Chomsky e o inatismo

 

Chomsky e o inatismo

(Primeiro capítulo de A máquina do fantasma - acesso parcial)

Portanto, gostaríamos de saber como as pessoas que adquiriram uma língua utilizam o seu conhecimento para compreender o que ouvem e expressar os seus pensamentos. No presente ciclo de conferências tratei do aspecto preceptivo dessa questão. Mas não disse nada até agora sobre o aspecto da produção, que chamei de “o problema de Descartes”, problema colocado pelo aspecto criativo do uso da linguagem, um fenômeno normal e corriqueiro, mas mesmo assim notável (…) O problema de Descartes, porém, suscita outras questões que vão além de tudo o que já discutimos“. [Noam Chomsky, Manágua Lectures.]

1. Chomsky vs Skinner ou inato vs adquirido

A palavra “revolução” de tal maneira se incorporou ao vocabu­lário das apresentações e intro­duções da obra de Chomsky que já deixou de ser um indício de adesão para representar cada vez mais algo próximo da constatação quase obrigatória. E, de fato, tudo leva a crer que tal juízo de valor tenha sua razão de ser. Pode-se dizer que Syntactic Structures (1957) já inaugura uma reação contra a concepção de linguagem então dominante - sobretudo nos Estados Unidos mas cer­tamente não restrita a esse país- e caracterizada principalmente pela adoção de postulados tomados de empréstimo á doutrina behavio­rista da aprendizagem, acrescidos de um enfoque funcionalista predo­mi­nante na teoria da co­municação.

Uma tal influência sobre a lingüística não era meramente exercida a distância; B. F. Skinner abordou o tema dire­tamente em Verbal Behaviour, publicado em 1957, que reúne trabalhos escritos ao longo de um razoável tempo de elaboração (desde meados da década de 30). Com esse livro, o expoente da psicologia comporta­mental empenhava um prestígio considerável na ambiciosa empreitada de anexar o território lingüístico, verdadeiro teste para o poder explicativo da sua teoria. Tratava-se de tomar a úl­tima cidadela importante do racionalismo - de­signável pela expressão “função simbólica”-  para decidir o rumo do conflito epistemológico  - espécie de guerra dos dois mil e quinhen­tos anos-   entre os descendentes de Platão e Aristóteles.

A ocasião se afigurava mais do que propícia. O behaviorismo cons­truíra laboriosamente suas posições através de um trabalho experimental considerá­vel, amadurecido durante as três dé­cadas anteriores, com resultados face aos quais pou­cos conseguiram manter-se indiferen­tes: as implicações, afinal de contas, nunca foram escondidas e abrangiam tanto os fundamentos da conduta individual - ads­critos ao condicionamento - como uma concepção de cultura coe­rentemente definida em termos de controle externo[1]. Escolhido um tal percurso, a tra­jetória seguida pela cruzada ambientalista in­cursiona inevitavelmente em te­rritório sob jurisdição fi­losófica, o que ex­plica a considerável polêmica ex­tramuros susci­tada pelos ino­centes ra­tos al­binos apertadores de barra.

O tom ca­te­górico e com­promissado de Verbal Behaviour mostra que Skinner, como sem­pre, assu­miu resolu­tamente os riscos da aven­tura. Os conhe­­cidos con­ceitos do arsenal behaviorista -‘estímulo’, ‘resposta’, ‘privação’, ‘re­forço’ e sobretudo, no caso do comportamento simbólico,  ‘generalização’- fo­ram convocados para dar conta da aqui­sição e do emprego da linguagem no quadro geral de uma teoria da aprendizagem. Cabem poucas dúvi­das quanto ao prin­cipal objetivo da empresa: de qualquer forma, não poderia deixar de incluir a de­monstração de que a fala deve ser en­tendida como qualquer outro ato não reflexo, ficando sujeita portanto a uma probabilidade fu­tura de ocorrência regida pe­los efeitos da estimulação prévia sobre o organismo[2].

Essa hipótese, por sua vez, se com­pro­vada, não pode­ria senão es­tar destinada a de­cretar um desequilí­brio fundamen­tal no acir­rado e até então in­de­finido debate epistemológico. O êxito do esforço reducio­nista seria ne­cessariamente coroado pela ex­tinção da fron­teira dis­tintiva entre o homo loquens e as demais criaturas da natu­reza, dan­do ganho de causa à tese segundo a qual o meio seleciona o comportamento, nu­ma espécie de transposição da ló­gica evolucio­nista. O aval de Darwin -invocado constante­mente- tinha a vantagem suplementar de impingir aos ad­versários o ônus de uma anacrônica postura meta­física[3]. Aliás, a apropriação dos presti­giosos emble­mas científicos pelo behavio­rismo constituiu talvez uma das razões mais fortes para expli­car a receptividade obtida nos meios acadêmicos e a influência exercida mesmo sobre teorias to­talmente incompatíveis -como, por exemplo, a psi­canálise, que em sua versão norte-ameri­cana acatou parcialmente o enfoque comportamental.

Chomsky não perdeu a oportunidade e fez suas primeiras ar­mas num duelo em que mediu forças com o consagrado teórico da cor­rente hegemônica em psicologia. Retrospectivamente, o embate pode ser conside­rado como a batalha de Poitiers do racionalismo; o avanço po­siti­vista foi finalmente detido. Na ocasião, as dimensões do em­preendimento skinneriano, o al­cance do que estava em jogo e o sur­preendente resultado ofuscaram a constatação de que um certo des­gaste, lento mas in­cessante, já produzia seus efeitos sobre o ambien­talismo. Esse ines­perado refluxo que teve como conseqüência mais evidente a perda de influência do behaviorismo e o ostracismo das posições gno­siológicas nas quais se apoiava, talvez possa ser melhor compreendido con­tra o pano de fundo dos crescentes avanços feitos pelas teorias fun­dadas sobre o eixo da signifi­cação[4]. Independente­mente de ou­tras conside­rações, não é im­provável que escrevendo A Review of B. F. Skinner’s Verbal Beha­viour, o jovem paladino tenha solidificado suas po­sições teóricas, além de construir todo um con­junto de argumentos que desde então farão parte inse­parável dos fu­tu­ros arrazoados.

