Linguagem e consciência em Vygotsky

Linguagem e consciência em Vygotsky

(2o. capítulo de A Máquina do Fantasma - acesso parcial) 

 ”É indubitável que, no desenvolvimento da criança, existe também um período pré-lingüístico do pensa­mento e um período pré-intelec­tual da fala: o pensamento e a palavra não se encontram relacionados por uma relação primária.. (…)

A primeira coisa que qualquer estudo re­vela é a necessidade de estabelecer a distinção entre dois planos de dis­curso. Ambos os aspectos da linguagem, tanto o interno, signifi­cante, semântico, como o aspecto externo, fonético, têm as suas leis de movimento específicas, embora formem uma verdadeira unidade, mas que é uma unidade complexa e não homogênea“. [Pensamento e Linguagem, Lev S. Vygotsky.]

1. Vygotsky e seu cenário: psicologia, linguagem, epistemologia

Ao contrário do que poderia ser dito em relação às obras de Jean Piaget e Hen­ry Wallon, a expressão psicologia do desenvolvi­mento aplica-se mal ao trabalho de Lev S. Vygotsky. Se por um lado não há a menor dúvida quanto à si­milaridade das preocupações em pauta, por outro poder-se-ia recorrer à vastidão de interesses do autor de Pen­samento e Lin­gua­­gem para entender a ra­zão da par­ticularidade que parece distingui-lo de seus pares. Entretanto, ve­rifica-se também, pelo menos em relação aos trabalhos já tra­duzidos e publicados no ocidente, que à ampla gama de assuntos tra­tados não corres­ponde absolutamente um coeficiente de dispersão. A maior e mais importante parte desses trabalhos, mesmo os que apa­rente­mente guardam uma distância recíproca considerável em virtude da temática abordada, rela­ciona-se de alguma maneira com a evolução e a transformação dos proces­sos mentais da criança. Tampouco a ênfase e o empenho na aplicação prática da pesquisa vai ao ponto de impor um con­traste decisivo em relação à atitude oposta de Piaget e Wallon, autores sobretudo teóricos. Tem-se an­tes a impressão de que a di­ferença fundamental decorre do fato de que o suíço e o francês avalizam as posições episte­mológicas vigentes, balizadas pelo bio­lógico e o am­biental, o inato e o adquirido, enquanto em Vy­gots­ky essa questão é tratada como problema em aberto e não ponto de partida ao qual se adere quer explícita quer tacita­mente.-

Tudo se passa como se, em vez de respei­tar o Nec plus ultra dos cânones gnosiológicos vigentes e recor­rer a eles para enfrentar os even­tuais impasses, o psicólogo russo empurrasse in­cansavelmente os li­mites epistemológicos convencionais para aumentar o espaço da compre­ensão teó­rica. Essa insatisfação com o que considera como con­clusões frágeis ou contraditórias dos estudos sobre a psicogênese dos processos mentais e seu arcabouço teó­rico teria final­mente conduzido Vy­gotsky a uma análise radical, através da qual se dá a rup­tura com a epistemologia subjacente às teorias criticadas. Aqui, o paralelo com Saussure é inevitável. Talvez seja essa a principal razão pela qual sua obra se enquadre mal - tão descon­fortavelmente como num leito de Pro­custo - na rubrica das psi­cologias do desen­vol­vimento.

Em outras palavras, não é absurdo conjeturar que Vygotsky ela­bora uma psicologia do desenvolvimento com um ponto de inflexão que con­siste, paradoxalmente, na refutação da própria idéia de desenvol­vimento, substituída por noções ainda imprecisas no momento em que começa a desen­volvê-las, mas que certamente decorrem da impor­tância crescente adqui­rida pela linguagem em relação a outros temas inves­tigados. Se adotarmos um ponto de vista advogado muitas vezes pelo pró­prio Vygotsky, o de que a culminação de um percurso logi­ciza a respec­tiva trajetória através do sentido que lhe imprime retrospectiva­mente, é lícito considerar, com base em Pensamento e Lingua­gem, que seu pró­prio objetivo teórico con­sistia em elucidar, nada mais nada menos, a considerável problemática subsumida pela noção de consciência, conceito ao qual as correntes psicológicas vinculadas à subjetividade costu­mam recorrer tão freqüente como acriticamente.

