Fantasias originárias e teorias sexuais infantis: o inconsciente do inconsciente

 

FANTASIAS ORIGINÁRIAS E TEORIAS SEXUAIS INFANTIS: O INCONSCIENTE DO INCONSCIENTE

Uma parte significativa deste capítulo encontra inspira­ção e algumas linhas de investigação num pequeno ensaio a que o tempo, com o habitual atraso, certamente fará justiça. Não é fácil encontrar na literatura psicanalítica algo como “Fantasia Originária, Fantasia das Origens, Origem da Fanta­sia“, artigo publicado no nº 215 de Les Temps Modernes, em abril de 1964. Laplanche e Pontalis podem orgulhar-se do (lacônico) elogio com que Masotta apresenta seu trabalho na edição argentina: é alguém que sabe do que está falando.

O ensaio refaz os árduos labirintos borgianos em que a teoria freudiana gastou incansáveis carretéis à procura da saí­da, para reencontrar ressuscitado e à espreita o mesmo Minotauro de sempre, armado com a pergunta da Esfinge e a pere­nidade dos gatos.

Ao abandonar a teoria do trauma/sedução, Freud depara com duas pistas, a menos transitável sendo também a de maior alcance. Opta por ambas e, como se não bastasse, fica disponível para pesquisas suplementares, cuja finalidade, a princípio,  está longe de ser clara.

Laplanche e Pontalis interessam-se em acompanhar o criador da psicanálise nas suas erráticas excursões pela selva da fantasia, sem levar mais que um pobre equipamento de po­sitivista -  a fé cega no determinismo mental juntamente com o pres­suposto de que a sua origem jaz no ambiente e/ou no organismo.

Freud dispõe de uma bússola rudimentar, dizem os auto­res franceses, que aponta alternativamente para um ou outro desses pólos dilemáticos. Quando a primeira região explorada (o ambiente) começa a dar sinais de esgotamento, a esperança magnetiza o lado oposto da agulha. Desse ponto de vista, os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade representam uma reviravolta na teoria.

Se o acontecimento se oculta, então reabilita-se o outro termo da alternativa: a constituição. Visto que o real, numa de suas modalidades, falha e se revela não sendo mais que uma “ficção”, é preciso buscar em outra parte um real que funde esta ficção.[1]

Uma peculiaridade curiosa parece marcar desde então o procedimento de Freud. Parte de seus esforços é dedicada a solidificar as bases e construir os pilares da teoria das neuro­ses. Mas o que parecia ser, muito logicamente, a sua única preocupação até 1897, passa por um processo de proliferação de interesses. Sonhos, lapsos e piadas despertam-lhe o interesse, não menos que a arte. Não será novidade dizer que essa indagatória quase anárquica encontra explicação no que os fe­nômenos em questão têm de revelador sobre o funcionamento do inconsciente. Para aprofundar a compreen­são da neurose, Freud sente-se obrigado a percorrer caminhos os mais afastados de sua rota original, como um navegador que para provar a esfericidade do planeta precisasse circundar-lhe a superfície em todas as direções e entendesse necessário situar coerentemente no novo mapa cada um dos acidentes geográficos dignos de menção.

Em outras palavras, a hipótese referente ao inconsciente só seria confirmada caso abrangesse não apenas conflitos e sintomas mas também o universo refratário à “psicopatologia da vida cotidiana”.

Com a investigação da sexualidade Freud aprofunda o que poderia ser entendido (equivocadamente) como o aspecto organicista da psicanálise. Segundo essa suposição, os impulsos parciais do desenvolvimento da libido teriam sua origem em fontes somáticas e se localizariam em regiões anatômicas que sediam os intercâmbios com o exterior, assim como as primeiras grandes cidades se ergueram ao redor dos portos.

O respectivo papel na teoria consiste em fornecer uma base para expli­car a neurose, órfã da teoria do trauma. O trauma, incomprovável e em certa medida inverossímil, havia sido substituído pela noção de fantasia. Enquanto esteve em vigor, a teoria do trauma/sedução exigiu a compreensão da perversão que estaria em sua ori­gem. Contudo, ao perseguir essa pista, Freud descobre que a origem da perversão jaz na… sexualidade infantil. E na origem desta está o corpo, evidentemente. Nesse momento, Freud ainda não distingue corpo e organismo. Em 1905, data de publicação dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, o corpo é pensado através de um enfoque quase puramente biológico.