Uma tema comum subjaz às críticas veiculadas por Chomsky na referida resenha, particulamente em sua análise dos conceitos de reforço e pri­vação. Trata-se da questão da motivação. Para os adeptos da teoria do re­forço, o organismo age em função de um estado de carência atribuí­vel em úl­tima instância ao desequilíbrio orgâ­nico. Os estímulos aversi­vos (ou reforçadores negativos) sempre indicam alguma espécie de pri­vação. Portanto, não im­porta quão longa seja a cadeia de verbali­zações, o psicólogo comportamenta­lista confia na presença de uma fi­nalidade reitora ine­lutável, a saber, a redução senão extinção da esti­mulação aver­siva vigente ou, o que vem a dar no mesmo, a produção de uma situação positivamente refor­çadora. Chomsky percebe a vulne­rabilidade extrema desse pres­suposto e propõe exem­plos embaraçado­res. Desde a análise de enunciados como “passe-me o sal, por fa­vor” até a existência de árduos traba­lhos de pesquisa acadêmica que atestariam uma relação custo-benefício (em termos da teoria do reforçamento) altamente prejudicial ao autor, o lingüista es­colhe suas ilus­trações entre o quotidiano mais banal e o campo da criatividade auto-motivada para abalar uma das colunas mes­tras da doutrina behavio­rista, a relação privação-reforço[5].

Obviamente, o universo do comportamento lingüístico  - mesmo se definido estritamente em termos de conduta verbal - desafia cons­tantemente enfoques guiados pela noção de condicionamento. Sem ir mais longe, a previsibilidade, “prova documental” do controle ex­terno, é impraticável até em situações totalmente estereotipadas (os protocolos mais rígidos podem ser perfeitamente transgredidos) e, por outro lado, a noção de privação perde totalmente o sentido quando aplicada a diálogos, tanto triviais como significativos.

Por outro lado, mais importante ainda, a redução de linguagem a comportamento - em termos genéricos - faz com que Skinner passe por alto as propriedades mais específicas do signo. Por não levar em conta o aspecto sintático dos enunciados - as exi­gências subja­centes à concatenação das “partes do discurso”- o autor de Verbal Beha­viour desconsidera o contraste entre a complexidade das condições imprescindí­veis à construção da mais ele­mentar das sentenças e a surpreendente rapidez com que a cri­ança ad­quire a língua materna. Poupa-se, assim, uma perplexidade de ou­tra maneira inevitável. Não surpreende então que  o acesso infantil ao universo simbólico permaneça idêntico a qual­quer outro pro­cesso de aprendizagem, submetido à mesma ins­tância deci­siva das recompensas e punições, agenciadas por pais interessa­dos num melhor controle da progênie. Atualmente, duas ou três déca­das após o auge do prestígio al­cançado pelo comportamenta­lismo, torna-se di­fícil entender as razões da sua populari­dade. Ainda não decor­reu o tempo suficiente para uma avaliação mais ponde­rada das contri­buições skinnerianas, mas é provável que o au­tor de Walden II venha a ser saudado pela de­monstração involuntária, via reduc­tio ad ab­surdum, da impos­sibilidade de outorgar ao ambiente o papel de fator ab­soluto.

Entretanto, talvez a escola behaviorista faça jus a outro mérito, de natureza bastante di­versa. Poucas vezes uma corrente me­todológica foi tão coerente e radical a ponto de sustentar suas hi­póteses até as últimas conseqüências. De fato, Skinner professou abertamente o positivismo ambientalista compatível com o seu enfoque. Pode-se dizer que Chomsky é igualmente conseqüente e radical na adoção de uma posição epistemológica situada nos antí­podas do am­bientalismo, embora igualmente positivista.

Pois não há outra maneira de focalizar o inatismo chomskyano, ad­vogado com veemência similar. Para o lingüista norte-americano, trata-se da única alternativa capaz de fazer frente às teorias da aprendiza­gem. Por outro lado, Chomsky admite sem reservas que a rede de cir­cuitos neuronais, através dos quais se materializaria a “faculdade da lin­guagem”, permanece uma su­posição, mesmo se em seu entender ab­solutamente necessária[6]. Não será inútil descrever o dilema entre o inato e o adquirido, quer na versão da incompatibilidade, quer incluindo a possibilidade de uma conciliação entre ambos os fatores[7].

“Inatismo” é, evidentemente, um termo suficientemente gené­rico para prestar-se a várias in­terpretações e pode facilmente, quando usado com essa finalidade precípua por adversários declara­dos, dar lugar a descrições de teor pejorativo. Como diz Mitsou Ro­nat, “…antes de recu­sar o inatismo, seria preciso responder a várias questões: - O que Chomsky entende realmente por “inatismo”? Que me­lhor hipótese poderia ser proposta para dar uma explicação do que o levou a postular o inatismo? Em que medida a “teoria de que se fala” seria modificada se o inatismo fosse verdadeiro? Etc.“[8]

Poder-se-ia perguntar também, aproveitando o “etcétera”, em que medida a teoria chomskyana seria modificada se o inatismo caducasse” ou se a alternati­va interno/externo deixasse de consti­tuir o único enquadramento possível pa­ra essa questão.

Em princípio, as críticas formuladas a Skinner e aos estru­turalistas americanos podem constituir um bom ponto de partida para tomar contato com a argumentação inatista chomskyana. Tais críticas são complementares como, de certa maneira, o são o behaviorismo e o descritivismo de Zellig Harris. Harris, que orientou os primeiros passos de Chomsky em lingüística, considera a lingua­gem como uma somatória de mecanis­mos frouxamente articulados en­tre si, cuja integração se daria muito mais em obediência às exigên­cias funcio­nais de cada cultura em particular. Essa posição relativista apóia-se nas dife­renças existentes entre famílias lingüísticas tão distantes como a indo-eu­ropéia e a amerín­dia.

A essa concepção Chomsky opõe a noção de uma faculdade simbó­lica inerente à condição humana e portanto univer­sal, desdobrável em dois níveis, um observável (desempenho) e outro simulta­neamente profundo e complexo (competência). O último forneceria as condições de pos­sibilidade ao primeiro e seria refratário à metodologia indutiva. Compreende-se então por que a lingüística se presta admiravelmente ao papel de sediar a liça entre os tradicionais e irreconciliáveis pon­tos de vista representados em teoria do conheci­mento (empirismo vs racionalismo): é que nessa ciência a questão se co­loca de imediato. A perspectiva assumida quanto à natureza do objeto é responsável pela definição do próprio objeto[9], com as devidas implicações epistemológicas e metodológicas.