Por intermédio das rede­finições analíticas a que sub­mete o pro­blema do objeto em psicolo­gia (principalmente em O significado his­tórico da crise da psicologia. Uma investi­gação meto­dológica), Vy­gotsky pro­cura introduzir na disciplina em questão um rigor epis­temológico com­patível com o da filosofia e uma metodolo­gia tão precisa como a das ciên­cias naturais, o que só seria possível me­diante o prévio e nítido mapeamento do seu objeto. A insistente pergunta sobre o objeto e o método próprios da psicologia conduz Vy­gotsky a uma re­visão extensa e rigorosa da produção teó­rica exis­tente - processo no qual revela um grau de informação ex­tremamente amplo.

No texto intitulado O problema da consciência (1933), que recolhe anotações tomadas durante uma reunião de trabalho efetuada no ano anterior à sua morte, ele afirma contundentemente, já na primeira frase, que “Embora a psicologia tenha se auto-definido como a ciência da cons­ciência, seu conhecimento desta é quase nulo“. Tal crítica re­presenta o corolário de uma prolongada análise desenvolvida a partir de 1924,  cuja primeira etapa consistiu no enfrentamento da reflexologia.

Efetiva­mente, a irrupção de Vygotsky no cenário da psicologia soviética, dominada na época pela figura quase lendária de Pavlov, associa-se imediatamente à tomada em consideração da consciência e da palavra, aquela como objeto ineludível e esta co­mo protagonista de uma renovação metodo­lógica não só necessária como imprescindível. O jovem psicólogo, que in­terpreta a hegemonia da reflexologia como conseqüência de uma maquiagem materialista, dirige seus argumentos precisa­mente contra essa pretensão, que desautorizaria (a pretexto de idealismo) a exis­tên­cia de uma psicologia cujo objeto de estudo cor­respondesse à própria denominação.

De fato a situação era mais com­plexa e a des­crição que dela oferece Vygotsky parece fazer jus a seus meandros: ora os reflexólogos refutavam a possibilidade de um estudo objetivo da psique, ora validavam pesquisas baseadas na in­trospecção na me­dida em que parecessem confirmar as próprias doutri­nas; oscilavam igualmente entre a admissão da ‘coexistência pacífica’ entre as duas disciplinas mas igualmente propendiam à alternativa oposta, isto é, a subordinação da psi­cologia à refle­xologia. Nesse caso, dizia-se, ambas se rela­cio­na­riam à maneira da su­perestrutura com sua infra-estrutura.

Já no primeiro texto[1] que resume suas posições iniciais, Vy­gotsky indica não só o projeto que guiará os trabalhos posteriores mas igualmente antecipa uma das suas idéias funda­mentais: a fala (o discurso, a linguagem) é concebida como núcleo da consciência, da identidade e da vida social. Essas postulações, cujo teor extremamente ousado para a época - ou mesmo para nos­sos dias, pois evocam diretamente a teo­rização lacaniana - é deveras surpreendente, surpre­endem ainda mais pelo vocabulário reflexológico no qual são veiculadas.

Impõe-se uma analogia com a primeira fase da obra freudiana, cujo conteúdo insó­lito contrastava aberta­mente com a terminologia da física e da neu­rologia contemporâneas em que era vazado, em­bora fosse absoluta­mente incompatível com essa roupagem. A camisa de força da reflexo­logia não impede entretanto que o gesto inovador aponte a direção futura. Vygotsky recusa firme­mente a divisão da psicologia e advoga, perante os anátemas reflexológicos, a causa da consciência: “Em re­sumo, duas ciências que possuem o mesmo objeto de análise, o compor­ta­mento do homem, que utilizam para estudá-lo os mesmos métodos, continuam, entretanto e apesar de tudo, sendo duas ciências di­feren­tes? (…) A psique não existe fora do compor­ta­mento, da mesma forma que este não existe sem aquela (…) Não é possível portanto abrir lugar para duas ciências diferentes. E não é preciso ser muito perspicaz para per­ceber que a psique é essa mesma atividade correlata, que a consciência é uma atividade correlata dentro do pró­prio organismo, dentro do sistema nervoso: a atividade correlata do corpo humano consigo mesmo… Falemos claramente. Os enigmas da consciência, da psique, não podem ser evitados com subterfúgios, nem metodológicos nem teóricos. Não se pode fazer um rodeio para deixar a consciência de lado” [2]. Concomitan­temente, a verbalização é recuperada enquanto recurso metodológico necessário: “Os reflexos não manifestos (fala silenciosa), os refle­xos internos, ina­cessíveis à percepção direta do observador, freqüentemente podem tornar-se manifestos indiretamente, de forma me­diada através de reflexos acessíveis à observação a respeito dos quais desempenham o papel de excitantes. Através do reflexo completo (a palavra), estabelecemos a do correspondente excitante… Seria um suicídio para a ciência que, dado o enorme papel que desempenha pre­cisamente a psique -isto é o grupo de reflexos inibidos- na estru­tura do comportamento, renunciasse a aceder a ela através de um ca­minho indireto…”[3] O inte­resse pela infância já comparece em germe, assinalando o rumo da pesquisa nos anos seguintes: “Em que etapa surgem os traços cons­cientes dos reflexos, qual é seu significado biológico, são pergun­tas que preci­sam ser formuladas, e é preciso preparar-se para res­pondê-las expe­rimentalmente”.[4]

