A afasia segundo Jakobson e a filogênese da linguagem segundo Lieberman

 

A afasia segundo Jakobson e a filogênese da linguagem segundo Lieberman

(4o. capítulo de A máquina do fantasma - acesso parcial)

 ”…a representação (vorstellung) consciente abrange a representação de coisa mais a repre­sentação de palavra que pertence a ela, ao passo que a representação inconsciente é a re­presentação de coisa apenas“. (O inconsciente, Sigmund Freud).

Os escritos de Jakobson sobre a afasia e a questão da aquisição

Em seus escritos sobre a afasia Roman Jakobson formula a instigante hipótese de que a afasia repete em ordem inversa o processo da aquisição[1]. Entretanto, enquanto a afasia é abordada em detalhe nos respectivos artigos[2], a aquisição permanece como pano de fundo para entender a dissolução da linguagem no afásico, sem que a razão dessa suposi­ção seja melhor explicitada para além do seu caráter lógico[3]. Jakobson dirige-se a um interlocutor específico, a saber, a neurologia, para demonstrar a importância da participação do lingüista na investigação desses distúr­bios[4]. Embora não mencione explicitamente o aspecto epistemológico da sua proposta, trata-se de algo evidente. Por outro lado, nota-se a aproximação com a proposta de Hughlings Jackson, para quem, se primeiramente é imprescindível distinguir os níveis orgânico e simbólico, uma vez consolidada a delimitação entre esses domínios torna-se desejável a respectiva articulação[5].

De fato, sem a participação da língüística, diz Jakobson, seria impossível “…liquidar o resíduo desse “caos” que Head (1926) denunciou nas abordagens contemporâneas sobre a afasia“[6].

Se, por outro lado, a inquestionabilidade da jurisdição exercida pela lingüística em relação à aquisição parece tornar prescindível qualquer demonstração semelhante, nem por isso a existência de um processo ordenado segundo etapas de crescente proficiência foi objeto de demonstração. Levando em conta o papel crucial e positivo do “erro” no processo de aquisição, constatação que constitui um raro exemplo de unanimidade entre os pesquisadores, parece insustentável postular a linearidade do processo.  Salvo raras convergências, os estudos sobre aquisição exibem, acima de tudo, uma considerável dispersão, freqüentemente contraditória - tornando mais chamativa ainda a suposição de Jakobson acerca de um consenso sobre a progressão cumulativa e contínua do adquirente, cuja seqüência se daria na ordem inversa à das perdas afásicas.

As propostas de Jakobson em relação à aquisição (ver “The sound laws of child language“, “Why Mama and Papa“) parecem não ter sido consideradas especialmente relevantes pelos aquisicionistas, mas sua descrição lingüística dos distúrbios afásicos, tendo por referência central os eixos saussureanos da contigüidade e da similaridade, associados por sua vez às operações de combinação e de seleção, foi de importância fundamental para Cláudia de Lemos. Em Procesos Metafóricos y Metonímicos… a autora vale-se desses mesmos conceitos, tal como transpostos por Jakobson da langue para a parole, para fundamentar a prescindibilidade do recurso à noção de um sujeito já constituído. Essa convergência demonstra que as reflexões jakobsianas sobre a afasia encontram correspondência precisamente em teorizações inspiradas por Saussure.

Retomemos aqui uma questão já tratada anteriormente. Para Cláudia de Lemos, o processo de categorização efetuado pelo adquirente resultaria das substituições sucessivas e recíprocas a cujas manifestações a criança ficaria exposta em virtude dos intercâmbios lingüísticos dos quais participa e/ou é testemunha. Tudo se passa como se a experiência lingüística impusesse ao adquirente a consigna “diferenciar e relacionar” - sem que esse movimento tenha por condição a compreensão daquilo que está sendo diferenciado e relacionado. Por essa razão se poderia falar de um “uso sem conhecimento”, expressão pela qual fica finalmente desautorizada uma tentativa tão reincidente quanto infrutífera nos estudos de aquisição, a de enquadrar a produção infantil em categorias gramaticais ou semânticas.

