Linguagem e consciência em Vygotsky
Linguagem e consciência em Vygotsky
(2o. capítulo de A Máquina do Fantasma - acesso parcial)
”É indubitável que, no desenvolvimento da criança, existe também um período pré-lingüístico do pensamento e um período pré-intelectual da fala: o pensamento e a palavra não se encontram relacionados por uma relação primária.. (…)
A primeira coisa que qualquer estudo revela é a necessidade de estabelecer a distinção entre dois planos de discurso. Ambos os aspectos da linguagem, tanto o interno, significante, semântico, como o aspecto externo, fonético, têm as suas leis de movimento específicas, embora formem uma verdadeira unidade, mas que é uma unidade complexa e não homogênea“. [Pensamento e Linguagem, Lev S. Vygotsky.]
1. Vygotsky e seu cenário: psicologia, linguagem, epistemologia
Ao contrário do que poderia ser dito em relação às obras de Jean Piaget e Henry Wallon, a expressão psicologia do desenvolvimento aplica-se mal ao trabalho de Lev S. Vygotsky. Se por um lado não há a menor dúvida quanto à similaridade das preocupações em pauta, por outro poder-se-ia recorrer à vastidão de interesses do autor de Pensamento e Linguagem para entender a razão da particularidade que parece distingui-lo de seus pares. Entretanto, verifica-se também, pelo menos em relação aos trabalhos já traduzidos e publicados no ocidente, que à ampla gama de assuntos tratados não corresponde absolutamente um coeficiente de dispersão. A maior e mais importante parte desses trabalhos, mesmo os que aparentemente guardam uma distância recíproca considerável em virtude da temática abordada, relaciona-se de alguma maneira com a evolução e a transformação dos processos mentais da criança. Tampouco a ênfase e o empenho na aplicação prática da pesquisa vai ao ponto de impor um contraste decisivo em relação à atitude oposta de Piaget e Wallon, autores sobretudo teóricos. Tem-se antes a impressão de que a diferença fundamental decorre do fato de que o suíço e o francês avalizam as posições epistemológicas vigentes, balizadas pelo biológico e o ambiental, o inato e o adquirido, enquanto em Vygotsky essa questão é tratada como problema em aberto e não ponto de partida ao qual se adere quer explícita quer tacitamente.-
Tudo se passa como se, em vez de respeitar o Nec plus ultra dos cânones gnosiológicos vigentes e recorrer a eles para enfrentar os eventuais impasses, o psicólogo russo empurrasse incansavelmente os limites epistemológicos convencionais para aumentar o espaço da compreensão teórica. Essa insatisfação com o que considera como conclusões frágeis ou contraditórias dos estudos sobre a psicogênese dos processos mentais e seu arcabouço teórico teria finalmente conduzido Vygotsky a uma análise radical, através da qual se dá a ruptura com a epistemologia subjacente às teorias criticadas. Aqui, o paralelo com Saussure é inevitável. Talvez seja essa a principal razão pela qual sua obra se enquadre mal - tão desconfortavelmente como num leito de Procusto - na rubrica das psicologias do desenvolvimento.
Em outras palavras, não é absurdo conjeturar que Vygotsky elabora uma psicologia do desenvolvimento com um ponto de inflexão que consiste, paradoxalmente, na refutação da própria idéia de desenvolvimento, substituída por noções ainda imprecisas no momento em que começa a desenvolvê-las, mas que certamente decorrem da importância crescente adquirida pela linguagem em relação a outros temas investigados. Se adotarmos um ponto de vista advogado muitas vezes pelo próprio Vygotsky, o de que a culminação de um percurso logiciza a respectiva trajetória através do sentido que lhe imprime retrospectivamente, é lícito considerar, com base em Pensamento e Linguagem, que seu próprio objetivo teórico consistia em elucidar, nada mais nada menos, a considerável problemática subsumida pela noção de consciência, conceito ao qual as correntes psicológicas vinculadas à subjetividade costumam recorrer tão freqüente como acriticamente.
