Capítulo II (do livro O Neurônio Tagarela) (acesso parcial)
O neurônio tagarela
Capítulo II
Body and soul
“Um gole ia bem…”
Quatro palavras que já foram ditas, ouvidas e pensadas inúmeras vezes, em qualquer idioma, antes do encontro muito esperado, da reunião na qual serão tomadas decisões importantes, da entrevista que pode abrir - ou fechar - as portas para uma oportunidade profissional, na véspera de uma viagem inquietante. Enfim, quando se julga que a tensão nervosa tende a acarretar um bloqueio indesejável, traduzido em ansiedade e falta de espontaneidade.
O que jamais induziu alguém, muito menos um fisiólogo, a concluir que a timidez, a preocupação, a expectativa ou a apreensão teriam como causa “falta de álcool no sangue”.
A observação pode parecer trivial ou despropositada. Entretanto, a suposição implausível tem o mesmo arcabouço lógico do seguinte enunciado: “Se sua autodestrutividade com os homens e sua fragilidade no trabalho desapareceram em resposta a um tratamento biológico, deviam estar biologicamente codificados. Sua constituição biológica parece ter determinado seus fracassos sociais“[1].
A substituição do ponto final por uma vírgula e a menção - sincera ou diplomática - de outros fatores envolvidos nos “fracassos sociais”, certamente permitiria granjear maior aceitação no eclético mundo psi … mas nem por isso deixaria de estar apoiada, ainda que parcialmente, na mesma premissa.
A credibilidade de que goza a falácia acima referida deve muito ao prestígio atual das teses organicistas e haure sua força da ignorância face ao modo de ação do álcool. A relação entre seu efeito, tido como estimulante, e o que é designado pelo termo “personalidade”, permanece desconhecida.
Desconhece-se igualmente a relação entre o modo de ação (fisiológico) e o efeito (psicológico) da nicotina (ou do cigarro), da cafeína (ou do cafezinho), da maconha, do LSD, da cocaína, da morfina, da cola de sapateiro, dos remédios psiquiátricos e das substâncias psicotrópicas em geral.
Em relação a esses exemplos, cabe perguntar se o fator determinante é a substância ou o ato (a oralidade). É possível propor também uma conjugação entre ambos os fatores, caso em que a indagação passa a ser: como ela se dá? Para Richard M. Restak, autor de Receptors, substâncias psicotrópicas como nicotina, cafeína, cocaína, ou qualquer outra, “viciam” em virtude dos efeitos produzidos sobre os receptores. Ele cita a esse respeito o famoso provérbio: “you are what you eat“.
A explicação de que o álcool exerce efeitos estimulantes mediante ativação do simpático, enquanto os soporíferos agem sobre o sistema parasimpático, representa um início promissor de compreensão. A constatação da relação entre o estado fisiológico denominado relaxamento, referente a um baixo tônus muscular, e o relaxamento em termos metafóricos, estado oposto à tensão nervosa, não é irrelevante, mas tampouco constitui uma solução. Atletas ou músicos, por exemplo, prestes a entrar em ação, podem combinar um estado de espírito calmo, favorecendo o desempenho esperado, com músculos tensionados.
De qualquer maneira, é evidente que timidez, expectativa, apreensão ou ansiedade não poderiam ser creditados à abstinência alcoólica nem às circunstâncias - pelo menos as circunstâncias atuais[2]. Características pessoais ou padrões de comportamento tão marcantes sugerem uma etiologia correspondentemente arraigada - assim como se presume que uma árvore portentosa tenha raízes profundas. O reducionismo biológico resolve o problema recorrendo a uma petição de princípio: os determinantes genéticos responsáveis por esses traços de caráter serão descobertos mais cedo ou mais tarde. “Não somente a inteligência mas fatores de personalidade como timidez, introversão e suscetibilidade a certas formas de doença mental, começam a ser consideradas como fortemente influenciadas pela genética“.[3]
Se até traços de personalidade ou padrões de comportamento tidos como normais são atribuíveis à codificação dos amino-ácidos, não surpreenderá que o organicismo recorra à mesma suposição no caso do alcoolismo e da drogadição, categorizados sem hesitação como patologias. Que tais explicações repousem em suposições apriorísticas e juízos de valor parece não incomodar seus postulantes.
