Capítulo I (do livro O neurônio tagarela) (acesso parcial)

O neurônio tagarela

Capítulo I

A  máquina   e   o   fantasma

                                                                                              “… duas lições fundamentais e inesquecíveis não podiam deixar de ser extraidas do hipnotismo. Em primeiro lugar, recebia-se prova convincente  de que notáveis mudanças somáticas afinal de contas  podiam ser ocasionadas somente por influências mentais, as quais, nesse caso, nós tínhamos colocado em movimento. Em segundo, recebia-se a impressão mais clara - especialmente no comportamento dos indivíduos após a hipnose - da existência de processos mentais que só se poderiam descrever como ‘inconscientes’. “

Freud, S. (Uma breve descrição da psicanálise, 1923, in Obras Completas, V. XIX, p. 240)

As recentes conquistas na área da neurotransmissão e da farmacologia de psicotrópicos trouxeram novamente a primeiro plano o debate mais longevo da história do pensamento humano. Sob diversas e mutáveis aparências, a controvérsia milenar é despertada tão inevitavelmente como volta a submergir no estado de letargia produzido pelo esgotamento dos argumentos que a alimentam. Um impasse dir-se-ia insuperável garante a perenidade dessa espécie de zumbi da história das idéias, que resiste aos incessantes bons ofícios da diplomacia empenhada na conciliação entre as equações da máquina e as metáforas do fantasma. O efeito mais comum das aporias é exacerbar a busca de uma solução a qualquer preço; se a natureza tem horror ao vazio, o pensamento parece abominar a incerteza.

Há muitas maneiras de descrever o impasse em questão e suas manifestações. Ei-lo presente em Adão, feito de barro mas vivificado pelo sopro divino, no contraste platônico entre a perenidade do espírito e a degradação da matéria, na distinção cristã entre corpo e alma ou na célebre dicotomia cartesiana res extensa / res cogitans.  Quando enfim o discurso científico se torna hegemônico, o litígio ressurge na forma da conflagração entre ciências naturais e humanas.

Sob esta última forma, trata-se de uma questão atinente à gnosiologia, cenário do debate acerca dos critérios que definem o conhecimento rigoroso. Há, porém,  pelo menos uma área de estudos onde a controvérsia não se restringe ao aspecto epistemológico e invade os níveis teórico e metodológico. A doença mental (expressão cunhada pela psiquiatria) é abordada simultaneamente pela medicina e pela psicologia. Contudo, a psicose (ou loucura) A complexidade das manifestações pela psicologia, sem que a psicose (ou loucura) tenha deixado de desafiar tanto a compreensão teórica como a intervenção clínica.

Sabe-se que depois de uma história marcada por vicissitudes diversas, incluindo a disputa territorial sobre as jurisdições do psiquiatra e do psicólogo, bem como confrontos entre as respectivas modalidades de  intervenção[1], acabou por estabelecer-se, no terreno da prática,  um regime de cooperação. A avaliação dos avanços e das dificuldades tanto no tratamento como na teorização, e em acréscimo o caráter indefinido dos estados ditos fronteiriços entre psicose e neurose[2], impuseram a constatação da mútua limitação e das vantagens do auxílio recíproco, quando a situação do paciente o exigisse. Assim, ao longo do tempo, estabeleceu-se um consenso tácito, enunciável nos seguintes termos: a relação custo/benefício seria favorável à intervenção psiquiátrica no caso da psicose e à psicanálise[3] no terreno da neurose / perversão.

A esse acordo oficioso no campo da atuação clínica deve-se o reconhecimento recíproco entre ambas as abordagens, mas é preciso lembrar que tal legitimação mútua decorre de circunstâncias peculiares - ou seja, a admissão das próprias limitações. Trata-se de uma situação instável por excelência, na medida em que, obviamente,  tanto a psiquiatria como a psicanálise continuam desenvolvendo-se. O tratamento medicamentoso é tão valorizado pela rapidez como criticado pelos transtornos que provoca e pela transitoriedade de seus efeitos. Era considerado quase unanimemente, até mesmo no próprio campo da psiquiatria, como sintomático e não causal - até que uma nova corrente, a psiquiatria biológica, apoiada nos progressos da farmacologia, reivindicou o estatuto etiológico para suas intervenções. Por outro lado, se desde Freud é admitida a impossibilidade de utilizar o método psicanalítico para tratar pessoas em surto, torna-se cada vez mais presente a suposição de que a teoria psicanalítica poderia contribuir para a elaboração de procedimentos terapêuticos eficazes no tratamento da loucura. Em relação à psicose infantil, a linha de trabalho decorrente dessa hipótese tem apresentado resultados significativos.

