Édipo
ÉDIPO
Si arrastré por este mundo
la vergüenza de haber sido
y el dolor de ya no ser…[1]
Gardel e Lepera
Finjo-me alegre
pra meu pranto ninguém ver
feliz daquele que sabe sofrer.2
Nelson Cavaquinho, Monteiro e Garcez
O Rei Édipo arrancou os olhos e entrou no bosque de Colona acompanhado por Antígona, última vez em que foi visto. Como a descrição da sua morte é mais metafórica do que concreta, não se pode falar exatamente em ressurreição quando ele reaparece, espírito errante, na obra freudiana. A sua presença ubíqüa se instala em outubro de 1897, na carta dirigida a Fliess (precedida por uma alusão feita em maio do mesmo ano), e permanece até a derradeira tentativa de esclarecer seu enigma, idêntico ao que a esfinge lhe dirigiu. A interrogação final é tão instigante e incompleta como as anteriores. Os caçadores de testamentos procuram em vão pela última palavra de Freud, no Esboço de Psicanálise, onde encontram a mesma perplexidade que inaugurou o primeiro encontro entre os dois exilados, o tebano e o vienense.
O ancião moribundo do conto sufi negou aos filhos perdulários a indicação do lugar onde enterrara suas riquezas, dando-lhes, em troca, pás e enxadas. Os seus descendentes aprenderam a arar a terra. O tesouro está em todas as partes, ou em nenhuma.
O Édipo assombra em mais de um sentido, fantasma sempre invocado e jamais plenamente corporificado, invisível na diafanidade diurna, presença soturna que habita os porões. Para os estudantes de textos freudianos, nunca deixará de surpreender que o único título com que foi agraciado mencione justamente o seu declínio.
Borges dizia que nos enigmas propostos pela literatura policial a palavra faltante organiza à revelia o caos dos acontecimentos.
“Quien puede creer en brujas, cuando se sabe que Ias hay…”
Os exaustivos índices do XXIVo volume das Obras Completas remetem de “impulsos incestuosos” para “castração”, vizinha de ”complexo paterno”, daí na direção de “mãe fálica” e assim por diante.
Que a argumentação freudiana nunca pareça suficiente para respaldar a pretensão de Édipo ao trono da teoria psicanalítica tampouco levou-o a pedir que abdicasse. Como um mosqueteiro de Dumas, esgrimiu em sua defesa contra os que pretenderam deslocar o peso dos determinantes da formação da personalidade para os momentos iniciais da vida (Otto Rank, Melanie Klein).
Se de um lado recusou essa ênfase concedida às primeiras relações objetais, por outro, no front oposto, defendeu a sexualidade infantil face aos que procuravam relativizá-la (Carl G. Jung), e impugnou uma mudança de nomenclatura sugerida a pretexto de simetrizar as posições da menina e do menino. Isso custará a Freud mais uma imputação de machismo (há outras e mais justificáveis, infelizmente…). Prova é, dirão os críticos, que recusou-se a aceitar, como manda a boa justiça, o Complexo de Electra…
Moisés, Aníbal e Colombo venceram o deserto, a montanha, o oceano e pagaram o preço de suas façanhas na forma do ressentimento de seus contemporâneos. Cabe à posteridade fazer justiça a quem descobriu um mundo invisível, aferível pelas muralhas que lhe impedem o acesso e revelado pelo incessante desmentido da caleidoscópica multiplicação de espelhos.
Pai forte é pai morto, reza uma das teses de Totem e Tabu.
Antes de ser coroado como complexo nuclear, antes de ser exumado para fins de analogia e apresentado ao primeiro leitor nessas cartas cujo tom coloquial antecipa a fluência surpreendente dos textos oficiais, Édipo vagueou pelas fronteiras da teoria.
Anos mais tarde, numa de suas apreciações retrospectivas, Freud declarou tê-lo encontrado pela primeira vez nas fantasias de sedução contadas pelos pacientes… para seduzi-lo. Essa primeira descoberta não leva o cético detetive muito longe mas, mesmo assim, produz um efeito importante na teoria; o adulto que na teoria do trauma era um perverso, transforma-se, graças à aferição da sexualidade infantil, em repressor. Antes, contaminara a criança com o germe de uma sexualidade precocemente despertada; agora, bloqueia indevidamente o acesso do corpo ao prazer.
