Introdução
INTRODUÇÃO
A literatura sobre psicanálise é vasta a ponto de que todo livro novo dificilmente poderá dispensar um preâmbulo justificativo de seu direito à existência. A obra de Freud tem suscitado tantas releituras que a sua complexidade parece ser menos um motivo para sucessivas tentativas de elucidação do que o pretexto de intermináveis circunvoluções. As freqüentes controvérsias têm conferido a esses textos, originais em mais de um sentido, uma auréola de mistério comparável à que levita sobre as sagradas escrituras. Isso é pelo menos indicativo de que uma parte da herança religiosa veio, por vias oblíquas, pousar nas mãos desse ramo bastardo da família do espírito, cujos membros parecem disputar a posse da nova verdade com a mesma pia ferocidade que animava seus antecessores.
Quadro diante do qual será tão imprudente jogar mais lenha na fogueira quanto puxar a brasa para a própria sardinha, dupla e segunda intenção das páginas seguintes. Os cinco capítulos iniciais são dedicados a uma análise interna da evolução (ou das modificações, caso o otimismo não for compartilhado) do conceito de inconsciente na teorização freudiana. Cedendo à tentação do esquematismo, antecipar-se-á o resultado que postula quatro momentos de cristalização, a saber: a teoria do trauma/sedução, a descoberta da sexualidade infantil, os primeiros achados relativos às marcas deixadas pela vida familiar na criança (Édipo empírico) e, finalmente, a emergência das hipóteses que interrogam a construção da identidade e a estrutura do desejo (Édipo estrutural).
O pensamento de Freud não fixou residência em qualquer dessas posições. A afirmação está longe de ser tranqüilizadora, pois ao lado do nomadismo que o impelia a enfrentar todos os desafios teóricos, lado a lado com uma auto-crítica rigorosa (sabia que não sabia), prolifera a reincidência anacrônica de crenças já ultrapassadas (não sabia que sabia).
Tudo se passa como se em relação às próprias idéias e conceitos, o criador da psicanálise também sediasse, como acontece invariavelmente na clínica, o encontro de quem sabe que não sabe com quem não sabe que sabe.
A eterna nostalgia do porto seguro biológico é talvez a maior evidência desse vaivém. Sem abusar da irreverência, pode-se dizer que a própria investigação do inconsciente não permaneceu imune às antecipações, regressões e fixações que seu primeiro empreendedor via como peculiaridades do desenvolvimento da libido.
Uma “história” do inconsciente (cuja característica menos marcante não é precisamente a atemporalidade) evoca inevitavelmente as cômicas ambições liliputianas, o caçador jazzístico de Cortázar perseguindo desarmado o tigre que o devorará, aquele livro borgiano que continha inclusive os gestos literários de seu autor…
A clave para compreender o esquema acima proposto reside numa questão em última análise epistemológica, exaustivamente debatida durante séculos de reflexão filosófica. Trata-se da perpétua partida de xadrez cujos primeiros jogadores não precisam ter sido Platão e Aristóteles para que se consiga deixar de imaginá-los fazendo as recíprocas aberturas e graças à qual algum dia se pensou poder decidir se a “alma” antecede e governa a experiência ou o contrário - conforme estipula a famosa metáfora da tábula rasa.
“Nature” or “nurture“? Razão ou estimulação? Dentro ou fora? Não será preciso lembrar que à medida em que novos contendores (novas épocas, novas condições sócio-econômicas) ocuparam os lugares diante das peças, tanto as táticas como os objetivos modificaram-se sensivelmente. Os parceiros-adversários estudaram-se mutuamente e hoje busca-se menos a vitória (ainda que pela diferença de um peão) do que entender a articulação entre os mundos interno e externo bem como sua participação na produção desse caos periclitantemente organizado que chamamos condição humana.
