A construção da identidade sexual
A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SEXUAL *[1]
A descoberta da sexualidade infantil e sua relação com as perversões transformou totalmente a explicação do sintoma neurótico. Os Três Ensaios… situam os impulsos parciais e conseqüente prazer no corpo infantil. O papel de vilão continua a ser desempenhado pelo adulto, com a diferença de que deixou de ser um pedófilo para vestir o uniforme de agente da repressão.
Abre-se por força dessa constatação todo um questionamento da “moral sexual civilizada”, que em Reich assumirá proporções épicas e messiânicas. A prudência freudiana bebe em outras fontes, mais modestas e menos românticas. Freud se pergunta sobre a universalidade das normas que regem o comportamento sexual humano. Periodicamente alguns antropólogos procuram ressuscitar esse outro mito do paraíso perdido: a atitude “natural” face ao sexo. Lévi-Strauss, pelo contrário, reafirma a sua implausibilidade, descrevendo a significação social da regra exogâmica enquanto propiciadora de alianças entre clãs - o que se encaixa de maneira surpreendentemente exata com a tese psicanalítica acerca do papel positivo atribuível à proibição do incesto no que se refere à subjetividade.
Não se trata, evidentemente, de defender a repressão enquanto exercida por figuras ou grupos autoritários, nem de negar a variabilidade das formas culturais com seus diferentes códigos de moralidade. A regulamentação da vida sexual, entretanto, ainda que em seu aspecto restritivo possa ser utilizada por segmentos sociais em beneficio próprio, é tão inevitável como fundante em relação à cultura. O desencanto que essa afirmação possa provocar não justificaria confundi-la com uma apologia da dominação, do masoquismo ou da acomodação.
A suposição de que as regras e normas, antes de resultarem de decisões tomadas pelas sociedades humanas, decorrem da Lei (cuja primeira manifestação é a imposição da exogamia) ressuscita um velho problema, nem por isso superado. Por que elos se ligam, na ambigüidade da complementaridade e da contradição, o desejo e a lei? Como pensar, desse ponto de vista, a dicotomia natureza/cultura?
A psicanálise busca a resposta interrogando a diferença entre necessidade e desejo, saciação e prazer.
A nova teoria da neurose proposta nos Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade pode ser descrita nos seguintes termos: dada a vigência de impulsos parciais orais e anais, considerando que os respectivos objetos e comportamentos (chupeta, mamadeira, sucção em geral, enurese, interesse pelas fezes) são condenados à medida que a criança se desenvolve, e visto que o processo não dispensa a coerção, quanto mais intenso for o prazer maior será a força da repressão e portanto o grau de conflito. Na eventualidade da educação falhar enquanto dique da corrente sexual infantil, o resultado será a perversão, cujo mecanismo é a fixação, caracterizada como aderência da libido a modalidades orais e anais de prazer.
Entende-se a indignação ou o ceticismo (conforme a filiação do crítico) que tal explicação possa suscitar. À psicanálise, nesse momento, e não sem alguma razão, é Iícito imputar a clausura do ser humano num dilema que alterna a hipocrisia e o sofrimento neuróticos com os desregramentos compulsivos da perversão.
Se o escândalo a que se presta a noção de sexualidade infantil permite reconhecer em Freud um heróico pioneiro incompreendido por seus contemporâneos, a crítica anterior não deixa de ser parcialmente válida, principalmente se for levado em conta que a hipótese freudiana não se ocupa, nesse momento, nem da sublimação nem da psicose.
A teoria do trauma/sedução reservava um lugar para a “normalidade”, que decorreria de uma infância não maculada pelo abuso sexual. A afirmação da universalidade das fases da sexualidade infantil torna muito mais fácil compreender os futuros conflitos neuróticos e perversos do que os caminhos do equilíbrio e da harmonia. Quando a psicanálise finalmente puder reconhecer que o ser humano tem como aceder a algum grau de prazer não conflitivo, o conceito correspondente será a sublimação. Definida como criatividade, a sublimação substitui a noção de normalidade, mais um resquício da influência exercida pela medicina.