Fantasias de sedução, de castração, de ter visto o ato sexual dos pais (cena primária), em cuja densa névoa o olhar perscrutador se confunde, uma e outra vez, tomando o ardiloso inconsciente por mero moinho de vento. A fictícia realidade das recordações infantis fertiliza a imaginação do paladino da verdade, daquele que se quis o Don Quixote do combate às ilusões. Será preciso recuperar muito terreno… sem cuja perda se perderia muito mais.
Si nos os mirara, no penara
pero tampoco os mirara
As diferentes e progressivas conceituações do Édipo nos textos freudianos começam a partir de uma analogia meramente ilustrativa. Segue-se a pia batismal - o conceito é formulado e receberá o nome do mítico decifrador de enigmas derrotado pelo próprio mistério. Não há exemplo melhor da diferença entre saber e verdade, observa Freud. O seu destino é igual ao nosso, a julgar pela comoção que a tragédia de Sófocles continua a provocar nos espectadores.
Constatação que é atenuada por descrições tranquilizadoras: tratar-se-ia de uma situação tão comum na infância como rara na maturidade, cujos excessos, e nada mais, caracterizariam a neurose.
Não tarda, porém, que o espectro escape dos tumultos cinzelados com judiciosos epitáfios. Freud exara então o decreto que soa como um exorcismo desesperado: nas pessoas “normais”, o Édipo é destruído (ou) suprimido (ou) dissolvido.
Otimismo ingênuo, cuja manutenção cede paulatinamente à insidiosa sabotagem promovida, lenta mas incessantemente, pelo trabalho clínico. É elaborada então a metáfora que fecha o terceiro capítulo de O Ego e o ld: os guerreiros não morrem, a batalha continua a ser travada nas alturas.
Da vida adulta, e não somente nesse terreno tão propício constituído pelos conflitos neurótico/perversos. Quer nas lívidas praias de areia movediça da loucura ou na banalidade do dia a dia, e ainda no coração da mais serena “normalidade”, doravante escoltada por aspas, Édipo exerce uma soberania tão mais eficaz quanto invisível.
A universalização do conflito configura uma inversão de valores que não deixa de ser excessiva. Principalmente quando se considera que criatividade e serenidade não seriam tão maus procuradores desse grão ou grau de felicidade ainda acessível - e tão diferente do Graal do absoluto. Mas à ortopedia militante das instituições oficiais, que invocam o conceito de cura no âmbito de uma perspectiva médica alheia ao espírito da psicanálise, contrapõe-se agora o pessimismo alardeado pelo niilismo lacaniano, cuja catequese apregoa a genuflexão no altar do deus ausente.
A compreensão do que está oculto, subjacente, implícito e enunciado sob essa etiqueta que se desgasta na mesma medida em que o tecido se toma mais resistente - Édipo invocado nas malícias proferidas a respeito de qualquer beijo ou tapa trocado entre duas gerações - é tudo menos uma tarefa fácil.
Percorrendo a trajetória do rei andarilho no própria teoria freudiana, é difícil deixar de constatar que Édipo foi inicialmente conduzido ao trono por argumentos empíricos, a partir dos quais era difícil vislumbrar a universalidade de sua soberania, que não se restringe à Tebas da infância ou à Corinto da puberdade. A evolução do conceito não diminui a importância de seus momentos iniciais, essenciais para a respectiva culminação. A teoria do trauma, de base nitidamente ambientalista, e a descoberta da sexualidade infantil, cuja primeira formulação se apóia em andaimes biológicos, antecederam e prepararam o Édipo empírico ou circunstancial, graças ao qual foram construídas as condições de possibilidade do Édipo estrutural, mais antecipado do que propriamente elaborado por Freud.
