Apresentação

 

                                                             Apresentação

                                                            (acesso integral)

            O leitor talvez se surpreenda com o índice deste livro, em cujos títulos comparecem, lado a lado, autores pertencentes a famílias teóricas em princípio antagônicas ou pelo menos distantes. Não é muito comum encontrar sobrenomes como os de Skinner,  Lacan, Vygotsky,  Jakobson, Freud, Chomsky e Piaget compartilhando as páginas do mesmo ensaio - a menos que se trate de um livro introdutório à psicologia ou à lingüística, o que não é o caso. Nem por isso o presente volume constitui um tour de force eclético. Acontece que as mais sólidas abordagens teóricas já se debruçaram sobre o balbucio e a algaravia.  Os teóricos da infância e da linguagem sempre foram atraídos  por um enigma: como sucede que esse ser ainda perplexo com a função de talheres e penicos, freqüentemente apaixonado por mamadeiras, chupetas e fraldas, passa de repente a conversar sobre os mais diversos temas, expressando pontos de vista pessoais que incluem perguntas altamente constrangedoras  - proferidas nas ocasiões menos propícias e freqüentemente com um dedo enfiado ou na tomada ou no nariz?

             A aquisição de linguagem, disciplina inscrita oficialmente no campo da psicolingüís­tica, tem inspirado à psicanálise um amor platônico. Freud tratou do tema através de alusões em sua monografia sobre a afasia (1891) e indiretamente no artigo metapsicológico sobre o inconsciente (1915). Melanie Klein se ocupou da emergência da simbolização no âmbito da oposição entre realidade e fantasia. Lacan fez parcas menções a essa campo empírico que nas décadas de 50 e 60 foi traba­lhado exaustivamente pela psicologia comportamental e pelo gerativismo chomskyano, no marco da acirrada polêmica que opôs os defensores das teo­rias da aprendizagem aos adeptos da hereditariedade. O referido debate apresentou um saldo sobretudo inconclusivo… para não dizer decepcionante.

            A década de 70 assistiu o ingresso dos darwinianos na discussão. Houve uma pletora de experimentos de ensino da linguagem a pri­matas, fornecendo dados surpreendentes que pareciam contrariar simultaneamente as expectativas simetricamente opostas das correntes organicistas e ambientalistas. Os chimpanzés, gorilas e orangotangos iam muito além do que autorizariam supor os postulados inatistas de Chomsky e permaneciam perversamente aquém dos resultados que os psicólogos de inspiração behaviorista esperavam alcançar.

            Ao mesmo tempo, a ‘descoberta’ e a ‘desbiologização’ da psicose infantil, bem como sua teorização e tratamento, reativaram o interesse dos psicanalistas pelo tema. A respectiva literatura se atém quase exclusivamente aos aspectos emocionais ligados à linguagem, deixando de lado a especificidade da aquisição.

            Essa situação lacunar tem suas conseqüências. Mencione-se, em relação à teoria lacaniana,  o imperativo, apontado pelo próprio Lacan, de rever o conceito de “identificação à imagem do corpo”, elaborado em seu artigo so­bre o estádio do espelho. Acrescente-se o estado ainda precário tanto da descrição do processo de constituição do sujeito como da própria teorização do método interpretativo, áreas que poderiam beneficiar-se de uma melhor compreensão das condições que regem a emergência do discurso.

            Levando em conta tais questões, A máquina do fantasma apresenta uma hipótese sobre a aquisição da linguagem, formulada a partir da reflexão sobre as pesquisas de Cláudia de Lemos, as elaborações de Lev S. Vygotsky, a teoria do valor de Ferdinand de Saussure, a metapsicologia freudiana, as conceituações lacanianas acerca do significante, os estudos de Roman Jakobson referentes à a afasia, o trabalho de D. Bickerton sobre as línguas crioulas e as investigações dedicadas à filogenia da linguagem,  efetuadas por Philip Lieberman.

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.