Por intermédio das redefinições analíticas a que submete o problema do objeto em psicologia (principalmente em O significado histórico da crise da psicologia. Uma investigação metodológica), Vygotsky procura introduzir na disciplina em questão um rigor epistemológico compatível com o da filosofia e uma metodologia tão precisa como a das ciências naturais, o que só seria possível mediante o prévio e nítido mapeamento do seu objeto. A insistente pergunta sobre o objeto e o método próprios da psicologia conduz Vygotsky a uma revisão extensa e rigorosa da produção teórica existente - processo no qual revela um grau de informação extremamente amplo.
No texto intitulado O problema da consciência (1933), que recolhe anotações tomadas durante uma reunião de trabalho efetuada no ano anterior à sua morte, ele afirma contundentemente, já na primeira frase, que “Embora a psicologia tenha se auto-definido como a ciência da consciência, seu conhecimento desta é quase nulo“. Tal crítica representa o corolário de uma prolongada análise desenvolvida a partir de 1924, cuja primeira etapa consistiu no enfrentamento da reflexologia.
Efetivamente, a irrupção de Vygotsky no cenário da psicologia soviética, dominada na época pela figura quase lendária de Pavlov, associa-se imediatamente à tomada em consideração da consciência e da palavra, aquela como objeto ineludível e esta como protagonista de uma renovação metodológica não só necessária como imprescindível. O jovem psicólogo, que interpreta a hegemonia da reflexologia como conseqüência de uma maquiagem materialista, dirige seus argumentos precisamente contra essa pretensão, que desautorizaria (a pretexto de idealismo) a existência de uma psicologia cujo objeto de estudo correspondesse à própria denominação.
De fato a situação era mais complexa e a descrição que dela oferece Vygotsky parece fazer jus a seus meandros: ora os reflexólogos refutavam a possibilidade de um estudo objetivo da psique, ora validavam pesquisas baseadas na introspecção na medida em que parecessem confirmar as próprias doutrinas; oscilavam igualmente entre a admissão da ‘coexistência pacífica’ entre as duas disciplinas mas igualmente propendiam à alternativa oposta, isto é, a subordinação da psicologia à reflexologia. Nesse caso, dizia-se, ambas se relacionariam à maneira da superestrutura com sua infra-estrutura.
Já no primeiro texto[1] que resume suas posições iniciais, Vygotsky indica não só o projeto que guiará os trabalhos posteriores mas igualmente antecipa uma das suas idéias fundamentais: a fala (o discurso, a linguagem) é concebida como núcleo da consciência, da identidade e da vida social. Essas postulações, cujo teor extremamente ousado para a época - ou mesmo para nossos dias, pois evocam diretamente a teorização lacaniana - é deveras surpreendente, surpreendem ainda mais pelo vocabulário reflexológico no qual são veiculadas.
Impõe-se uma analogia com a primeira fase da obra freudiana, cujo conteúdo insólito contrastava abertamente com a terminologia da física e da neurologia contemporâneas em que era vazado, embora fosse absolutamente incompatível com essa roupagem. A camisa de força da reflexologia não impede entretanto que o gesto inovador aponte a direção futura. Vygotsky recusa firmemente a divisão da psicologia e advoga, perante os anátemas reflexológicos, a causa da consciência: “Em resumo, duas ciências que possuem o mesmo objeto de análise, o comportamento do homem, que utilizam para estudá-lo os mesmos métodos, continuam, entretanto e apesar de tudo, sendo duas ciências diferentes? (…) A psique não existe fora do comportamento, da mesma forma que este não existe sem aquela“ (…) Não é possível portanto abrir lugar para duas ciências diferentes. E não é preciso ser muito perspicaz para perceber que a psique é essa mesma atividade correlata, que a consciência é uma atividade correlata dentro do próprio organismo, dentro do sistema nervoso: a atividade correlata do corpo humano consigo mesmo… Falemos claramente. Os enigmas da consciência, da psique, não podem ser evitados com subterfúgios, nem metodológicos nem teóricos. Não se pode fazer um rodeio para deixar a consciência de lado” [2]. Concomitantemente, a verbalização é recuperada enquanto recurso metodológico necessário: “Os reflexos não manifestos (fala silenciosa), os reflexos internos, inacessíveis à percepção direta do observador, freqüentemente podem tornar-se manifestos indiretamente, de forma mediada através de reflexos acessíveis à observação a respeito dos quais desempenham o papel de excitantes. Através do reflexo completo (a palavra), estabelecemos a do correspondente excitante… Seria um suicídio para a ciência que, dado o enorme papel que desempenha precisamente a psique -isto é o grupo de reflexos inibidos- na estrutura do comportamento, renunciasse a aceder a ela através de um caminho indireto…”[3] O interesse pela infância já comparece em germe, assinalando o rumo da pesquisa nos anos seguintes: “Em que etapa surgem os traços conscientes dos reflexos, qual é seu significado biológico, são perguntas que precisam ser formuladas, e é preciso preparar-se para respondê-las experimentalmente”.[4]