A distinção não é inédita; leitores e discípulos talvez a considerem uma das muitas migalhas caídas do banquete lacaniano, quem sabe uma das mais triviais. Coloca-se a questão da relação entre este livro e a obra de Lacan, que emancipou a psicanálise de seus tutores habituais, a biologia e as ciências sociais.
Deve-se a Lacan a diferenciação crucial entre pulsão e instinto, desejo e necessidade, apenas implícita em Freud; a reflexão acerca da significação do falo, permitindo elidir a notável confusão entre anatomia (ou experiência), fantasia e linguagem (ou real, imaginário e simbólico); o resgate da Eurídice do inconsciente do inferno organicista e ambiental, onde era custodiada pelos cérberos kleinianos, reichianos e culturalistas.
Não menos importante é tudo quanto Lacan pôde dizer a respeito da prática psicanalítica atribuível a essas mesmas escolas, com as conseqüências que seria enfadonho enumerar - entre as quais a medicalização, a catequese pretensamente revolucionária e o enfoque adaptacionista, agenciados por um psicanalista idealizado que se apresenta como modelo.
Entretanto, o hermetismo e o culto à personalidade, tipicos do estilo e da institucionalização da revolução lacaniana, pavimentaram o caminho do dogmatismo e da adoração, culminando numa espécie de escolástica que tenta compatibilizar a fé irrestrita no ensino do mestre com a lógica conceitual. Lille no 5 tornou-se sede da peregrinação dos crentes, a capital intelectual planetária. Consagrado como guia absoluto dos perplexos, seu ilustre morador foi isento do dever de argumentar, verbo considerado indigno da aura de infalibilidade. Há, efetivamente, um “credo quia absurdum” de corte nitidamente lacaniano…
Os lacanianos, com raras exceções (Octave Mannoni, por exemplo), parecem destacar-se principalmente pelo recurso deliberado a cortinas de fumaça e fogos de artifício, o que tanto pode deliciar os estetas como beneficiar quem se interesse em criar seitas para benefício próprio. O melhor exemplo da possibilidade de prescindir do jargão pseudo teórico é dado pela obra de Freud, que mesmo sem o escudo protetor do tecnicismo resiste às sucessivas tentativas de domesticação e simplificação.
Portanto, ao contrário da literatura lacaniana, o estudo ora empreendido seguirá uma linha argumentativa. Se não for convincente, a causa residirá mais nas insuficiências do autor do que na incapacidade de compreensão do leitor.
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Desde a primeira apresentação oficial do Édipo, na Interpretação dos Sonhos, instala-se na teoria uma curiosa bifurcação. Para fins práticos, Freud parece transitar o solo firme da sexualidade infantil, capaz de suportar a carga pesada do trabalho clínico. O veloz cavalo da investigação, porém, conduz seu ginete solitário pela outra trilha, acidentada e noturna, do herói tebano.
Certamente é surpreendente afirmá-lo, mas durante muito tempo sexualidade infantil e Édipo permaneceram intrigantemente incomunicáveis, paralelos, e pelo menos num ponto essencial fragorosamente antitéticos: como conciliar a noção de auto-erotismo com as relações de amor e ciúme que dilaceram a criança no triângulo amoroso familiar?
A gradual ascensão da fantasia ao zênite do firmamento psicanalítico iluminará paulatinamente regiões recônditas. As fases da sexualidade infantil se enriquecem de um conteúdo psicológico e relacional. “Oralidade” passa a designar menos a transformação da necessidade alimentar em prazer do que o tempo do amor incondicional outorgado a His Majesty, the Baby, ídolo do narcisismo parental. A permanência da oralidade no adulto é muito mais aferível pelos comportamentos de dependência face ao outro (parceiro amoroso, figuras protetoras e carismáticas, causas políticas ou religiosas fanatizantes) do que pelas assim chamadas fixações anátomo-fisiológicas, algumas das quais também relacionadas à dependência - como o cigarro, o alcoolismo, a drogadição em geral - ou ligadas à excitação conducente ao prazer (sexo oral, beijo) e ao prazer propriamente dito (gastronomia).