Entretanto, a abordagem da consciência exigirá de Vygotsky os mesmos rodeios que criti­cava naqueles que pretendiam escamotear a questão: nesses assuntos, certa­mente, a linha reta não repre­senta a menor distância entre dois pon­tos. De fato, se já não nos surpreendemos com que diante do labirinto psicológico todo candidato a Teseu recorra ao fio de Ariadne da palavra, talvez seja preciso notar que nem sempre esta comparece presa ao carretel de um procedi­mento canônico: “Tudo o que se descreve como fato já é teoria, diz Münsterberg recordando as palavras de Goethe (…) a pró­pria língua encerra os fundamentos e as possibilidades da cognição científica do fato. A palavra é o germe da ciência, e nesse sentido cabe dizer que no princípio da ciência era o verbo.”[5]. (…) Assim é que para a psi­cologia a interpretação não é somente uma amarga necessidade, senão um modo de conhecimento liberador, essencialmente fecundo, salto vi­tale que para os maus saltadores se transforma em salto mortal” (…) “Tudo consiste em como interpretar (…)”[6].

Palavra, interpretação; o já evidente paralelismo com a démar­che psicanalítica se acentua ainda mais quando em seguida Vygotsky di­rige o olhar para a infância. Trata-se de um desdobramento conseqüente, cuja lógica é transparente: em sua crítica à reflexologia, ele mencionara a necessidade e a possibilidade de estudar a cons­ciência pela via mais acessível, ou seja, a ontogenética. A opor­tu­nidade de acompanhar o processo de desenvolvimento afe­rindo passo a passo as modificações que têm lugar durante os primeiros anos de vida contemplaria as exigências metodológicas científicas e prometia conferir a essa noção rarefeita, a consciência, uma substancialidade tão iné­dita como desejável.

Entretanto, a questão está longe de ser simples: consciência é um conceito que não corres­ponde diretamente a nenhum fenômeno; pode-se concebê-la como um atributo - uma qualidade - que acompanharia os atos psíquicos, ou nela ver a natureza última da vida mental. No primeiro caso, a imagem correspondente seria a de um rio enquanto corrente que carrega tudo o que cair em seu leito até um certo destino; no segundo, trata-se do próprio rio que se conduz a seu estuário. Essa alternância entre uma concepção ins­trumental e ou­tra que permanece inquirindo o objeto através das suas cambiantes manifestações lembra uma dis­cussão similar suscitada pela linguagem - e não por acaso.

Seja como for, a consciência, tal como o inconsciente, parece inabordável por via direta. Poder-se-ia decompô-la nas funções psí­quicas superiores - atenção, memória, volição, atenção, emoção. O enfoque integrativo de Vygotsky, entretanto, rejeita esta via, à qual de­bita uma postura inerentemente comparativa e hierarquizante, a partir da qual a infância aparece como a etapa anterior e inferior em relação ao estado adulto: “Apesar de que na formu­lação geral da ciência sobre a criança já há muito tempo foi descartado o ponto de vista segundo o qual esta se diferencia do adulto unicamente pelas proporções de seu corpo, unicamente pela magnitude, pelas dimensões, esta concepção continua existindo de forma tácita na psicologia infan­til (…) mantendo-se (…) de maneira dissimulada, em praticamente to­das as investigações psicológicas“[7].-

Dessa visão “adultocêntrica” decorre necessariamente o enfoque evolucionista[8], cujo as­pecto preconceituoso é denunciado por identi­ficar a infância com a falta, o negativo, a imaturidade. Em seu lu­gar Vygotsky propõe, com uma argumentação que lembra a de Lévi-Strauss em re­lação aos primitivos e a de Freud em relação à vida mental da criança, a valorização desse período tão cru­cial que sua posteridade poderá ser considerada como decor­rência das fundações então assentadas. Subverte-se assim o enfoque hegemônico em psicologia do desenvolvimento, com a subs­ti­tuição da idéia de um progresso gradativo pela noção de ruptura qualita­tiva.