Quanto à psicose, a respectiva teorização precisará esperar a hipótese de Karl Abraham acerca da desvinculação entre libido e objeto, seguida de seu retorno ao eu, que Freud examina cuidadosamente no texto introdutório ao narcismo, em que a esquizofrenia faz periclitar a primeira teoria das pulsões e prepara o caminho para a dualidade Eros x Thânatos.
Em 1905, entretanto, e mesmo depois (até 1910, pelo menos, quando Freud escreveu o ensaio sobre Leonardo, notável descrição das inter-relações entre recalque, renegação e criatividade), o peso da sublimação na teoria é ínfimo, a ponto de ser confundida com a formação reativa, mecanismo de defesa pertencente ao arsenal da neurose.
A psicose havia sido abordada no início dos estudos nosográficos, quando Freud formulara suas primeiras hipóteses acerca dos mecanismos de defesa. Descreve assim a projeção, operação característica da paranóia. Em relação à esquizofrenia, a primeira hipótese freudiana considera que a mesma consiste na rejeição de um aspecto particular da realidade, rejeição que na seqüência atinge a realidade como um todo. Enquanto na neurose aceita-se pagar o preço de um substituto-testemunha, ou seja, o sintoma, o delírio psicótico, diferentemente, transformaria a vivência de forma radical, alterando a realidade em benefício de uma crença tirânica. Nesse momento, Freud ainda não formulou o conceito de realidade psíquica, a partir do qual a palavra realidade, em psicanálise, passará a ser escoltada por aspas.
A relativa ausência de conflitos (”normalidade”) e sobretudo a psicose estão ausentes nos Três Ensaios…, onde as relações entre sexualidade infantil, perversão e neurose, mais a interrogação sobre a natureza (orgânica? psíquica?) do prazer parecem absorver todo o interesse do autor.
Do novo quadro explicativo ainda consta a descrição do papel desempenhado pela fantasia, reduto inexpugnável do psicológico. A fantasia fornece a significação que dá conteúdo psíquico tanto aos impulsos recalcados (neurose) como às ações compulsivas da perversão. A fixação nas fases da sexualidade infantil reaparece para o adulto na forma de uma encenação imaginária, operando por via de fantasias inequivocamente sexuais, um verdadeiro fime pornô em tela íntima, dedicado com maior ou menor ambigüidade ao prazer oral, anal, sadomasoquista, exibicionista-voyeurista, e se mais houver.
A própria lógica da terapia sofre a incidência do novo enfoque teórico. Primeiramente, trata-se de perguntar se os “perversos” seriam “analisáveis”. O “neurótico” esconderia de si tudo quanto o perverso assumiria, aparentemente sem conflitos. Somente mais tarde sera questionado o alarde hedonista com que a perversão apregoa suas vantagens, incorrendo no mesmo excesso característico do puritanismo neurótico. Erguem-se as sobrancelhas da suspeita e o detetive psicanalítico, por mais propenso que seja a admirar esses heróis da libido levada até as últimas conseqüências, vê-se levado a conjeturar se se trata efetivamente de um desejo que se manifesta livremente ou, pelo contrário, de compulsão (escravização ao objeto de desejo).
Para o senso comum, porém, a finalidade e as conseqüências da terapia não poderiam ser outras senão a concretização das fantasias tornadas conscientes. Freud defende-se dessa velada alusão a uma implícita adesão psicanalítica à propaganda da liberdade sexual lançando mão de dois conceitos: o julgamento de condenação e a sublimação.
