O espelho e a letra (ou significado e significante)

 

O espelho e a letra (ou significado e

significante)

 

 (3o. capítulo de A máquina do fantasma - acesso parcial) 

…contrariamente às aparências que nos dá o papel imputado ao indicador apontando um objeto no aprendizado pelo sujeito infans de sua lín­gua materna…” [A instância da letra no inconsciente ou a razão des­de Freud] Jacques Lacan

Dirão, porém, que é mais ou menos assim que se ensina as crianças normais a falar. Deveras. Pode ser que elas aprendam o essencial, apesar de toda pedagogia“. (Itard e seu selvagem) Octave Mannoni

Nesta etapa, que é a fase do desenvolvimento da linguagem na infância, empregamos uma língua construída por nós mesmos…” [La Afasia] Sigmund Freud

A aquisição de linguagem será objeto de uma hipótese que dialogará criticamente com as anteriores, relacionadas ao ambientalismo behaviorista, à gramática gerativo-transformacional chomskyana (com seus pressupostos inatistas) e à epistemologia genética piagetiana, que integra a linguagem ao quadro mais amplo de uma psicologia do desenvolvimento, orientada pela conciliação entre os fatores biológico e ambiental.

A obra de Vygotsky, mais difícil de enquadrar, foi fundamental para o estabelecimento da hipótese fonético-fonológico–especular. A idéia de que existiria um estado prévio à aquisição, caracterizado pela separação entre a inteligência pré-verbal e a linguagem pré-intelectual, sendo a aquisição caracterizada pela combinação desses dois afluentes,  fórmula vygotskyana apresentada em Pensamento e Linguagem, constituiu o ponto de partida para a elaboração da referida hipótese.

Em relação à aquisição de linguagem, o conceito ‘inteligência pré-verbal’ será definido como emprego dos sons (ou gestos) de maneira global (não fonética, não articulada, assistemática), com finalidade puramente comunicativa.

(Essa descrição pode ser associada simultaneamente ao conceito de especularidade, devido a Cláudia de Lemos, e ao estádio do espelho lacaniano).

Por outro lado, propõe-se que o conceito ‘linguagem pré-intelectual’ seja definido pela algaravia (herdeira do balbucio), descrita como a não vinculação entre a articulação e o referente. A algaravia, pura diferença entre sons e/ou gestos,  não tem qualquer função comunicativa.

Da identificação do infans à posição desejante dependeria que a algaravia se transformasse efetivamente em sistema fonológico,  manifestação material do significante.

Em termos saussurianos, é possível postular que da comunicação especular surgirá o (sistema do) significado e da algaravia não comunicativa o (sistema do) significante.

A confluência entre ambos, comunicação especular (futuro significado) e algaravia (futuro significante), terá como resultado a emergência da língua e do discurso, portanto do sujeito.-

O desenvolvimento da argumentação referente à citada hipótese será feita através de um percurso em que autores como Saussure (principalmente sua teoria do valor) e Jakobson (principalmente seus escritos sobre a afasia) serão interlocutores imprescindíveis. Incluirá igualmente uma reflexão sobre aspectos filogenéticos relativos às condições da emergência da linguagem no quadro da teoria da evolução, tema discutido a partir dos estudos do biólogo Philip Lieberman. Preliminarmente, será necessário apresentar um quadro geral desse campo de estudos, a aquisição da linguagem, em que as pesquisas de Teresa de Lemos constituirão a principal referência.

1. Os modelos teóricos         

A reflexão epistemológica sobre a natureza da linguagem que, como toda inquirição do gênero é em princípio independente da empiria, não poderia prescindir de uma menção aos dados, mesmo admitindo que estes são escolhidos em obediência ao crivo teórico ado­tado. Sem um campo fenomenal destinado a alimentar a pesquisa e permitir a confirmação ou refutação de hipóteses precisas, seria difícil imaginar a construção de uma teoria conse­qüente. Nesse sentido, o processo pelo qual a criança acede ao universo da pala­vra consti­tui uma área privilegiada; a materialidade do objeto, a facilidade de ob­servação, a infini­dade de ocorrências do gênero e sua registrabilidade constituem vantagens que se contra­põem ao que talvez seja um único empecilho: a impossibilidade ética de criar condições experimentais[1].