Entretanto, a abordagem da consciência exigirá de Vygotsky os mesmos rodeios que criticava naqueles que pretendiam escamotear a questão: nesses assuntos, certamente, a linha reta não representa a menor distância entre dois pontos. De fato, se já não nos surpreendemos com que diante do labirinto psicológico todo candidato a Teseu recorra ao fio de Ariadne da palavra, talvez seja preciso notar que nem sempre esta comparece presa ao carretel de um procedimento canônico: “Tudo o que se descreve como fato já é teoria, diz Münsterberg recordando as palavras de Goethe (…) a própria língua encerra os fundamentos e as possibilidades da cognição científica do fato. A palavra é o germe da ciência, e nesse sentido cabe dizer que no princípio da ciência era o verbo.”[5]. (…) Assim é que para a psicologia a interpretação não é somente uma amarga necessidade, senão um modo de conhecimento liberador, essencialmente fecundo, salto vitale que para os maus saltadores se transforma em salto mortal” (…) “Tudo consiste em como interpretar (…)”[6].
Palavra, interpretação; o já evidente paralelismo com a démarche psicanalítica se acentua ainda mais quando em seguida Vygotsky dirige o olhar para a infância. Trata-se de um desdobramento conseqüente, cuja lógica é transparente: em sua crítica à reflexologia, ele mencionara a necessidade e a possibilidade de estudar a consciência pela via mais acessível, ou seja, a ontogenética. A oportunidade de acompanhar o processo de desenvolvimento aferindo passo a passo as modificações que têm lugar durante os primeiros anos de vida contemplaria as exigências metodológicas científicas e prometia conferir a essa noção rarefeita, a consciência, uma substancialidade tão inédita como desejável.
Entretanto, a questão está longe de ser simples: consciência é um conceito que não corresponde diretamente a nenhum fenômeno; pode-se concebê-la como um atributo - uma qualidade - que acompanharia os atos psíquicos, ou nela ver a natureza última da vida mental. No primeiro caso, a imagem correspondente seria a de um rio enquanto corrente que carrega tudo o que cair em seu leito até um certo destino; no segundo, trata-se do próprio rio que se conduz a seu estuário. Essa alternância entre uma concepção instrumental e outra que permanece inquirindo o objeto através das suas cambiantes manifestações lembra uma discussão similar suscitada pela linguagem - e não por acaso.
Seja como for, a consciência, tal como o inconsciente, parece inabordável por via direta. Poder-se-ia decompô-la nas funções psíquicas superiores - atenção, memória, volição, atenção, emoção. O enfoque integrativo de Vygotsky, entretanto, rejeita esta via, à qual debita uma postura inerentemente comparativa e hierarquizante, a partir da qual a infância aparece como a etapa anterior e inferior em relação ao estado adulto: “Apesar de que na formulação geral da ciência sobre a criança já há muito tempo foi descartado o ponto de vista segundo o qual esta se diferencia do adulto unicamente pelas proporções de seu corpo, unicamente pela magnitude, pelas dimensões, esta concepção continua existindo de forma tácita na psicologia infantil (…) mantendo-se (…) de maneira dissimulada, em praticamente todas as investigações psicológicas“[7].-
Dessa visão “adultocêntrica” decorre necessariamente o enfoque evolucionista[8], cujo aspecto preconceituoso é denunciado por identificar a infância com a falta, o negativo, a imaturidade. Em seu lugar Vygotsky propõe, com uma argumentação que lembra a de Lévi-Strauss em relação aos primitivos e a de Freud em relação à vida mental da criança, a valorização desse período tão crucial que sua posteridade poderá ser considerada como decorrência das fundações então assentadas. Subverte-se assim o enfoque hegemônico em psicologia do desenvolvimento, com a substituição da idéia de um progresso gradativo pela noção de ruptura qualitativa.