Entretanto, é inegável, por outro lado, que o evolucionismo se­gue uma lógica bastante compreensível e coerente, rastreando o sur­gimento e a consolidação de certos desempenhos que, em sua forma mais acabada, caracterizarão a maturi­dade. O observável, no compor­ta­mento infantil, promove tal enfo­que como que “naturalmente”. A in­fância seria a fase em que o ser humano estaria mais próximo da ani­malidade e do irracional, e o crescimento - quer se enfatize a maturação orgânica ou a in­fluência cultural como principal motor desse movi­mento - teria o significado inerente­ ao pro­cesso de humani­zação.

Chega-se, portanto, a uma aporia: não há acesso direto à cons­ciência, mas a via indireta, mediante o estudo das funções que im­plicam sua presença, não permite “olhar para trás”, na medida a infância parece supor sua ausência ou precariedade.

Sobre os sistemas psicológicos” (1930a), conferência pro­nunciada por Vygotsky em outubro de 1930 na Clínica de Doenças Men­tais da 1ª Uni­versidade Estatal de Moscou, re­trata o rumo tomado pelo seu autor na tentativa de superar o impasse. O texto mostra um momento de elabo­ração com todas as hesitações que caracterizam esse estado: “Para mim teria sido mais simples abordar o material a par­tir de uma pers­pectiva teórica e não fazer referência às investi­gações levadas a cabo no laboratório. Mas não posso fazê-lo: não te­nho ainda um ponto de vista teórico geral que ex­plique este mate­rial, e considero er­rado teorizar antes de tempo“[9].

Mesmo assim, Vygotsky está longe do marco zero. Entre a cons­ciência psicológica inacessí­vel, de um lado, e de outro as funções “quase-biológicas” como percepção, motricidade, emo­ção, atenção e me­mória, cujo estudo em princípio não permite diferenciar o ho­mem de qual­quer outro organismo, ele procura, para cumprir o papel de agente catalisador, um conceito menos controverso e mais tangível do que o de consciência, que simultaneamente possa pre­encher o re­quisito da especificidade em relação à espécie humana. É bastante revelador, nesse sentido, que preliminar­mente o conferencista se ocupe em negar ter omitido a idéia de persona­lidade em suas investi­gações. Subseqüentemente, critica a primazia outorgada às fun­ções tomadas isoladamente; quando se estuda o desenvolvimento, afirma, é mais importante prestar atenção às alterações sofridas pelo modo de ligação (integração) entre as funções, do que ras­trear as modifi­cações pelas quais passa cada função independente. “Daí que quando se passa de um nível a outro, com freqüência a dife­rença es­sencial não consista na transformação intrafuncional, mas nas trans­formações interfuncionais, as mudanças nos nexos interfun­cionais da estrutura interfuncional“[10]

Para exem­plificar esse ponto de vista, ele compara a resolução de problemas em crianças e primatas para ilustrar como a percepção é empregada diferentemente por uns e outros. Confrontando as teorias de L. Büh­ler e W. Köhler, Vygotsky se inclina pela solução deste último, que situa o com­portamento ani­mal na esfera sensorial, enquanto a criança “…pode con­templar a si­tuação durante algum tempo e, sabendo o que deve fazer, não age de imediato…”[11]. A con­clusão é extremamente significa­tiva: “…o desenvolvimento ulterior da percepção con­siste em estabele­cer uma complicada síntese com outras funções, concretamente com a da linguagem“[12].

Vemos aqui a linguagem emergir como uma “função” diferenciada, “primus in­ter pa­res“, encarregada de in­tegrar as outras, e isso graças à separação que introduz entre per­cepção e motricidade, que no animal aparecem soldados à maneira de um arco reflexo, que na criança é intermediado pela sim­bolização.