2. Chomsky e Saussure ou a busca dos universais

A estratégia de Chomsky guarda uma notável se­melhança com a decisão saussureana de romper com a tradição comparatista dominante nos estudos de gramática his­tórica e filologia. Sabe-se que a célebre dis­tinção entre os eixos diacrônico e sincrônico decorre diretamente do esforço de depu­ração destinado a traçar o contorno definido da nova disciplina[10]. Chomsky, que não desautoriza o estudo da linguagem pelo prisma social, repete não obstante o gesto de restringir delibera­damente o campo da in­ves­tigação, circunscrevendo-o à dimensão sintá­tica, cuja autonomia fica assim proclamada [11].

Tal como Saussure privilegia a língua e ao fazê-lo implicita­mente pretere a questão da diversidade dos idiomas para concentrar-se nos universais do sistema, estrutura abstrata onde as relações valem mais que os termos, Chomsky preco­niza a inquirição vertical - de preferên­cia em relação à língua materna - para atingir igualmente a dimensão onde se situam os invariantes.

As razões são similares; privilegia-se o estabelecimento dos princípios, ou seja, a distinção do que é imprescindível à existência e ao funcionamento da língua - de toda e qualquer língua. Chomsky considera que uma vez construída a fonologia científica, teste rigoroso no qual foi aprovada a supo­sição da existência de uma estrutura universal, o passo seguinte é a formalização da mecânica sintática. A natureza da proposta exige preliminarmente a dis­secação de um idioma particular; os achados serão poste­riormente comparados com os de seus con­gêneres. O objetivo é encontrar uma estrutura comum subjacente a todos os idiomas humanos existentes e possíveis.

É interessante notar que a suposição da existência de um idioma ancestral, tronco comum de todas as ramificações lingüísticas posteriores (objeto da gramática histórica, corrente que dominou a lingüística no século XIX), cede lugar à idéia de uma estrutura única, subjacente à enorme diversidade vernacular (estruturalismo saussuriano, gramática gerativa choskyana).-

Um dos primeiros re­sultados dessa interrogação radical con­siste na aferição de que as gramáticas tradicionais não possuem re­gras para dar conta da aceita­bilidade ou não de inúmeras frases, enquanto a intuição do falante permite-lhe distinguir as inteligí­veis daquelas que não fa­zem sentido. Em seguida, constata-se que a compreensão ou incompreensão por parte do ouvinte independem da se­mântica, mas encontram-se subordina­das à seqüência em que estão ordena­das as palavras, ou seja, à ordem sintática; uma frase pode ser semantica­mente ab­surda e mesmo assim conservar pleno sentido, en­quanto outra, se a ordem dos termos não obedecer à hierarquia de constituintes, será ininteligível.

Talvez bastem esses achados elementares para abalar irremedia­velmente a base lógica das teorias da aprendizagem. De fato, na terminologia behaviorista, o verbo “apren­der” está vin­culado ao exercício do controle so­bre infor­mações (ou estímulos). A única alternativa possível, segundo essa definição de aprendiza­gem, seria pensar a aquisição de linguagem como análoga a um processo de con­dicionamento suposto idêntico ao efe­tuado com animais não humanos. Se, entretanto, a criança é capaz de proferir enun­ciados sintaticamente organizados muito antes de poder estudar gra­mática, se o adulto fala sem precisar preocupar-se com o ar­ca­bouço fonoló­gico e sintático subjacente, se pais analfabe­tos ou so­ciedades ágra­fas não so­frem de qualquer desvantagem que im­plique em algum dé­ficit na transmissão, expressão ou co­municação, impõe-se a constatação de que a aquisição da linguagem constitui um pro­cesso para o qual a palavra ‘aprendizagem’ constitui uma descrição totalmente inade­quada.

Talvez a confusão entre sintaxe e léxico constitua um dos principais motivos do entusiasmo despertado pelas expe­riências de ensino da linguagem a chimpanzés e gorilas; se a semântica for definida pela associação entre sons (ou gestos) e objetos (ações, qualidades), e se a linguagem puder ser reduzida a essa definição de semântica, então de fato caberia admitir que os primatas “falam”.

O fa­tor apren­dizagem, cer­tamente presente em tal domínio, parece res­tringir-se ao nível mais superficial da aquisição -isto é, o lé­xico, ou seja, o as­pecto no­minal e designativo da linguagem, que de fato estará obriga­toriamente vincu­lado à experiência particular do adquirente numa determinada comunidade lingüística. Na perspectiva chomskyana, é possível afirmar categoricamente que a sintaxe se reveste de impor­tância fundamental, enquanto o léxico (a semântica referencial) constitui um nível lingüístico secundário. Em conseqüência, perderia toda impor­tância o argumento segundo o qual o fato de que a criança fala o idioma de sua comuni­dade lingüística comprova o caráter ambiental da aquisição.

Diante dessas constatações, restaria talvez um último argu­mento para os defensores da tese ambientalista: a aprendizagem se daria por generalização a partir da amostragem fornecida pelos adultos. Chomsky opõe a isso a afirmação de que a fala quotidiana dificil­mente cons­tituiria um bom modelo para tanto, já que se compõe muito freqüentemente de frases inconclusas e enunciados truncados. A gene­ralização pode constituir um conceito explicativo útil apenas quando se ob­serva um grau de proporcionalidade razoável entre o pa­râmetro ori­ginal e o de­rivado. Entretanto, percebe-se facilmente que a fala de qualquer indivíduo contem um número ínfimo de repe­tições e con­siste basicamente de proferimentos inéditos, enquanto re­ciproca­mente é-se capaz de compreender frases nunca ouvidas ante­riormente ou mesmo aquelas integradas por algumas palavras desconhe­cidas, ainda que no último caso esse en­ten­dimento se restrinja ao sentido gené­rico.

Chomsky recorre a uma constatação que con­traria frontalmente o princípio básico da argumentação ambienta­lista: a criatividade. Os aspectos repetiti­vos do discurso indivi­dual são estatisticamente tão insignifi­cantes como, no caso do vocabulário, as onomatopéias e inter­jeições. Assim, quem quisesse defender a tese de uma origem mo­tivada da linguagem (imitação de sons da natu­reza, por exemplo), precisa­ria, da mesma maneira que os teóricos da aprendiza­gem, enfrentar o problema da enorme dis­crepância existente entre a riqueza da língua e essas exíguas ma­trizes origi­nais das quais su­postamente ter-se-ia originado.

