Capítulo III (O neurônio tagarela) - Hipótese sobre o modo de ação da medicação psíquiátrica (acesso parcial)
O neurônio tagarela
Capítulo III
Hipótese sobre o modo de ação da medicação psiquiátrica
Ao longo deste capítulo será abordada a questão dos efeitos ocasionados pelas drogas psicotrópicas, através de uma conceituação que procurará especificar quatro modos diferentes de ação.
- 1) Incidência sobre o sistema nervoso autônomo. Poder-se-ia falar então de substâncias “pró-simpáticas”, “pró-parasimpáticas” e de ação mista. Se toda substância pode ser considerada de “ação mista”, na medida em que dispara o gatilho da homeostase, a ocorrência de um efeito primeiro e/ou principal permanece relevante. A distinção entre a ativação preferencial do simpático ou do parasimpático também é importante na compreensão das respostas idiossincráticas[1]. A hipótese em questão pode ser referida abreviadamente como hipótese SNA. Em princípio, ansiolíticos, tranqüilizantes, calmantes, somníferos, estimulantes e a maioria dos anti-depressivos inscrevem-se nessa categoria.
- 2) Incidência maciça e inespecífica sobre a memória[2], provocando quadros semelhantes à amnésia. Seria sobretudo o modo de ação dos anti-delirantes (neurolépticos maiores), do eletrochoque e dos choques químicos[3]. Poder-se-ia designá-la por hipótese da amnésia. A lobotomia e a leucotomia Inscrevem-se nessa mesma categoria, mas a extirpação do substrato neuronal ou o corte das vias associativas cria uma situação irreversível, o que não acontece nos tratamentos descritos anteriormente.
- 3) Incidência específica sobre determinados circuitos neuronais subjacentes à memória, situados em nível cortical, provavelmente no lobo frontal (especialmente na região pré-frontal). Circuitos que substratificam determinado discurso, seriam desorganizados pela medicação, tendo por efeito a liberação de outros circuitos neuronais, anteriormente inibidos pelos primeiros. Pode-se chamá-la de hipótese jacksoniana por referência a John Hughlings Jackson (1835-1911)[4], pioneiro na descrição do referido mecanismo (níveis hierárquicos), ou ainda hipótese da dupla discursividade. A fluoxetina (Prozac) é a substância que melhor ilustra esse tipo de ação. O álcool e a maconha provocam efeitos semelhantes.
- 4) A ação paradoxal do lítio, costumeiramente eficaz tanto para debelar estados maníacos como depressivos, sugere a existência de um mecanismo facilitador da homeostase. Tudo se passa como se esse íon possuísse a propriedade de diminuir o limiar a partir do qual o ramo ativo do sistema nervoso autônomo aciona o seu oposto.
A hipótese SNA
A menção, no capítulo anterior, das pesquisas de Cannon e Bard, serve como prolegômeno à descrição desta hipótese. Em princípio, ela se apóia na constatação de que é possível provocar um comportamento totalmente desvinculado da situação ambiental em que se encontra o organismo (é o caso da “falsa raiva”[5] dos gatos descorticalizados) mediante ablação, inibição ou estimulação de centros nervosos. O experimento de Funkenstein, referido no capítulo anterior, mostra a interação entre uma substância ativadora do parasimpático, como o mecolil, e as taxas de adrenalina e noradrenalina de pessoas cuja conduta, em termos de agressividade, havia sido previamente aferida. Segundo Funkenstein, o mecolil tem efeito duradouro sobre os auto-agressivos (alta taxa de adrenalina) e transitório sobre os hetero-agressivos (alta taxa de noradrenalina). Tal resultado é interpretado no sentido de que, na ausência de intoxicação, a maior ou menor quantidade dos hormônios em questão é função da personalidade e não o contrário.
A alteração transitória de comportamentos por meios químicos é fenômeno bastante conhecido[6], ainda que sua teorização reste a ser feita. Poderíamos referir-nos ao álcool, à maconha, etc. Um exemplo à mão é o da ação contrastante das anfetaminas e dos hipnóticos. Provavelmente, tais efeitos se devem ao acionamento de mecanismos filogenéticos vinculados a comportamentos de vigilância (fuga, caça, busca de alimento, sexualidade) e de recuperação de energia (repouso, digestão). Em termos de sistema nervoso autônomo, os comportamentos em questão são mediados por estados orgânicos regidos respectivamente pela predominância do simpático e do parasimpático.