O mesmo raciocínio vale para a fase anal, quando a criança se confronta pela primeira vez com as exigências procedentes dos educadores, dando lugar às alternativas da rebeldia e da submissão. Cai a segundo plano o significado prazeroso da passagem do bastão fecal pela membrana do ânus, em que a teoria tentava encontrar a origem - não o sentido - da passividade.
A entrada em cena do Édipo significa, num primeiro momento, o retorno dos fatores ambientalistas exilados com a teoria do trauma. A diferença reside em que doravante as relações familiares não são mais vistas pelo prisma dos dramáticos golpes assestados a uma ingenuidade imatura, história cujos personagens eram os vilões e os inocentes, Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho; trata-se agora de uma comédia de costumes, que Freud relata com compreensão e simpatia por todos os atores, dir-se-ia antecipando o enfoque tragicômico e patético celebrizado pelo néo-realismo italiano.
Jogos subreptícios e dissimulados, referentes a preferências e preterições, ambivalências, que a criança amplia e exagera para fazer valer seus “esquemas prévios”, a sedução e a castração. Justamente aí Freud vislumbra o lugar em que experiência e fantasia podem amalgamar-se.
O enriquecimento da teoria da sexualidade infantil através da descoberta do conteúdo psicológico e relacional das fases oral e anal é simétrica a um processo semelhante que opera no âmbito excessivamente ambientalista do Édipo empírico.
As fantasias originárias - sedução, castração, cena primária - são guindadas a primeiro plano, sobrepondo-se à concretude dos acontecimentos. Correspondentemente, o processo educativo perde importância. Entretanto, o sentido das fantasias (à exceção da fantasia de sedução), permanecerá inacessível para Freud, que depois de subordinar a experiência à ficção, rastreia a origem da ficção … na experiência, embora desta vez não em qualquer tipo de experiência, mas precisamente naquelas que a criança procura em função … das suas fantasias.
A teoria parece girar segundo a lógica do uroborus, mas apesar das aparências trata-se mais de uma espiral do que de um círculo vicioso.
Não obstante a importância cada vez maior concedida à fantasia, a noção de desejo, seu fundamento, tardará a aparecer. Paradoxalmente, o desejo já foi teorizado, mas permanece restrito aos sonhos. O divórcio entre a metodologia - desenvolvida em A Interpretação dos Sonhos - e a primeira versão do complexo de Édipo deve-se a que Freud não interpretou as fantasias originárias e as teorias sexuais infantis, restringindo-se a rastrear sua origem na “realidade” ontogenética ou filogenética, isto é, nas vivências da criança e/ou na pré-história da espécie.
A defasagem deve-se a que nos estudos teóricos (território do sujeito, que visa a condição humana) Freud rastreia a causa, enquanto no trabalho clínico (território do método, que visa a singularidade) interroga o sentido.
Esse movimento teórico pelo qual uma sexualidade concebida biologicamente é substituída pelo prazer, que une carne e verbo, enquanto similarmente a suposta eficácia da educação cede terreno ao conceito de identificação (máscara que modela o rosto), tem a lentidão da metamorfose. Quando os conceitos de identificação e desejo finalmente convergirem para formar o núcleo do Édipo estrutural, a teoria psicanalítica terá dado um passo decisivo.
Na primeira versão do Édipo, respaldada pela experiência clínica ainda não elaborada teoricamente (daí a expressão: Édipo empírico), prevalece uma concepção das relações familiares isenta do recurso ao trauma mas ainda tributária da repressão excessiva. Apóia-se em algo que poderia ser chamado de “psicopatologia do quotidiano doméstico”, ou seja, a noção de que a construção da vida afetiva se dá através preferências e preterições, rivalidades, ciúmes, possessividade, mimo, exigências excessivas. Em vez de grandes dramas, ocorrem padrões de relacionamento quase nunca explícitos, que pedem a leitura das entrelinhas, sob a égide do “romance familiar” (expressão que batisa um instigante artigo escrito por Freud em 1908).