Se os raciocínios anteriores forem plausíveis, uma lógica pura do significante antecederia os aspectos pragmáticos tão ofuscantemente evidentes da linguagem. Nessa concepção, o adquirente passa a ser o cenário de uma operação que obedece a um movimento próprio, capaz de gerar um funcionamento independente de qualquer ato de abstração, seja indutivo ou dedutivo. A suposição de um ato de abstração tem como implicação a presença prévia de um agente previamente dotado dessa capacidade, agente cujo estatuto (incluindo a indagação pela sua pré-existência ou emergência), porém, é uma das questões centrais colocadas por esse tipo de pesquisa.

É interessante notar que o caminho proposto por Jakobson - tomar a patologia como guia para investigar a natureza de um fenômeno - assemelha-se notavelmente à estratégia utilizada por Freud. De fato, o criador da psicanálise mencionou diversas vezes o valor heurístico dos “exageros” associados à sintomatologia dita neurótica e psicótica para compreender os processos ditos normais. A auto-observação, por exemplo, uma das características mais importantes da instância “superegoica”, foi primeiramente aferida por Freud ao deparar com as vozes críticas que atormentam a pessoa em surto paranóico[7].

Correspondentemente, para Jakobson, o “patológico” tem como iluminar aspectos brumosos do funcionamento “normal”. Assim, o exame detido dos distúrbios afásicos permitirá perscrutar comportamentos lingüísticos quotidianos, como, por exemplo, as preferências individuais do falante por comparações (e definições) ou descrições (e predicações), e inclusive facultará uma caracterização mais apurada da diferença entre estilos literários e artísticos em geral[8].

A razão disso é que os respectivos sintomas, quando analisados do ponto de vista lingüístico, deixando de lado a questão da sua localização cerebral, revelam uma divisão peculiar: “Toda forma de distúrbio afásico consiste em alguma deterioração, mais ou menos grave, da faculdade de seleção e substituição, ou da faculdade de combinação e contexto[9]“. Tais faculdades, afirma Jakobson citando Saussure[10], longe de serem consideradas componentes eventuais ou optativos da fala, refletiriam, pelo contrário, características essenciais do funcionamento da própria língua, obrigatoriamente presentes no discurso.

A primeira síndrome é habitualmente descrita na literatura neurológica como “afasia motora”[11], sendo seu aspecto lingüístico comumente designado por “agramatismo”[12]. O paciente perde a capacidade de combinar palavras em frases, e igualmente exibe dificuldades com flexões, sufixações e, eventualmente, declinações. O comprometimento ocorre portanto nos níveis da sintaxe (regência e concordância) e da morfologia (indecomponibilidade das palavras em radicais e desinências). A segmentação estaria de tal forma comprometida que vocábulos derivados são igualmente inapreensíveis por tais pacientes, da mesma maneira que os compostos. “Têm sido citados freqüentemente casos de doentes que compreendiam e enunciavam espontaneamente palavras compostas como Cascadura ou Ilhabela mas que eram incapazes de entender ou dizer casca e dura ou ilha e bela[13]” (Op. cit., pg.53).

A dificuldade de estabelecer combinações chega, numa variante desse tipo de afasia, (denominada atáxica), a incidir sobre a percepção fonética, ao ponto de preservar unicamente a palavra, concebida como unidade indivisível. “O paciente guarda somente uma imagem integral, indissolúvel, das palavras familiares; quanto a todas as demais seqüências fônicas, ou lhe parecem estranhas e inescrutáveis, ou ele as funde com as palavras familiares, desprezando as diferenças fonéticas[14]“.

Se no caso do distúrbio da contigüidade, acima descrito, o dano acarretado diz respeito à faculdade da combinação, o oposto ocorre no que se refere à outra síndrome, conhecida como afasia sensorial, na qual o comprometimento dar-se-ia na faculdade da seleção. Aqui, a incapacidade incide sobre a escolha de palavras; o afásico cuja síndrome pertence a esta categoria não consegue iniciar uma frase, já que para tanto teria que tomar uma decisão quanto à escolha/nomeação do sujeito. “…o sujeito gramatical, que constitui a única parte da sentença independente do contexto, fica especialmente apto a ser perdido, desde que o principal desencadeador do sujeito jaz na seleção mais do que na combinação[15]. Para tais pacientes, a repetição de uma palavra torna-se impossível, dando lugar a quadros bizarros; instado a pronunciar “não”, o afásico com distúrbio da similaridade poderá responder: “Não consigo dizer essa palavra”. Tudo se passa como se não tivesse acesso ao “dicionário” interno que todo falante parece possuir.