Entretanto, é inegável, por outro lado, que o evolucionismo segue uma lógica bastante compreensível e coerente, rastreando o surgimento e a consolidação de certos desempenhos que, em sua forma mais acabada, caracterizarão a maturidade. O observável, no comportamento infantil, promove tal enfoque como que “naturalmente”. A infância seria a fase em que o ser humano estaria mais próximo da animalidade e do irracional, e o crescimento - quer se enfatize a maturação orgânica ou a influência cultural como principal motor desse movimento - teria o significado inerente ao processo de humanização.
Chega-se, portanto, a uma aporia: não há acesso direto à consciência, mas a via indireta, mediante o estudo das funções que implicam sua presença, não permite “olhar para trás”, na medida a infância parece supor sua ausência ou precariedade.
“Sobre os sistemas psicológicos” (1930a), conferência pronunciada por Vygotsky em outubro de 1930 na Clínica de Doenças Mentais da 1ª Universidade Estatal de Moscou, retrata o rumo tomado pelo seu autor na tentativa de superar o impasse. O texto mostra um momento de elaboração com todas as hesitações que caracterizam esse estado: “Para mim teria sido mais simples abordar o material a partir de uma perspectiva teórica e não fazer referência às investigações levadas a cabo no laboratório. Mas não posso fazê-lo: não tenho ainda um ponto de vista teórico geral que explique este material, e considero errado teorizar antes de tempo“[9].
Mesmo assim, Vygotsky está longe do marco zero. Entre a consciência psicológica inacessível, de um lado, e de outro as funções “quase-biológicas” como percepção, motricidade, emoção, atenção e memória, cujo estudo em princípio não permite diferenciar o homem de qualquer outro organismo, ele procura, para cumprir o papel de agente catalisador, um conceito menos controverso e mais tangível do que o de consciência, que simultaneamente possa preencher o requisito da especificidade em relação à espécie humana. É bastante revelador, nesse sentido, que preliminarmente o conferencista se ocupe em negar ter omitido a idéia de personalidade em suas investigações. Subseqüentemente, critica a primazia outorgada às funções tomadas isoladamente; quando se estuda o desenvolvimento, afirma, é mais importante prestar atenção às alterações sofridas pelo modo de ligação (integração) entre as funções, do que rastrear as modificações pelas quais passa cada função independente. “Daí que quando se passa de um nível a outro, com freqüência a diferença essencial não consista na transformação intrafuncional, mas nas transformações interfuncionais, as mudanças nos nexos interfuncionais da estrutura interfuncional“[10]
Para exemplificar esse ponto de vista, ele compara a resolução de problemas em crianças e primatas para ilustrar como a percepção é empregada diferentemente por uns e outros. Confrontando as teorias de L. Bühler e W. Köhler, Vygotsky se inclina pela solução deste último, que situa o comportamento animal na esfera sensorial, enquanto a criança “…pode contemplar a situação durante algum tempo e, sabendo o que deve fazer, não age de imediato…”[11]. A conclusão é extremamente significativa: “…o desenvolvimento ulterior da percepção consiste em estabelecer uma complicada síntese com outras funções, concretamente com a da linguagem“[12].
Vemos aqui a linguagem emergir como uma “função” diferenciada, “primus inter pares“, encarregada de integrar as outras, e isso graças à separação que introduz entre percepção e motricidade, que no animal aparecem soldados à maneira de um arco reflexo, que na criança é intermediado pela simbolização.