A questão central diz respeito aos fatores que presidem a aquisição da língua materna. Essa pergunta, a menos que se adote um pressuposto gnosiológico, parece refratária a qualquer res­posta direta ou imediata. Em conseqüência, ela se desdobra numa série de interrogações particulares que se ramificam quase indefini­damente. Poder-se-iam constatar regularida­des durante o pro­cesso de aquisição de linguagem? Haveria uma fase “crítica”, além de cujos limites a aqui­sição tornar-se-ia inexeqüível? Se há, por quê? Que relações poderiam ser detec­tadas entre quadros ditos psicopatológicos precoces e o déficit lingüístico? O fenô­meno da dominância de um dos hemisférios desempenharia algum papel rele­vante? Ocor­reriam efeitos peculiares decorrentes da exposição da criança a adultos sem linguagem oral (surdos-mudos)? Qual seria a função do subs­trato orgânico - as áreas “lingüísticas” do cére­bro - com re­lação à questão em pauta? Em crianças com deficiência auditiva (e/ou motora verbal) a ges­tualidade obedeceria aos mesmos padrões (estrutura e seqüência) por­ventura constatáveis no processo habi­tual de aquisição? Experimentos feitos com outras espécies ajuda­riam a compre­ender - e nesse caso, como - o pro­cesso de aquisição no ser hu­mano?

De acordo com o modelo científico clássico, os primeiros estudos focalizaram a questão da aquisição no âmbito da conhecida oposição inato/adquirido, que repetia, no âmbito da lingüística[2], uma milenar controvérsia filosófica cujas primeiras manifestações conhecidas, no pensamento ocidental, evocam a célebre oposição entre o idealismo platônico e o rea­lismo aristotélico. Poder-se-ia demonstrar sem muita dificuldade que a múltipla diversidade das hipóteses existentes converge para esses dois pontos focais, variando apenas o grau de exclusividade com que o inatismo ou o ambientalismo são propostos.

Assim, o campo da aquisição dividiu-se inicialmente entre os partidários da hipótese da atualização de uma dotação biológica peculiar à espécie humana, e seus opositores, adeptos das teorias de aprendizagem. Nesse primeiro momento, as obras de Chomsky e Skinner constituíram-se em referências exclusivas para as respectivas pesquisas; sua coerência e radicalidade não impediu, porém, que um resquício inassimilável perturbasse o quadro teórico proposto. Dessa forma, um “resto” ambiental, na forma do inevitável input lingüístico, con­tamina o nativismo gerativista, da mesma forma que, reciprocamente, uma menção relutante às características biológicas do “homo sapiens” macula a posição ambientalista pura.

Nos estudos sobre aquisição, a posição mais condizente com o darwinismo parece repre­sentada pela obra de Piaget, que defende a importância recíproca do biológico e do social, em cujo marco se desenvolveria o indivíduo, objeto da ciência psicológica e que obedeceria à dupla injunção do inato e do adquirido[3]. Dessa forma, os pesquisadores insatisfeitos com as posições principistas derivadas do nativismo chomskyano e do ambien­talismo skinneriano encontraram um modelo muito mais flexível, na medida em que não exigia adesão prévia incondicional a uma epistemologia monolítica. O trabalho de campo poderia ser feito sem preocupação imediata com sua inserção teórica. Isto não significa atribuir à doutrina piagetiana uma omissão em relação à tomada de posição epistemoló­gica[4]; trata-se antes da adoção do postulado da compatibilidade entre hereditariedade e aprendizagem, do qual resulta uma liberdade de ação inexistente para os partidários de Chomsky e Skinner. Pressupunha-se que os dados, quaisquer que fossem, seriam situáveis em algum ponto da série complementar inato / adquirido, ou, em termos mais diretamente piagetianos, apontariam para uma predominância momentânea quer da assimilação quer da acomodação, mas sem jamais excluir a alternativa provisoriamente ausente.

Piaget foi, portanto, e em certo sentido à revelia, o patrono dessa posição. Se ao interpreta­rem seus dados por referência à obra piagetiana os aquisicionistas nem sempre fizeram jus ao rigor do fundador da epistemologia genética, não se pode negar-lhes o mérito de libertar a pesquisa da camisa de for­ça inatista/ambientalista, que selecionava dra­conianamente o material considerado pertinente e desconsiderava, na análise teórica, qualquer possibilidade de diálogo com enfoques diferentes.