Seriam esses argumentos conclusivos? A interrogação pode ser encaminhada por uma via aparentemente mais sólida indagando sobre o grau de receptividade alcançado e o interesse despertado pela gra­mática gerativa na comunidade acadêmica - sem deixar de lembrar que se trata de um crité­rio igualmente controverso. Mas, apesar de tudo, e embora a indefinição permaneça, é possível chegar a certo consenso em re­lação a alguns aspectos.

3. Alcances e limitações do chomskysmo

Pode-se dizer a esse respeito que a gramática gerativa alcan­çou uma aceitabilidade relativamente alta. Mesmo se não imune a crí­ticas, parece constituir o enfoque mais promissor e se desco­nhece qualquer abordagem alternativa com reconhecimento semelhante no que se refere à sin­taxe. Tampouco são oferecidas objeções de peso com relação à fina­lidade declarada de descobrir os prin­cípios, leis e regras que operam sob a “estrutura superfi­cial” do discurso. A avaliação tende a ser espe­cialmente positiva em relação aos fenômenos intrín­secos evi­denciados pela pesquisa desenvolvida por Chomsky e seus co­laboradores. As­sim, a postulação de que a sentença é consti­tuída por sub-uni­da­des (sintagmas) alta­mente or­ganizadas, cujos constituintes só poderiam ser deslocados conjuntamente, as hipóteses relativas a mo­vimentos que explicariam transformações subjacentes à formação das frases in­ter­rogativa, nega­tiva, passiva e reflexiva, a análise do mecanismo das anáforas, en­tre outros, ilustram adequadamente a preo­cupação dos gerativistas com a explicitação de regras rara ou preca­riamente in­vestigadas an­teriormente pelas gramáticas tradicionais.

Em compensação, a idéia de que a complexidade das operações sintáticas exige o corolário do inatismo é amplamente contestada. Em seus livros menos técnicos, Chomsky dedica uma boa parte (geralmente os capítulos finais) à consideração de tais críticas. A proveniên­cia das mesmas não se restringe aos defensores do empirismo; mesmo en­tre os racionalistas a discordância é patente, princi­palmente no que se refere à afirmação que apresenta o substrato cerebral como a sede da linguagem. Finalmente, os próprios adeptos do gerativismo manifestam dúvidas quanto à premência de uma decisão a esse res­peito, quando inúmeros as­pectos da questão permanecem irresolutos e não se vislumbram procedimentos através dos quais possa ser testada a validade da postulação nativista. Por outro lado, como já foi visto, o próprio Chomsky admite o caráter puramente dedutivo dos ar­gumentos favoráveis ao inatismo, cuja plausibilidade residiria principalmente no argumento de que constituiria  a  única alternativa diante das diversas formas de ambientalismo exis­tentes. O racionalismo chomskyano aparece, pois, como uma modifi­cação das formas anteriores em que se expressou essa posição episte­mo­ló­gi­ca; na nova concepção, por assim dizer atualizada, “cérebro” substitui “es­píri­to” e/ou “mente” enquanto a expressão “orgão mental” afirma que, se cada parte do corpo tem uma fun­ção, então caberia às células do córtex sediar a simbolização.

(Entretanto, como se procurará demonstrar adiante, o papel do substrato cerebral pode ser concebido de forma mais restritiva; por exemplo, com base na analogia de um arquivo de informações cujas características seriam muito semelhantes às de um computador, ressalvadas as devidas proporções quanto à complexidade. Essa espécie de memória - por mais sofisticados que sejam seus mecanismos - diferiria consideravelmente da noção de um órgão produtor de linguagem. A diferença entre as dimensões  do córtex  humano e o dos primatas não parece capaz de justificar a atribuição da produção lingüística ao substrato cerebral. O exemplo de certas patologias, como o autismo e a esquizofrenia, nas quais convivem a integridade funcional do órgão e a ausência de comportamento lingüístico, parece demonstrar que ao córtex cerebral pode ser adscrito o papel de “condição necessária mas não suficiente”. Resta, é claro, saber o que significa nesse caso “condição necessária” e quais seriam as hipóteses relativas à “condição suficiente”).

Um reducionismo tão extremo não poderia deixar de suscitar re­servas. Chomsky se justifica constantemente quanto ao teor de sua hipótese e para tanto recorre a argumentos que podem ser assim resu­midos: 1) Uma certa participação do meio se faz necessária para que a faculdade simbólica se concretize efetivamente e 2) As predispo­sições lingüísticas mencionadas, não de­vem, obviamente, ser entendi­das no sentido de um conhecimento específico de determinada língua ou gramática, mas sim abstratamente, enquanto posse de uma potencialidade, a qual, di­ante de alguns poucos dados colocados à disposição (”pobreza de estímulo”), resultará na rá­pida elaboração de uma com­petência (teoria gramatical) com relação à língua em questão.

O meio recupera, dessa maneira, alguma importância, mas não há dúvida que a ênfase per­manece situada no componente interno. Em um artigo em que comenta as contribuições de Eric Lenneberg ao estudo das relações entre linguagem e organismo, (”Sobre la base bioló­gica de las capacidades lin­güís­ticas”), Chomsky afirma sem reservas que “O que muitos lingüistas denominam “gramática universal” pode ser considerado como uma teoria de mecanismos inatos, uma matriz biológica subjacente que proporciona um quadro no âmbito do qual se daria o desenvolvimento da linguagem (…) Os princípios propostos para a gramática universal podem ser considerados como uma especificação abstrata e parcial do programa genético que permite à criança interpretar determinados acontecimentos como experiência linguística e construir com base na mesma um sistema de regras e princípios“[12]). Mas, simultaneamente, admite que em comparação com os físicos, dedicados a processos cuja materialidade é um dado pri­mário, os lingüistas se ocupam “(…) das condições abstratas que devem ser explicadas por mecanismos desconhecidos. Poderíamos, por outro lado, sugerir esses mecanismos, mas sabemos que não seria o caso de fazê-lo visto nossa atual ignorância com relação ao funcionamento cerebral“[13]. As perspectivas, nesse terreno, também não são muito animadoras: “Há muitos obstáculos ao progresso no estudo da base biológica das capacidades lingüísticas humanas, entre as quais a impossibilidade de efetuar experimentos diretos com seres humanos para responder às muitas perguntas existentes“[14].