En­tende-se então a razão pela qual Vygotsky atribuirá à linguagem o papel fundamental na construção da personalidade. “Todo signo, se tomarmos sua origem real, é um meio de comunicação e pode­ríamos di­zer, mais amplamente, um meio de conexão de certas funções psíquicas de caráter social. Transpor­tado para nós mesmos, é o pró­prio meio de união das funções em nós mesmos e conseguiremos demons­trar que sem este signo o cére­bro e suas conexões iniciais não po­derão trans­for­mar-se nas comple­xas re­lações em que o fazem graças à lingua­gem”[13](Idem, pg. 78). Será preciso retornar posterior­mente à questão da proeminência da linguagem sobre o substrato cere­bral e simultaneamente sua subordinação ao so­cial, tão ine­quivocamente afirmados nesta passagem.

O que se diz da percepção vale igualmente para a memória. A ar­gumentação de Vygotsky a respeito é tão próxima à usada por Freud para descrever a fantasia, que o leitor desavisado difi­cilmente dei­xará de surpreender-se: “Quando pedimos a um adulto que reproduza uma seqüência de 50 palavras pelas imagens que lhe ofere­cemos, ele passa a estabelecer relações mentais entre o signo, a imagem e aquilo que lembra. Este pensamento não se corresponde em absoluto com o pensamento real do homem, mas é arbitrário; à pessoa não inte­ressa se é ou não exato, verossímil ou inverossímil, o que está lem­brando… Nenhum de nós quando lembra pensa alguma vez como faz para resolver o problema. Todos os critérios fundamentais, as co­nexões, os fatores característicos do pensamento como tal, defor­mam-se por completo no pensamento orientado para a recordação. Teo­ricamente de­veríamos dizer antes que na recordação se transformam todas as funções do pensamento“.[14]

A escolha dessa perspectiva conduz a uma opção que desde então ocupará um lugar central entre as preocupações de Vy­gotsky: “recorrerei…ao problema da afasia e ao da esquizofrenia em patolo­gia e ao da idade de transição na psicologia genética“[15]. De fato, se a deformação dos acontecimentos pela memória deixa entrever certas peculiaridades do contato humano com o “real”, a patologia constituirá a prova decisiva da refração imposta pela psique aos estímulos, que pode ir ao ponto de abolir a relação en­tre sujeito e mundo fenomenal, na medida em que, como acontece na esquizofrenia, fica demonstrada a possibilidade da desintegração do sistema. Tais raciocínios são perfeitamente coerentes com as po­sições anteriores de Vygotsky e desenvolvem seu projeto de maneira congruente.

Desse ponto em diante, a argumentação se desdobra em duas frentes; de um lado, para descrever a noção de sistema psicoló­gico, con­ceito destinado a elucidar a progressiva construção da in­dividualidade a partir do processo de internalização das relações interpessoais; de outro, trata-se de impugnar o parale­lismo entre substrato nervoso e funções mentais superiores, embora concedendo ao cérebro, em última instân­cia, o papel de condição necessária. As duas citações seguintes podem ilustrar a estraté­gia e o rumo tomado por Vygotsky nesse momento: “O estudo da gê­nese destes processos mostra que todo processo volitivo é inicial­mente social, coletivo, interpsico­lógico.,.. A mãe chama a atenção da criança so­bre algo; (…) Depois, a pró­pria criança começa a diri­gir sua atenção e desem­penha com re­lação a si própria o papel de mãe (…) Um indivíduo ordena e outro obedece. O indivíduo se dá uma ordem e obedece“[16] (…) “Devo rejei­tar as idéias defen­didas por K. Golds­tein e A. Gelb com relação a que toda função psi­cológica superior guarda uma correlação fisioló­gica direta tanto com a estrutura fi­siológica da função como com sua ver­tente psicológica (…) mas (eles) têm razão ao considerar que todo sistema psicológico complexo (…) é afinal de contas produto de de­terminada estrutura ce­rebral. Não há nada que esteja fora do cére­bro“[17]. O problema, então, consistirá em saber “…o que é que corresponde fisio­logicamente no cé­rebro ao pensa­mento em concei­tos“[18]. Adiante, procurar-se-á jus­tificar a idéia de que a expressão “pensamento em conceitos” corres­ponde à noção de dis­curso tal como desenvolvida na lingüística da segunda metade do século (Benveniste, por exemplo); se de fato assim for, então o que Vy­gotsky está efetivamente debatendo é a questão da relação entre cé­rebro e linguagem. O já mencionado interesse pela esquizofrenia e pela afasia e as perdas lingüísticas ocasionadas por essas patologias pode ser vista como uma confir­mação da interpretação acima referida.