As considerações anteriores não decretam o fim do litígio, que sobrevive legitimamente em certas áreas, anacronicamente em outras; nem se esquece que muitos vêem sua solução no abandono do próprio dilema, reputado falso. Mas o impasse permanece na medida em que os litigantes continuam debatendo-se na areia movediça do problema enquanto seus críticos tampouco avançam por ter renunciado à questão. A divisão, mais conflitiva que jurisdicional, entre ciências naturais e humanas, expõe uma fratura epistemológica no próprio coração do conhecimento, enquanto a fenomenologia proclama não muito convincentemente que a dicotomia célebre vale menos que o trabalho investido em sua inalcançável solução.
Coube a um pajem - depois do reiterado fracasso dos cavaleiros nobres - extrair da rocha certa espada cuja posse simboliza a unificação do reino dilacerado, sob a égide da lei. Será pretensioso ver na psicanálise e na humildade de seus primeiros empreendimentos — a cura da histeria — o pendant do Rei Artur. Entretanto, o destino do monarca — sua queda em tentação, a perda de Guinnevère, a infindável busca do Santo Graal — pode ilustrar os desvios em que a teoria se extraviou.
A vôo de pássaro, a reconstituição do meândrico trajeto freudiano não exigirá muito tempo. Em seu berço o inconsciente tem a acepção de um arquivo de acontecimentos traumáticos cuja chave foi perdida, exigindo a constrangedora colaboração da hipnose para a devida recuperação. Quando a confiabilidade da memória cede perante a desanimadora descoberta de sua contaminação pela fantasia, o rumo sofre uma guinada brusca e a viagem só pode continuar graças aos tempestuosos ventos da sexualidade infantil, que traz a primeiro plano fatores tidos por biológicos (e que efetivamente assim são pensados no momento inicial).
Quase concomitantemente emerge outra concepção, priorizando novamente as relações familiares, porém não mais caracterizadas pelos dramáticos golpes assestados a uma ingenuidade imatura, história cujos personagens centrais eram Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho, estrelas da teoria do trauma.
Trata-se agora de uma comédia de costumes que Freud relata mediante o enfoque tragicômico e patético do neo-realismo italiano. O mito de Édipo presta-se para enquadrar as motivações ocultas - doravante consideradas universais - das relações entre pais e filhos, adultos e crianças. É o retorno do elemento ambiental, desta vez nuançado e enriquecido com os novos achados relativos à vida não só afetiva mas também erótica que agita o mundo infantil.
Essa conciliação entre a predisposição e a experiência, o inato e o adquirido, o biológico e o ambiental, tem toda a aparência de uma equilibrada sabedoria, mas falha em dar conta da complexa problemática que desafia Freud. Nessa altura, convém lembrar que a corrente psicanalítica transbordou do estreito leito constituído por aquilo que se convencionou denominar psicopatologia. Tornou-se tão imperioso compreender os quadros e esquemas de Leonardo como as recordações e sintomas do Homem dos Lobos, cumes e abismos de uma mesma e misteriosa geografia.
Para tanto, não há outro remédio senão interrogar a diafanidade do sonho e da fantasia, muito mais dispostos a namorar com a pena ou o pincel do artista do que em responder ao antipático interrogatório do insaciável detetive psicanalítico, esse Philip Marlowe avant Ia lettre que recusa qualquer envolvimento em nome de sua fidelidade à verdade.
Amarrado ao mastro que o confronta às ilusões, o novo Ulisses precisará dispensar a misericordiosa cera para expor-se de corpo e alma ao canto das sereias. O mergulho exigirá um fôlego inaudito para chegar até as pérolas abissais.
Coube a Lacan interrogar o sentido - ou um dos sentidos - desses achados, comumente conhecidos como fantasias originárias e teorias sexuais infantis. Como convém aos elementos últimos (ou primeiros), seu número é reduzido: sedução, castração e cena primária; teoria cloacal do nascimento, teoria do coito sádico e, primus inter pares, a premissa fálica (expressão devida a Godiño Cabas), também conhecida por crença idólatra do falo.
A fantasia desloca-se então da periferia para o núcleo central da teoria. Graças a ela, afere-se a ficção latente nos traumas, descobre-se o interesse intelectual da criança pelas questões relativas à sexualidade (oculto atrás do que se pensava ser o puro prazer do corpo) e demonstra-se a existência de um roteiro invisível sob a plácida aparência dos rituais familiares. A teoria do trauma, as zonas erógenas (sexualidade infantil) e a novela familiar (o Édipo das seduções e rivalidades entre filhos e pais) cedem terreno a algo mais profundo e inquietante, refratário a definições rápidas ou fórmulas concisas, onde se esboça uma lógica radicalmente diferente de tudo quanto se possa esperar.