A possibilidade de uma abordagem diferente já havia sido sugerida pela hipótese de que a sintomatologia histérica constituia a dramatização do con­flito psíquico no teatro somático. Não sem razão Laplanche e Pontalis vêem no novo rumo um elemento regressivo, em compa­ração com a direção psicológica que orientava a teoria do trauma. Com a mudança de direção, algo se perdeu, cuja recuperação não será fácil.

Entretanto, seria injusto esquecer que Freud desce aos infernos com o firme propósito de resgatar Eurídice. Nos duros combates que se seguem, contra todos os autores que, legitimamente ou não, utilizam o arsenal das glândulas, hormônios, bioquímica, hermafroditismo e outras armas destinadas a anexar a sexualidade ao campo do biológico, ele faz alarde de uma coragem e cautela exemplares. Quando a trégua permite o balanço da situação, verifica-se que a psicanálise conquistou uma cabeça-de-ponte e a protegeu de maneira a impossibilitar qualquer contra-ataque.

A partir dessa base suas forças avançarão sem cessar, levando o estandarte do psíquico onde parecia menos propício. Os Três Ensaios…constitui um dos únicos livros (o outro sendo  A Interpretação dos Sonhos) que Freud se preocupou em reatualizar constantemente (mediante interpolações no texto e rodapés enormes), aliás com uma periodicidade curiosamente regular, de cinco em cinco anos. Os acréscimos traduzem inequivocamente a reinterpretação da sexualidade a partir do enfoque psicológico. Dessa maneira, matizando ou corrigindo as análises iniciais, é alterado o rumo biologizante do texto original.

Em 1923 o livro é finalmente concluído com o pequeno capítulo fundamental que dá novo sen­tido à obra: “A Organização Genital Infantil“, ponto nodal para onde convergem duas linhas de pensamento até então paralelas, as temáticas da fantasia e da sexualidade infantil.

A simultaneidade entre o abandono da teoria do trauma e a primeira menção ao Édipo, como assinalam com propriedade Laplanche e Pontalis, despistou os historiadores. Não é o Édipo que substitui o trauma, e sim uma sexualidade infantil situada muito próxima à fronteira do orgânico… protegida por essa tênue cabeça-de-ponte incessantemente ampliada e que, de início, parece assustadora­mente frágil ao gravitar em torno à imensa massa da biologia.

Pelo menos quatro direções podem ser apontadas após um exame cuidadoso dos textos freudianos entre 1897 e 1910. Primeira e principalmente, trata-se de investigar a sexualida­de: rumo ao orgânico (para subvertê-lo, ver-se-á depois) e com a finalidade de compreender o sintoma neurótico, função principal da teoria. A fantasia vem a seguir. Destinada a ser o objeto por excelência da prática clínica, ao mesmo tempo que um dos mais árduos enigmas teóricos, Freud a examina de vá­rios ângulos, enquanto a vê desincumbir-se cada vez mais eficazmente da elucidação dos sinto­mas.

Subjazendo à sexualidade infantil, ao sonho, à arte, à vivência familiar, cabe à fantasia relativizar tanto a importância das excitações orgânicas (a que se poderia supor reduzida a sexualidade) como das experiências do sujeito, notoriamente insu­ficientes para dar conta das peculiaridades individuais.

Com a teorização dos sonhos, Freud parece decidido a jogar de vez a carta do psicológico. Emerge então lentamente, nível mais profundo responsável pelas significações, um “inconsciente” do inconsciente. As suas caracterizações anteriores como “depósito de traumas” e “cal­deirão de impulsos sexuais” são relegadas à função de mera fa­chada da teoria, que avança em direção a um desconhecido cada vez mais difícil de sintetizar.

À profundidade soma-se a extensão: o estudo do maravi­lhoso e do absurdo (o sonho) ou do cotidiano mais banal (piadas, atos falhos), começa a justificar a suposição da insuspeitada ubiqüidade do inconsciente, cuja primeira extensão extrapolara os limites da neurose e que agora dei­xa de aplicar-se unicamente aos sintomas,  para invadir toda a esfera dos comportamentos humanos.

Enfim, surge uma nova concepção das relações familiares, contem­pladas fora dos extremos do trauma, da sedução e da repressão, que atenua progressivamente o peso de uma visão linearmente causalista do sintoma. Da mesma forma que a partir dos Três Ensaios… a heterossexualidade exigirá, não menos que outras preferências sexuais, uma renovada atenção, assim as relações entre pais e filhos, ainda que desprovidas do aspecto dramático predominante na teoria do trauma, encerram um sentido de extrema importância a ser desvendado sob a capa de sua plá­cida aparência.