As fantasias, argumenta Freud, uma vez conscientes perdem muito do caráter compulsivo que as tornava imperativas enquanto inconscientes. Por outro lado, a sublimação, se num primeiro momento é definida como substituição de impulsos sexuais e agressivos por comportamentos socialmente valorizados, será progressivamente distinguida dessa noção de prazer domesticado, sancionado pelas convenções, para emergir enquanto celebração de um triunfo legítimo sobre as estruturas arcaicas do desejo.
Também por esse caminho, o da sublimação, renova-se a interrogação sobre o prazer, enigma que parece postar-se em todas as encruzilhadas da teoria para cobrar uma solução sem a qual não haverá avanços.
Apesar de algumas avarias, a nave freudiana não submerge e mantém-se no rumo, sob o fogo cruzado das acusações de coonestação da moral burguesa ou propugnação da libertinagem, expressas com a mesma veemência indignada.
Tais críticas exemplificam o não tão raro encontro dos opostos: de um lado, o prazer confinado ao orgasmo, mensurável em máquinas de medir contrações e espasmos, e de outro a moralidade puritana, expressa na glorificação das manifestações artísticas, intelectuais e éticas oficialmente aprovadas.
Convenções que a psicanálise não consegue ver senão sob o prisma de um ceticismo levemente irônico. Enquanto isso, os lentos progressos teóricos brotam distantes da região clínica. Assim como a raiz do sintoma se revela invulnerável junto ao tronco da neurose, a sexualidade, concebida em seu sentido mais restrito - o corporal - será incapaz de responder ao enigma do prazer.
O famoso pressuposto determinista, em cujo altar Freud queimou tanto incenso, cede lugar, paulatinamente, a um princípio diferente. “Todo comportamento tem uma causa” transforma-se em “toda ação é produzida por um sentido“. O sentido não é completo nem definitivo e se integra à própria identidade do sujeito. Essa verdadeira guinada decorre da teorização do sonho, em que as causas (”restos diurnos”) são reduzidas ao superficial e o sentido faz transparecer as profundezas abissais do desejo. Correspondentemente, a antiga pergunta pela origem da causa exaspera-se agora na interrogação do sentido do sentido…
Qual seria o sentido da sexualidade? O pesquisador é empurrado a navegar abissais águas filosóficas que a prudência aconselharia evitar, pois o que está em jogo é nada menos do que a compreensão do prazer. A tentativa de resolver a questão por via biológica falhou, com o mérito de demonstrar a insuficiência de uma certa parcimônia. À lâmina de Occam deve-se interditar a mutilação do objeto estudado, sem o que ela servirá mais aos fabricantes de leitos de Procusto do que à ciência.
Irredutível à satisfação (ou saciação), na qual se quis ver um sinônimo ou um modelo, e da qual se distingue através das características complementares da insaciabilidade e da paradoxal busca do aumento de excitação, o prazer se digna comparecer aos interrogatórios psicanalíticos, onde já há evidência suficiente para intimá-lo, com a altivez dos acusados que pertencem a outra jurisdição.
O aprendiz de feiticeiro desencadeou inadvertidamente uma verdadeira tempestade. A irredutibilidade do desejo humano à necessidade biológica, bem como a clara distinção entre prazer e satisfação, empurram a teoria e a prática psicanalíticas para bem longe da tranqüilizadora démarche médica - a correção dos desvios da norma.
Será preciso doravante compreender tanto os desvios como a norma sem privilégios de referência, enquanto reciprocamente determinados e partes de uma totalidade a decifrar.
A situação repete o célebre debate entre ciência e teologia. A terra é redonda e integra um universo sem centro, assim como o ser humano tampouco é o ápice da criação mas antes uma conseqüência, entre outras, do processo evolutivo. Vê-se então que tanto Copérnico e Darwin avalizam o projeto freudiano.
A interrogação sobre a homosexualidade, cujo esboço é empreendido em algumas seções dos Três Ensaios… e prosseguido nas notas de rodapé acrescentadas posteriormente, condensa, de cena forma, esse movimento da teoria. A princípio classificada como perversão e pensada como desvio da norma, de acordo com a sexologia, disciplina médica, Freud parece conisderá-la de início como um enigma a ser decifrado contra o pano de fundo da “normalidade” heterosexual.