Ter-se-ia chegado, portanto, a um impasse. A argumentação pa­rece suficiente para refutar ou pelo menos comprometer seriamente as te­ses sustentadas pelas diversas teorias da aprendiza­gem sem, entretanto, conseguir ser convincentes a ponto de poder substitui-las pelos próprios pontos de vista chomskyanos. Mas há algo além, e trata-se de uma questão cru­cial: refletindo sobre a propriedade da criatividade, o lingüista norte-americano é como que conduzido a questionar os próprios fato­res que habitualmente invoca.

“O fato é que, até onde posso ver, simplesmente carecemos de uma compreensão razoável do problema geral da autonomia. Menciono o fato para distinguir o mistério relacionado ao aspecto criativo do uso da língua dos difíceis mas ainda inteligíveis problemas que surgem na investigação relativa ao alcance ilimitado da gramática e do conhecimento humano em geral”[15].

Com efeito, parece haver uma con­tradição entre a postulação de que um dado comportamento é regido por estrutu­ras orgâni­cas e a constatação de sua im­previsibilidade.  Muito freqüentemente Chomsky argumenta em favor do inatismo fazendo apelo à analogia entre certas funções or­gânicas - como a da visão e a da ambulação - e o comportamento simbólico. Mas a criatividade inerente à fala parece incompatível com essa so­lução, já que a variação possível em fisiologia é mínima (salvo pa­tologia), enquanto o conceito de criatividade (absolutamente não patológico) atesta por si só a ilimitada gama de ações desencadeadas a partir do emprego de signos.

Cabe suspeitar que mediante tal constatação a teoria choms­kyana se aproxima de um ponto de inflexão. É plausível que ao impasse an­teriormente citado, decorrente da impossibilidade de demonstrar di­retamente a ancoragem cerebral da linguagem, se acrescente agora um ele­mento de questiona­mento em relação à pró­pria abrangência da hipó­tese ina­tista, pelo menos na medida em que esta é indissociável da postulação de um substrato orgâ­nico.

Essa análise parece confirmada quando se consideram as afir­mações feitas pelo próprio Chomsky com relação à função da lin­guagem. Coerentemente, ele recusa a idéia de que “…a função da linguagem é a comunicação, que sua ‘finalidade essencial’ é permitir que as pessoas se comuniquem entre si“[16]. Um raciocínio semelhante é empre­gado para impugnar outras definições teleológi­cas: “Pode-se dizer o mesmo da ideéia de que a finalidade essencial da linguagem é alcançar certos fins instrumentais, satisfazer necessidades ou algo semelhante“. Finalmente, a própria idéia de que a linguagem serve ao pensamento é questionada (”é dificil dizer o que seria “a finalidade” da linguagem, a exceção talvez de expresssar o pensamento, mas trata-se igualmente de uma afirmação bastante vaga“). Resta uma constatação marcada pelo relativismo: “As funções da linguagem são muitas. Não fica claro o que se quer dizer com a declaração de que algumas delas são ‘centrais’ ou ‘essenciais’ ” [17].

Os comentários acima citados são obviamente incon­ciliáveis com o argumento mais usado por Chomsky em defesa do ina­tismo; de fato, a existência de um órgão, em termos biológicos, sem­pre (ou quase sempre; há órgãos tidos como resquiciais) denota o cumprimento de uma determinada função (ou funções). Conseqüente­mente, um comportamento cuja fun­ção desafia as definições só pode empurrar a expressão “órgão mental” para uma região conceitual metafórica. Chomsky mostra-se atento às derivações da questão e preocupado em evitar o que poderia ser cha­mado de “perigo metafí­sico”: “Podemos falar do estudo abstrato das capacidades intelectuais humanas e de seu funcionamento como o estudo da mente, sem por isso autorizar a dedução de que existe uma res cogitans como ‘segunda substancia’ separada do corpo”. E como que exorci­zando o fantasma da “segunda substância”, ele acrescenta em seguida: “Podemos também tentar investigar as bases físicas da mente até onde isso fôr possível”[18].

Entretanto, há boas razões para crer que a “assombração” da “segunda substância” não pôde ser expulsa do cenário com uma mera declaração de fidelidade aos princípios consagrados pela teoria do conhecimento, embora as res­trições mencionadas lhe dêem uma forma conceitual aparentemente mais aceitável. Assim, a “res cogitans” cartesiana passa pela mesma transformação que já metamorfose­ara espírito em mente e mente em cérebro; correspondentemente, a noção de incons­ciente ganha vulto na argumen­tação do lingüista. Em compensação, passa a constituir-se no novo alvo dos críticos, o que não deixa de ser revelador.

Em Language and Mind, um texto de síntese relativamente antigo (1968), ti­do por Lyons (em l970) como “sem comparação a mais clara apresen­tação da filosofia da linguagem de Chomsky, depa­ramos com uma sé­rie de menções ao inconsciente -em função adjetiva. “Esta percepção re­pre­senta algumas de suas conclusões (em geral incons­cientes) sobre o estímulo“[19] (…) “O falante nativo os inter­preta instantânea e uniformemente, de acordo com princípios estrutu­rais que são conheci­dos de maneira tá­cita, intuitiva e inconsciente“[20] (…) “Podemos empregar o termo gramática de uma língua ambi­guamente, com referên­cia não apenas ao conhecimento internalizado e subconsciente do fa­lante (…)”.[21]

Por outro lado, há uma conotação ligeiramente diferente na frase “O conhecimento, em grande parte além do consciente imediato, é rico em estrutura, envolve universais e é altamente organizado“[22], na medida em que a palavra consciente aparece em forma substantiva, embora esteja particularizando “conhecimen­to”. Seria o caso de perguntar acerca da presença nocional de um “inconscien­te lingüístico” em Chomsky, tal como em Lévi-Strauss seria possível discernir um “inconsciente cognitivo”, subjacente à manifestação das estruturas de paren­tesco e dos mi­tos. Antes de ceder à tentação de responder, é preciso considerar uma questão prévia.

Ela já se configura na seqüência da frase anteriormente men­cionada, seguida de uma citação de Leibniz: “Os princípios gerais inatos que subjazem e organizam o con­hecimento, segundo Leibniz, ‘estão pre­sentes   nos nossos pensamentos, dos quais constituem a forma e as co­nexões… embora nós neles não pensemos’ ” [23]. Parece portanto muito provável que Chomsky entenda “inato” e “inconsciente” como con­­­ceitos contíguos, o primeiro na condição de postulado indemons­trá­vel e o segundo constituindo seu aspecto fenomenal com­probatório. Nada mais lógico, desde que se aceite a inqüestionabilidade das alternativas organismo/am­biente, inato/adquirido, organização in­terna/estímulo externo, órgãos sensoriais/órgãos mentais (ou razão).