A hipótese de Jakobson, que desse ponto de vista segue a teoria jacksoniana das hierarquias[16], é que a faculdade comprometida na afasia é a que foi adquirida por último. Essa postulação confrontou-se com as consideráveis diferenças e desacordos dos teóricos quanto à existência ou não de uma ordem no processo de aquisição, e de que ordem se trataria, caso se presumisse sua existência. Entretanto, é possível focalizar interpretativamente a postulação jakobsoniana, partindo da constatação que, para o lingüista russo, é preciso distinguir as posições de falante e ouvinte[17], operações que difeririam em termos da primazia e seqüência dos mecanismos lingüísticos ativados. De fato, Jakobson postula que o ato de emissão tem por base o acionamento das unidades significativas, como a palavra, ocorrendo o enquadramento sintático num momento lógico posterior; inversamente, o ouvinte principiaria pela identificação sintática, morfológica e fonética, chegando à semântica apenas no final de seu trajeto[18].

Para ilustrar esse contraste, tomemos um exemplo: quando o emissor emprega o termo “banco”, em português, o significado desse vocábulo polissêmico já está definido para ele, enquanto seu interlocutor deverá apelar ao contexto frasístico para decidir se a referência está sendo feita a uma instituição financeira, um móvel, um arquivo de dados ou a certa estrutura geológica (”banco de areia”). Embora o exemplo se refira a uma situação de ambigüidade semântica, ou polissemia, Jakobson postula que toda ação de decodagem é efetuada de acordo com esse procedimento.

Transportando a diferenciação jakobsoniana dos mecanismos desencadeadores envolvidos nas atividades de encodagem e decodagem para o terreno da aquisição, resulta que, com referência à emissão, o eixo a ser adquirido inicialmente seria o da seleção (afirmação que condiz com a hipótese relativa à anterioridade cronológica da especularidade), enquanto a posição de ouvinte (ou interlocutor) se caracteriza pela prioridade do eixo da contigüidade, que  representa o discurso (precedência do sentido sobre o significado).

A proposta desenvolvida neste trabalho parece encontrar assim um apoio na teorização de Jakobson sobre a afasia. A posição de ouvinte corresponderia à possibilidade da interlocução que, por sua vez, repousaria na prévia segmentação do discurso do outro, ação que levada às últimas conseqüências se manifestaria na aquisição da rede fonética. Este último processo seria logicamente consentâneo com o processo instaurador da posição de sujeito, intrínseca ao corte da complementaridade infans/campo desejante materna, separação que seria consubstancial à emergência do discurso a partir da língua. A mesma hipótese, já articulada à de Jakobson, parece plenamente compatível com a teorização de Cláudia de Lemos referente aos processos dialógicos[19] .

O ouvinte jakobsiano, enquanto adquirente, poderia ser situado no momento da complementaridade - correspondente à posição dialógica marcada pela sintaxe vertical. Esse processo é posterior e deve ser distinguido daquele que caracterizaria o marco inicial da aquisição - assinalado pela especularidade. A especularidade, associada aos jogos de identificação e designação do referente, corresponderia, na dicotomia de Jakobson, e mantendo a transposição, ao momento inicial da posição de falante. No que respeita ao terceiro momento dos processos dialógicos, a reciprocidade coincidiria com a convergência entre a rede fonética e a palavra especular, marcando assim a emergência do discurso a partir da língua.

Aplicando a terminologia lacaniana à hipótese ora desenvolvida, ao articular língua e discurso fundados no significante e geradores de significado/sentido, o simbólico sobrepõe-se ao imaginário (relação com o ambiente regida pelo especular, ou seja, posição de objeto) e promove o real, entendido como desejo ou posição de sujeito, isto é, emergência da falta.