Entretanto, a sexualidade infantil descortina um amplo conjunto de possibilidades eróticas, das quais algumas serão selecionadas durante o processo de desenvolvimento da libido, enquanto outras sofrerão o peso do recalque. O conceito de bi-sexualidade torna-se então parte integrante da teoria psicanalítica, que se afasta definitivamente da equação sexo = reprodução.
O pensamento pré-psicanalítico, de índole sexológica (Havelock Ellis, Krafft-Ebing) amalgamava a simplificação teórica com preconceitos mal disfarçados sob roupagem científica.
Os gestos inaugurais de Freud restauram a complexidade da questão. A homosexualidade é imediatamente inocentada da acusação de degenerescência. A sua atribuição a fatores ambientais é problematizada pela consideração dos casos em que surge precoce, exclusiva e independente de qualquer experiência traumática. Por outro lado, em sua forma não exclusiva, ocasional ou periódica, desafia as hipóteses organicistas. Com o questionamento da falsa solução oferecida pela bi-sexualidade somática (hermafroditismo anatômico ou fisiológico), Freud evita buscar uma resposta transitando atalhos. Para demonstrar que as abordagens anteriores haviam deixado o objeto de estado intacto ou quase, ele não precisou mais do que usar uma lógica afiada. Nenhuma, invocação de dados clínicos chegou a ser necessária. Para comprová-lo, basta consultar as seções iniciais do primeiro dos Três Ensaios…
(Sempre será possível, evidentemente, postular a combinação de fatores ambientais e orgânicos, numa concepção eclética. Sabe-se que no auge da controvérsia provocada por Darwin, espíritos conciliadores tentaram compatiblizar, com desenvoltura, a teoria da evolução - restringindo-a aos outros animais - com a da origem humana por ato divino).
Freud menciona, a princípio caoticamente, todos os fatores que parecem de alguma forma eficazes para compreender a homosexualidade: a erogeneidade do orifício anal derivada de sua função fisiológica, o favorecimento da passividade por castigos corporais, resultando no paradoxo do prazer masoquista, os contatos exclusivos ou quase com pessoas de apenas um dos sexos (educação de meninos por escravos, adestramento segundo o modelo espartano, ingresso em conventos ou seminários em idade precoce, experiência familiar exclusiva com apenas um dos progenitores).
Em tais hipóteses não é difícil reconhecer a tradução psicanalítica do organicismo e do ambientalismo. Lado a lado com essas conceituações, porém, Freud desenvolve uma concepção bem diferente, segundo a qual a identidade se modela em função das expectativas inconscientes do(s) adulto(s), formulando assim uma noção de extrema importância, situada nos antípodas da educação e da maturação orgânica: a identificação.
Nas interpolações com que o autor enriquece o texto, tais discussões são prosseguidas e aprofundadas, trabalho prosseguido em artigos posteriores. Abriram-se nos Três Ensaios... caminhos essenciais, temas que nunca perderão atualidade, sementes cuja fecundidade se multiplicará quando propagada a outras áreas.
Pouco depois de sua primeira caracterização como “prazer de órgão”, derivada da função fisiológica da defecação, a analidade é examinada em sua relação com as vivências da criança.
O conjunto de significações que desde então passam a ser atribuídas a comportamentos tão inocentes como defecar e reter fezes nunca deixa de perturbar o curioso, o leigo e o neófito. O controle dos esfíncteres, escreve Freud, é indissociável da alternância e combinação entre atividade e passividade, espelhos onde se refletem aspectos importantes da relação com o outro. A retenção diz da avareza com que são ciosamente guardadas as dádivas recebidas; no extremo oposto situa-se a generosidade, quer contaminada de significações agressivas ou prepotentes, quer espontânea e levemente auto-afirmativa.