A questão se apresenta sob um ângulo bem diferente quando a teoria passa a ser levada em conta. Nesse caso, as simplificações se defrontam com dificuldades sérias. Se reclamo com alguém porque derrubou os óculos estouvadamente, a réplica pode invocar a física e recomendar que a conta do oculista seja debitada à lei da gravidade. Do ponto de vista empírico (causa imediata) a reclamação é correta, mas teoricamente (condições de possibilidade) a resposta está mais bem amparada. No cotidiano, a primeira argumentação soa melhor, mas seria bem diferente numa aula de física.[4] Similarmente, nada impede que um poeta celebre o pôr-do-sol, desde que o poema não seja destinado a um tratado de astronomia - salvo como epígrafe.
A psiquiatria biológica, porém, continua a beneficiar-se do privilégio de poder confundir etiologia com sintomatologia. Tudo leva a crer que o prestígio irrestrito do cérebro - órgão que tende a ocupar em nossa época a função de primum movens outrora atribuida à divindade - seja responsável por tal prerrogativa. Talvez se reconheça, algum dia, que Deus, Mente e Cérebro são os principais protagonistas de três modalidades de metafísica - religiosa, filosófica e científica (ou “científica”).
A explicação do alcoolismo, do tabagismo e da drogadição via absorção por receptores cerebrais específicos coloca duas questões incômodas para o organicista. Do ponto de vista do darwinismo, como se explicaria a pré-existência de tais receptores a substâncias que somente seriam sintetizadas alguns milênios após o cérebro humano ter adquirido suas características? Em segundo lugar, por que receptores de substâncias cujo efeito é notoriamente deletério teriam sido selecionados ao longo da evolução? [5]
O próprio Restak reconhece esse problema. Ao enfrentá-lo, recorre a malabarismos. “Nenhum desses achados responde a uma importante questão sobre o complexo receptor GABA-BZ, ou seja, em primeiro lugar, como ele evoluiu? Por que o cérebro humano, cuja evolução se estendeu por milhões de anos, contem um receptor para um composto químico não natural descoberto em meados do século XX? Como a natureza obviamente não poderia ter preparado de antemão nossos cérebros com um receptor apropriado para o Valium e seus parentes próximos, prevendo o desenvolvimento desses remédios, alguns hipotetizaram que o cérebro contem em algumas de suas circunvoluções misteriosas uma substância ou substâncias muito similares às drogas do tipo BZ, uma espécie de Pequeno Auxiliar das Mães (N. do A. caracterização comercial do ansiolítico Miltown, muito popular nos anos 50) produzido naturalmente. Mas poucos neurocientistas acreditam nisso atualmente. Em parte porque nenhum composto semelhante foi descoberto apesar de todos os esforços feitos“. Após mencionar uma hipótese apresentada por Richard Squires , um pouco mais plausível mas ainda assim “(…)não completamente satisfatória“, Restak conclui: “Então, tudo o que se pode fazer é constatar a improbabilidade do que realmente aconteceu: o Valium e as outras drogas BZ (N. do A.: benzodiazepínicas) foram descobertas mediante uma série de manipulações químicas cujo início se deu quando um químico da Cracóvia resolveu fazer experimentos com algumas substâncias desconhecidas que tinham a propriedade de ajustar-se a um receptor que há milhões de anos era vizinho do receptor relacionado ao mais importante neurotransmissor inibitório no cérebro”. Restak arremata perplexo: “É uma estranha e desconcertante sucessão de eventos“. (Restak, op.cit., pg. 166-167). Com referência às drogas, a constatação é semelhante: “Um dos mais intrigantes aspectos da adição é o mecanismo pelo qual a saúde, a segurança e mesmo a sobrevivência se tornam menos importantes para o usuário do que a obtenção da droga“. Apesar disso, o credo organicista não é abalado: “Uma coisa é certa: a demanda e o uso de drogas, como manifestações comportamentais, devem ter origem no cérebro. Para provocar seus efeitos, uma droga de adição deve agir sobre as células e moléculas do cérebro“. Não obstante, o autor reconhece que “(…) os mecanismos responsáveis pela ação das drogas de adição ainda permanecem incompletamente compreendidos (… dependência física e psicólogica)”. (Restak, op.cit., pg. 148)
Similarmente, o suicídio constitui para a psiquiatria um problema teórico insolúvel - a menos que, novamente, se apele para a patologia. Nesse caso, porém, será preciso admitir que o ser humano exibe comportamentos sem paralelo no mundo animal. (Evidentemente, o organicismo pode recorrer, com a relutância habitual, à noção ambientalista de condicionamento. Mas então apenas substituirá uma pergunta por outra. Como entender um condicionamento que conduz ao suicídio?)