O consenso é praticamente total em relação a que outros meios deveriam ser tentados antes de submeter a criança a um tratamento medicamentoso agressivo, mesmo porque tanto o autismo como a esquizofrenia infantil não se apresentam como surtos ou crises, mas enquanto impossibilidade da construir a identidade. Além disso, a participação da configuração familiar (ou institucional) parece muito evidente no caso da psicose infantil, o que respalda significativamente o argumento psicogênico no debate com as hipóteses organicistas.

Portanto, o acordo entre psiquiatria e psicanálise vige sobretudo na esfera da prática. É difícil situar o início desse período de convivência pacífica. De certa maneira, ele sobreviveu à revolução bioquímica e é herdeiro da época  - década de 40 - em que a psiquiatria havia incorporado conceitos psicanalíticos. A biologização da psiquiatria tampouco ocorreu sem conflitos internos, como demonstra o surgimento do movimento anti-psiquiátrico.

Em contrapartida, o debate teórico e epistemológico nunca cessou, embora tenha passado por longos períodos de hibernação devido à falta de novas hipóteses. Nem a psiquiatria nem a psicanálise oferecem uma teorização convincente (ou um início de teorização promissor), quer em relação ao modo de ação dos medicamentos, quer em relação ao modo de ação da linguagem. Tudo se passa como se ambas as abordagens se encontrassem ainda em pleno empirismo - pois suas práticas têm-se justificado muito mais pelos resultados obtidos do que pela compreensão teórica acerca de como os mesmos foram alcançados.

A afirmação anterior poderia ser estendida ao conjunto das práticas psicoterápicas. Essa questão, por outro lado, está sujeita ao debate sobre os critérios de “cura”,  ainda bastante imprecisos, e mais ainda no que se refere à psicanálise, que não atribui caráter decisivo à erradicação dos sintomas. A psiquiatria, por outro lado, guia-se precisamente por resultados observáveis, mas paga essa objetividade com uma grande vulnerabilidade às freqüentes recidivas. A dificuldade de estabelecer critérios consensuais ou convergentes para definir “cura” ou “transformação estrutural” soma-se à inexistência de uma compreensão teórica  acerca do modo de ação dos respectivos métodos. Em decorrência, o debate entre as posições organicistas e psicogênicas permaneceu estagnado por muito tempo.

A falta de munição favoreceu a trégua, que parece ceder ao peso dos últimos progressos da farmacologia. Evidentemente, não se trata de mero acaso. A procura de medicamentos mais eficazes para combater os surtos nunca se deteve e foi incentivada pelos custos crescentes ocasionados pela doença mental, cujo peso no orçamento dos institutos nacionais de previdência  social jamais deixou de aumentar. As internações por psicose guardam estreita correspondência com os efeitos do alcoolismo e outras formas de dependência química, associadas, em termos estatísticos, aos efeitos da industrialização e da urbanização. Todos os livros que tratam do que já é conhecido como revolução psiquiátrica descrevem a notável diminuição no índice de hospitalização ocasionada pelo novo arsenal terapêutico da psiquiatria. A substituição dos tratamentos precários e perigosos, vigentes desde o início do século (e que popularizaram a idéia de serem os nosocômios verdadeiros centros de morte, tortura ou despersonalização[4]), atenuou a aura de terror que acompanhava o psiquiatra. De fato, a imagem do alienista chegou a ser tão negativa que promoveu uma reação interna inédita na história das profissões: a anti-psiquiatria. Os primeiros psicotrópicos de uso especificamente psiquiátrico datam da década de 50, mas seus efeitos (sua “impregnação”) sobre a própria psiquiatria (isto é, a respectiva imagem social), ainda está em andamento.

Desse ponto de vista, cabe constatar que os avanços da bioquímica cerebral permitiram à psiquiatria tornar-se independente da neurologia, área da qual recebera, no início do século XX, um parco receituário de natureza empírica. Antes que a farmacologia estabelecesse uma linha de pesquisa voltada exclusivamente para os distúrbios mentais,  a psiquiatria recolhia e reciclava o sub-produto dos estudos realizados em outras áreas da medicina. A terapêutica que passou a vigorar a partir da primeira década do século XX, inaugurada pelo emprego de barbitúricos[5], até a década de 1950, foi fundamentalmente elaborada com base em empréstimos. Assim,  a descoberta da propriedade anti-delirante  da insulina[6], bem como a da ação do choque elétrico e do cardiasol, revelam até que ponto o psiquiatra se guiava por uma hipótese rudimentar, a da incompatibilidade entre epilepsia e esquizofrenia. A hipótese em questão fôra estabelecida em decorrência da correlação negativa constatada entre convulsão e delírio[7].