A rebeldia e a submissão face às exigências adultas, experenciadas freqüentemente através do ressentimento, alternam-se enquanto atitudes perante a autoridade, que comumente protege e coage, dá e exige, beija e castiga. Não por acaso as nascentes da ambivalência são situadas nessa longínqua aurora.
As relações entre analidade e homosexualidade tornam-se muito mais complicadas do que seria dado supor. Freud explicita:
Nos homens, a relação sexual per anum de maneira nenhuma coincide com a inversão; a masturbação constitui, também, com igual freqüência, seu objetivo exclusivo e também é verdade que as restrições do objetivo sexual - a ponto de limitá-lo a simples extravasamento de emoção - são mais comuns neles do que nos amantes heterossexuais[2].
A nova perspectiva obriga à reinterpretação da erogeneidade do orifício anal, antes derivada de sua vinculação com o processo fisiológico: “… o órgão que, mais que qualquer outro, representa o objetivo sexual passivo, é a membrana mucosa erógena do ânus“.[3]
O raciocínio organicista é substituído pelo metafórico. O órgão anatômico passa à condição de ator, representando o papel passivo que lhe seria destinado por via do physique du rôle. Freud se afasta consideravelmente da suposição de que o prazer (sexual) nasce como epifenômeno da satisfação. Mas como descrever o enredo da peça e quem é o dramaturgo? Pouco a pouco vislumbra-se que os processos fisiológicos podem estar a serviço da significação - ou seja, da relação com o outro.
“A retenção da massa fecal, que é assim realizada intencionalmente pela criança, a fim de servir, por assim dizer, como um estímulo masturbatório sobre a zona anal ou ser empregado em sua relação com as pessoas que cuidam dela…“[4]. Trata-se de compreender a problemática da independência e da dependência, da rebeldia e da submissão, do protesto e da retribuição, da avareza, com que a criança pune o adulto mediante a retenção das fezes, e da generosidade.
Em rodapé acrescentado em 1920, Freud comenta elogiosamente um trabalho do Lou Andreas-Salomé: “… a proibição de obter prazer da atividade anal e seus produtos… deve ser… a primeira ocasião em que o infante vislumbra um ambiente hostil a seus impulsos instintivos… e em que ele realiza a primeira repressão de suas possibilidades de prazer“[5].
Entretanto, a compreensão da questão é tudo menos simples. Dever-se-ia considerar os traços de caráter (submissão e rebeldia, avareza e generosidade, por exemplo) como derivação das formas assumidas pela educação esfincteriana efetivamente imposta à criança e/ou vivenciada por ela, ou inversamente, seria lícito postular que todo ser humano deverá, a priori, defrontar-se com a questão da relação face à autoridade, sendo a fase anal apenas o primeiro momento em que isso ocorre, restringindo-se sua importância a essa função inaugural?
A longo prazo predominará a segunda hipótese. A estrutura prevalecerá sobre as circunstâncias. Contudo, se a problemática da relação com a autoridade é universal, a mesma será significada (conscientemente) e receberá seu sentido (inconsciente) do discurso singular (ou identidade).
O tema é propício a toda sorte de confusões. Em Caráter e Erotismo Anal (1908), Freud julga plausível afirmar que nos homosexuais não serão encontrados os três traços caracterológicos que supõe decorrentes da analidade, ou seja, ordem (alternativamente limpeza, pureza, “comportamento correto”), parcimônia (alternativamente avareza, mesquinharia, frugalidade) e obstinação (alternativamente teimosia, perseverança).
Como ainda não há uma clara distinção entre formação reativa e sublimação, esses conceitos são intercambiados como sinônimos e lhes é atribuída a transformação das características infantis ligadas à analidade. Puritanismo e comportamento moral, avareza e frugalidade, teimosia e perseverança representam pontos distanciados de uma mesma escala… o primeiro termo da dicotomia indicando a presença da formação reativa e o segundo a predominância da sublimação.