Freud mergulha nas águas rasas das relações familiares, descendo pouco abaixo da superfície para colher espécimes representativos de emoções menos ocultas que contidas, fauna de certa importância mas não decisiva. Demorará ainda algum tempo antes de decidir-se a enfrentar os estranhos peixes das regiões abissais.
Um bom exemplo dessa fase da teorização do Édipo é o da adolescente que protagoniza o Psicogênese de um caso de Homossexualidade Feminina. A dificíl relação com a mãe, por quem se considerava preterida em comparação com os outros três filhos (todos de sexo masculino), não impede - mas incentiva? - que a jovem faça uma escolha de objeto homossexual, apaixonando-se pela dama na qual Freud acredita ver uma substituta da figura materna.
Pelo mapa da hipótese anterior, a da sexualidade infantil, na qual o componente que depois será chamado edipiano comparece tênua e incipientemente, seria o caso de perguntar: fixação (na mãe) ou repressão (proibição de aproximar-se do pai)? Agora, no Édipo empírico[2], duas questões diferentes se colocam. A primeira lembra o esquema teórico prévio (fixação, repressão), mas se expressa de outra forma: excesso ou carência de afeto? A segunda leva em conta o conceito de identificação, ainda formulado de acordo com a idéia da assimilação a um modelo concreto. (No caso, a identificação da menina ao pai, dando lugar a uma atitude desejante semelhante, ou seja, tendo por objeto de desejo a figura feminina).
No Édipo empírico, Freud procura aferir no relacionamento observável da criança com os pais as causas da escolha sexual após a puberdade. O viés está sutilmente presente no próprio título do artigo: lê-se Psicogênese de um caso de homosexualismo feminino e não, por exemplo, Hipótese sobre a significação de um caso de homosexualidade feminina…
A miragem da origem continua prometendo oásis teóricos inexistentes.
De qualquer forma, trata-se de um caminho que precisará ser percorrido, ainda que conduza à desanimadora constatação de que relacionamentos familiares parecidos podem levar a resultados muito diferentes e, reciprocamente, relacionamentos familiares diferentes a resultados similares, pelo menos do ponto de vista da escolha sexual. Nesse momento, a teoria psicanalítica concede especial importância à identidade sexual, como se a aferição do objeto investido pelo desejo fosse especialmente reveladora acerca da personalidade.
A análise muito amiúde mostra que uma menininha após ter de abandonar o pai como objeto de amor, colocará sua masculinidade em proeminência e identificar-se-á com seu pai (isto é, com o objeto que foi perdido), ao invés da mãe. Isso, é claro, dependerá de ser a masculinidade em sua disposição - seja o que for em que isso possa consistir - suficientemente forte.
A expressão “Seja o que isso for” marca a presença de um senso crítico insubornável, mostrando que Freud não desaprendeu a duvidar do recurso a explicações organicistas (elementos constitucionais).
Após consultar em vão o obscuro oráculo biológico, o investigador volta-se na direção oposta e interroga os acontecimentos. Menciona então o nascimento de um irmão, quando a jovem tinha 14 anos, motivando a decepção com a “traição” do pai.
A hipótese “ambientalista” não é menos questionável que a biológica. Se a identidade sexual está relacionada à infância, como atribuir peso tão considerável a um acontecimento ocorrido na puberdade? E mesmo que esta última “infidelidade paterna” desencadeasse a lembrança das outras, associadas ao nascimento dos primeiros irmãos, durante a fase fálica, o que se alteraria com isso? Freud acaba reconhecendo que “…algumas coisas bem diferentes poderiam ter acontecido. O que realmente ocorreu foi o caso mais extremo. Ela se transformou em homem e tomou a mãe em lugar do pai como objeto de seu amor“[3].
Tanto a expressão anteriormente comentada (”seja lá o que isso for“) como “algumas coisas bem diferentes poderiam ter acontecido” mostram que Freud está atento à insuficiência das hipóteses baseadas em fatores constitucionais e em acontecimentos, ou seja, no par organismo/ambiente.