Tal enfo­que, po­rém, está longe de ter inquestionável; para tanto, basta colocar sob suspeita o postulado que associa intrinsecamente os conceitos de orgânico e inconsciente (postulado invariavelmente seguido pela su­bor­dinação do segundo ao primeiro…), pergun­tando pelas suas evidências. Ao fazê-lo, imediatamente se constata que se trata de uma petição de princípio. O problema não é inédito. Em psicaná­lise, campo teó­rico onde surge pela primeira vez, a referida aporia associa-se a uma espécie de para­doxo; que o inconsciente constitua o próprio objeto de estudo da ciência dos sonhos sur­preendentemente não tem por conseqüência uma clara afirmação da sua autonomia face ao biológico. Muitas vezes, o conceito “pulsão” é definido, pelo próprio Freud, com referência às respectivas “fontes somáti­cas”.

Tudo o que Freud parece haver obtido tratando do espinhoso tema foi uma espécie de moratória epistemológica no sentido de dei­xar a questão da natureza do inconsciente em aberto até um momento mais propício. Quando isso não acontece, e a tentação de fornecer um pa­norama glo­bal da weltanschauung psicanalítica prevalece, a cons­ciência é apresentada como o exercício de uma falsa soberania manipulada pela emi­nência parda dos impulsos e de­sejos subterrâneos; mas, em compen­sação, es­tes, por sua vez, não seriam senão a tradução de premên­cias orgâni­cas visando descarga.

Uma espécie de hierarquia decres­cente acaba por diluir o mental no biológico e o biológico em seus componentes físico-químicos [24]. Toda e qualquer manifestação que se dê através do pensamento, não só em relação aos sintomas mas também à sublimação, ficariam assim votados a um futuro descarte, promovido pelos esperados avanços científicos. Entre­tanto, a profissão de fé reducionista ocorre apenas em momentos de espe­culação, nos quais um Freud ci­oso de coerência a qualquer preço se penitencia diante do altar cientificista e augura para sua pró­pria teoria o mesmo destino ao qual a psicanálise condenara a reli­gião, o puritanismo e a ingênua crença na razão pura.

En­tretanto, no dia a dia da démarche investi­gativa, da qual o ar­tigo metapsicoló­gico consagrado ao inconsciente é um bom exemplo, prevalece outra atitude. O autor se contenta em for­necer uma descrição cautelosa do modus ope­randi característico da instância do saber que não se sabe, uma de cujas peculiaridades é a lógica sui gene­ris imune ao prin­cípio da não-con­tra­di­ção. O mesmo se passa na clínica, onde o orgâ­nico é progressivamente con­duzido à irrelevância e as experiências são reinterpretadas em função do desejo - incons­ciente, por definição - que as anima. Borges dizia que em nossa vida de vi­gília vemos um ti­gre e temos medo, enquanto no sonho temos me­do e vemos um tigre; Freud poderia perfeitamente acrescentar, com Calderón de la Barca a seu lado, que a vi­gília é uma forma pecu­liar de produção oní­rica… e a diferença entre ambos consistiria em que, com relação ao sonho, julgamos saber que sonhamos.

4. Chomsky e Piaget

Feliz o artista, dizia Freud, jubilosamente livre dos com­promissos que obrigam o pesquisador a curvar-se perante as exigências conceituais. Nesse sentido, parece haver certa semelhança entre religião e ciência, dominadas por um monoteísmo solene que contrasta com o alegre paganismo dos cultos celebrados nesses outros altares ateológicos e ateóricos… onde a intuição certamente não é objeto de sacrifício e nem precisa justificar-se. Skinner, Chomsky e Freud mostram-se muito mais conseqüentes, sob esse aspecto, que a maio­ria de seus pares; não são crentes dominicais nem muito menos adeptos do sincretismo, mas, pelo contrário, professam conscienciosamente o credo científico.

Se há boas razões para considerar o apoliti­cismo como uma impossibilidade na vida social, a inexistência de uma posição em teoria do conhecimento se afigura igualmente inexeqüível na esfera da ciência. Uma das críticas mais contundentes de Chomsky à epistemologia gené­tica toma justamente por alvo a postura dessa escola em relação ao problema em questão[25]. Para o lingüista norte-americano, a falta de definição de Piaget e seus seguidores acaba por gerar uma estra­tégia conciliadora porém vaga, cujo mérito principal reside na ob­servação meticulosa que entretanto não tem como conseqüência os compromissos julgados necessários com o estabe­lecimento dos respectivos princípios reitores.

A Escola de Genebra obteria assim a aquies­cência geral ao preço de certo isolamento e falta de interesse fora das fronteiras de uma problemática quase to­talmente restrita à psicologia educacional; entende-se facilmente que evoque respeito e reverência, mas pouco entu­siasmo e raramente polêmica. Os conceitos assimilação e acomodação, centrais na obra piagetiana, denotam a ação recíproca dos fatores interno e externo (cuja interação está a serviço de um processo de desenvolvimento auto-regulado); sua definição parece feita à medida para jus­tifi­car, per se, a reivindicação de um equi­líbrio inerentemente su­perior ao ambientalismo skinneriano e ao inatismo chomskyano.

O in medium sed virtus piagetiano talvez seja um lema compre­ensivelmente celebrado por aque­les para quem a solução de compro­misso por si só se afigura como desejável. Certamente não se trata de uma atitude unânime nem mesmo majoritária no campo da re­flexão científica, onde o rigor muitas vezes se alia ao radicalismo. Os avanços no conhecimento de­correm muito freqüente­mente da admissão clara da irreconciliabili­dade entre certas hi­póteses e do embate frontal entre as mesmas. A esse respeito, é ins­trutivo revisitar as atas do colóquio de Royau­mont referente ao ano de l975[26], cujos protagonistas prin­cipais fo­ram justamente os fundadores da epistemologia genética e da gramá­tica gera­tiva.