Aqui reside o aspecto “ambientalista” que esca­pou do expurgo conseqüente à débâcle da teoria do trauma: a criança não foi jogada fora junto com a água suja do banho. Trata-se do caminho que conduz ao Édipo. Obviamente, Freud ainda não o sabe. Nesse momento, o famoso complexo entra em cena apenas como figurante, no papel de uma analogia ilustrativa. Mas o bom detetive é aquele que segue todas as pistas, mesmo se pare­cem afastá-lo do local do crime.

Acompanhemos primeiramente as vicissitudes da teoriza­ção da fantasia. Laplanche e Fontalis orientarão o caminho.

…a fantasia não é somente um material a ser analisado, que se manifeste diretamente como ficção (no devaneio) ou cujo caráter de construção precise ser demonstrado em oposição às aparências (recordação encobridora); é também um resultado da análise, um (ponto) terminal, um conteúdo latente a ser descoberto atrás do sintoma. De símbolo mnêmico do trauma, o sintoma transforma-se então em encenação de fantasias (assim, uma fantasia de prostituição, de “mulher de rua”, pode ser recuperada atrás do sintoma de agorafobia).2[2]

Freud passa então a explorar esse campo, fazendo o in­ventário de suas formas mais típicas. A ambigüidade da fan­tasia é surpreendente. Passeia despreocupadamente pela consciência, na calçada oposta ao raciocínio, sob a forma inconseqüente do devaneio, e não hesita em aplicar sutil maquiagem que atenua ou oculta os vestígios do passado. Outras ve­zes, ao carregar o pesado fardo do sentido do sintoma, cos­tuma usar disfarces tão convincentes que toda perícia parece pouca para identificá-la.

Freud precisará aliar a agilidade do caçador de borboletas à virtude oposta da paciência para se­guir a lenta metamorfose da larva encasulada. Mas quem põe os ovos da fantasia?

Na coleção heterogênea das produções devidas à imaginação, a ordem as­sume lentamente a forma de uma diferenciação, imposta aliás pela lâmina psicanalítica a todo e qualquer material com que se depare: de um lado o manifesto, de outro o latente. Nova distinção é alcançada quando a investigação passa a encontrar repetidamente três formas típicas, cuja universalidade é intri­gante, e que são isoladas para posterior interrogatório:

…Entre o acervo de fantasias inconscientes de todos os neuróticos e provavelmente de todos os seres humanos, existe uma que raramente se acha ausente e que pode ser revelada pela análise: é a fantasia de observar as relações sexuais dos pais. Chamo tais fantasias - da observação do ato sexual dos pais, da sedução, da castração, e outras - de “fantasias originárias”.3[3]

Que outras são essas? Provavelmente Freud se refere às teorias sexuais infantis, tema de um artigo escrito em 1908, onde a psicologia recupera o terreno perdido nos Três Ensaios… mediante a notável constatação do pertinaz interesse das crianças por questões relativas à sexualidade. “…nenhuma criança - pelo menos nenhuma que seja mentalmente normal e menos ainda as bem dotadas intelectualmente - pode evitar o interesse pelos problemas do sexo nos anos anteriores à pu­berdade4.

Depois do corpo chegava a vez da própria mente ser subtraída à confortadora imagem de inocência que representava o traço distintivo da infância.

A origem desse interesse é convincentemente derivada da “…perda realmente experimentada ou justamente temida dos carinhos dos pais5, preocupação que instiga a criança a decifrar o enigma do nascimento. A pergunta pela origem dos be­bês trai uma curiosidade indignada, cuja formulação bem poderia ser: “De onde veio esse bebê intrometido?”, ou ainda, “de onde pode ele vir para que eu possa evitar?”

Há um aspecto cômico, devidamente explorado pelo anedotário dedicado ao tema, resultante da incompatibilidade entre as explicações ministradas pelos adultos e a desconfiada curiosidade infantil. Aqueles procuram tanto quanto possível responsabilizar repolhos e cegonhas; as crianças, por sua vez, estão certas de que algo se passa num lugar do qual querem desviar-lhes a atenção: o corpo materno. “Dizer a verdade”, louvável iniciativa, não parece ter conseqüências muito melhores do que transformar o que era incredulidade numa atô­nita incompreensão.