Como quer que seja, é indubitável que tais preocupações promo­vem uma incursão em  territó­rio epistemológico. Com a finali­dade de li­mitar a importância do fator biológico e enfatizar o pa­pel do so­cial - postura cujas raízes ideológicas parecem evidentes - Vygotsky se empenha em recu­perar para a psicologia um vasto ter­ritório que a reflexolo­gia havia adju­dicado à jurisdição neuroló­gica. Para tanto, impugna de imediato a relação direta entre subs­trato nervoso e comportamento; em seu lu­gar propõe um quadro em que o cérebro aparece tão só como propicia­dor de “enormes possibilidades para o surgimento de novos sistemas“. De não ser assim, alega, será necessário supor que cada mo­mento cru­cial do processo de transformação cultural seja concomitante - quer como de­cor­rência, quer como causa- a alterações do sistema nervoso cen­tral. Entretanto, acrescenta, quem poderia defender uma tal idéia? A afirmação de Lévi-Bruhl, segundo a qual o homem primitivo tem um modo de pensamento peculiar, obrigaria a concluir que “seu cérebro é dife­rente do nosso?”

Mas utilizar tal “reductio ad absurdum” contra o organicismo pa­vimenta apenas uma parte do caminho. Se, por outro lado, não se pode negar a partici­pação do substrato cerebral, como avaliá-la? “Isso remete também em certa medida a um dos problemas mais difí­ceis: o da localização dos siste­mas psicológicos superiores“. A questão permite duas alternati­vas: supor a existência de um domicí­lio neurológico es­trito para essas funções e respectivos comporta­mentos, de um lado, e, de outro, a possibilidade de que a conduta seja determinada pelas múl­tiplas combinações ofe­recidas graças às diferentes asso­ciações existentes entre as diversas áreas envolvi­das. No pri­meiro caso, se­ria preciso supor a eficácia de um esquema prévio, respon­sável pe­las escolhas pessoais; no segundo, pelo con­trário, as dife­renças individuais seriam construídas externa­mente pela expe­riên­cia e concomitantemente re­gistradas em determinado lo­cus neuro­nal: “Per­mi­tam-me esclarecer isto mediante um esquema, ainda que tosco. Na persona­lidade unem-se formas de compor­tamento que antes estavam divididas entre duas pes­soas: a ordem e a exe­cução; antes ti­nham lu­gar em dois cére­bros, um dos quais agia sobre o outro di­gamos que com a ajuda da palavra. Quando se unem em um cé­rebro te­mos o se­guinte quadro: o ponto A no cérebro não pode alcan­çar o ponto B através de uma co­nexão direta, não se encontra em co­nexão natural com ele. As possí­veis co­nexões entre partes isoladas do cérebro se estabelecem desde fora através do sistema nervoso pe­riférico“[19]. A possibilidade de reapren­der compor­tamentos per­didos por comprometi­mentos cere­brais constituiria um forte argumento a favor da segunda hipótese. Percebemos aqui o leit motiv do inte­resse teórico de Vy­gotsky pela defi­ciência, área onde se poderia fazer a demonstração mais concludente da primazia do social sobre o biológico.

Notar-se-á, por outro lado, mais uma vez, que o argumento anti-neurológico é protagoni­zado pela palavra. Em O significado histó­rico da crise da psi­co­­logia lê-se: “Toda pala­vra é uma teoria; a de­nominação do objeto é o conceito que se lhe aplica”. Sobre os siste­mas psi­cológicos retoma a questão enfatizando agora a importân­cia do conceito: “Conservando a mesma ordem de exposição e seguindo desde os sistemas psicológicos inferiores até a formação de outros de or­dem cada vez mais elevada chegamos àqueles que consti­tuem a chave de todos os processos de desenvolvimento e de desinte­gração, isto é, à formação de conceitos, de funções, que pela pri­meira vez amadurecem e se definem na idade de transição”[20].