Conforme teorizada por Jakobson, a afasia tende a confirmar a existência da dicotomia especular/fonético, crucial para entender o processo de aquisição, através da polaridade presente nos comprometimentos da encodagem e da decodagem, polaridade particularmente evidente, segundo Jakobson, nos casos mais “puros” e extremos do distúrbio [20].

Tudo se passa como se o afásico com “distúrbio de similaridade” se encontrasse na mesma situação da criança na fase da complementaridade, podendo apenas preencher/continuar o discurso do outro, enquanto o afásico com “distúrbio de contiguidade” repetiria a fase especular, manifesta pela palavra isolada, momento em que o ato designativo constitui o efeito primeiro e exclusivo da língua (do outro) sobre o adquirente.

É possível propor essa interpretação para o postulado jakobsoniana acerca da relação inversa entre aquisição e perda afásica, relacionando-a com a teorização de Cláudia de Lemos sobre os processos dialógicos e, em acréscimo, compatibilizando a mesma com a hipótese especular/fonológica da aquisição da linguagem.

A importância da referida distinção, enfaticamente reafirmada por Jakobson, abrange o processo de aquisição.

“Em segundo lugar, das duas modalidades de relação, similaridade e contigüidade, o afásico sofre comprometimento ou pelo menos uma maior deterioração de apenas uma modalidade de seu comportamento verbal. Pacientes com relações internas comprometidas e relações externas intactas são capazes de seguir, executar  e completar um contexto. Eles têm um senso perfeito do que em teoria da comunicação é chamado de “probabilidades transicionais”. Pois desde que a atenção inteira do paciente esteja concentrada na construção de um contexto, ele freqüentemente exibe uma habilidade inusual em completar uma palavra apresentada fragmentariamente ou uma sentença parcialmente apresentada a ele. Para esse paciente, o mais fácil é encontrar palavras sugeridas pelo contexto, e sua maior dificuldade jaz em encontrar palavras no sentido próprio desta expressão neuropsiquiátrica; ou seja, dificuldades com a seleção espontânea de palavras, por exemplo as palavras iniciais de uma frase e, mais ainda, um discurso, ou palavras gramaticalmente independentes dos outros constituintes de uma frase, e especialmente palavras divorciadas de frases. Devemos insistir sempre, em concordância com Goldstein, na distinção entre a “articulação de palavras”, na fala fluente, da “busca de palavras” autônoma, processo que não depende do contexto[21].

Por outro lado, seria importante notar que a prevalência da decodagem sobre a encodagem, correspondente à do fonético sobre o especular, foi assinalada igualmente por Jakobson:

“Por outro lado, dificilmente podemos imaginar que uma plena capacidade de encodagem possa ser preservada a despeito da atrofia da capacidade de decodagem. O domínio ativo da língua implica seu conhecimento passivo. Cada um de nós conhece mais línguas passivamente que atividade, e o estoque de palavras que podemos compreender excede o número que realmente somos capazes de empregar. A esfera de nossa ação decodificativa é mais ampla do que o das nossas atividades de encodagem”[22].

Acrescente-se que os exemplos de Jakobson ilustram igualmente outra chamativa correspondência entre os quadros afásicos e o uso sem conhecimento, do qual o vocábulo especular constituiria um


    [1] “A regressão afásica se revelou um espelho da aquisição de sons da fala pela criança; ela nos mostra o desenvolvimento da criança ao inverso. Mais ainda, a comparação entre a linguagem infantil e a afasia nos permite estabelecer diversas leis de implicação“. (”Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia, in Lingüística e Comunicação, pg. 36). “Então, se observarmos que na  linguagem da criança a aquisição de um certo fenômeno B implica a aquisição do fenômeno A, descobriremos que a perda de A no comprometimento afásico implica a perda de B, enquanto a reabilitação vai na mesma direção do processo de aquisição na criança… (Aphasia as a Linguistic Topic, 1955). Todas as citações de textos cujo título consta em inglês foram traduzidas pessoalmente.-

    [2] “Aphasie as a Linguistic Topic” (Worcester, 1955 [1953]), “Two Aspects of Language and Two Types of Aphasic Disturbances” (Nova York, 1957 [1954)), “Toward a Linguistic Classification of Aphasic Impairments” (Londres, 1963), e “Linguistic Types of Aphasia” (Pacific Palisades, 1963), todos reunidos em Selected Writings II - Word and Language, Mouton, Haia - Paris, 1971).