Como ainda não foi feita uma clara distinção entre formação reativa e sublimação, essas noções são intercambiadas como sinônimos. Tratar-se-ia dos mecanismos responsáveis pela transformação das características infantis ligadas à analidade. Puritanismo e comportamento moral, avareza e frugalidade, teimosia e perseverança representam pontos distanciados de uma mesma escala… o primeiro termo da dicotomia indicando a presença da formação reativa e o segundo a predominância da sublimação.
A conclusão a que chega Freud pode parecer plausível, se for levado em consideração que a atração exercida pelas fezes sobre a criança e a desordem com que ela prodigaliza seu conteúdo intestinal são sancionadas por uma educação repressiva (em maior ou menor grau).
Contudo, e mesmo deixando de lado a objeção de que o sujeito, seja qual for sua suposta classificação ou diagnóstico (”perverso”, “neurótico”…), sempre exibe traços de outras estruturas conflitivas, a correlação negativa entre homosexualidade e caráter anal permanece contestável por infringir o postulado da singularidade. A experiência clínica (bem como a não clinica) desmentem as descrições apoiadas na suposição de uma uniformidade. Homens cujo objeto sexual é uma pessoa do mesmo sexo não necessariamente se caracterizam por desorganização, generosidade e volubilidade.
Ao voltar-se para a homosexualidade feminina, e como aconteceu inicialmente em relação ao complexo de Édipo da menina, Freud supõe uma maior simplicidade:
A posição, no caso das mulheres, é menos ambígua, pois, entre elas, as invertidas ativas exibem características masculinas, tanto físicas quanto psíquicas, com singular freqüência, e procuram, em seus objetos sexuais, a feminilidade - conquanto, também nesse caso, um conhecimento mais aprofundado dos fatos possa revelar maior variedade[6].
Nas mulheres, também, os objetivos sexuais das invertidas são diversos: parece haver uma preferência especial pelo contato com a mucosa da boca[7].
E, de fato, a “maior variedade” impõe-se como constatação até mesmo do ponto de vista puramente lógico, pois as mulheres com “traços evidentes de feminilidade”, procuradas pelas que exibiriam “características masculinas”, participam da relação tanto quanto.
Doze anos depois, Freud passa da descrição à teorização. Em As transformações do instinto[8] conforme exemplificadas no erotismo anal, artigo de 1917, escreve: “Se penetrarmos profundamentre na neurose de uma mulher, não poucas vezes deparamos com o desejo reprimido de um pênis…”[9].
A progressiva importância adquirida pelo complexo de Édipo não poderia deixar de incidir sobre o processo que rege a construção da sexuação. A diferenciação entre as trajetórias edipianas da menina e do menino culminam com a noção de que a inveja do pênis seria o correspondente ao complexo de castração e explica o desejo de maternidade pela via da compensação: “…a natureza dá bebês às mulheres como substitutos para o pênis que lhes negou“[10]. A descrição do Édipo feminino procura estabelecer a articulação e a distinção entre homo e heterosexualidade, enquanto o conflito neurótico permaneceria em posição intermediária, enquanto recusa da prática sexual.
É precisamente uma das conclusões a que chega Freud em 1932, no texto Feminilidade, no qual postula esses três destinos como possibilidades a partir das fantasias elaboradas durante a fase fálica da menina.
Lado a lado com essas conceituações psicológicas, Freud reincide em explicações organicistas. No artigo de 1917, em boa parte consagrado à pergunta “e o que acontece com a fase anal quando chega a vez da genital?”[11], ele não hesita em afirmar que “…as fontes orgânicas do erotismo anal não podem, certamente, ser enterradas como resultado da emergência da organização genital“[12].