Inato e adquirido, orgânico e ambiental, instintivo e racional, essas célebres dicotomias que fizeram o cardápio de tantos banquetes filosóficos, são abandonadas em nome de um rumo incerto onde o absurdo e o contraditório passam a ser vistos como sustentáculos do real e a verdade se torna justamente o oposto do saber.
Metafísica? Irracionalismo? Algumas vezes o próprio Freud formulará essa impiedosa auto-crítica, sonhando com os progressos da bioquímica cuja parcimônia parece excelsamente superior às complicadas elocubrações suscitadas pelo vôo errático das associações livres. Mas abrindo arduamente seu próprio caminho enquanto o improvável messias científico não chega, ele permanece atento à perigosa fascinação exercida pelas pavimentadas estradas oferecidas quer pela ciência positivista (que gostaria de reduzir o comportamento humano a uma manifestação secundária do substrato orgânico), quer pelo humanismo de cunho sociológico (que dissolve o indivíduo nas classes sociais onde não há lugar para a subjetividade), quer pela religião (comprometida com o sacrifício da liberdade no altar da escolha moral).
Freud orienta-se às cegas pela bússola do divã, seguindo seus pacientes a remotas paisagens não isentas de poesia, refratárias tanto ao natural como ao sobrenatural e ao metafísico. Forjada nesse estranho molde imaterial, a psicanálise é uma ciência que não se parece com as outras - seu objeto é inapreensível pelos sentidos, mesmo se admitirmos um “sexto”…
A ciência dos sonhos evoca a filosofia em seu procedimento dedutivo mas afasta-se dela ao negar a primazia da consciência e reconhece a inescrutabilidade do inconsciente sem precisar sacralizá-lo. Nem domínio, nem submissão, nem reflexão desinteressada diante de “seu” objeto. Ciência, religião e filosofia serão parâmetros insuficientes para enfunar as velas da atenção flutuante, movida pelo tênue sopro das palavras.
Ancorar décadas de trabalho clínico na cambiante enseada do sonho e da fantasia requer algum tipo de coragem. Se a nostalgia da perdida pátria positivista fez tremer não poucas vezes a mão do primeiro navegador e pôs em polvorosa seus mais fiéis seguidores, nem por isso a grandiosidade da aventura deixou de seduzir novos tripulantes.
Consagrado à relação entre inconciente e linguagem, este, porém, não é um livro “lacaniano”. Diferencia-se inclusive por algo que o teórico parisiense arrolaria entre os pecados capitais: certa propensão ao didatismo. Não se propõe a repetir o hermético estilo do criador da Escola Freudiana, cuja fascinação fez com que os textos discipulares sigam a via do mimetismo.
Propor-se-á então, invertendo certo slogan que esteve em voga na política, um Lacan sem lacanismo? Provavelmente.
De qualquer maneira, cabe lembrar que a obra focalizada é a de Freud, cuja exegese freqüentemente negligencia alguns problemas em benefício de simplificações que, à moda dos atalhos, conduzem a impasses.
O desprezo pelas sutis metamorfoses que a teoria sofreu ao longo da respectiva trajetória e a incompreensão acerca de sua cronologia e estrutura levam facilmente a combinar explicações conflitantes. Atirar em tudo o que se mexe não é exatamente a melhor estratégia para trabalhar um campo de fenômenos.
Os capítulos dedicados especificamente a Freud procuram seguir o sinuoso périplo que leva de uma concepção de inconsciente ainda tributária de fatores ambientais e biológicos até as profundezas abissais da linguagem. O objeto da psicanálise transforma-se em matriz responsável por sentidos metaforizados mediante significações conscientes, estruturadas em regiões semânticas de configuração singular, responsáveis pela subjetividade.