Trata-se portanto de tratamentos caracterizados pelo empirismo, situação que o tempo não alterou. A psiquiatria permanece incapaz de explicar a ação do choque elétrico ou químico. (Adiante apresentaremos a hipótese de que o efeito anti-delirante da insulina, do cardiasol e do eletrochoque resulta da amnésia conseqüente às alterações ocasionadas na neurotransmissão). Não surpreende que tratamentos caracterizados por um grau de empirismo tão pronunciado apresentassem efeitos de toda ordem, inclusive benéficos, e freqüentemente em distúrbios diferentes daqueles para os quais haviam sido inicialmente prescritos. A respeito do eletrochoque escrevem dois historiadores da psiquiatria:

Curioso destino o de um método cujas bases teóricas resultaram falsas, cujo modo de ação continua desconhecido, cuja indicação primitiva no tratamento da esquizofrenia não é boa, mas que há mais de 40 anos, e apesar das quimioterapias modernas, continua sendo ainda o tratamento mais rápido e eficaz da melancolia, para a qual não estava destinado em princípio[8].

Além de atenuar a aura macabra do psiquiatra e diminuir acentuadamente as internações,  a revolução farmacológica  produziu ainda outro efeito, desta vez sobre a própria psiquiatria. Até bem recentemente, não só o paciente psiquiátrico era discriminado socialmente mas também seus médicos sofriam as conseqüências do respectivo atraso em relação às outras áreas da medicina. A eficácia maior dos novos medicamentos livrou a psiquiatria do estigma da não cientificidade. Uma nova corrente, auto-denominada psiquiatria biológica, reivindicou para suas intervenções a dimensão etiológica e estipulou correspondentemente o programa destinado a fundar uma verdadeira teoria organicista da psicose.

Talvez a incômoda defasagem entre a psiquiatria e outras áreas médicas muito mais desenvolvidas ajude a explicar a rapidez com que pesquisas em estágio ainda preliminar têm sido utilizadas para anunciar hipóteses sumamente ambiciosas em relação à etiologia da esquizofrenia, da mania-depressão, do alcoolismo e da drogadição. O fato é que a descoberta dos neurotransmissores, o mapeamento dos circuitos neuronais e a identificação das famílias químicas responsáveis pela sua ativação e/ou inibição, bem como o estabelecimento de correlações entre certas alterações do metabolismo cerebral e a erradicação e/ou exacerbação dos sintomas psicóticos, têm apoiado a hipótese de que a causa imediata dos sintomas jaz precisamente na condição biológica precedente à intervenção. A compreensão mais precisa da etiologia é por sua vez confiada aos futuros progressos da genética, disciplina que progride velozmente e cujos êxitos (como a clonagem) dão margem às expectativas mais otimistas.

O campo de atuação da farmacopéia psiquiátrica não se detém nos limites da psicose. O distúrbio obsessivo-compulsivo (DOC) e a síndrome do pânico[9] também são objeto de um receituário dedicado à amenização dos respectivos sintomas. A genética é convocada igualmente para identificar o(s) gen(es) do alcoolismo e da adição às drogas, na medida em que, definidos como patologia, passam a ser suspeitos de hereditariedade. O próximo passo, de acordo com o mesmo enfoque,  será o rastreamento dos cromossomos da homosexualidade - as primeiras notícias otimistas já começam a freqüentar a página científica  dos jornais. A esse quadro somam-se os inibidores e estimulantes do sistema nervoso central: somníferos, calmantes, sedativos, excitantes, ansiolíticos, anoréxicos.  Entre o combate à dor e a promoção do prazer a distância é curta. A mais recente estrela da constelação fármaco-hedonista, a pílula que cura a impotência masculina, permite vislumbrar o futuro elixir do orgasmo, que se espera destilar mediante mimetização do sistema hormonal. Renascem os filtros de amor medievais, inscritos por sua vez numa milenar tradição erótica que o latim, com seu proverbial gosto pela concisão,  consubstanciou na recomendação carpe diem.

As hipóteses organicistas proclamam aos quatro ventos que o comportamento tem origem nos labirintos neuronais. Na era do computador, o cérebro,  seu modelo natural, goza de um prestígio irrestrito. Oblitera-se a distinção entre intervenção sintomática e abordagem etiológica, questão freqüentada apenas por especialistas. Para o grande público,  a relação causa/efeito não precisa de elucidações. Basta  a crença na eficácia das pílulas batizadas segundo os ditames da onomástica medicinal, com um nome qualquer que evoque sutilmente a indicação para a qual é prescrita.