A descoberta de substâncias que determinam a taxa de produção de neurotransmissores secretados pelo organismo em resposta a certas situações ambientais, neurotransmissores cuja parametrização determina a ativação em menor ou maior grau das duas divisões do sistema nervoso autônomo, permitiu à farmacologia criar os primeiros remédios específicos da psiquiatria. O motor da revolução farmacológica dos anos 50 foi o isolamento de entidades moleculares psicotrópicas capazes de aumentar ou diminuir (por liberação ou inibição) a quantidade de neurotransmissores que rege a ativação e a desativação dos ramos simpático e parasimpático do SNA. A farmacologia teve êxito em mimetizar bioquimicamente situações ambientais que, no gênero mamífero, evocariam alternativamente comportamentos de fuga e luta, inação e repouso.
Com referência a essa questão, é preciso intercalar uma ressalva importante. Uma das hipóteses centrais do presente trabalho é a de que, diferentemente do que acontece com os demais animais, no ser humano a configuração do simpático e do parasimpático não obedece a injunções ambientais mas discursivas[7]. Em outras palavras, tudo se passa como se com referência ao sapiens houvesse ocorrido uma inversão na relação do organismo com o meio, tendo a espécie adquirido um posicionamento ativo e transformador face à natureza. Um dos efeitos fundamentais da linguagem é que a vivência da realidade emana da subjetividade e não da situação ambiental. As manifestações psicóticas, entre elas a alucinação e o delírio, constituem uma ilustração particularmente chamativa da ausência de controle do ambiente sobre o sujeito; a fantasia e, mais amplamente, a subjetividade, conduzem à mesma concepção.
Além da alucinação e do delírio, a arte, a ciência, a filosofia e a religião seriam outras tantas manifestações do que tem sido descrito através dos vocábulos liberdade e responsabilidade, características intrinsecamente humanas. O conceito de inconsciente, tal como formulado pela psicanálise, reabre a discussão sobre o determinismo e o livre arbítrio em termos muito diferentes dos propostos pelo organicismo e o ambientalismo.
A farmacologia teria tido êxito em mimetizar bioquimicamente, via alteração do SNA, aspectos comportamentais comumente produzidos pelo discurso. Dito de outra maneira, a medicação traduziria simplificadamente o complexo jogo de significações psicológicas em alguns parâmetros básicos de comportamento, subordinados à lógica adaptativa e configurados de acordo com as possibilidades restritas do sistema nervoso autônomo (luta ou fuga, inação ou repouso).
A afirmação anterior subentende que o discurso depende do substrato neuronal como a comunicação telefônica depende de fios e cabos, embora estes não tenham qualquer influência sobre o teor (o conteúdo) veiculado pelas vozes. As descobertas de Broca demonstraram a ancoragem cerebral da linguagem. A implicação é que o pensamento - ou seja, a linguagem singularizada - possui igualmente uma base orgânica. O vocábulo discurso tem uma vantagem importante, quer em relação à respectiva terminologia psicológica e filosófica[8] (desvinculada da materialidade neuronal), quer em relação à terminologia biológica[9] (desvinculada da subjetividade). “Discurso” refere-se tanto à identidade (o ‘eu’), como ao substrato neurológico necessário à linguagem - articulando dessa maneira o mental e o orgânico.
Mas não se trata de defender uma posição eclética. O orgânico é entendido como tradução do mental, a menos que os psicotrópicos induzam (transitoriamente) a situação oposta.
Por outro lado, na medida em que o substrato neuronal é suscetível tanto à ação de substâncias químicas, como à estimulação e à lesão, compreende-se que tais disfunções possam afetar o discurso. Entretanto, e na contramão do postulado de Kramer, pode-se supor que as mudanças induzidas por ablações, traumatismos, patologia cerebral, choques e intoxicação química ocasionam apenas perdas e inibições, permanentes ou temporárias, mas não transformações. (O comprometimento neurológico pode representar uma diminuição de possibilidades, mas não uma alteração da personalidade).
Os copiosos efeitos colaterais decorrentes dos primeiros medicamentos utilizados pela psiquiatria incentivaram a busca de substâncias menos nocivas. A fluoxetina (Prozac) parece retratar o êxito dessa tentativa, embora seu campo de atuação seja limitado. O escrutínio da hipótese jacksoniana demonstra que os efeitos colaterais do Prozac tampouco são desprezíveis. A mesma questão remete à crítica dirigida ao postulado de Kramer[10]. A referida crítica se apóia na constatação de que tanto o simpático como o parasimpático são sistemas, isto é, um conjunto integrado de órgãos e ações associados a funções neurovegetativas essenciais para a sobrevivência; se o organismo é “persuadido” pelas drogas a acionar uma dessas divisões, “segue as instruções” à risca e tende a acionar o ramo estimulado por inteiro[11], de acordo com a dosagem e a duração do tratamento. No mínimo, certos sub-sistemas das referidas divisões são disparados; a incidência específica sobre o sintoma seria uma meta irrealizável na medida em que contraria a própria lógica dessa terapêutica.[12]
O postulado de Kramer passa por alto essa questão, pretendendo que a intervenção medicamentosa tenha dimensão etiológica. Pelo contrário, tudo indica que a terapêutica psiquiátrica se limite à sintomatologia, mesmo nos raros casos em que não há reincidência após a suspensão do tratamento. Ou seja, as substâncias que atuam sobre o sistema nervoso autônomo não fazem senão criar temporariamente uma situação orgânica incompatível com as crenças do paciente. O termo crenças também se subordina ao discurso; tem a vantagem de reunir os conceitos delírio (presentes na esquizofrenia e na paranóia) bem como a alteração de humor (característica da psicose maníaco-depressiva ou distúrbio bi-polar).