Por outro lado, a obra piagetiana não deixava de suscitar uma questão incômoda para os aquisicionistas, na medida em que nela a linguagem é subordinada ao intelecto. Uma ade­são estrita ao pensamento de Piaget parecia exigir a inclusão dos resultados da pesquisa na etapa pertinente do desenvolvimento da inteligência, processo considerado abrangente e explicativo em relação ao ingresso da criança no universo da linguagem[5]. Entende-se então que tais pesquisas se orientassem por um compromisso tênue com o piagetismo, cuja fun­ção seria sobretudo a de constituir um escudo teórico protetor face às duas doutrinas domi­nantes. Essa atitude foi favorecida pela tolerância e distanciamento do pensador suíço em relação a tais empreendimentos. Nesse sentido, o contraste é marcante em relação ao mi­litantismo que caracteriza as escolas gerativista e behaviorista. Não constituindo a lingua­gem, na doutrina piagetiana, um ponto fundamental, os aquisicionistas poderiam trabalhar sem coerções; em compensação, deveriam aceitar igualmente o caráter secundário de suas pesquisas. Essa tendência dos estudos de aquisição foi suficientemente marcante para ser identificada com um nome próprio: construtivismo.

Se a descrição acima esboçada, em suas linhas gerais, for correta, ela permite entender a guinada seguinte, em direção à obra de Lev S. Vygotsky. O teórico russo, uma de cujas preocupações capitais foi o exame detalhado da produção teórica em psicologia, deixou uma obra em construção, marcada por um legado notável, o sétimo capítulo do livro Pensamento e Linguagem, seu último escrito, em que abre uma nova perspectiva para pensar a relação entre o simbólico e a subjetividade.

Ao contrário de Piaget, Vygotsky reconhece o papel crucial da linguagem e assinala a im­portância fundamental do adulto no processo de aquisição, sem, por outro lado, minimizar a participação da criança, que está longe de representar um papel passivo na relação. Sua obra, interrompida em pleno processo de elaboração, mantém-se (mais do que acontece habitualmente) aberta a várias interpretações, embora a importância concedida ao social permaneça inequivocamente como a marca distintiva da sua posição teórica. De qualquer forma, a mencionada relação adulto-criança, enquanto referida à linguagem, permanece problemática e está longe de ter sido plenamente elaborada; razão pela qual os trabalhos inspirados por Vygotsky apresentam o mesmo coeficiente de dispersão característico do construtivismo piagetiano, apesar da importância muito maior dada por ele à linguagem.

Ainda assim, a adoção dessa perspectiva permitiu uma angulação inédita com referência à compreensão do que está em jogo na interação. Muito mais do que a referência piagetiana, a inspiração vygotskyana permitiu recuperar a legitimidade da indagação sobre o papel do adulto no processo de aquisição, sem conferir a esse personagem os poderes absolutos do agente reforçador behaviorista. Tornou-se assim possível construir uma posição simultane­amente independente do inatismo chomskyano e das teorias de aprendizagem subordinadas ao ambientalismo skinneriano, sem que por isso fosse necessário pagar o preço de admitir a relativa irrelevância do fenômeno estudado.

A teoria piagetiana alcançou, sem dúvida, uma coerência notável, mas é igualmente inegá­vel que a abrangência e a solidez da epistemologia genética deve muito a duas exclusões si­gnificativas. A mais conhecida diz respeito à afe­ti­vidade, mas a da linguagem não é menos importante. É revelador que a linguagem tenha sido relegada por Piaget a um papel instrumental em relação à construção da inteligência, tida como epicentro da estratégia adaptativa da es­pé­cie. Poucas ressalvas poderiam ser feitas à afirmação de que o darwinismo constitui o marco no interior do qual o pensador suíço - biólogo de forma­cão - formula suas ques­tões, assim como é difícil não concluir que uma reflexão sistemática sobre a linguagem, com suas inúmeras e heteróclitas manifestações, tem tudo para colocar em risco precisa­mente o adaptacionismo subjacente à posição piagetiana.

O viés vygotskyano é de outra natureza. Interessado no processo de socialização, a inteli­gência (e portanto a questão adaptativa) é por ele subordinada à emergência da consciência e, (quase) conseqüentemente, à da individualidade[6]. A ética e a política constituem o pano de fundo de sua reflexão. Não é por acaso, portanto, que a educação, com todas as questões inerentes à relação ensinante/aprendente, se afigure como uma das preocupações princi­pais do pensador russo, um de cujos interesses principais é o desenvolvimento pessoal (e não somente intelectual), bem como a compatibilização entre individualidade e coletivi­dade.