O prefácio de Massimo Piattelli-Palmarini estabelece com reve­rência, espírito crítico e isenção as circunstâncias que presidiram o único encontro entre Chomsky e Piaget, considerados res­ponsáveis por obras que permitem colocar em pauta, na área das ciências huma­nas, as questões epistemológicas mais candentes. “Levando em conta o status ‘paradigmático’ atribuido, de um modo geral, às teo­rias de Piaget e de Chomsky por quantos se dedicam a averiguar as relações entre inato e ad­quirido, entre estrutura biológica e estru­turas cog­nitivas, pensamos que o Centro (Centre Royaumont pour une science de l’homme) prestaria um serviço à comunidade científica se susci­tasse um confronto direto e profundo entre Piaget e Choms­ky“[27].

Além do lingüista e do psicólogo, participaram do encontro cientistas e filósofos em cujo tra­balho a incidência da temática epistemológica se faz sentir diretamente, entre eles François Jacob, Jacques Monod, Gregory Bateson, Hilary Putnam, David Premack, além de colaboradores próximos dos polemistas, como Bärbel Inhelder e Jerry Fodor. Todos os cuidados foram compreensivelmente tomados para que a ocasião não fosse desperdiçada; ela­borou-se assim um plano que incluiu como medida prévia a redação de textos, por parte de Piaget e Chomsky, destinados aos participantes do colóquio. A in­trodução, a cargo do referido Massimo Piatelli-Palmarini, procura fornecer um panorama geral, no âmbito da história das idéias, com o intuito de situar a tradição na qual se inscrevem as teorias em de­bate, bem como as afinidades e discordâncias que ambas mantém com relação a obras científicas de campos tão diversos como a fí­sica quântica, a biologia molecular, a cristalografia e a termodinâmica. Para Piattelli-Palma­rini, trata-se de identificar o núcleo central (”hard-core“) dos pensa­mentos piagetiano e choms­kyano, o aspecto mais original e mais polê­mico das respectivas obras, a ser diferenciado das afirmações gené­ricas e acessórias, facilmente assimiláveis e quase triviais.

“Piaget propõe-nos aqui a adoção de um ponto de vista que pode abrir uma dupla perspec­tiva. Existem, com efeito, duas interpre­tações possíveis do compromisso ontológico assumido por Piaget: uma, ‘simples e de uma completa banalidade’, exatamente como ele pró­prio afirma, mas des­provida de verdadeiro poder heurístico; a outra, que seria, pelo contrário, não-banal mas suscetível de refutação (provavelmente sem que Piaget esteja consciente disso)”[28].

A idéia de que todo organismo (como todo mecanismo) é regido por processos de regulação, constitui um truísmo e pode ser aceita sem discussão mas também sem conseqüências; não é nessa afir­mação que se poderia encontrar a especificidade da opção piagetiana. O leit-motiv da epistemologia genética, escreve Piattelli-Palma­rini, reside no postulado de que a interação or­ganismo-ambiente constitui o eixo (o fenômeno central) responsável pelo de­senvol­vi­men­­to dos pa­drões cognitivos, a partir de um estágio inicial caracterizado pela pura presença de estruturas orgânicas. “…a interpretação mais forte a que Piaget pa­rece in­citar-nos é a de que os esquemas de regu­lação, assim como as estruturas que os materializam, são “englobados” pelo organismo, em seu próprio proveito, a partir dos elementos pre­sentes no meio ambiente, através de uma cadeia de operações chamada assimi­lação, reorganização, acomodação.[29]

Mas, obviamente, a presença decisiva do ambiente não faz da epistemologia genética uma va­riante das teorias do condicionamento. Palavras e expressões como “estímulo” e “situação es­timuladora” não comparecem aos textos piagetianos; tampouco se faz menção a qualquer “reforço” necessário para a eficácia do processo de desenvolvimento; em compensação, “es­quemas” e “estruturas” são termos contumazes e denotam o enfoque anti-atomista, articulado e dir-se-ia sintático do epistemó­logo suíço, o qual nos apresenta um sujeito que cons­truiria os seus padrões cognitivos independentemente de recompensas ou punições, mas mediante apropriação da lógica subjacente às inter­relações pre­sentes no mundo fenomenal. O ser hu­mano emerge dessa descrição como uma verdadeira máquina de aprender, acionada pela in­teração com o ambiente para poder desenvolver toda a sua potencialidade lógica. O papel concedido ao ambiente, porém, excede totalmente o que seria considerado razoável ou aceitável na perspectiva chomskyana.

As raízes epistemológicas dessa opção expressam um desacordo com relação a Darwin (de quem Piaget diverge a ponto de buscar uma “terceira via” entre o naturalista inglês e Lamarck), à genética e à biologia molecular, áreas científicas onde o “externo” só compa­rece para selecionar fe­nótipos produzidos em estrita obediência às possibilidades oferecidas pela matriz recôndita. Em compensação, a diretriz piagetiana coin­cide com uma posição denominada “ordem pelo ruído”, que basicamente defende a plausibilidade de uma desestabili­zação das estruturas internas, proporcionada pela interação com o meio; o organismo fica então retratado pelo ângulo de uma incomple­tude constitutiva, destinada a as­segurar às informações am­bientais um papel essen­cial no processo de aprendizagem… e adap­tação. E se os adeptos da “ordem pelo ruído” não gozam da celebri­dade do autor da teoria da evolução, em compensação nomes como Schrödin­ger avali­zariam um programa que dá lugar às duas verten­tes, metaforizadas pelo cristal (representante do paradigma da ordem interna imutável) e a chama (depen­dente da “turbu­lên­cia” cir­cundante). Mais ainda, e sempre segundo Piattelli-Palmerini, a termodinâmica testemunha a possibilidade de invocar uma lógica diferente daquela que parecia ter-se imposto gra­ças à bi­olo­gia molecular: “A termodinâmica clás­sica aceitava um com­promisso se­melhante e complementar, formulando o princípio, no iní­cio puramente fenomenológico (macroscópico), de conservação de ener­gia, e postu­lando, por outro lado, um recrudesci­mento constante da entropia em todo sistema isolado, princípio que se pode interpretar em termos de crescimento global médio da desor­dem no universo“[30].