Entende-se então a razão pela qual Vygotsky atribuirá à linguagem o papel fundamental na construção da personalidade. “Todo signo, se tomarmos sua origem real, é um meio de comunicação e poderíamos dizer, mais amplamente, um meio de conexão de certas funções psíquicas de caráter social. Transportado para nós mesmos, é o próprio meio de união das funções em nós mesmos e conseguiremos demonstrar que sem este signo o cérebro e suas conexões iniciais não poderão transformar-se nas complexas relações em que o fazem graças à linguagem”[13](Idem, pg. 78). Será preciso retornar posteriormente à questão da proeminência da linguagem sobre o substrato cerebral e simultaneamente sua subordinação ao social, tão inequivocamente afirmados nesta passagem.
O que se diz da percepção vale igualmente para a memória. A argumentação de Vygotsky a respeito é tão próxima à usada por Freud para descrever a fantasia, que o leitor desavisado dificilmente deixará de surpreender-se: “Quando pedimos a um adulto que reproduza uma seqüência de 50 palavras pelas imagens que lhe oferecemos, ele passa a estabelecer relações mentais entre o signo, a imagem e aquilo que lembra. Este pensamento não se corresponde em absoluto com o pensamento real do homem, mas é arbitrário; à pessoa não interessa se é ou não exato, verossímil ou inverossímil, o que está lembrando… Nenhum de nós quando lembra pensa alguma vez como faz para resolver o problema. Todos os critérios fundamentais, as conexões, os fatores característicos do pensamento como tal, deformam-se por completo no pensamento orientado para a recordação. Teoricamente deveríamos dizer antes que na recordação se transformam todas as funções do pensamento“.[14]
A escolha dessa perspectiva conduz a uma opção que desde então ocupará um lugar central entre as preocupações de Vygotsky: “recorrerei…ao problema da afasia e ao da esquizofrenia em patologia e ao da idade de transição na psicologia genética“[15]. De fato, se a deformação dos acontecimentos pela memória deixa entrever certas peculiaridades do contato humano com o “real”, a patologia constituirá a prova decisiva da refração imposta pela psique aos estímulos, que pode ir ao ponto de abolir a relação entre sujeito e mundo fenomenal, na medida em que, como acontece na esquizofrenia, fica demonstrada a possibilidade da desintegração do sistema. Tais raciocínios são perfeitamente coerentes com as posições anteriores de Vygotsky e desenvolvem seu projeto de maneira congruente.
Desse ponto em diante, a argumentação se desdobra em duas frentes; de um lado, para descrever a noção de sistema psicológico, conceito destinado a elucidar a progressiva construção da individualidade a partir do processo de internalização das relações interpessoais; de outro, trata-se de impugnar o paralelismo entre substrato nervoso e funções mentais superiores, embora concedendo ao cérebro, em última instância, o papel de condição necessária. As duas citações seguintes podem ilustrar a estratégia e o rumo tomado por Vygotsky nesse momento: “O estudo da gênese destes processos mostra que todo processo volitivo é inicialmente social, coletivo, interpsicológico.,.. A mãe chama a atenção da criança sobre algo; (…) Depois, a própria criança começa a dirigir sua atenção e desempenha com relação a si própria o papel de mãe (…) Um indivíduo ordena e outro obedece. O indivíduo se dá uma ordem e obedece“[16] (…) “Devo rejeitar as idéias defendidas por K. Goldstein e A. Gelb com relação a que toda função psicológica superior guarda uma correlação fisiológica direta tanto com a estrutura fisiológica da função como com sua vertente psicológica (…) mas (eles) têm razão ao considerar que todo sistema psicológico complexo (…) é afinal de contas produto de determinada estrutura cerebral. Não há nada que esteja fora do cérebro“[17]. O problema, então, consistirá em saber “…o que é que corresponde fisiologicamente no cérebro ao pensamento em conceitos“[18]. Adiante, procurar-se-á justificar a idéia de que a expressão “pensamento em conceitos” corresponde à noção de discurso tal como desenvolvida na lingüística da segunda metade do século (Benveniste, por exemplo); se de fato assim for, então o que Vygotsky está efetivamente debatendo é a questão da relação entre cérebro e linguagem. O já mencionado interesse pela esquizofrenia e pela afasia e as perdas lingüísticas ocasionadas por essas patologias pode ser vista como uma confirmação da interpretação acima referida.
