Prefácio - Expedição ao reduto do espelho (por Iray Carone)

 Prefácio (texto integral)

Expedição ao reduto do espelho

Iray Carone

Professora assistente doutora aposentada do Instituto de Psicologia da USP

            Uma boa teoria, ao cair no curso do mundo, não só ganha autonomia em relação ao seu autor, como também sofre a influência direta dos seus receptores. O impacto que ela causa na comunidade científica e a sua propagação nas práticas institucionalizadas podem servir de instrumento de aferição da distância entre a sua fonte e os destinatários que, no mais das vezes, diluem na água a sua novidade inaugural. No entanto, parafraseando Ezra Pound, entre o inventor da teoria e os diluidores, aparecem, por felicidade, os mestres, ou seja, aqueles capazes de combinar um certo número de hipóteses ou processos gerados pela inovação teórica e que os usam tão bem ou melhor do que o próprio inventor.

            A Máquina do Fantasma é, sem dúvida, um trabalho de mestre - apoiado nas teses lacanianas, que moldaram em definitivo o design da relação entre psicanálise e lingüística, Franklin Goldgrub acabou construindo um edifício respeitável no qual hipóteses e achados empíricos foram combinados de modo original, sem deslizar, em momento algum, para o terreno comum da apologética de uma teoria consagrada por adeptos e instituições pelo mundo afora.

            Muitas águas rolaram desde a publicação dos escritos de Lacan. Nesse intermezzo, tanto a lingüística quanto a psicanálise estiveram sob o foto cruzado de investigações empírico-científicas e grande abalos teóricos. Se a lingüística a que Lacan fazia referência era a de Saussure, como seria possível ainda hoje defender as suas teses sem colocar em xeque tal substrato datado?

            Daí a necessidade sentida por Franklin de se confrontar, no melhor estilo tudo-ou-nada, com o grande acervo de conhecimentos lingüísticos, ou seja, com os estudos sobre comportamento verbal de Skinner, com a gramática gerativo-transformacional de Chomsky, com a epistemologia genética de Piaget, com as teorias culturalistas da linguagem, etc. Como se isso ainda não bastasse, examinou os escritos de Jakobson sobre a afasia, os estudos de Lieberman a respeito da filogenia da linguagem na espécie humana, os estudos da língua dos sinais dos surdos, as línguas crioulas e até os estudos recentes sobre os primatas “falantes”.

            Trabalho exaustivo que trouxe consigo, a meu ver, uma dupla intencionalidade: a de por em xeque as teses lacanianas sobre a consubstancialidade linguagem/inconsciente, e a de construir, pacientemente, a sua própria hipótese, denominada hipótese fonético-fonológica / especular, na qual articulou as mais avançadas teorias lingüísticas da aquisição da linguagem pela criança com o estádio do espelho, ou seja, com a constituição do sujeito do inconsciente.

            Qual é, pois, o papel da aquisição da linguagem na construção da identidade pessoal? Quando e como a criança passa a se ver como um sujeito distinto (e desejante) das figuras parentais e das outras? Qual é, pois,a relação de consciência de si mesma com o domínio da linguagem?

            Parece que o locus onde teorias lingüísticas (comportamentais, gerativas, construtivistas, etc.) travaram batalhas sem vitoriosos foi o da aquisição ou aprendizagem da linguagem pela criança. Na verdade, muito mais pela defesa de princípios teóricos antagônicos do que pela causa da aquisição. Do lado da psicanálise, por sua vez, o problema da aquisição acabou sendo percebido como inevitável, porque ela só pode ter acontecido e acontecer através da relação da criança com a mãe, no interior paradisíaco da célula narcísica. Afinal de contas, será que os deliciosos balbucios e os longos exercícios de algaravia infantil não estarão a denotar alguma coisa, quer para o lingüista, quer para o psicanalista? Será que não estarão denotando o momento no qual as cadeias de significantes estão separados do significado (o outro lado da barra) e, portanto, sem qualquer efeito comunicacional?

            Será que não estarão denotando que a criança não discerne a si própria a não ser pelo olhar do adulto que lhe transmite a sua imagem-identidade?

            Essa é a razão pela qual a psicanálise não pode dispensar a lingüística no que respeita ao fenômeno da aquisição da linguagem pela criança. O ser humano destacou-se da natureza pela criação e pela transmissão da linguagem aos seus semelhantes. É por aí que começou a nossa configuração psíquica, o nosso software.

            Resta saber, entretanto, qual é a lingüística  da aquisição da linguagem que se compatibiliza com os estudos psicanalíticos sobre o estádio do espelho. Mais ainda: quais são os dados lingüísticos que podem ser úteis ao esclarecimento dos curto-circuitos comunicativos das psicoses infantis, como o autismo e a esquizofrenia. Será que os estudos sobre a afasia, a língua dos surdos, a língua dos primatas “falantes” não poderão servir, eventualmente, para o adensamento dos estudos psicanalíticos sobre as psicoses infantis? Ou vice-versa?

            Está na hora de se pensar, epistemologicamente, o comércio entre as ciências do homem. Não se pode negar que a psicanálise, desde Freud, sempre lançou mão de recursos extramuros (física, biologia, arqueologia, etc.) e nem sempre para construir metáforas analógicas à vida psíquica. Se as ciências têm-se separado por razões metodológicas, os fenômenos de que tratam nem por isso se tornam obedientes ao dictum metodológico, porque, embora distintos, não são rigorosamente separáveis.

Iray Carone

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