Na seqüência, ao analisar “conceito”, Vygotsky vê-se levado a defini-lo através de uma descrição cujo traço marcante é a solida­riedade. O texto evoca a imagem de uma rede implicada na presença de cada malha ou de uma corrente congregando os elos que a com­põem: “(…) torna-se claro que se no plano psicológico o processo de for­mação do conceito consiste na abertura de conexões do objeto em questão com respeito a outros, na concretização de um conjunto real; por outro lado, no conceito evoluído, encontramos todo o con­junto de suas relações, seu lugar no mundo, se cabe essa expressão (…) Quando operamos com cada conceito isolado o essencial consiste em que ao mesmo tempo o fazemos com todo um sistema.”[21]

Talvez baste essa citação para justificar a tradução con­ceito = discurso; tampouco seria ilícita a aproximação entre a descrição vygotskyana de conceito e um dos efeitos derivados da noção lacaniana de cadeia significante, feita a devida ressalva de que a implicação básica desta última ex­pressão, ou seja, a de um assujei­tamento do sujeito ao sig­ni­ficante, está ausente em Vygotsky que, como foi visto, su­bordina a linguagem ao so­cial e con­sidera que seus efeitos se dão na estruturação da consciência.

Percebe-se porque, na con­cepção vygotskyana, a linguagem emerge como o mais importante dos sistemas psicológicos, o sistema por excelência, verdadeiro centro reitor das funções men­tais superiores: a linguagem dependeria do social tanto quanto reve­laria um alto grau de autonomia perante o orgânico. A última supo­sição encontra apoio substan­cial em certos fenômenos patológicos: “Para resumir tudo isto gosta­ria de dizer o seguinte: o estudo dos sistemas e suas funções é ins­trutivo não somente no caso do desen­volvimento e construção dos pro­cessos psíquicos mas tam­bém no caso de sua desintegração. Este es­tudo explica os interessantíssimos pro­cessos de desintegração que obser­vamos na clínica psiquiátrica e que se apresentam sem que desa­pareçam bruscamente certas funções, como por exemplo a fala nos afá­sicos. Isto explica por que alterações tão fortes possam ser produ­zidas por alterações fra­cas no cérebro e ex­plica o paradoxo psicoló­gico de que nas afasias e nas alterações or­gânicas globais do cére­bro se observem alterações psicológicas in­significantes enquanto na esquizofrenia, na psicose reativa, nos de­paramos com uma desordem total do comportamento em comparação com o de uma pessoa adulta”.[22]

Vygotsky procura estabelecer de maneira inequí­voca o contraste exis­tente entre a gravidade das lesões cere­brais e suas repercussões no comportamento. O esqui­zofrênico, ao não comunicar-se com os outros, perderia o contato consigo mesmo. “(…) não so­mente deixa de compreender seus semelhantes e de falar com eles, mas deixa de dirigir-se a si mesmo através da linguagem“. Evi­dentemente, podemos acrescentar, a incomunicabilidade do esquizofrê­nico não re­sulta de qual­quer comprometimento semelhante àqueles que causam a afasia; em todo caso, e ao contrário das síndromes afási­cas, até o momento foi impossível comprovar a hipótese da etiologia orgânica da esquizofrenia. Inver­sa­mente, as perdas do afásico não afetam a vida afe­tiva, por mais que possam impor restrições conside­ráveis em seu quotidiano; seus inter­câmbios interpes­soais permane­cem em essência o que eram antes da doença. No que se refere à esquizo­frenia, Vygotsky dirá ainda que “A desintegração dos sis­temas de per­so­na­li­da­de construídos soci­almente é ou­tro traço da de­sintegração das relações externas, que são re­lações interpsicológi­cas“. Dessa maneira, mesmo que se descobrisse uma dis­fun­ção orgânica na origem da esquizofrenia, para Vygotsky ela atingiria registros neuronais “construídos” e não inatos, mesmo porque o distúrbio pro­mo­ve­ria a “desintegração dos sistemas complexos al­cançados como resul­tado da vida coletiva, a desinte­gração daqueles sistemas de formação mais recente (…) xos sis­temas complexos (…) retor­nando os afetos a um estado primitivo inicial (…)”[23].

2. Vygotsky, Chomsky e Freud

Em suma, numa comparação aggiornata, poder-se-ia dizer que Vy­gotsky atribui ao cérebro o papel de um computador, cujo funciona­mento, porém, dependeria necessariamente dos “pro­gramas” introduzi­dos por via social. (Para Chomsky, o computador já conteria tais programas e a experiência com um determinado meio lingüístico teria o papel de parametrizá-los). A aquisição da linguagem, internalizada graças às relações interpessoais e cuja importância ímpar face às outras “funções psíquicas superiores” já foi considerada, constitui o fenô­meno básico para demonstrar a pertinência dessa posição. Ao contrá­rio de Piaget e Wallon, portanto, há em Vygotsky um anti-biologismo por assim dizer militante.