Quando o médico do século XVIII embriagava seu paciente previamente a uma intervenção cirúrgica, provocando o estado de torpor decorrente das alterações efetuadas na condução nervosa aferente, forçoso é concluir que a função da embriaguez se restringia a diminuir a sensibilidade. Da operação propriamente dita é que caberia esperar uma ação etiológica, ou em todo caso mais próxima do nível causal. Da mesma forma, quando uma pessoa agitada e agressiva é medicada com ansiolíticos, calmantes ou somníferos, é de se supor que o estado de relaxamento, descoordenação motora ou sono organicamente induzido(s), incompatíveis com a agitação e a agressividade, não equivalem ao efeito de uma ação etiológica, constituindo antes um procedimento dirigido unicamente ao sintoma.
Similarmente, se a prostração e o correspondente tônus muscular de uma pessoa deprimida forem alterados por substâncias estimulantes que ativam fortemente o simpático e conseqüentemente desencadeiam comportamentos motores, o procedimento só pode ser interpretado como uma intervenção sobre o sintoma - nitidamente diferenciável do tratamento etiológico. A ação da medicação psiquiátrica pode ser explicada da mesma maneira que o efeito dos antitérmicos. A única diferença é que, neste último caso, o mecanismo fisiológico é relativamente bem conhecido, o que não ocorre em relação aos psicotrópicos.
O desconhecimento relativo ao modo de ação da medicação psiquiátrica favorece a suposição de que a farmacologia psiquiátrica possui alcance etiológico. Além disso, aponta para uma lacuna fundamental em relação à compreensão das condições que presidem a articulação entre o psiquico e o orgânico. O exame isento da questão favorece consideravelmente a hipótese de que o psicotrópico medicamentoso incompatibiliza os estados mental e orgânico. Em condições comuns, ou seja, na ausência de substâncias psicotrópicas, o estado orgânico expressa o estado mental, sendo uma função do mesmo. A afirmação vale igualmente para as alterações de humor típicas da mania e da depressão, o delírio persecutório da paranóia, o delírio megalomaníaco da esquizofrenia, a condição não delirante (sintomatologia negativa da esquizofrenia) e o autismo[13], tanto quanto para os conflitos designados como neuróticos e perversos, e não menos para a sublimação.
Dito de outra maneira, à identidade mental (ou seja, discursiva) sempre e invariavelmente corresponde uma identidade orgânica, isto é, uma configuração específica do sistema neurovegetativo. A medicação SNA, incidindo sobre o organismo, incompatibiliza esses dois estados que, caso contrário, permanecem necessariamente articulados com base no papel determinante exercido pelo psíquico (discursividade) sobre o orgânico. O corpo de uma pessoa preocupada expressa esse estado mental pela tensão muscular. Caso a preocupação seja extrema, haverá dificuldade em conciliar o sono; quando se trata de um surto caracterizado pelo delírio de perseguição, todo o corpo (tanto o sistema neuro-vegetativo - visceral e glandular - como a musculatura estriada), comandado pelo simpático, expressará o sentimento de ameaça.
A ação do remédio pode ser entendida a partir do efeito exercido sobre o organismo (ou seja, o SNA), efeito exatamente oposto ao das crenças em vigor. A medicação configura um estado orgânico incompatível com o regime de crenças denominado surto. Assim como um sintoma típico da preocupação[14] - a insônia - pode ser abolido pelo hipnótico que parametriza uma realidade orgânica contrária a tal estado, também o remédio psiquiátrico, tendo alcançado o nível de impregnação, desata o orgânico do psíquico e inverte o vetor da determinação. A lógica é a mesma da da ação do hipnótico, mas a força[15] das crenças a serem superadas, no caso do delírio, é bem maior. Uma vez ultrapassado o limiar correspondente à articulação entre os dois estados (mental e orgânico), e a menos da ocorrência de efeitos paradoxais (em que as próprias conseqüências dessa desvinculação entre o psíquico e o orgânico seriam absorvidas pela interpretação delirante, fortalecendo-a), as alterações bioquímicas subtraem o lastro material (corporal) à crença que o governa.