    [3] “A lingüística interessa-se pela linguagem em todos os seus aspectos -pela linguagem em ato, pela linguagem em evolução, pela linguagem em estado nascente, pela linguagem em dissolução”. (Dois aspectos da linguagem…, in Lingüística & Comunicação, pg 34).

    [4] “Durante o primeiro período, quando a lingüística desempenhou apenar um papel menor no estudo das desordens da linguagem, surgiram certas concepções da afasia entre não-lingüistas que, para dizê-lo sem eufemismos, mostram uma desconsideração completas pelos aspectos lingüísticos da patologia da fala. Essa negligência intencional é intolerável pois, se a afasia afeta a nossa linguagem, única ou primeiramente, é a ciência da linguagem que tem que apresentar a primeira tentativa de resposta acerca do tipo de afasia de que se trata em cada caso“. (”Studies on Child Language & Aphasia”, in L.T.of Aph., pg. 96).

    [5] “É supérfluo acrescentar que, restringindo minha pesquisa aos critérios lingüísticos, não estou desconsiderando os outros aspectos dos comprometimentos afásicos. Suum cuique, e minha principal preocupação tem sido a de evitar as confusões dos diferentes níveis. Entretanto, devemos concordar com o programa estabelecido por Jackson em 1878, segundo o qual uma rigorosa delimitação dos níveis não deve impedirnos de “empreender o estabelecimento de uma correspondência entre os mesmos (2958, pg. 156) e, em particular, entre as afecções da linguagem e seu ‘substrato anatômico’ ” . (”A linguistic typology of aphasic impairments”, St. on CL and APH, pg. 91/92). E ainda: “Acatei a advertência de Hughlings Jackson em relação aos riscos de superpor os diferentes níveis na investigação sobre a afasia (1958) e delineei minha tipologia dos comprometimentos afásicos em uma base estritamente lingüística. Ao mesmo tempo, dei-me conta que uma reivindicação de autonomia não deve ser confundida com isolamento (…) Após um exame autônomo de cada nível dado ter sido realizada, será útil e mesmo necessário procurar a correlação entre os diferentes níveis …” (”Linguistic types of Aphasia“, in ST. on C.L. and APH., pg. 108 e seqüentes). Finalmente, essa meta parece ter sido atingida: “O estudo da afasia não pode mais ignorar a pertinência do fato de que uma tipologia intrinsecamente lingüística dos comprometimentos afásicos, estabelecida independentemente dos dados anatômicos, revela padrões claramente coerentes e simetricamente  semelhantes, que se mostram notavelmente próximos à topografia das lesões cerebrais que subjazem a tais comprometimentos“. (”A linguistic typology…, op.cit., pg. 93).

    [6] (”A linguistic classification of aphasic impairments”, Selected Writings II, pg. 291).

    [7] Ver “A dissecção da personalidade psíquica” in Novas Conferências introdutórias à Psicanálise, (1932/33).

[8] (Cf., 2 tipos de afasia & 2 aspectos da linguagem, pgs. 58 a 62, in Lingüística & Comunicação).

[9] Idem, pg. 55.

  [10] “O papel principal que estas duas operações desempenham na linguagem foi claramente percebido por Ferdinand de Saussure“.  ( Lingüística & Comunicação, pg. 40)

  [11] Ou afasia de Broca, ou afasia eferente de Luria.