Trata-se de um postulado onde se reconhecerá, sem dúvida, a marca de Lacan. Mas na medida em que a demonstração de sua pertinência transita caminhos próprios, será preciso acrescentar que se aceita o ônus do risco inerente a toda pretensão de originalidade, menos por pedantismo do que pela convicção de ser a melhor atitude justificando uma publicação.
O capítulo final procura analisar as conseqüências do abandono, por parte dos herdeiros de Freud, dessa independência teórica e epistemológica cujo preço é extremamente difícil de pagar. Os que se pautaram pela ortodoxia foram levados a enfatizar a suposta natureza biológica do inconsciente - e se conseguiram dessa forma evitar a tutela das ciências sociais, foi ao preço de subordinar a autonomia psicanalítica à suserania das ciências biológicas. Já os culturalistas preferiram a primeira opção. Em ambos os casos renuncia-se à soberania arduamente conquistada por Freud, que lutou incessantemente nessas duas frentes.
A liberação do território psicanalítico da dupla tutela é um dos méritos maiores de Lacan, mas foi obtida às custas de um isolamento esplêndido onde se depreende o desprezo pelo social e pela clínica, atitude em que o Freud de Mal-Estar na Civilização, Totem e Tabu, Psicologia do Grupo e Análise do Ego, Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, certamente não se reconheceria.
Indivíduo e sociedade, sujeito e cultura - tratar-se-ia de objetos cuja incompatibilidade os insucessos do freud-marxismo teriam demonstrado sem apelação? A reflexão sobre essa questão abordará preliminarmente as respostas que uma psicanálise fracionada pôde fornecer, ou seja, perguntando como Reich, o kleinismo, os culturalistas e os lacanianos situaram as relações entre os campos da psicanálise e da sociologia. Em seguida, o impasse será examinado através da teoria da sublimação, freqüentemente negligenciada em nome de um pessimismo que se quer profundo mas muitas vezes revela a pieguice digna da mais inconsequente utopia. A suspensão de um estado de beligerância não costuma prescindir de mediadores. Para tanto, serão requisitados os bons ofícios de Lévi-Strauss e Ivan Illich.
Separando a parte dedicada à psicanálise do capítulo introdutório a suas relações com o estruturalismo e a economia política, inserem-se algumas páginas a título de interlúdio. É comum situar a obra de Freud numa região indefinida que, conforme o enfoque, está mais próxima da ciência ou da arte, sem que haja, por outro lado, dificuldade em demonstrar suas raízes e derivações filosóficas. Esqueceu-se, em nome de um curioso preconceito às avessas, a vinculação com a religião - a ilusão das ilusões, segundo o criador da psicanálise, cuja imagem permanece fortemente associada à decifração de mitos.
Sem dúvida não há muito a dizer a favor da religião institucionalizada, alvo preferencial das investidas de Freud, que não se constrangeria em subscrever a famosa definição opiácea de Lenin. Mas tudo se passa de maneira exatamente oposta quando o iconoclasta humor dos contos zen, sufis ou hassídicos, ou a suave ironia do Tao, demonstram que a corrosão do poder já era praticada no mesmo estilo que a pena de Freud ressuscitaria sob a roupagem de um saber científico.
O histórico de casos, pedágio quase inevitável à espreita nos textos psicanalíticos, pode ser vantajosamente substituído por essas parábolas anti-moralistas, com o benefício suplementar de contestar o enclausuramento da psicanálise nos limites do pensamento ocidental.
Por último, but not least, um conto de Borges é aliciado para desmentir ou desafiar a aversão consciente de seu autor por aquilo que estigmatizava como “o triste mito de nosso tempo”. Sob essa última convocação, notar-se-á que a obra do escritor argentino contém uma ética radical apta a zombar das morais prescritivas onde vicejam as mais diversas apologias: do poder e da santidade, da anarquia e da fraternidade, do prazer e da virtude, do saber e da ignorância, atitude tão evocadora do bumerangue freudiano que seria imperdoável deixá-la passar em branco.
É também uma maneira de homenagear o patrono da ensaística que inaugurou a mais lúcida das confusões entre ficção e realidade. Um contrabandista, em suma.