Tudo se passa como se a medicação provocasse um braço de ferro entre o SNA e o discurso; se este vence, os efeitos do tratamento reforçam o delírio. Essa descrição pode explicar tanto a defasagem entre a absorção do remédio e a manifestação dos seus efeitos (tempo de impregnação) como as respostas idiossincráticas, nada incomuns. Ambas são enigmáticas para a psiquiatria. Diaz reconhece essa dificuldade da psiquiatria biológica. Em comentário dedicado aos anti-depressivos heterocíclicos (no capítulo Como actuan los fármacos antidepresivos?), ele menciona a dificuldade de aceitar a explicação organicista em relação ao modo de ação de tais substâncias, visto que “(…) o aumento da transmissão noradrenérgica se instala de imediato pelo bloqueio da recaptação, enquanto o efeito clínico demora dias ou semanas (…)“[16].
O efeito é semelhante ao da estimulação cerebral produzida por um eletrodo implantado no sistema límbico. A corrente elétrica pode eliciar respostas de raiva, medo, fome ou excitação sexual, sem que o sujeito do experimento se reconheça, nesse momento, em tais emoções, que entretanto são expressas pelos seus próprios gestos, posturas e mímica facial. Caso em que, e de acordo com a expressão consagrada por Joelmir Betting, o cachorro (do discurso) deixa de abanar o rabo (do SNA); o rabo é que passa a abanar o cachorro. Ou seja, a correspondência passa a dar-se em sentido inverso, tendo o organismo como pólo emissor e o discurso como pólo receptor.
A hipótese da amnésia
Os circuitos neuronais corticais, além de sujeitos a indução por parte da manivela instalada bioquimicamente no SNA, também são passíveis de uma ação radical, consistente em apagar o discurso que veiculam por meio de uma borracha química, cujo efeito em termos de comportamento é semelhante ao da amnésia e cujas manifestações lingüísticas podem assemelhar-se às da afasia. A palavra estupor, utilizada em psiquiatria para descrever os efeitos de um tratamento drástico por choque elétrico ou químico, refere o estado em que o paciente parece desprovido da capacidade de outorgar qualquer sentido ao que quer que seja. O delírio é uma produção discursiva e como tal está dotada de significação, independentemente de sua aparência absurda. A abolição do delírio por tratamentos cujo modo de ação parece ser o da desorganização dos circuitos neuronais que constituem o substrato cerebral da discursividade, indica a existência de uma materialidade orgânica subjacente a toda produção discursiva, isto é, subjacente ao que a psicologia tem designado pelos termos personalidade, individualidade, identidade, self, etc.
Os tratamentos de choque são comumente denunciados como exemplo da violência inerente à intervenção psiquiátrica, que ocasiona a perda de neurônios, células irrecuperáveis, com o conseqüente comprometimento da memória. Mesmo que a descrição esteja correta, é preciso desenvolvê-la para poder entender a relação entre memória e delírio. Tudo se passa como se o delírio (subjetividade) se apoiasse na memória (substrato neurológico); o comprometimento desta última por via química, elétrica, traumática ou fisiopatológica, tem por implicação a desaparição (geralmente transitória) do primeiro. O mecanismo de intervenções cirúrgicas como a lobotomia e a leucotomia é semelhante, mas nesse caso as estruturas neuronais responsáveis pelo delírio ou por sua articulação com o hipotálamo (sede do SNA) não são apenas desorganizadas mas destruídas. As conseqüências dessas ablações, que exemplificam mais do que qualquer outro procedimento o grau a que chegou a violência exercida contra o louco, constitui um argumento particularmente forte para assinalar a existência de algum tipo de correspondência entre o substrato neuronal e aquilo que palavras como mente, personalidade,individualidade, memória e comportamento pretendem designar.
O modo de ação descrito nos parágrafos anteriores é exemplificado pelos choques elétrico e químico bem como pelos tranqüilizantes maiores (neurolépticos). A reincidência das produções delirantes mostra, mais uma vez, que se trata de um tratamento sintomático. A amnésia induzida por desorganização do substrato neuronal não ocasionaria mais do que uma suspensão temporária das alucinações e delírios. No caso das ablações não há reincidência, mas o tratamento em questão parece-se mais a uma mutilação. É um procedimento análogo à amputação, como acontece na gangrena. Do ponto de vista teórico, leucotomias e lobotomias propõem a questão de saber qual é a relação entre a estrutura anatômica seccionada e a conseqüente perda da iniciativa. Os localizacionistas sugerem a existência de um locus cerebral da volição. (É o caso do livro O erro de Descartes, de Antonio Damasio, examinado na conclusão). Com referência ao eletrochoque e ao choque químico, pode-se ilustrar a transitoriedade de tal modalidade de tratamento utilizando a imagem do palimpsesto, cujos caracteres, ocultos pela cera da intervenção medicamentosa, reaparecem lentamente com a degradação do material encobridor.