Como quer que seja, é indubitável que tais preocupações promovem uma incursão em território epistemológico. Com a finalidade de limitar a importância do fator biológico e enfatizar o papel do social - postura cujas raízes ideológicas parecem evidentes - Vygotsky se empenha em recuperar para a psicologia um vasto território que a reflexologia havia adjudicado à jurisdição neurológica. Para tanto, impugna de imediato a relação direta entre substrato nervoso e comportamento; em seu lugar propõe um quadro em que o cérebro aparece tão só como propiciador de “enormes possibilidades para o surgimento de novos sistemas“. De não ser assim, alega, será necessário supor que cada momento crucial do processo de transformação cultural seja concomitante - quer como decorrência, quer como causa- a alterações do sistema nervoso central. Entretanto, acrescenta, quem poderia defender uma tal idéia? A afirmação de Lévi-Bruhl, segundo a qual o homem primitivo tem um modo de pensamento peculiar, obrigaria a concluir que “seu cérebro é diferente do nosso?”
Mas utilizar tal “reductio ad absurdum” contra o organicismo pavimenta apenas uma parte do caminho. Se, por outro lado, não se pode negar a participação do substrato cerebral, como avaliá-la? “Isso remete também em certa medida a um dos problemas mais difíceis: o da localização dos sistemas psicológicos superiores“. A questão permite duas alternativas: supor a existência de um domicílio neurológico estrito para essas funções e respectivos comportamentos, de um lado, e, de outro, a possibilidade de que a conduta seja determinada pelas múltiplas combinações oferecidas graças às diferentes associações existentes entre as diversas áreas envolvidas. No primeiro caso, seria preciso supor a eficácia de um esquema prévio, responsável pelas escolhas pessoais; no segundo, pelo contrário, as diferenças individuais seriam construídas externamente pela experiência e concomitantemente registradas em determinado locus neuronal: “Permitam-me esclarecer isto mediante um esquema, ainda que tosco. Na personalidade unem-se formas de comportamento que antes estavam divididas entre duas pessoas: a ordem e a execução; antes tinham lugar em dois cérebros, um dos quais agia sobre o outro digamos que com a ajuda da palavra. Quando se unem em um cérebro temos o seguinte quadro: o ponto A no cérebro não pode alcançar o ponto B através de uma conexão direta, não se encontra em conexão natural com ele. As possíveis conexões entre partes isoladas do cérebro se estabelecem desde fora através do sistema nervoso periférico“[19]. A possibilidade de reaprender comportamentos perdidos por comprometimentos cerebrais constituiria um forte argumento a favor da segunda hipótese. Percebemos aqui o leit motiv do interesse teórico de Vygotsky pela deficiência, área onde se poderia fazer a demonstração mais concludente da primazia do social sobre o biológico.
Notar-se-á, por outro lado, mais uma vez, que o argumento anti-neurológico é protagonizado pela palavra. Em O significado histórico da crise da psicologia lê-se: “Toda palavra é uma teoria; a denominação do objeto é o conceito que se lhe aplica”. Sobre os sistemas psicológicos retoma a questão enfatizando agora a importância do conceito: “Conservando a mesma ordem de exposição e seguindo desde os sistemas psicológicos inferiores até a formação de outros de ordem cada vez mais elevada chegamos àqueles que constituem a chave de todos os processos de desenvolvimento e de desintegração, isto é, à formação de conceitos, de funções, que pela primeira vez amadurecem e se definem na idade de transição”[20].