O néo-darwinismo, corrente que pretende explicar o comportamento humano mediante conceitos como adaptação e seleção natural, não têm como responder a perguntas do gênero sem malabarismos teóricos e contorcionismos verbais. A existência de receptores para substâncias “viciantes” e “destrutivas”, como nicotina, cocaína e heroína deixa o néo-darwinista tão perplexo como a motivação subjacente ao suicídio.
A superação do impasse exige que se renuncie a uma tese cara à psiquiatria biológica, a de que a relação entre neurotransmissores e receptores pode ser metaforizada pela imagem da chave e da fechadura. O grau de especificidade suposto, implicando que apenas determinada molécula está autorizada a ativar ou inibir determinado receptor, parece não ter amparo nos fatos. Os efeitos colaterais da medicação psiquiátrica (e alopática em geral) pode demonstrá-lo. O arcabouço lógico do argumento de Kramer (”que determinado comportamento seja alterado por determinada substância química demonstra que esse comportamento é função da respectiva substância química“), conduz ao seguinte silogismo: 1) Se a imipramina provoca transpiração, aceleração cardíaca, falta de salivação, prisão de ventre e retenção urinária e 2) se a imipramina é um antidepressivo, então 3) nessa medida, transpiração, aceleração cardíaca, falta de salivação, prisão de ventre e retenção urinária estão associados à ausência de depressão, ou seja, à “normalidade” (ou “saúde mental”).
Uma interpretação diferente e mais plausível para a relação entre imipramina e ausência de sintomas depressivos pode ser enunciada nos seguintes termos: o estado mental denominado depressão (sem ansiedade) está associado à ativação do ramo parasimpático do sistema nervoso autônomo. Nesse caso, a ação da imipramina se explicaria pela sua propriedade de estimular o ramo simpático, cuja predominância é em princípio incompatível (salvo reação idiossincrática) com o estado depressivo. Essa hipótese, cuja enunciação rigorosa exige outras considerações, será desenvolvida nos capítulos seguintes.
A crítica ao “silogismo de Kramer”- na forma de uma reductio ad absurdum - visa expor a falácia embutida na seguinte afirmação: “Durante a última metade do século, os cientistas têm confiado na resposta ao medicamento para inferir a causa da doença“[6]. A resposta ao medicamento, porém, vai muito além da eventual erradicação do que é definido como um conjunto de sintomas característicos (quer de mania, depressão, esquizofrenia, paranóia ou outros). O efeito psicológico dos remédios guarda uma boa margem de imprevisibilidade (daí o conceito de idiossincrasia), enquanto os efeitos colaterais extrapiramidais do tratamento são bem mais constantes. Remédios diferentes frequentemente provocam efeitos colaterais semelhantes. Trata-se, aliás, de um fato tão notório como enigmático, cuja elucidação ajudaria muito a compreender como se dá a relação entre o orgânico e o psíquico. Em suma, o postulado da especificidade da medicação psiquiátrica é insustentável; correspondentemente, a pretensão de que tenha alcance etiológico cai por terra. A sua (relativa) eficácia limita-se à sintomatologia.
Se Kramer seguisse de fato a lógica que preconiza, teria que incluir na definição de remissão da depressão os efeitos ditos colaterais produzidos pela imipramina ou qualquer outro antidepressivo, visto sua simultaneidade com o tratamento.
Efetivamente, do ponto de vista lógico, ou seja, se os fatos forem considerados com isenção e sem idéias antecipadas, as modificações acarretadas pelos antipsicóticos no sistema nervoso não têm porque ser divididas em terapêuticas, causais e piramidais porque psicológicas e desejáveis, de um lado, e iatrogênicas, colaterais e extrapiramidais porque fisiológicas e indesejáveis.
A omissão não é ingênua. Corresponde à estratégia do reducionismo organicista para sustentar a idéia de que o tratamento medicamentoso tem alcance etiológico (ou seja, erradica o sintoma eliminando suas condições de possibilidade). Se a resposta aos remédios for examinada em sua totalidade, a explicação do respectivo modo de ação muda totalmente. Para identificar o referido argumento organicista, o mesmo será referido como “postulado do alcance etiológico do tratamento medicamentoso” ou, mais simplesmente, postulado de Kramer.