A causa, diz Freud, é que a criança, independentemente das informações que recebe ou lhe são escamoteadas, conduz a sua pesquisa e acaba chegando a resultados que “…não surgem de um ato mental arbitrário ou de impressões casuais, mas das necessidades da constituição psicossexual… motivo pelo qual podemos falar de teorias sexuais típicas…6.[4]

Se por um lado não pode ser enganada mediante aves migratórias ou vegetais aconchegantemente côncavos e por outro não tem acesso à compreensão da fisiologia sexual, isso se deve a uma de suas crenças mais preciosas: sem exceção, todos os seres são dotados de pênis.

Embora fosse ressalvado nas primeiras linhas do artigo citado que as observações diziam respeito exclusivamente ao sexo masculino, a premissa da universalidade do pênis é postulada universal. Freud busca onde pode a razão desse que talvez seja o melhor exemplo de uma “realidade psíquica” plenamente irredutível a qualquer experiência presente ou passada, individual ou coletiva, adquirida ou genética. A excitabilidade do órgão talvez explique o prazer de­corrente de sua manipulação, sugere dubitativamente; mas permanece vigente o enigma desse orgulho tão caracteristicamente masculino, obrigando a buscar outros motivos para o valor auto-erótico e narcísico que constitui a auréola da virilidade. Curiosa veneração, cuja compreensão passa a ser um desafio a enfrentar, cedo ou tarde.

As conseqüências da diferença anatômica marcariam a fe­minilidade com a inveja e o sentimento de privação, enquanto a aparente vantagem masculina se esvai face ao medo da castração, ameaça que pesa unicamente sobre os supostos privilegiados.

O desconhecimento da vagina favorece a idéia de que o bebê nasce pelo ânus, através de um ato semelhante à defecação, hipótese associada ao crescimento da barriga. (Ver-se-á posteriormente que se trata de uma maneira sutil de prescindir da função paterna). A concepção sádica do coito parece derivar do ciúme que a criança sente diante da privacidade do casal. Ela não poderia deixar de fazer conjecturas sobre a existência de um misterioso contato íntimo associado ao casamento. A relação entre a produção de bebês e as práticas noturnas parentais, porém,  não chega a ser elucidada pelo pequeno pesquisador. De qualquer maneira, sur­preende-se Freud, impressiona que a imaginação infantil se aproxime tanto do que seja um ato sexual, a crer nas fantasias retrospectivamente relatadas pelos pacientes, e, mais ainda, para entendê-lo como uma violência praticada pelo homem contra sua companheira de cama. Ou seria preciso admitir que a criança efetivamente viu algo do gênero?

Após constatar a rica produção imaginária infantil, Freud se divide entre buscar-lhe a origem ou a significação, rumos menos complementares que opostos. O segundo leva diretamente ao Édipo. Com uma argumentação simples mas irrefu­tável, é demonstrada a extrema dependência da criança face aos adultos e suas significativas conseqüências. Surpreende sobremaneira que só a fantasia de sedução e o interesse pelo nascimento se beneficiem dessa solução.

A outra alternativa escraviza Freud à verdadeira tare­fa de Sísifo que constitui a busca da origem das fantasias de castração e do testemunho do coito dos pais (”cena primária”). Afinal, mesmo para seu atônito descobridor, a realidade psíquica, mal eman­cipada das aspas relativizantes, não poderia prescindir de uma âncora factual. A cena primária, objeto de uma inconclusiva e exasperante discussão teórica no Homem dos Lobos, é atribuída hesitantemente ao costume de manter o berço do recém-nascido no quarto dos pais. Não há outra maneira de justificar à concepção realista que as crianças têm de um acontecimento cujo testemunho (salvo exceções) só poderia ter sido facilitado por negligência a bebês e cuja significação sádica ocorrerá apenas mais tarde, no ápice do interesse sexual infantil - ou seja, entre três e quatro anos.

Indo tão longe na história da espécie quanto fôra na do indivíduo, a crença na ameaça de castração é derivada por Freud de acontecimentos pré-históricos cuja perpetuação se daria por transmissão genética para atingir todas as gerações posteriores. O terrível pai dos tempos primitivos (Urfater) efetivamente teria castrado seus filhos no intuito de monopolizar as mulheres do grupo. A instauração das restrições sexuais (tabu do incesto), que se seguem a seu assassinato, marcaria o início da cultura. Es­sas suposições, privilegiando a memória de um passado mais do que remoto e cuja incomprobabilidade é evidente, só abalam o edifício teórico na medida em que são tidas como necessárias para a compreensão das respectivas fantasias.