O processo de conscientização, tal como pensado por Vygotsky, é bem menos previsível do que o fatal encadeamento de estímulos e respostas, a obrigatória atualização de uma dota­ção orgânica ou a inevitável sucessão das fases necessárias ao desenvolvimento intelectual. Acontece no âmbito de uma indeterminação que só pode decorrer da crescente impor­tância atribuída a uma interação ainda por definir e à individualidade de seus protagonis­tas. O biológico e o ambiental, tidos por fatores epistemológicos exclusivos, pensa­dos quer como mutuamente incompatíveis ou facilmente conciliáveis, começam a perder em Vygotsky o privilégio que detinham nas abordagens anteriores[7]. No espaço incipientemente aberto por esse questionamento brota timidamente a imagem de uma linguagem que quer ser considerada per se.

Marcada por um vetor tão radical, é compreensível que, se comparada ao behaviorismo, ao gerativismo e à epistemologia genética, muito mais “assen­ta­dos” numa epistemologia confortável e tendo por objeto questões menos problemáticas que a da consciência, a obra vygotskyana revele contornos menos definidos e resultados não tão impactantes. Essas caracte­rísticas, entretanto, são com­pensadas amplamente, desde que o caráter inacabado e aberto da sua reflexão seja tomado sobretudo como um convite ao prosseguimento da pesquisa, na direção por ele apontada[8].

Mais ainda, o interesse pelas expressões estéticas dedicadas à temá­tica da subjetividade, evidenciado nos exemplos literários e na análise de técnicas teatrais mencionados no citado sétimo capítulo de Pensamento e Linguagem, indica que Vygotsky talvez tenha sido o primeiro a propor, fora da esfera psicanalítica, a relação entre linguagem e psiquismo. É possível constatar, tanto em Psicologia da Arte como no texto acima mencionado, uma inesperada aproxima­ção com a teoria psicanalítica, possibilitada pelo interesse comum em relação à arte. Que isso ocorra em concomitância com o aprofundamento das reflexões sobre a linguagem é tudo menos surpreendente.

De qualquer maneira, entende-se sem dificuldade a atração exercida por um autor assedi­ado por tais preocupações sobre aqueles aquisicionistas que começavam a vislumbrar na linguagem muito mais do que um instrumento intelectual de primeira grandeza.

2. A história da aquisição

Como escreve Teresa de Lemos em sua tese de doutorado[9], a psicolingüística, enquanto área de estudos, possui uma peculiaridade notável, a de ter sido criada deliberadamente num encontro universitário. Essa origem, inaudita para um campo de pesquisa, represen­tou, na época, a conseqüência do prestígio crescente auferido pela lingüística, (”ciência-piloto das ciências humanas”, conforme Lévi-Strauss), relacionado por sua vez ao reconhe­cimento dos avanços devidos a movimentos tão heterogêneos como os estruturalismos europeu e americano.

Teresa de Lemos descreve assim a motivação dos participantes do Seminário de Verão patrocinado pelo Social Science Research Council na Universidade de Indiana, em 1954: “…parece que o esforço para criar a psicolingüística teve origem num ponto de rup­tura do discurso da psicologia, na medida em que ele parecia não poder mais fazer frente às exigências da cientificidade sem modificar uma posição empirista[10]“. Na Europa, e mais precisamente na França, a década de 50 assistiu a emergência do movimento lacaniano, fortemente impul­sionado pela antropologia estrutural, influen­ciada, por sua vez, pela obra de Roman Jakob­son, bem como pela releitura de Ferdinand de Saussure. “Para despojar a psicanálise dessa função ortopédica, era necessário, portanto, reajustá-la a si mesma. E essa é a razão pela qual o empreendi­mento prático implicava uma reconstrução teórica. Pelo menos, assim é que o discurso de Lacan foi instituído (…) Conhecem-se os grandes traços dessa instituição: a verdade de Freud exigia, para ser articulada, o recurso a outras ciências que não aquelas que pareciam delimitar seu campo (biologia e psicologia). Era preciso pois, construir, para constituir o discurso psicanalítico em geral, um sistema inteiro de empréstimos apelando à lingüística, à etnologia estrutural, à lógica combinatória”[11].

Em relação às pesquisas sobre aquisição, elas se inseriram facilmente na tradição empirista da psicologia americana e ganharam certa proeminência devido ao apoio documental que prometiam trazer para o processo aberto há tempos pelo behaviorismo contra o “menta­lismo”. A esse respeito, Teresa de Lemos escreve: “O behaviorismo, pretendendo provar o valor explanatório de suas hipóteses, estendeu sua investigação à linguagem - que era evidentemente o território ideal para isso, já que, na tradição anterior ao estruturalismo, ela havia sido explicada sempre por modelos mentalistas (…)[12]”.Se a linguagem era o território ideal para inviabilizar definitivamente a psicologia “profunda”, a aquisição parecia ser o cenário mais propício para travar a batalha decisiva.