O exame detalhado da ação fisiológica consubstanciada pelo termo choque foge à alçada deste livro. Pode-se contudo sugerir que provavelmente se trata de um processo de extrema aceleração ou extrema lentificação da condução nervosa. Nada impede, por outro lado, que uma provoque a outra, via homeostase. Recorrendo mais uma vez à analogia, dir-se-ia que a intervenção bioquímica em questão volatilizaria ou congelaria o meio graças ao qual o discurso se propaga. Assim como a difusão das ondas de rádio depende de um meio gasoso (a atmosfera), o discurso (pensamentos, idéias, crenças) se propagaria apenas em condições neuronais propícias, caracterizáveis por limites adequados de velocidade sináptica. Se essas premissas forem plausíveis, segue-se que as condições de possibilidade de qualquer manifestação discursiva seriam dadas pela configuração da condutividade neuronal. Uma alteração significativa na velocidade da condução nervosa determinaria o apagamento momentâneo da manifestação discursiva, produzindo a ausência de sentido que a terminologia psiquiátrica designa pelo termo estupor.
Uma analogia pode ilustrar essa hipótese. Se a exibição das legendas de um filme for progressivamente acelerada, a partir de certo limiar não haverá possibilidade de leitura. O mesmo resultado acontecerá se o procedimento utilizado for o oposto (apresentando-se uma palavra a cada 30 segundos, por exemplo). Efetivamente, é possível ver no estado de estupor o testemunho de uma situação em que o sujeito se vê bioquimicamente compelido à condição afásica. Mas, ao contrário da afasia, não se trata da impossibilidade de utilizar a linguagem instrumentalmente; no estupor, as conseqüências atingem o discurso enquanto identidade do sujeito, cuja capacidade de interpretar(-se) terá sido temporariamente colocada fora de ação.
A hipótese jacksoniana ou hipótese da dupla discursividade
Das três modalidades de ação dos psicotrópicos esta é a mais difícil de descrever - e provavelmente a mais polêmica. Freud repetidamente advertiu contra qualquer tentativa de localizar anatomicamente as instâncias das suas duas tópicas. Nada mais próximo de uma gaffe teórica do que a tentativa de domiciliar o id no sistema límbico e o ego nas circunvoluções lingüísticas do frontal, cujo comprometimento ficou associado, a partir de Broca, aos fenômenos afásicos.
Apesar disso, a metáfora segundo a qual o álcool diminui ou rebaixa a censura é usada constantemente, o que tem por implicação a suposição inconfessa de um Hades neuropsicológico vigiado por seu cão de guarda eventualmente ludibriável. Esse cérbero cerebral, uma vez entorpecido, abandonaria o molho de chaves nas mãos dos prisioneiros, que saem do cárcere e chegam à casa das máquinas - onde se encontram as alavancas da motricidade voluntária. Assim, ninguém se surpreende quando o ébrio e o drogado trocam o laconismo pela eloqüência, a mansidão pela violência, a timidez pela extroversão, a sisudez pelas gargalhadas ou pelo pranto, a ponderação pela veemência - antes de mergulhar profundamente nas brumas parasimpáticas de Morfeu. Associado à cocaína, o abuso etílico costuma exercer um efeito bem diferente, similar ao de um tranqüilizante - quando não se dá, pelo contrário, um efeito de potencialização[17]. A maconha pode agir como o álcool ou, inversamente, favorecer a atitude contemplativa. A imagem do LSD, cunhada na década hippie de 60, ficou associada simultaneamente à abertura das portas da percepção, verdadeiro festival dos sentidos, e ao suicídio.
Todos esses exemplos convocam a noção de idiossincrasia. As respostas idiossincráticas às substâncias que não têm incidência psicológica (como no caso da alergia à penicilina) são relativamente uniformes; em oposição, as causadas pelos psicotrópicos são marcadamente singulares. A ativação de um segundo discurso, por inibição bioquímica dos circuitos neuronais inibidores, parece ser o modo de ação de tais substâncias. Em conseqüência o comportamento que resultará da intoxicação é imprevisível, porque a característica principal do segundo discurso é justamente sua clandestinidade.