A teoria da informação, formulada por Shannon em l939 e a sub­seqüente reinterpretação das estruturas orgânicas como aparelhos in­formáticos (do­ta­dos de características internas precisas mas não obstante suficientemente hos­pitaleiros em relação às informações ex­ternas), proporcionam o apoio necessário à plausibilidade de uma teoria da aprendizagem tal como a defendida por Piaget. Piattelli-Palmerini pode então concluir que “‘O núcleo sólido’ bio­cibernético e a ‘hipótese diretora’ de Piaget são apenas, como se vê, duas versões ligeiramente diferentes de um mesmo projeto. Tanto uma como outra fazem-nos crer que a vida é um gigantesco fluxo de informações agindo como mediador (ou regulador) de uma transição do ‘universo inteiro’, de um estado inicial menos organizado, para uma seqüência de estados estacionários cada vez mais organizados. Os atos cognitivos (especialmente os de seres humanos) representam os mediadores mais eficazes no seio desse fluxo informativo, os catali­sadores mais aperfeiçoados de uma cadeia de transferências de ordem, ligando entre si os compartimentos desse universo.[31]

Evidentemente, o interesse maior de Piattelli-Palmarini con­siste em estabelecer o estatuto epistemológico das teorias em lití­gio e descrever o quadro de alianças e beligerâncias em que ingres­sam ao fazer as respectivas escolhas gnosiológicas; decorre necessaria­mente disso que sua análise é ampliada de forma a in­cluir as manifestações da mesma problemática tal como se dão em ciências exatas, incluindo as cosmovisões resul­tantes. Termos como “vida” e “universo” percorrem o texto lado a lado com discussões deta­lhadas acerca de hipóteses pertencentes á biologia molecular e á termodinâmica, e o resultado não destoa do rigor presente no restante da introdução. Por outro lado, o escrutí­nio a que submete os pressupostos gerativistas e cognitivistas com o intuito de ressaltar os compromissos epistemológicos assumidos por am­bas as teorias produz um panorama propício para


    [1] A esse respeito ver O mito da liberdade, do próprio Skinner.

    [2] Trata-se da versão skinneriana (revista e ampliada, por assim dizer) da conhecida Lei do Efeito, de Thorndike.

    [3] Mas pode funcionar como uma espécie de bumerangue. O resultado das tentativas de ensinar chimpanzés e gorilas a falar é mais denotativo de uma fronteira qualitativa do que quantitativa entre natureza e cultura. A questão será abordada detalhadamente no capítulo VI.-

    [4] Tais como a psicanálise lacaniana (preconizando o retorno a Freud), a antropologia estrutural de Lévi-Strauss e a lingüística européia inspirada -mais ou menos diretamente- em Saussure, por exemplo. Um tal movimento pode ser pensado como parte do pro­cesso de emancipação das ciências humanas da tutela exercida pela epistemologia positivista, a cuja vertente empirista o beha­viorismo se filia abertamente.

    [5] Chomsky detecta entre os próprios adeptos do behaviorismo uma divisão a respeito dessa questão. Experimentos fei­tos com ratos em labirintos teriam deixado resultados inconclusivos quanto ao papel da “drive reduction” para a eficácia da aprendizagem. A dúvida representa um golpe para a teoria do reforço; admitir que o comportamento pode ter outras razões, mesmo em organismos não humanos, entre as quais “curiosidade, tendências lúdicas, ex­ploração e manipulação” [a propósito de primatas, conforme Harlow, mencionado por Chomsky, pg. 560, op. cit.] arruinaria a base da argumentação skinneriana.

    [6] “…não digo que tenhamos uma caixa na cabeça…sabemos poucas coisas sobre a realização física dos sistemas abs­tratos que postulamos“. [Diálogos, 10/11]. “…não supomos que exista uma caixa no cérebro. Muitas vezes, entendeu-se mal o que significava tal idealização“. [Diálogos, l74.]

    [7] Chomsky de fato parece não ter muita simpatia pelas tentativas de compatibilização. “Naturalmente, podem ser considerados enfoques mistos de diversa índole, mas creio que é muito útil ter em mente estes dois modelos, cada um com suas variáveis possíveis, como pontos de referência“. [Reglas y representaciones, pg. 245.]

[8]   (Diálogos, pg. l2).

    [9] Saussure talvez tenha sido o primeiro a chamar a atenção para a dificuldade. “Qual é o objeto, ao mesmo tempo in­tegral e concreto, da lingüística? A questão é particularmente difícil… Outras ciências trabalham com objetos dados previamente e que se podem considerar, em seguida, de vários pontos de vista; em nosso campo, nada de se­melhante ocorre”. [Curso de Lingüística Geral, pg. 15.]

[10]   “…se estudarmos a linguagem sob vários aspectos ao mesmo tempo, o objeto da Lingüística nos aparecerá como um aglomerado confuso de coisas heteróclitas, sem liame entre si. Quando se procede assim, abre-se a porta a vá­rias ciências -Psicologia, Antropologia, Gramática normativa, Filologia, etc…” [F. de Saussure, op. cit., pg. 16.]

  [11] “Parece que os elementos da sintaxe não são estabelecidos sobre bases semânticas e que os mecanismos da sintaxe, uma vez construídos, funcionam independentemente dos outros componentes da gramática, que são componentes “interpretativos”. [Diálogos, l27.]

[12] Reglas y representa­ciones, 200/20l.

[13] Op.cit., pg. 211.

[14] Idem, pg. 228.

[15] Idem, pgs. 234/235.

[16] Idem, pg. 240

[17] Idem, Pg. 241.

[18] Idem, pg. 238.

[19] Pg. 31.

[20] Pg. 34.

[21] Pg. 5.

[22] Idem, pg. 29.

[23] Idem, ibidem.

  [24] O mesmo raciocínio vale para Lévi-Strauss. (Cf. Claude Lépine, O inconsciente na antropologia de Lévi-Strauss).

  [25] “Os estudos efetuados pela Escola de Genebra tem sido extremamente esclarecedores, mas o modelo interacionista-construtivista é em si difícil de avaliar, visto que permaneceu no nível da metáfora. Afirma-se que a criança se desenvolve através de uma seqüência bastante regular de estágios cognitivos, mas não é proposto nenhum mecanismo nem princípio para explicar por que a criança passa de um estágio ao seguinte em vez de dirigir-se a um estágio muito diferente (…) A pergunta crucial permanece sem resposta, sem pistas que conduzam a uma resposta. (…) No âmbito da psicologia do desenvolvimento não conheço qualquer princípio geral que realmente tenha esclarecido essas interrogações.” [Reglas y representaciones, pgs. 245/246.]

  [26] Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem - O debate entre Jean Piaget & Noam Chomsky.

[27]  Op.cit., pg. 2.

[28] Idem, pg. 11.

[29] Idem, ibidem.

[30] Idem, ibidem.

[31] Op.cit.,pg. 17.

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