Nada parecia mais óbvio do que a função reforçadora do adulto e a dependência total do infante face a seu educador[13]. Entretanto, fosse qual fosse o valor das contribuições e hipóteses produzidas pelos pesquisadores behavioristas, bem como o futuro dessa linha de estudos, a linearidade de uma trajetória até então sem sobressaltos foi bruscamente interrompida pela já mencionada resenha, feita por Chomsky em 1959, do livro que Skinner publicara dois anos antes sobre comportamento verbal. A contundente argumentação baseou-se nos resultados obtidos por Chomsky em suas pesquisas de doutorado (Syntactic Structures). Cabe notar que a súmula dos argumentos comportamentalistas apoiava-se amplamente na dimensão semântico-referencial da linguagem (além de algumas considerações fonológicas[14])., enquanto o questio­namento chomskyano foi empreendido a partir da perspectiva oferecida pela sintaxe.

Os resultados não foram imediatos, diz Teresa de Lemos, mas “…a partir do começo dos 60 constata-se uma verdadeira debandada em direção a Chomsky. Os textos falam em ‘con­versão’ e, mais significativo ainda, ‘conversão imediata’ “[15].

Daí em diante, a cena da psicolingüística foi ocupada pela teoria gerativo-transformacio­nal, um de cujos pressupostos fundamentais é constituído pela distinção entre as estruturas de base e as frases efetivamente utilizadas, geradas pelas primeiras. “O que interessava real­mente era saber como essa estrutura de base era induzida…”[16]

O desenvolvimento dos estudos sobre aquisição na perspectiva chomskyana foi problemática, visto que os psicólogos interessados não tinham formação em lingüística e centravam seus estudos nas crianças em etapa de aquisição , enquanto o chomskysmo sempre trabalhou “in abstracto“, ou seja, considerando a língua em seu funcionamento gramatical.

O falante pode falhar ao falar mas não ao compreender. Logo, para o gerativismo, a competência é essencial, o desempenho não. Esta prevalência da língua sobre a fala é o elo de ligação mais evidente entre Saussure e Chomsky. Conseqüentemente, tal como Saussure usa de preferência exemplos retirados da fonologia da língua, Chomsky cria os seus a partir da sintaxe,  sem precisar recorrer a um corpus empírico

Assim, antes que se formasse um grupo de pesquisadores imbuído dos princípios do transformacionalismo, os mal-entendidos foram freqüentes e constantes. Chomsky sempre esteve a um passo de desauto­rizar essa área de estudos, mas também nunca chegou a fazê-lo, visto que se a aquisição coloca necessariamente em pauta a dimensão temporal, inerentemente problemática para o inatismo, ela abriga, por outro lado, a promessa de encontrar regularidades tendentes a apoiar decisivamente a hipótese de uma gramática universal.

A aquisição - com referência à sintaxe - não correspondeu às expectativas de Chomsky, que recebeu de outro domínio o apoio esperado. O processo de crioulização do pidgin dá-se de forma surpreendentemente uniforme, conforme demonstrado por Bickerton. [Capítulo VI]. Com relação à aquisição, a atitude de Chomsky parece guiar-se por uma consideração simples: se os dados forem favoráveis, então confirmam as hipóteses gerativistas; caso contrário, são descartáveis.

Predominou a segunda alternativa. A gangorra que parece instabilizar perene­mente os estudos de aquisição voltou a funcionar. Se o behaviorismo, tomando a lingua­gem como um comportamento entre outros, foi detido pelo seu desconhecimento da linguagem[17], o gerativismo chomskyano, por seu la­do, revelou-se despreparado para abordar a língua pelo ângulo do sujeito.

De fato, o agramatismo irremediável dos adquirentes provocou um efeito de­vastador nas fileiras dos aquisicionistas chomskyanos. A injunção de compatibilizar os achados, por desconcertantes que fossem, com as regras da gramática transformacional, mostrou-se irrealizável. Tal impossibilidade conduziu quer ao afastamento da área quer ao abandono da referência chomskyana. Chomsky havia antecipado esse resultado, previsível segundo seu ponto de


      [1]  A afasia, esquizofrenia e autismo infantis são, desse ponto de vista, como que trágicos experimentos naturais.

      [2]  E da psicolingüística, que embora não se limite às pesquisas sobre aquisição de linguagem, tem nessa área talvez o seu interesse central [cf. A língua que me falta, tese de doutorado de Teresa de Lemos].