O outro caminho, aberto alguns anos antes nos Três Ensaios…, aponta para a identificação, conceito que emerge associado ao de fixação, do qual, porém, difere acentuadamente.
Em todos os casos que examinamos, expusemos o fato de que os futuros invertidos, nos primeiros anos de sua infância, atravessam uma fase de fixação muita intensa, mas muito curta, em uma mulher (geralmente sua mãe) e que, depois de ultrapassada esta fase, identificam-se com uma mulher, e se consideram, eles próprios, seu objeto sexual.
…O problema da inversão é extremamente complexo e inclui tipos diversos de atividades e desenvolvimento sexual. Deve-se estabelecer uma distinção rigorosa de conceito entre os diferentes casos de inversão, conforme o caráter sexual que foi invertido, o do objeto ou o do sujeito[4].
Paralelamente às explicações mais elementares, calcadas em fatores supostamente constitucionais e vivências traumáticas, Freud descortina elementos ligados à subjetividade. Em O Homem dos Lobos (História de uma Neurose Infantil, 1919), por exemplo, observa que
A ausência de um pai forte na infância não raro favorece a ocorrência da inversão[5].
E um ano mais tarde, em Psicogênese… prossegue investigando a atitude paterna e a influência de atitudes como firmeza e autoritarismo, ternura e fraqueza:
O pai, um homem sério e conceituado, no fundo do coração muito terno; porém até certo ponto tinha alheado de si os filhos com a rigidez que adotara para com eles. Seu tratamento com a filha única era demasiadamente influenciado pela consideração que tinha pela mulher[6].
Tais observações preparam o terreno para a compreensão dos vínculos que unem o casal e o seu reflexo na relação com os filhos. A ambivalência é a regra do jogo e se manifesta de diversas formas, expressando-se através das expectativas não isentas de contradição depositadas em cada filho. Em Psicogênese… Freud acredita detectar na mãe uma preferência pelos meninos. Seria esse o fator determinante (desejo de ser amada pela mãe) para que a filha adotasse uma postura sexual masculina?
A homosexualidade não é a única interrogação deixada em aberto pelo “Édipo empírico”. Trata-se de um momento de transição no pensamento freudiano, em que as explicações anteriores mostram-se insuficientes, enquanto as novas hipóteses parecem peritas em demolição tanto quanto deficientes na tarefa de construir.
Ao conjunto de questões insolúveis (especificidade dos quadros psicóticos, perversos e neuróticos, o suicídio, a paixão amorosa, o mecanismo da sublimação, a formação do ego, a compreensão das diferenças entre fetichismo - ou perversão - e loucura) soma-se o que até agora parecia óbvio: a heterossexualidade.
O mistério da sexualidade feminina, novo enigma com que Freud se defronta, não é a menor das interrogações. O rico anedotário, que não raramente veicula os preconceitos de praxe, aponta não obstante para a perplexidade diante da ambiguidade de Eva, a imprevisibilidade do Ia donna é mobile e dos desejos inusitados associados à gravidez.
Livro frankistênico, composto de vários extratos cronologicamente desiguais, os Três Ensaios… abrigam não só o arsenal biologizante da psicanálise, pouco a pouco desativado, mas igualmente um corpo de franco atiradores - geralmente emboscados nas notas de rodapé - que disparam setas dirigidas a outros alvos.
No primeiro ensaio (”As Aberrações Sexuais”) Freud assinala as irredutíveis diferenças entre sexualidade humana e não humana com a prova irrefutável das caricias preparatórias e das assim chamadas perversões sexuais. O que não o impedirá de recorrer, por outra via, ao organicismo, relacionando as fases oral e anal à alimentação e à excreção. Na mesma linha, o livro não rompe com uma das imagens mais comuns da psicanálise: a de uma teoria dedicada à promoção da sexualidade como exigência biológica, cujo bloqueio acarretaria o sofrimento neurótico.
Argumento que talvez constitua um bom antídoto para os resquícios de hipocrisia sobreviventes ao ocaso da primeira revolução industrial - mas, pelo mesmo motivo, presa fácil do hedonismo consumista, que usará em benefício próprio a ideologia da liberação sexual.