Graças a isso, sua teoria deixa de resva­lar para um compromisso entre maturação orgânica e fatores cul­turais, bem como elude o lugar comum do enfoque que prisma a in­dividuação pelo ângulo de uma passagem do infantil elementar para a maturidade instrumentalizada. Três décadas depois de Pensamento e Lin­gua­­­gem, entretanto, a vantagem assim obtida será seriamente amea­çada quan­do Chomsky lança as ba­ses de uma teoria da sintaxe que pa­rece simultanea­mente exigir e apoiar o pressuposto da ancoragem da linguagem no substrato cere­bral. O pa­radoxo é que a teoria choms­kyana constitui também, nesse sentido, uma reação contra uma hegemo­nia  -no caso, a behaviorista.

Tudo se passa como se, em ambos os casos,  o poder que os iconoclastas desafiam mudasse de lugar, locali­zando-se em campos simetricamente opostos.  A reflexologia seria como que uma caricatura do prudente organicismo chomskyano tanto como  o behariorismo simplificaria ao extremo o papel do ‘externo’. Não é preciso grande suti­leza para perceber que o papel conferido à cultura difere significativamente quando se passa de Bloomfield e Skinner a Vygotsky, da mesma forma que Pavlov e Chomsky distam consideravel­mente com referência ao que afirmam acerca da relação cérebro-linguagem. As relações interpessoais, em Vygotsky, são cuidadosa­mente pensadas através das práticas educativas e seus efeitos reves­tem-se de uma complexidade incompreensível para quem quisesse restringi-las à ino­culação, via recompensas e pu­nições, de um “comportamento lingüístico” visto pelo prisma do condi­cionamento; correspondentemente, a teoria da sintaxe chomskyana está a anos-luz do “se­gundo sistema de sinais” pavloviano.

Portanto, não seria totalmente absurdo aproximar Vygotsky e Chomsky, pe­lo menos no sentido de que a importância que ambos conferem à lingua­gem constitui a razão da profunda influência que puderam exercer em seus respec­ti­vos campos de atuação. Tal afirmação pode parecer óbvia quando se refere a um lingüista. Entretanto, é pre­ciso lembrar o cenário vigente no meio acadêmico norte-americano quando o autor de Syn­tactic Structures ingressa no debate teórico; na ocasião, a lingüística, principalmente a área da aquisição,  era pou­co mais que


    [1] Os métodos de investigação reflexológicos e psicológicos.[2] [Os métodos de in­vestigação… pgs. 17,18,19][3] Idem, pg. 9.

[4] Idem, pg. 19.

[5] O significado histórico da crise…, pg. 281.

         [6]  [Idem, pgs. 317 e 318, e passim. pgs. 293, 311, 312, 314, 317, 318].

      [7] Gênese das funções psíquicas superio­res, pg. 153.-

    [8] As obras de Wallon e Piaget, apesar de seu mérito inegável, seriam entre­tanto passíveis de uma tal crítica, como se ten­tará demonstrar adiante.

[9] Pg. 7.

[10] Idem, pg. 72.

[11] Idem, pg. 75.

[12] Idem, ibidem.

[13] Idem, pg. 78.

[14] Idem, pg. 76.

          [15] Idem, pg. 72. Ao interesse de Vygotsky pela deficiência física parece ter-se acrescentado, desde então, a consideração da psi­cose enquanto fenômeno cuja investigação teórica poderia trazer resultados inestimáveis. Na relação de seus trabalhos que consta no final de Mind in Society - The development of higher psychological processes, nota-se que o interesse pela psicopatologia permanece intenso. Atestam-no os títulos Toward a Psychology of Schizophrenia de 1932, The study of emo­tions in the light of contemporary psichoneurology, Two direc­tions in the com­prehension of the Nature of Emotions in Foreign Psychology in the beginning of the Twentieth Century, além de Dementia during Pick’s Disease (1934) e sua última palestra, Problems of Development and Destruction of the Higher Psycholo­gical Functions (1934).

[16] Idem, pg. 78.

[17] Idem, pg. 89.

[18] Idem, ibidem.

     [19] Idem, pg. 90.

[20] Idem, pg. 82.

[21] Idem, pg. 83.

[22] Idem, pg. 88.

  [23] Pgs. 86 e 88.

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.