      [3]  Piaget situava a psicologia como ciência intermediária entre a biologia e a sociologia.

      [4]  Que faria, aliás, da expressão epistemologia genética uma verdadeira contradição em termos. Por outro lado, é tão improvável a ausência de posição epistemológica em ciência quanto a neutralidade em política.

    [5] Conforme o debate entre Chomsky e Piaget em Royaumont, registrado em Teorias da Linguagem, Teorias da Aprendizagem. Recordar-se-á que na ocasião os gerativistas impugnaram a hipótese piagetiana de que a aquisição da linguagem seria uma conseqüência da fase sensório-motora.

[6] Na medida em que, focalizando a questão da consciência pelo prisma psicológico, Vygotsky não se confinou à esfera político-social.

      [7]  A diversidade cultural parece ser a evidência invocada por Vygotsky para recusar a uniformidade do enfoque organicista/ambiental predominante na psicologia da época.

      [8]  A parte final da obra de Vygotsky foi elaborada em circunstâncias muito particulares, que se agravaram após a sua morte: o terrorismo de estado stalinista.

    [9] A língua que me falta: Uma análise dos estudos em aquisição de linguagem (1994). A referência em questão sobre a origem da psicolingüística também se vale de um artigo escrito por Eleonora Mota Maia.

[10] Op.cit., pg. 47.

    [11]  O título da letra, J. L. Nancy/P. Lacoue-Labarthe,  pgs.19/20.

[12] A língua que me falta, pg. 48.

  [13] Em um livro bem posterior a essa época (1973), lê-se, numa seção intitulada “Aprendizagem e hábitos gramaticais”: “Foi sugerido que, devido à história de condicionamento de um indivíduo, formam-se associações que determinam as suas respostas-palavras. Formas gramaticais podem ser consideradas como uma parte de tais hábitos aprendidos. Parece que determinadas respostas-palavras passam a seguir outras respostas-palavras, porque nas maneiras de escrever e de ler de uma comunidade de linguagem, aquelas palavras como estímulo ocorrem numa determinada ordem. Um mecanismo sugerido é o reforçamento de comportamento verbal que está de acordo com esses costumes; o comportamento que  não está de acordo, não é reforçado”.  [Staats &Staats, Comportamento Humano Complexo, pg. 185].

  [14] Um programa educacional que enfatize uma correspondência mínima entre estímulo verbal e resposta verbal não é  necessário para desenvolver um repertório ecóico básico. Operantes ecóicos mínimos tornam-se funcionais quando correspondências mais amplas são apresentadas. Tendo adquirido uma dúzia de respostas ecóicas complexas todas iniciando com o som b, a criança pode, corretamente, repetir um décimo terceiro padrão que começa com b enquanto a resposta mais ampla também começar com b. Quando isto ocorre, devemos reconhecer a independência funcional de um operante ecóico tão pequeno quanto b (Skinner, Comportamento Verbal, 1957, pp.62-63.; citado por Staats & Staats, pg. 137). É extremamente interessante que Skinner reconheça a diferença entre a aprendizagem semântico-referencial e a emergência da fonética, e ao mesmo tempo não se dê conta que se o comportamento semântico referencial pode ser  reforçado, essa possibilidade está fora de cogitação no que se refere à articulação. Ou seja, a (rede) fonética é adquirida por vias que escapam à definição habitual (e comportamentalista) de aprendizagem.

[15] A língua que me falta, pg. 52.

    [16]  Idem, ibidem. O reforçamento, na perspectiva chomskyana, é impossível, já que a estrutura profunda jamais se manifesta diretamente nas frases do falante; estas são invariavelmente transformações de regras abstratas.

  [17] “Os psicólogos,que tinham partido de unidades ‘psicológicas’, como letras, palavras, sentenças, descobriram através da análise estrutural, unidades lingüísticas tais como fonemas, morfemas e frases. As unidades ‘psicológicas’ são aquelas que tem um grau de consciência para o falante, enquanto que as unidades lingüísticas são descobertas apenas pela análise e não é  necessário supor que o falante se  valha delas com um ‘conhecimento consciente’. Vê-se aí que, mesmo sendo uma teoria empirista, o behaviourismo não escapou de uma concepção mentalista-subjetiva da linguagem, desconhecendo que as categorias lingüísticas apontavam para uma materialidade própria, nem psicológica, nem meramente física“. (Teresa de Lemos, op.cit., pg. 48).

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