O principal exemplo dessa fascinante montagem talvez seja o acréscimo de um quarto ensaio, publicado em 1923. Só então Freud pôde abandonar esse pequeno livro, onde contraíra uma pesada dívida com o pensamento biológico para resgatar a hipoteca do ambientalismo. O pequeno texto - quarto mosqueteiro esquecido no título, como convém aos verdadeiros protagonistas - constitui a última prestação, pela qual se liberta de ambos os credores. Todavia, ele não percebe que a dívida foi saldada - e continua honrando promissórias imaginárias.
As páginas de A Organização Genital Infantil propõem uma distinção crucial que terá um papel chave na reorganização da teoria psicanalítica, a partir da leitura lacaniana.
Ao mesmo tempo, a característica principal dessa organização genital infantil é sua diferença da organização genital final do adulto. Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em consideração apenas um órgão genital, ou seja, o masculino. O que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo[7].
O auto-erotismo enfatizado pela descoberta da sexualidade infantil e a paixão amorosa familiar radiografada pelo Édipo empírico convergem na fase fálica, cujo núcleo, a teoria sexual infantil acerca da universalidade do membro viril, deixa entrever o Édipo estrutural, regido por esse objeto inexistente, ou melhor, pela sua significação.
A significação de uma ausência constrói o labirinto da condição humana. O falo, quintessência da fantasia, irredutível a qualquer experiência, onto ou filogenética, liberta a teoria psicanalítica do recurso ao organicismo e ao ambientalismo.
Em vez das teses aplicadas pelo lugar-comum científico ao objeto da psicologia - quer procedentes do social, da história, da biologia ou da medicina - a teoria psicanalítica encontrará seus fundamentos no lugar-nenhum da significação, cujas raízes se alimentam da linguagem, à qual Freud acedeu mediante a “via real do inconsciente”, o sonho.
Paradoxalmente decepcionado por não ter chegado à Índia das origens, Freud não celebra a descoberta que coroou seu périplo. Para o navegador desconfiado de qualquer terra firme, a expressão realidade psíquica continuará conservando as aspas desnecessárias.
Em textos como o Romance Familiar dos Neuróticos (1908) e Bate-se numa Criança (1919), na discussão teórica que agita as páginas d’ O Homem dos Lobos, abandona-se a garimpagem da superfície em benefício da abertura de árduas galerias que conteriam os veios prometidos pelas jazidas da fantasia. A meta, porém, como não poderia deixar de ser em se tratando de um pensador do século XIX, é a de registrar as minas em nome da ciência positivista da época. Daí que Freud continue enquadrando na história do indivíduo ou da espécie, ou em processos metabólicos ligados à bioquímica sexual, os impressionantes achados propiciados pela clínica.
Quando ele desconsidera as pérolas da significação na busca vã do grão de areia da origem, é aconselhável fechar os olhos. Quem nos guiou através do deserto não pode ser recriminado por ter levantado um pouco de poeira.
A partir do sentido subjacente à ficção fálica não é difícil perceber a significação que faz transparecer a lógica organizadora das teorias sexuais infantis e das fantasias originarias, fundamento do Édipo estrutural.
As fantasias originárias mostram que e como cada ser humano repete o drama do paraíso perdido. Chamado à vida pelas irrealizáveis promessas do desejo, vê-se expulso do Jardim do Éden pelo anjo com a espada de fogo que toma o seu lugar: sedução, castração, cena primária.
Sob esse mito reiterado por cada humano e onde transparecem suas exigências e sentimentos primários, instala-se um saber, uma teoria: a explicação do nascimento por via cloacal permite recusar a dívida com o terceiro e a qualificação do coito como sádico degrada em agressão o interesse mútuo que une os adultos. Nesse quadro, a premissa da indiferenciação sexual serve à finalidade de negar a relação pela qual o recém ingressado em território edipiano se sente excluído.
Em Organização Genital Infantil, após a notável aferição das fantasias que governam o universo mental infantil, Freud reincide nas crenças positivistas.