A recíproca é verdadeira. O L-Dopa, substância utilizada para incrementar a taxa de dopamina, neurotransmissor a cuja deficiência no striatum é atribuído o mal de Parkinson, habitualmente provoca colaterais esquizofreniformes[7], embora nenhum neurólogo diagnostique os pacientes que apresentam tal resposta como esquizofrênicos. Nesse caso, portanto, os efeitos psicológicos é que são considerados colaterais, enquanto os extra-piramidais - relativos à restauração da motricidade - passam à categoria de primários[8]. Não é sem interesse notar que a neurologia está longe de adotar o postulado de Kramer para esse tratamento; de fato, não se considera que o tratamento do mal de Parkinson com L-Dopa tenha alcance etiológico.
A simultaneidade entre condições saudáveis e patológicas, em que o fisiológico e o psicológico se situam em oposição, problematiza seriamente o conceito de “doença mental”. Tudo se passa como se os sintomas psíquicos só pudessem ser eliminados quimicamente ocasionando um quadro de disfunções neurovegetativas, ao passo que o contrôle de uma doença neurológica produz frequentemente sintomas de natureza psíquica. Fenômeno muito estranho, há de se convir, para o néo-darwinismo[9]. Trata-se de uma dificuldade teórica séria para as abordagens que concebem o homo sapiens como organismo obediente às mesmas regras que as outras criaturas da natureza. A psiquiatria biológica enfrenta essa dificuldade em grau acentuado.
No fundo, trata-se do mesmo debate suscitado pelos tratamentos psiquiátricos utilizados a partir da década de 30, aos quais foram dirigidas críticas semelhantes. O cardiasol, a insulina, o choque elétrico e a malarioterapia certamente modificam a fisiologia cerebral. Ninguém ousaria afirmar, porém, que o efeito geralmente benéfico de tais agentes justificaria a hipótese de que as pessoas não psicóticas devem sua “saúde mental” à ventura de serem epilépticas, diabéticas ou portadoras de malária. O desenvolvimento da farmacologia a partir da década de 50, ao substituir os tratamentos drásticos, atenuou os chamados efeitos colaterais, alterando assim a relação custo/benefício da intervenção médica. Quando se torna prioritário controlar um surto, aceita-se o desconforto da aceleração cardíaca, da prisão de ventre e da transpiração excessiva, que são relativamente inócuos quando comparados com convulsões e comas insulínicos. Mas se o progresso no conhecimento da fisiologia cerebral permite entender melhor os correlatos físicos dos sintomas psicológicos, nem por isso a psiquiatria biológica progrediu no conhecimento da etiologia da psicose. As hipóteses formuladas pela psiquiatria biológica, ao contrário do que Kramer e Restak afirmam, permanecem tão imprecisas e insatisfatórias como as vigentes nas décadas passadas.
Essa objeção é mencionada pelo próprio Kramer, que tenta minimizá-la através de um comentário cujo teor é digno de menção:
- a) “…Durante a última metade do século os cientistas têm confiado na resposta ao medicamento para inferir a causa da doença. “A pneumonia não é causada pela falta de penicilina” é o tipo de afirmação usada para ridicularizar tal opinião. Mas, na ausência de outras abordagens fáceis ao cérebro humano, os pesquisadores têm se inclinado a usar as drogas como meio de investigação e a tentar compreender o distúrbio mental em termos do mecanismo de ação do medicamento eficaz. A principal conseqüência, em termos de nossa compreensão teórica do funcionamento mental, foi a teoria aminobiogênica da depressão. De forma simples, a teoria diz que o humor é determinado no cérebro pelas aminas biogênicas - substâncias químicas complexas em que uma parte da estrutura assemelha-se à da amônia. Mesmo antes da descoberta de antidepressivos, sabia-se que as aminas estavam envolvidas na regulagem de uma série de funções, da frequência cardíaca e mobilidade intestinal aos estados de sono e vigília. A descoberta da iproniazida e da imipramina levou os cientistas a concluir que estas aminas também regulam o humor”[10].
