidosa estratégia de aderir temporariamente a uma ou outra divisão das forças conquistadoras.
Trata-se de acordos provisórios, uma efêmera tentativa de prolongar ao máximo a instável trégua. De fato, o ambientalismo e o biologismo têm muito mais em comum entre si do que com o que chamam de relíquias da superstição ou do elucubracionismo vago.
O que acontece a seguir - o que está acontecendo ainda, talvez - é bem mais difícil de descrever. Suponhamos que entre os conquistadores surja uma dissidência. Expressa-se por um desacordo quanto aos métodos que se pretendem usar na colonização do novo território. Um pequeno grupo decide não esperar pela revigoração da aliança e avança por conta própria. As resistências iniciais são facilmente superadas, quem sabe em virtude do fator surpresa, ou devido à fragilidade da cidadela. Em breve, os defensores ficam reduzidos a bolsões isolados. Parte deles, talvez surpreendentemente, se incorpora aos invasores. Estes, por sua vez, são atacados pela retaguarda; é a artilharia ressentida das tropas da ciência, com quem a falta de apoio logístico leva a encetar negociações, em que os aventureiros jogam a carta de seu inegável, mesmo se parcial, triunfo. Não demora a surgir uma dissidência entre os dissidentes; há os que querem reatar os laços com as forças da ciência oficial.
Os outros, autonomistas ferrenhos, embriagados pelos puros ares das novas terras, atenuam seu isolamento graças à determinação inclaudicante de seu líder. Além disso, as relações estabelecidas com os estranhos nativos da região, excêntricos sujeitos de aparência equívoca, que parecem viver de uma caça e coleta fantásticas, dão-lhes certa segurança. O mapeamento do território, uma das primeiras tarefas que se seguiram à incursão, sugere não uma ilha mas um verdadeiro continente, cujas dimensões desafiam os limites da cartografia disponível. Os últimos vestígios da origem do grupo são então pesarosamente abandonados. Uma estranha paz compensa agora os isolados conquistadores; sabem doravante que