O texto procura explicar a fantasia recorrendo à biologia e à experiência, e dessa maneira vincula a crença na universalidade do órgão viril ao medo da castração, explicado da seguinte maneira: o pênis é valorizado visto ser “…facilmente excitável, inclinado a mudanças e tão rico em sensações“[8]; daí o pavor de perdê-lo, ameaça que se torna plausível quando a anatomia feminina comprova o perigo temido, resultando no “complexo de castração”[9], cujo significado só poderia ser corretamente apreciado “…se sua origem na fase da primazia fálica for também levada em consideração“[10].
Freud abre um parênteses para comentar a relação entre a homosexualidade masculina e o horror que os genitais femininos despertariam a partir da fase fálica. O parágrafo final discute a significação da diferença sexual, precedida pela menção ao fato de que na fase anal a criança não distingue entre masculino e feminino, lugar ocupado pela dicotomia ativo/passivo.
No estágio seguinte, a organização genital infantil (fase fálica), sobre a qual agora temos conhecimento, existe masculinidade mas não feminilidade. A antítese aqui é possuir um órgão genital masculino e ser castrado…[11].
Somente após a puberdade é que:
… a polaridade sexual coincide com masculino e feminino. A masculinidade combina os fatores de sujeito, atividade e posse do pênis; a feminilidade encampa os de objeto e passividade[12].
A valorização do órgão masculino por ser “…facilmente excitável, inclinado a mudanças e tão rico em sensações“, ilustra o peso morto das explicações organicistas que a teoria parece condenada a arrastar vida afora, mas por outro lado Freud já trouxe à tona os elementos necessários para compor outro quadro, em que o recurso a elementos biológicos torna-se prescindível.
A Lacan cabe o mérito de ter acentuado a diferença, ainda pálida nos textos freudianos, entre necessidade e desejo, cuja derivação imediata é a distinção entre satisfação (ou saciação) e prazer.
Com essa base é possível construir as duas séries que contrastam a sexualidade biológica não humana, consagrada à procriação, com a humana, transformada pela linguagem:
Instinto[13] (reflexo incondicionado) ® necessidade ® objeto determinado (fixo) ® comportamento determinado = satisfação (ou saciação; alternativamente frustração), que abole temporariamente a necessidade, derivada de um estado de privação orgânica.
Pulsão[14] ® desejo ® objeto indeterminado (variável) ® seu representante parcial ® comportamento não determinado = prazer (e/ou desprazer), que em vez de abolir o desejo o exacerba.
O motor da condição humana seria o objeto inexistente do desejo (a psicanálise não estuda o homem, mas o que lhe falta, diz Lacan).
A segunda série preside o comportamento humano sem exceção, mesmo com referência às ações tidas como subordinadas à esfera do biológico (a alimentação, por exemplo).
A afirmação escandalosa pode ser ilustrada pela anorexia, que não poupa sequer recém-nascidos (o estado de privação alimentar não impede a recusa do leite).
Essas duas ordens não se combinam; são excludentes. O humano situa-se sob a jurisdição da pulsão, não do instinto, o que só é surpreendente porque dentro do quadro considerado “normal” os comportamentos se mimetizam com uma motivação facilmente exprimível em termos de “necessidade” (orgânica) ou “costume” (condicionamento). O sol do desejo pode ser e é costumeiramente eclipsado pelas
[1] Cuesta abajo, tango de Gardel e Lepera.
2 Rugas, samba de Nelson Cavaquinho, Ary Monteiro e Garcez.
[2] Psicogênese… é de 1919; antecede em 4 anos a fase fálica.
[3] XVIII, p. 197.
[4] V, p. 146, acrescentado em 1910.
[5] XVII, p. 147.
[6] XVIII, p. 187.
[7] XIX, p. 180.
[8] XIX, p. 181.
[9] O correspondente na menina seria a “inveja do pênis”.
[10] Idem, p. 182.
[11] XIX, p. 184.
[12] Idem, ibidem.
[13] “Instinkt” nos textos freudianos.
[14] “Trieb”, nos textos freudianos.