Em outros termos, os psicotrópicos mencionados parecem inibir o discurso dominante, criando condições para a emergência de significações até então controladas. Dependendo do sentido presente a nível subjacente, o efeito do LSD será o paraíso das cores ou a auto-agressividade eventualmente suicida; a maconha intensifica a percepção de sons ou compele à concretização de ódios e ressentimentos. Uma descrição semelhante se aplica aos efeitos da intoxicação alcoólica. A ação das substâncias em questão não está relacionada a tal ou qual comportamento específico que elas suposta e intrinsecamente causariam, mas com a inibição/desinibição, por meios físico-químicos, de discursos substratificados neuronalmente.
Efetivamente, a natureza absolutamente singular da relação entre os dois discursos impede qualquer antecipação em relação aos efeitos de um tratamento[18]. Em decorrência, observa-se uma constante mudança das prescrições psiquiátricas[19]. As respostas não somente variam de pessoa para pessoa mas também no mesmo indivíduo, em diferentes momentos. Assim, a intoxicação - independentemente do meio químico utilizado - pode repercutir de forma inesperada em alguns pacientes, intensificando o quadro sintomatológico, enquanto em outros casos as expectivas são atendidas, mesmo que parcial ou transitoriamente. Similarmente, o tempo de impregnação e/ou a reação negativa[20] variam de caso para caso. O efeito da ativação preferencial do simpático ou do parasimpático é sempre peculiar - inclusive em função da intensidade maior ou menor dos efeitos colaterais - e as respostas distam da uniformidade. Uma situação semelhante vigora em relação às drogas proibidas. Ainda que a passagem da euforia à depressão seja comum nos usuários de anfetaminas e cocaína, também aqui cabe assinalar que a intensidade e a vivência individual desses estados se caracteriza pela singularidade. (Há que considerar igualmente a questão da intencionalidade da drogadição. Em relação a anfetaminas, cocaína e morfina, por exemplo, tudo se passa como se o usuário auto-induzisse uma crise maníaco-depressiva por via química).
“In vino veritas” ou “a criança, o bêbado e o louco falam a verdade” são ditados reveladores. Apontam para a ausência ou a burla da censura e sugerem que das três instâncias da segunda tópica o ‘superego’ é a que mais se presta a uma especulação neuroquímica, em virtude de evidências particularmente convincentes. Essa relação óbvia entre a ação de algumas substâncias e a alteração do padrão de comportamento vigente - alteração caracterizada por atos que se afiguram ao observador como liberação de sentimentos e impulsos contidos - ainda não foi devidamente explicada em termos teóricos. A conjectura de uma dupla discursividade, apoiada em diferentes substratos neuronais, constitui uma tentativa nesse sentido.
Arriscada, sem dúvida. Explorar o terreno é seguir na contramão das advertências formuladas pelo Freud maduro, cuja cautela contrasta com o ímpeto do jovem médico que no final do século passado sonhava em articular neurologia e psicologia, meta inspiradora do Projeto para uma Psicologia Científica[21]. É esse mesmo Freud ainda neurólogo, ao qual aliás se deve a monografia sobre a afasia (1891), que elegeu Hughlings Jackson como autor da melhor concepção existente sobre o funcionamento do sistema nervoso. Segundo Jackson, o cérebro está estruturado em níveis solidários hierarquicamente dispostos.
A hipótese sobre a articulação entre circuitos neuronais e discurso (personalidade, identidade) não adere ao enfoque localizacionista com seu reducionismo organicista a reboque. A noção de sinapse, proposta pelo próprio Freud no Projeto… sob a locução facilitação nervosa, antecedeu e de certa forma preparou as descobertas da neuroquímica contemporânea, concernentes a um funcionamento integrado do cérebro. A identificação dos mecanismos da condução nervosa tornou possível precisar e flexibilizar as hipóteses jacksonianas.
Hoje se sabe que o foco irritativo e a destruição anatômica não constituem condições sine qua non para que o nível imediatamente subordinado seja liberado e assuma por sua vez o comando. Estados como o a embriaguez e outros tipos de intoxicação bem como determinadas disfunções reversíveis mostram que a hierarquia se presta a eclipses transitórios. No caso da ativação a ultranza do SNA, é possível mesmo que o vetor da determinação se inverta. O extra-piramidal passaria assim a subordinar transitoriamente o piramidal ou, o que vem a dar no mesmo, o sistema nervoso autônomo, reitor do funcionamento visceral e glandular, passaria a exercer função de comando em relação ao discurso.
O tratamento psiquiátrico seria como que a versão medicamentosa da inibição das grandes emoções, às quais se atribui o poder de exilar transitoriamente a razão. No caso, porém, as grandes emoções mencionadas estão associadas à predominância de um dos ramos do SNA, e sua inibição não produz a razão mas apenas ativa o ramo oposto ao acionado pelo delírio ou pelo discurso eufórico ou disfórico.