Na seqüência, ao analisar “conceito”, Vygotsky vê-se levado a defini-lo através de uma descrição cujo traço marcante é a solidariedade. O texto evoca a imagem de uma rede implicada na presença de cada malha ou de uma corrente congregando os elos que a compõem: “(…) torna-se claro que se no plano psicológico o processo de formação do conceito consiste na abertura de conexões do objeto em questão com respeito a outros, na concretização de um conjunto real; por outro lado, no conceito evoluído, encontramos todo o conjunto de suas relações, seu lugar no mundo, se cabe essa expressão (…) Quando operamos com cada conceito isolado o essencial consiste em que ao mesmo tempo o fazemos com todo um sistema.”[21]
Talvez baste essa citação para justificar a tradução conceito = discurso; tampouco seria ilícita a aproximação entre a descrição vygotskyana de conceito e um dos efeitos derivados da noção lacaniana de cadeia significante, feita a devida ressalva de que a implicação básica desta última expressão, ou seja, a de um assujeitamento do sujeito ao significante, está ausente em Vygotsky que, como foi visto, subordina a linguagem ao social e considera que seus efeitos se dão na estruturação da consciência.
Percebe-se porque, na concepção vygotskyana, a linguagem emerge como o mais importante dos sistemas psicológicos, o sistema por excelência, verdadeiro centro reitor das funções mentais superiores: a linguagem dependeria do social tanto quanto revelaria um alto grau de autonomia perante o orgânico. A última suposição encontra apoio substancial em certos fenômenos patológicos: “Para resumir tudo isto gostaria de dizer o seguinte: o estudo dos sistemas e suas funções é instrutivo não somente no caso do desenvolvimento e construção dos processos psíquicos mas também no caso de sua desintegração. Este estudo explica os interessantíssimos processos de desintegração que observamos na clínica psiquiátrica e que se apresentam sem que desapareçam bruscamente certas funções, como por exemplo a fala nos afásicos. Isto explica por que alterações tão fortes possam ser produzidas por alterações fracas no cérebro e explica o paradoxo psicológico de que nas afasias e nas alterações orgânicas globais do cérebro se observem alterações psicológicas insignificantes enquanto na esquizofrenia, na psicose reativa, nos deparamos com uma desordem total do comportamento em comparação com o de uma pessoa adulta”.[22]
Vygotsky procura estabelecer de maneira inequívoca o contraste existente entre a gravidade das lesões cerebrais e suas repercussões no comportamento. O esquizofrênico, ao não comunicar-se com os outros, perderia o contato consigo mesmo. “(…) não somente deixa de compreender seus semelhantes e de falar com eles, mas deixa de dirigir-se a si mesmo através da linguagem“. Evidentemente, podemos acrescentar, a incomunicabilidade do esquizofrênico não resulta de qualquer comprometimento semelhante àqueles que causam a afasia; em todo caso, e ao contrário das síndromes afásicas, até o momento foi impossível comprovar a hipótese da etiologia orgânica da esquizofrenia. Inversamente, as perdas do afásico não afetam a vida afetiva, por mais que possam impor restrições consideráveis em seu quotidiano; seus intercâmbios interpessoais permanecem em essência o que eram antes da doença. No que se refere à esquizofrenia, Vygotsky dirá ainda que “A desintegração dos sistemas de personalidade construídos socialmente é outro traço da desintegração das relações externas, que são relações interpsicológicas“. Dessa maneira, mesmo que se descobrisse uma disfunção orgânica na origem da esquizofrenia, para Vygotsky ela atingiria registros neuronais “construídos” e não inatos, mesmo porque o distúrbio promoveria a “desintegração dos sistemas complexos alcançados como resultado da vida coletiva, a desintegração daqueles sistemas de formação mais recente (…) xos sistemas complexos (…) retornando os afetos a um estado primitivo inicial (…)”[23].
2. Vygotsky, Chomsky e Freud
Em suma, numa comparação aggiornata, poder-se-ia dizer que Vygotsky atribui ao cérebro o papel de um computador, cujo funcionamento, porém, dependeria necessariamente dos “programas” introduzidos por via social. (Para Chomsky, o computador já conteria tais programas e a experiência com um determinado meio lingüístico teria o papel de parametrizá-los). A aquisição da linguagem, internalizada graças às relações interpessoais e cuja importância ímpar face às outras “funções psíquicas superiores” já foi considerada, constitui o fenômeno básico para demonstrar a pertinência dessa posição. Ao contrário de Piaget e Wallon, portanto, há em Vygotsky um anti-biologismo por assim dizer militante.