Tudo se passa como se a noção de “prazer de órgão” retomasse seus direitos, depois de ser vantajosamente substituída pelo conjunto de significações relacionadas à analidade.
De qualquer maneira, a partir da conceituação da fase fálica e da diferenciação entre os Édipos da menina e do menino, predominará a hipótese de que a homosexualidade feminina é causada pela inveja do pênis. Nesse sentido, constituiria uma das vias decorrentes do “complexo de castração”, enquanto solução procurada via identificação com o modelo masculino.[13] Como aconteceu no caso da homosexualidade masculina, o primeiro esboço explicativo toma por base o exemplo aparentemente mais simples: o caso da mulher homosexual que exibe as características convencionais do sexo oposto (de acordo com os modelos culturais), ou seja, o homossexual “feminilizado” e a homossexual “masculinizada”.
Freud, obviamente, não ignora a existência de outras formas. Em Psicogênese de um caso de Homosexualidade Feminina (1920) ele escreve:
A leitura do homossexualismo em geral deixa de distinguir claramente entre as questões da escolha do objeto, por um lado, e das características sexuais e da atitude sexual do sujeito, pelo outro, como se a resposta à primeira necessariamente envolvesse as respostas às últimas.[14]
A escolha de objeto, característica mais visível, não esgota a descrição da homosexualidade, e buscar a explicação por essa via conduzirá a impasses. Há tantas formas de homosexualidade feminina associadas a atitudes tidas convencionalmente por masculinas como femininas, e o mesmo vale para os homens.
Freud rende-se à constatação de que a identidade sexual é tudo menos um processo simples, e passa a admitir que a “explicação” da homosexualidade não é mais necessária do que a da heterosexualidade:
Um homem em cujo caráter os atributos femininos predominem obviamente, que possa, comportar-se no amor como uma mulher, dele se poderia esperar, com essa atitude feminina, que escolhesse um homem como objeto amoroso; não obstante pode ser heterossexual e não mostrar, com respeito a seu objeto, mais inversão do que um homem médio normal. O mesmo procede quanto às mulheres; também aqui o caráter sexual mental e a escolha de objeto não coincidem necessariamente. O mistério do homosexualismo, portanto, não é de maneira alguma tão simples…[15].
Para elucidar esse mistério, porém, ele convoca mais uma vez algo que parecia definitivamente sepultado na pré-história da psicanálise, com a pá dos Três Ensaios…: o fator orgânico.
Ao hermafroditismo físico, surpreendentemente ressuscitado, acrescenta um segundo componente, denominado “características sexuais mentais”, a saber as atitudes masculina e feminina. Trata-se, desta vez, do fator psicológico, cuja base repousaria em influências biológicas. Finalmente é mencionada a importância da escolha de objeto, que porém permaneceria subordinada tanto ao
* Todas as citações deste capítulo referem-se às Obras Completas de S. Freud, Standard Edition, publicadas pela Editora Imago. Entre parênteses encontra-se, em números romanos, o volume, e em algarismos arábicos a(s) página(s) correspondente(s).[2] Volume VII, p. 147.
[3] Idem, p. 204.
[4] Idem, p. 191.
[5] Idem, p. 192.
[6] Idem, p. 146.
[7] Idem, p. 147.
[8] “Impulsos” ou “pulsões parciais” traduziria melhor do que “instintos” o título freudiano.
[9] Vol. XVII, p. 161.
[10] Idem, ibidem.
[11] A fase fálica somente será postulada em 1923.
[12] Vol XVII, p. 160.
[13] Essa descrição do conceito de identificação (assemelhar-se a uma figura modelar) será substituída pela idéia de que a identidade (e não somente a sexual) constrói-se em obediência às expectativas inconscientes enunciadas a partir do desejo responsável pela existência do sujeito. Que na terminologia lacaniana é descrito pela expressão “desejo do Outro”.
[14] Vol. XVIII, p. 210.
[15] Idem, ibidem.