É possível estender o mesmo raciocínio às relações entre discursos. Nesse caso, o local de incidência dos psicotrópicos seria o córtex. Na esteira do Projeto e de acordo com as conceituações jacksonianas, pode-se supor que o discurso veiculado por circuitos neuronais corticais (a) determina tanto a motricidade voluntária como o funcionamento neurovegetativo através de seu acesso às regiões hipotalâmicas ativadoras e inibidoras do SNA - trajeto descrito pelo neurólogo americano James Papez. Outros circuitos, capazes das mesmas ligações, mas cujos efeitos (devidos ao discurso que veiculam) seriam bem diferentes, permanecem inibidos pelos primeiros. A implicação desse raciocínio é que o referido estado de inibição pode ser revogado por meios químicos, patologias e traumatismos, alterando conseqüentemente a mensagem discursiva determinante do comportamento voluntário (músculos estriados) e da configuração neurovegetativa.
Se essa conjectura parece fabular sobre as bases neurofisiológicas do recalque, sugerindo a existência de um discurso recalcante e um discurso recalcado, substratificados em circuitos nervosos cuja ordem de dominância é passível de inversão tanto por psicotrópicos como por disfunções[22] e traumatismos[23], o autor da hipótese imprudente terá que aceitar as críticas - e as eventuais ironias - dirigidas à presente tentativa de entender as modificações transitórias de comportamento que ocorrem em função da intoxicação farmacológica.
É possível aduzir, porém, em defesa da conjectura em questão, que a descrição freudiana relativa à precondição da vida onírica presume que suas possibilidades são dadas pelo bloqueio da coordenação motora voluntária durante o estado de sono. Isso, por sua vez, sugere a existência de um mecanismo anátomo-fisiológico subjacente à transição vigília-sono, graças ao qual o discurso inibido teria acesso à consciência desde que a chave geral da motricidade voluntária seja desligada. Assim, encontramos em Freud um raciocínio apoiado na mesma suposição, isto é , a de que o psiquismo não dispensa materialização em bases neuronais hierarquicamente dispostas, cuja expressão, no caso do sonho, observa um ritmo circadiano. A hipótese freudiana constitui uma aplicação particular do enfoque jacksoniano e é consentânea com seus princípios.
Teria a hipótese jacksoniana ou da dupla discursividade a implicação algo escandalosa de que o inconsciente também se apóia em substrato neural? É necessário enfatizar que a hipótese da dupla discursividade define o inconsciente como matriz semântica, da qual dependem as manifestações diretamente discursivas (pré-consciente e consciência). O inconsciente conceituado como produtor de sentidos seria metaforizado pelo comportamento observável (discurso propriamente dito, atitudes, raciocínios, sentimentos, emoções, motricidade, fenômenos psicosomáticos, etc).
Desse ponto de vista, por inconsciente se entende não uma manifestação discursiva particular, mas a lógica que governa toda e qualquer manifestação discursiva num momento dado.
Essa descrição teria por implicação a não substratificação neuronal direta do inconsciente, mas sim a de seus efeitos.
Dito de outra maneira, termos como identidade ou eu designariam um fenômeno discursivo (dupla discursividade), cuja constituição se dá mediante um processo totalmente autônomo em relação ao funcionamento cerebral, em conseqüência do processo ao qual a psicanálise dá o nome de identificação. A base cerebral constitui o substrato material da respectiva manifestação discursiva, no exercício do papel de condição necessária mas não suficiente.
O referido processo de constituição da identidade estaria intimamente associado à aquisição de linguagem, cuja expressão singular, o discurso, repousa necessariamente na materialidade neuronal. Em termos filogenéticos, a emergência da linguagem na espécie humana se deve às mutações do aparelho respiratório, transformado em aparelho respiratório-fonatório, e não ao cérebro [24]. Conseqüentemente, tanto filo como ontogeneticamente, a linguagem e o discurso teriam precedência lógica em (…)
[1] Ou respostas paradoxais, ainda não compreendidas teoricamente. Um exemplo de reação idiossincrática: O tratamento do surto paranóico com substâncias pró-parasimpáticas, precisamente devido à indução do estado de relaxamento muscular, pode exasperar o sentimento de ameaça, visto que a pessoa em surto sente a acentuação do perigo ao perceber-se não preparada para enfrentá-lo. Em conseqüência, ocorre uma exacerbação do delírio persecutório. Quanto à homeostase, esse fenômeno explica respostas idiossincráticas no sentido de que a estimulação extrema de um dos ramos do sistema nervoso autônomo acaba por produzir o acionamento do ramo oposto (”efeito rebote”), provocando a inibição do estado mental previamente evocado pela medicação. [2] Adiante o termo ‘memória’ será redefinido como ‘discurso’.-[3] Cardiasol, insulina, metrazol.[4] Um dos fundadores da neurologia moderna, cuja teoria acerca da organização hierárquica das estruturas neuronais alcançou grande influência.