Graças a isso, sua teoria deixa de resvalar para um compromisso entre maturação orgânica e fatores culturais, bem como elude o lugar comum do enfoque que prisma a individuação pelo ângulo de uma passagem do infantil elementar para a maturidade instrumentalizada. Três décadas depois de Pensamento e Linguagem, entretanto, a vantagem assim obtida será seriamente ameaçada quando Chomsky lança as bases de uma teoria da sintaxe que parece simultaneamente exigir e apoiar o pressuposto da ancoragem da linguagem no substrato cerebral. O paradoxo é que a teoria chomskyana constitui também, nesse sentido, uma reação contra uma hegemonia -no caso, a behaviorista.
Tudo se passa como se, em ambos os casos, o poder que os iconoclastas desafiam mudasse de lugar, localizando-se em campos simetricamente opostos. A reflexologia seria como que uma caricatura do prudente organicismo chomskyano tanto como o behariorismo simplificaria ao extremo o papel do ‘externo’. Não é preciso grande sutileza para perceber que o papel conferido à cultura difere significativamente quando se passa de Bloomfield e Skinner a Vygotsky, da mesma forma que Pavlov e Chomsky distam consideravelmente com referência ao que afirmam acerca da relação cérebro-linguagem. As relações interpessoais, em Vygotsky, são cuidadosamente pensadas através das práticas educativas e seus efeitos revestem-se de uma complexidade incompreensível para quem quisesse restringi-las à inoculação, via recompensas e punições, de um “comportamento lingüístico” visto pelo prisma do condicionamento; correspondentemente, a teoria da sintaxe chomskyana está a anos-luz do “segundo sistema de sinais” pavloviano.
Portanto, não seria totalmente absurdo aproximar Vygotsky e Chomsky, pelo menos no sentido de que a importância que ambos conferem à linguagem constitui a razão da profunda influência que puderam exercer em seus respectivos campos de atuação. Tal afirmação pode parecer óbvia quando se refere a um lingüista. Entretanto, é preciso lembrar o cenário vigente no meio acadêmico norte-americano quando o autor de Syntactic Structures ingressa no debate teórico; na ocasião, a lingüística, principalmente a área da aquisição, era pouco mais que
[1] Os métodos de investigação reflexológicos e psicológicos.[2] [Os métodos de investigação… pgs. 17,18,19][3] Idem, pg. 9.
[4] Idem, pg. 19.
[5] O significado histórico da crise…, pg. 281.
[6] [Idem, pgs. 317 e 318, e passim. pgs. 293, 311, 312, 314, 317, 318].
[7] Gênese das funções psíquicas superiores, pg. 153.-
[8] As obras de Wallon e Piaget, apesar de seu mérito inegável, seriam entretanto passíveis de uma tal crítica, como se tentará demonstrar adiante.
[9] Pg. 7.
[10] Idem, pg. 72.
[11] Idem, pg. 75.
[12] Idem, ibidem.
[13] Idem, pg. 78.
[14] Idem, pg. 76.
[15] Idem, pg. 72. Ao interesse de Vygotsky pela deficiência física parece ter-se acrescentado, desde então, a consideração da psicose enquanto fenômeno cuja investigação teórica poderia trazer resultados inestimáveis. Na relação de seus trabalhos que consta no final de Mind in Society - The development of higher psychological processes, nota-se que o interesse pela psicopatologia permanece intenso. Atestam-no os títulos Toward a Psychology of Schizophrenia de 1932, The study of emotions in the light of contemporary psichoneurology, Two directions in the comprehension of the Nature of Emotions in Foreign Psychology in the beginning of the Twentieth Century, além de Dementia during Pick’s Disease (1934) e sua última palestra, Problems of Development and Destruction of the Higher Psychological Functions (1934).
[16] Idem, pg. 78.
[17] Idem, pg. 89.
[18] Idem, ibidem.
[19] Idem, pg. 90.
[20] Idem, pg. 82.
[21] Idem, pg. 83.
[22] Idem, pg. 88.
[23] Pgs. 86 e 88.