A justificativa de Kramer para ver na resposta ao medicamento uma hipótese plausível sobre a etiologia do distúrbio (”ausência de outras abordagens fáceis do cérebro humano“”) evoca a história do camponês que buscava no quintal a agulha perdida dentro de casa porque fora havia mais luz.
A objeção mencionada no início do arrazoado (”a pneumonia não é causada pela falta de penicilina“) é pertinente. A teoria aminobiogênica da depressão é logicamente equivalente à afirmação de que o efeito de antibióticos sobre doenças infecciosas justificaria supor que estas são causadas pela falta dos referidos antibióticos no organismo. O surpreendente é que, tendo descrito as funções cumpridas pelas aminas biogênicas tanto na vida vegetativa como na regulação do humor, Kramer não perceba a relação entre as aminas biogênicas e o sistema nervoso autônomo.
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O termo etiologia refere as condições de possibilidade de um determinado fenômeno, enquanto causa ou causalidade (eventualmente causa imediata) designa o evento anterior à sua ocorrência. Nessa perspectiva, o fator causal (no singular ou no plural) está subordinado às condições etiológicas. O vocábulo composto fisiopatogenia indica a contrapartida biológica (não causal) de determinado quadro psicológico, devendo portanto ser diferenciado de etiologia. A epistemologia é a disciplina filosófica que estuda as condições de produção do conhecimento, especialmente os pressupostos adotados pela ciência com relação à natureza do fenômeno estudado. Os pressupostos epistemológicos governam a perspectiva teórica e metodológica escolhida; exemplos de posições epistemológicas, mesmo quando não dotadas de um arcabouço filosófico explícito, seriam o organicismo e o ambientalismo, atualmente compatibilizados na perspectiva néo-darwinista.[11] Em oposição a tais pressupostos, a psicanálise estruturalista postula que o fundamento de todo e qualquer comportamento humano é a linguagem, concebida como fenômeno não derivado de determinantes biológicos (genéticos) nem ambientais (sociais)[12].
É preciso reconhecer que a psiquiatria não adota unanimemente a via reducionista preconizada por autores como Kramer e Restak, que evitam debater a questão etiológica recorrendo ao atalho da causalidade imediata [13]. Teóricos como J. L. Diaz, M. L. Brandão e F. G. Graeff discutem o papel de outros fatores além dos orgânicos e não varrem os aspectos epistemológicos para debaixo do tapete. (A menção a fatores ambientais não necessariamente contribui para a compreensão da relação entre mente e corpo, embora testemunhe a admissão das limitações inerentes à abordagem organicista). Por outro lado, Diaz, Brandão e Graeff examinam meticulosamente as hipóteses relativas à origem genética dos distúrbios mentais. Nesse sentido, para Diaz, as evidências disponíveis não favorecem tais suposições, enquanto Brandão e Graeff, menos críticos, referem um quadro inconclusivo. Garrabé situa-se a meio caminho entre o ceticismo do psiquiatra mexicano e a esperança moderada professada pelos brasileiros.
De qualquer maneira, na medida em que desenvolvem suas pesquisas sob a égide do organicismo, e levando em conta o consenso existente em relação à fisiopatogenia das psicoses tóxicas e orgânicas[14], não há dúvida que tais autores condescendem com a suposição de que a etiologia ainda nebulosa e indefinida das psicoses funcionais situa-se igualmente no âmbito do biológico. Consentaneamente, as eventuais anomalias cerebrais (anatômicas ou fisiológicas), detectadas em pessoas diagnosticadas como psicóticas, são debitadas a fatores genéticos, cuja ação dar-se-ia quer diretamente quer por intermediação de desencadeadores ambientais. A expectativa gerada pela eventual descoberta dos referidos determinantes genéticos é tanto maior quanto mais incertas são as hipóteses elaboradas no marco da fisiopatogenia. Diaz encerra seu artigo Biologia da Esquizofrenia com o seguinte comentário: “Das hipóteses propostas, chama a atenção que existam, em praticamente todos os casos, proposições contrárias, usualmente de excesso ou diminuição na função de alguma molécula, com um cortejo de dados a favor de cada hipótese e contra a hipótese oposta”[15].