[5] Sham rage.
[6] É-se tentado mesmo a afirmar que não há sociedade, independentemente do seu grau de desenvolvimento tecnológico, desprovida de meios de “alterar a consciência”.
[7] Na medida em que a significação das situações vivenciadas é determinada pelo discurso. Borges dizia que no cotidiano vemos um tigre e temos medo, enquanto no sonho temos medo e vemos um tigre. A psicanálise considera que a segunda afirmação (realidade como metáfora discursiva) também se aplica ao estado de vigília.
[8] “Personalidade”, “self”, “individualidade”, “pensamento”, “mente”, “idéia”, “representação”.
[9] “Memória”.
[10] Segundo o qual se um medicamento altera ou suprime determinado comportamento, então caberia concluir que o mesmo comportamento se deveria à ausência da substância em questão. (Por exemplo: a depressão seria causada por ausência de serotonina porque o medicamento que aumenta a quantidade desse neurotransmissor ocasiona a supressão do estado depressivo). Em acréscimo, o postulado de Kramer entende que os efeitos colaterais devem ser considerados extrínsecos à medicação e portanto passíveis de eliminação com os progressos da farmacologia.
[11] Afirmação que será objeto de uma ressalva em relação ao parasimpático, sem que o conteúdo da hipótese seja afetado.
[12] Alguns psiquiatras, ao contrário de Kramer, “…consideram que a toxicidade extrapiramidal está intimamente associada à potência antipsicótica do neuroléptico (Laudrón e Laysen, 1979)“. (Diaz, op.cit. pg. 14). Um organicista tão convicto como Restak tampouco deixa de assinalar o mesmo fato: “Constatou-se que todas as drogas que produzem tais sindromes neurológicas características têm uma ação antipsicótica similar”, lembra Jean Deniker (…) “Em contraste, compostos do mesmo grupo químico que não causam efeitos neurológicos, não têm quase atividade terapêutica na psicose” (Restak, op.cit., pg. 72).-
[13] No caso do autismo e da esquizofrenia “negativa”, a referida relação entre discurso e SNA se atenua ou é interrompida, visto a ausência de discurso próprio. Em conseqüência, o SNA torna-se realmente autônomo. Essa é a provável explicação da condição particularmente saudável (em relação à patologia somática) de pessoas com esse diagnóstico. O tema será tratado no capítulo V, dedicado à psicosomática.
[14] Preocupação que por sua vez constitui um efeito do discurso, isto é, da identidade, e não do ambiente.
[15] Por força entende-se a coerência e a extensão do sistema interpretativo delirante (que ao contrario do sistema interpretativo não psicótico, ocupa tiranicamente, isto é, sem oposição, a totalidade do discurso do sujeito). A interpretação delirante parametrizaria os circuitos nervosos subjacentes ao discurso, produzindo a configuração correspondente do sistema nervoso autônomo, que traduz assim a intensidade do delírio.
[16] Op.cit.,pg. 32.
[17] Esses dois exemplos ilustram a rapidez dos mecanismos homeostáticos. No primeiro caso, a ativação inicial do simpático gera a reação oposta; no segundo, vê-se que se uma substância dispara o simpático, a ingestão associada de outra, que teria isoladamente o mesmo efeito, ocasiona a resposta compensatória.
[18] Afirmação que valeria igualmente para o processo psicanalítico, embora nesse caso a resistência cumpra um papel protetor que, se de um lado protela os respectivos efeitos, de outro protege a pessoa. Ela somente terá acesso aos sentidos do segundo discurso na medida em que puder fazê-lo.
[19] A esse respeito, ver Tratamento farmacológico da esquizofrenia, (Shirakawa, Affonseca Bressan e Chaves) in O desafio da esquizofrenia, (Itiro Shirakawa et al., org.), Editôra Lemos, São Paulo, 1998.
[20] Chamada de síndrome neuroléptica maligna.
[21] Cujo subtítulo, aliás, é Psicologia para Neurólogos. Trata-se de um manuscrito pertencente à correspondência com Fliess, escrito antes da Interpretação dos Sonhos e publicado postumamente em 1950.
[22] A arteriosclerose, por exemplo.
[23] Como as ablações.
[24] Ver, a respeito, Philip Lieberman, The biology and evolution of language, (Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts e Londres, 1984), e A máquina do fantasma, (Franklin Goldgrub, Editora Unimep, Piracicaba, 2001).