  [12] É preciso lembrar que Jakobson propõe alterar a terminologia neurológica vigente, (”afasia de emissão” e “afasia de recepção”, “afasia sensorial” e “afasia motora”, “afasia aferente” e “afasia eferente”) pelas expressões “encodagem” e “decodagem”, termos que o linguista julga preferíveis aos anteriores, claramente marcados por uma concepção organicista. A terminologia neurológica privilegia os atos linguísticos enquanto manifestamente perceptíveis para um observador, excluindo os processos referentes à produção do discurso -por exemplo a fala interna, cujo comprometimento não seria menos importante (”A linguistic typology of aphasic impairments“, in Studies on Child Language and Aphasia, pg. 80).Os termos “encodagem” e “decodagem” focalizam o aspecto propriamente lingüístico do ato lingüístico, perscrutando as operações vinculadas à seleção e à combinação. “Toda terminologia é convencional mas neste caso a nomenclatura cria uma impressão errônea, dando a entender que o problema inteiro jaz,  quer nas atividades articulatórias danificadas ou no aparelho sensorial prejudicado.  Essa  confusão desaparece assim que o termo “encodagem” substitui “motor” e o termo “decodagem” substitui “sensorial”.  Assim, muitos sintomas vagamente descritos são substituídos por características muito mais essenciais. A diferença entre distúrbios de combinação e seleção coincide em grande medida com a diferença entre distúrbios de encodagem e decodagem…” (”Linguistic types of aphasia”, in St. on C.L. and Aph., pgs. 97/98). Ambas as operações estão presentes tanto no ato de emissão como no ato de recepção, mas são acionadas segundo uma ordem inversa conforme se ocupe a posição de falante ou ouvinte.

[13] Op.cit. pg. 53.

[14] Idem, pg. 54.

[15] Selected Writings, pg. 294.

    [16]  “Foi o emprego desses conceitos (conceitos fonológicos básicos) que exemplificou o que Jackson e Freud (1953) quiseram dizer quando propuseram a existência de uma correspondência próxima entre o retroceso funcional e o desenvolvimento dos padrões de linguagem, dando apoio assim à concepção de Jackson segundo a qual as primeiras aquisições são mais tenazes e resistentes ao comprometimento cerebral do que aquelas que ocorreram mais recentemente” (cf. Jakobson, 1962; Alajouanine, Ombredane and Durand, 1939) (SW II, 291).

  [17] Trata-se de uma distinção feita há muito pelo fundador do Círculo de Praga. Já em 1928 ele escrevia: “Devem ser diferenciadas nitidamente duas posições, a do codificador e a do decodificador, em outras palavras, entre o papel do emissor e o do destinatário” (Arte Verbal, Signo Verbal, Tiempo Verbal; pg. 55; Capítulo “El signo y el sistema de la lengua“).

  [18] “Toda a forma de tratar a mensagem é radicalmente diferente para ambos os participantes de um fato de fala. O ouvinte é  coduzido pelos traços distintivos e pelos fonemas que reconhece, à forma gramatical e à compreensão dos significados. Neste processo o fator de probabilidade desempenha um papel fundamental. As probabilidades de transição ajudam a perceber o texto, sua fonologia e depois sua gramática;  a determinadas unidades seguem-se outras, dotadas com maiores ou menores probabilidades, e muitas ficam excluidas a priori. (…) Por outro lado, para o falante, inverte-se a ordem  das etapas da língua. Seu caminho vai da oração, através de seus elementos imediatos, pelas unidades morfológicas à forma fônica em que se manifestam. (…) Ambos aspectos da língua existem para o codificador tanto como para o decodificador, mas a direção que é primária para um resulta secundária para o outro“. (”El signo y el sistema de la lengua”, in Arte Verbal, Signo Verbal, Tiempo Verbal, pg. 54).

[19] Cf. Uma abordagem sócio-construtivista da aquisição da linguagem -um percurso e muitas questões [1989].

  [20] Jakobson assinala a existência de outros quatro tipos, mas estes não seriam senão variações dos dois tipos fundamentais, em termos de grau, mescla ou extensão (cf. “A linguistic classification of aphasic impairments“). 

[21] (Aphasia as a linguistic topic, Studies on Child Language and Aphasia, pg. 44).

[22] Selected Writings II, pg. 313/4.

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