A genética salvará o organicismo em apuros se os gens deletérios forem finalmente detectados, mas o estado atual das pesquisas, segundo o testemunho de Diaz, está longe de ser animador. A pesquisa genética utiliza dois modelos: o do gen único, recessivo, com um ou dois alelos, e o da herança poligênica. Os dados estatísticos, entretanto, obrigaram a modificar esses modelos, dando lugar a uma proliferação de propostas novas que buscam ajustar-se melhor aos fatos[16]. A suposição da etiologia virótica tampouco está inteiramente descartada mas tem poucos adeptos. Os autores ecléticos, que procuram dar um peso relativamente semelhante ao inato e ao adquirido, não contam, ao menos por enquanto, com dados que os respaldem. Trata-se de um enfoque puramente dedutivo, cuja dificuldade é evidente: se nenhum dos fatores mencionados (genético ou ambiental) pôde até agora ser demonstrado, a respectiva articulação torna-se ainda mais difícil, pois opera no vácuo.
Os conceitos de “psicose endógena” e “psicose reativa” (ou exógena), propostos há longa data, retratam a tentativa de articular os fatores orgânico e ambiental. Nessa perspectiva, o “psicológico” seria categorizado como ambiental e incluído na rubrica da psicose reativa . Nem todo enfoque psicológico, porém, poderia ser definido como ambiental; o adotado pela psicanálise estrutural não condiz com essa rubrica, mas a confusão em questão está amplamente difundida e dela participam não só autores ligados à biologia, como Kramer, Restak, Diaz, Graeff e Brandão, mas também parte dos psicanalistas.
A citada sinonimização entre o psicológico (tal como concebido pela psicanálise) e o ambiental é questionável sob mais de um aspecto.
Se a palavra proferida em registro interpretativo é capaz de promover transformações (incluindo a erradicação de sintomas), então o conflito psicológico deve ser igualmente entendido como um fenômeno de linguagem. A diferença em relação ao argumento simetricamente oposto enunciado pelo reducionismo biológico é que tal afirmação não se apóia em (pseudo) evidências empíricas, mas numa teorização da linguagem que examina exaustivamente suas implicações com referência ao (…)
[1] A frase é de Peter D. Kramer e tem por referência o caso da sua paciente “Tess”, cujo tratamento é relatado em Ouvindo o Prozac (capítulo Reconstrução, pg. 36).[2] As teorias da aprendizagem invocariam contingências passadas. [3] (Restak, op.cit., pg. 99).[4][4] E o rumo poderia ser mudado mais uma vez se fosse aplicado o conceito de ato falho.
[5].
[6] Kramer, op.cit., pg. 68.
[7] Agitação e alucinações, por exemplo. Tais reações não são universais, podendo ou não ocorrer; quando ocorrem, tanto sua forma como seu conteudo são singulares.
[8] A esse respeito ver Garrabé, op.cit., pg. 199.
[9] Jean Garrabé chega à mesma conclusão: “Isso provocaria um desvio epistemológico, visto que, numa definição tautológica, chegar-se-ia a designar como ‘psicóticos’, senão esquizofrênicos, os sintomas que são erradicados por substâncias consideradas como neurolépticos em função da síndrome extrapiramidal que provocam“. (Op.cit., pg. 186; tradução pessoal).
[10] Op.cit., p. 68.
[11] Não seria difícil estabelecer a ligação (ou a filiação) do organicismo, do ambientalismo e do darwinismo à doutrina epistemológica denominada positivismo.
[12] Cf. A máquina do fantasma (Unimep, 2001).
[13] Restak, em todo caso, é mais cuidadoso que Kramer a esse respeito.
[14] Tais adjetivos (‘tóxicas’, ‘orgânicas’) distinguem alguns quadros psicóticos das psicoses propriamente ditas (isto é, esquizofrenia, paranóia e mania-depressão, também denominadas psicoses funcionais). Chamam-se ‘tóxicos’ os quadros psicóticos que decorrem do abuso de substâncias psicotrópicas (caso do alcoolismo e da drogadição), enquanto o termo ‘orgânico’ designa manifestações secundárias, similares a sintomas psicóticos, de patologias neurológicas como arteriosclerose, paralisia cerebral, mal de Parkinson e doença de Alzheimer.
[15] Op.cit., pg. 92.
[16] “…para Matthysee e Kidd (1976), nenhuma das duas opções explica os dados, que seriam muito baixos para um locus e muito altos para o modelo multifatorial, em virtude do que propuseram um modelo de dois gens interatuantes” (Diaz, op.cit., pgs. 67/68).-