O prefixo Ur, abundantemente empregado na descrição da aurora dos tempos, chama a atenção de Laplanche e Pontalis, que consagram um incisivo parágrafo ao comentário de sua função. Presente em Urszene (cena primária), Urphantasie (fantasia originária), Urverdrangung (recalque originário), seria, segundo Laplanche e Pontalis,  a solução provisória encontrada por Freud para evitar o recurso à experiência in­dividual (contingente, aleatória), material demasiado frágil para construir as bases teóricas (como demonstrado pela teoria do trauma).

Por outro lado, Freud mantém-se atento ao perigo oposto, o de acorrentar sua reflexão aos grilhões do orgânico, que dissolvendo o indivíduo na espécie aboliria a possibilidade de focalizar a subjetividade. O movimento que obriga a abandonar a teoria do trauma e cumula de acréscimos tardios os Três Ensaios… tem esse sentido. A psicanálise não sabe exatamente o que colocar no lugar daquilo que rejeita. Contrai assim uma dívida a ser cobrada impiedosamente por seus opositores…

É na condição de nota promissória que o adjetivo “primário” ou “originário” procura combinar o uni­versal do biológico com a lógica do ambiental. A sua fusão, porém,  só é possível no vácuo de um passado mítico. Ainda que a esse preço, conserva-se a liberdade (apenas) suficiente para continuar a pensar a condição humana fora das inaceitáveis alternativas anteriores. Foi ganho mais um prazo para manter o psiquismo livre da tutela da sociolo­gia e da medicina.

Articular a liberdade relativa do indivíduo com as férreas leis que regem a espécie é aliás uma tarefa tão difícil como reunir corpo e alma, separados desde Descartes. A semelhan­ça da dificuldade deixa de ser mera coincidência quando compreendemos que, na verdade, se trata da mesma coisa. No século XVll, a ciência renunciara à subjetividade para apossar-se da res extensa; cabe à psicanálise quebrar esse acordo de cavalheiros ao reivindicar a alma para estudo. Se a indignação com que a religião e a filosofia recebem a insolente requisição é compreensível, que motivo explicaria a má vontade das ciências (naturais ou humanas) em adotar essa filha pródiga, transformando-a antes em trânsfuga embaraçosa?

Talvez a recusa da ciência dos sonhos em deixar-se seduzir pelos grossei­ros instrumentos de um reducionismo esterilizante. A psicanálise vê-se na incômoda posição de instituir um método que a ciência se nega a legitimar e propor uma teoria execrada tanto pelo transcendentalismo religio­so como pelo idealismo filosófico.

Jung pretendeu deter o bumerangue da insolúvel questão das origens  responsabilizando o adulto por essas ficções que não teria imaginado anteriormente. Enfatizando o trauma do nascimento, Rank vai na direção oposta, ao afirmar que a imaturidade do indivíduo é diretamente proporcional ao peso decisivo das primeiras experiências de separação. Freud, maior crítico da psicanálise e simultaneamente seu mais ardoroso defensor, constrói cautelosamente uma surpreendente concepção da infância, rigorosamente próxima dos dados clínicos, e permanece atento à especifici­dade do momento em que a criança é subitamente dilacerada por desejos diametralmente opostos.

O caso do Pequeno Hans representa a descoberta da fantasia de castra­ção e aponta para a crucialidade do quarto ano de vida e adjacências; não por coincidência o Homem dos Lobos signifi­cará na mesma época o coito dos pais. A descoberta da fase fálica está a caminho. Pode surpreender que a interpretação proposta por Freud não abandone a exigência de um causa, pré-subjetiva ou pré-histórica, e mais ainda quando se sabe que ele pôde decifrar a fantasia de sedução como o reflexo invertido da vivência que toda criança tem com as figuras parentais. Tem-se a impressão que o rastrearnento decepcionante da causa precede em Freud o encontro da significação, cuja função libertária na teoria é tão semelhante à do insight na clínica.

Tudo acontece como se, tendo à mão os


[1] J.Laplanche e J.B.Pontalis, “Fantasia originária, fantasia de los orígenes, origen de la fantasia”, in El inconsciente freudiano y el psicoanálisis francés contemporáneo, Buenos Aires Ediciones Nueva Visión, 1976, p.116.

2 Id. ib., pp. 119-120

3 O.C., S. Freud, vol. XIV, p. 303.

4 O.C., S. Freud, vol. IX, p. 214.

5 O.C., S. Freud, vol. IX, p. 216.

Id. ib., p. 218.

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