Correspondentemente, a fronteira entre o senso comum e o conhecimento especializado começa a diluir-se em função do interesse em atender as expectativas de uma clientela crescentemente influenciada pela mídia. Esta última, por sua vez, inclina-se sem pudor ao anseio generalizado por descobertas espetaculares no campo da pesquisa biológica e não reluta em atender o óbvio interesse dos laboratórios em divulgar seus produtos. A teorização da psicose tem sido bastante afetada por essa conjunção de fatores.  Ouvindo o Prozac, de Peter D. Kramer, representa exemplarmente o atual estado de coisas- e isso de acordo com o próprio autor[10].

Kramer considera que a weltanschauung dos anos 80 e 90 foi construída com base nos progressos da genética, em cuja esteira se deu o revigoramento do organicismo politicamente incorreto das décadas anteriores. Municiada por uma argumentação capaz de suplantar o discurso humanista sustentado pelas ciências sociais, pelo behaviorismo e pela psicanálise culturalista[11], a concepção biológica tornou-se novamente hegemônica. Ainda que todas essas correntes sejam, em última análise, tributárias do darwinismo, a articulação entre fatores orgânicos -fundamentalmente genéticos - e ambientais - fundamentalmente culturais - sempre foi problemática para o paradigma derivado da transposição da teoria da evolução para as ciências humanas. Com a mesma franqueza que dá um tom forte e compromissado ao seu livro, o autor de Ouvindo o Prozac admite ter sido influenciado por esse clima cultural e pelos efeitos da fluoxetina no comportamento de pacientes deprimidos e obsessivos.

Eventualmente Kramer condescende em advogar uma posição relativista que parece conter certa dose de ceticismo em relação à própria revolução farmacológica da qual se faz arauto. Quase sempre, porém, e na contramão da recente literatura psiquiátrica, geralmente cautelosa em relação ao novo arsenal terapêutico e diplomaticamente eclética, o psiquiatra americano leva até as últimas conseqüências os raciocínios decorrentes da sua interpretação dos efeitos do Prozac.[12] Coerentemente com o enfoque organicista, ele postula uma teoria bioquímica da personalidade, na qual a quantidade disponível de serotonina torna obsoletos conceitos da psicologia clássica como complexo de Édipo, reforçamento ou arquétipo.

Trata-se de uma atitude rara - a de levar às últimas conseqüências as premissas adotadas, por mais surpreendentes que sejam. Em certas passagens do livro encontram-se comentários favoráveis à psicoterapia; mas, mesmo nesse caso, nota-se que na ótica de Kramer a principal função do psicólogo consiste em persuadir o paciente a aceitar a medicação e seus benefícios[13]. A nova definição de conflito mental, proposta nos seguintes termos, não deixa lugar a dúvidas: “A neurose do século XXI será o distúrbio que engloba os efeitos da hereditariedade e do trauma-risco e estresse - em uma série de funções neuropsicológicas codificadas na neuroanatomia e nos estados dos neurotransmissores[14].  

Uma das razões pelas quais o livro de Kramer se reveste de grande interesse jaz na adesão irrestrita do autor ao reducionismo biológico. O seu radicalismo tem o mérito inegável de (…)


[1] Durante um bom tempo a medicina considerou a teoria freudiana incompatível com os ditames científicos, enquanto Freud, de seu lado, contestava a validade dos critérios utilizados para a elaboração dos diagnósticos e denunciava a petição de princípio embutida na hipótese relativa ao fator hereditário (cf. Psicanálise e Psiquiatria, Conferências Introd. à Psicanálise, 1916/7). Meio século depois, o tratamento dispensado aos pacientes internados nos nosocômios (inclusive leucotomias e lobotomias, mas não só), foi denunciado pela anti-psiquiatria como grave infração ética.[2] (Incluindo-se aí também a perversão, algumas de cujas manifestações, como o sadismo,  são freqüentemente descritas pela psiquiatria como psicopatia). [3] O leitor terá notado que passamos de “psicologia” ou “psicologia clínica” a “psicanálise”. A justificativa é que, dentre todas as escolas psicológicas, a psicanálise, com a sua nosografia (psicose, neurose, perversão), é a abordagem teórica que parece reunir as melhores condições para debater a questão da “doença mental” com a psiquiatria. A abordagem fenomenológica também tem oferecido contribuições consideráveis à discussão em pauta. (Ver, a esse respeito, as observações de Foucaut em Doença Mental e Psicologia, 1962).[4] Jean Garrabé, citando Morel e Quétel, relata que a utilização de barbitúricos  para o tratamento da esquizofrenia, na Clínica Burghölzhi de Zurique, durante a década de 1920, ocasionou quinze óbitos numa população de 311 pacientes. (La noche oscura del ser, pg. 93).-[5] Hipnóticos que atuam sobre os gânglios basais. Provocam sonolência, possuindo igualmente ação antiepiléptica e tranquilizante.  (Nembutal  e Veronal são talvez os remédios mais conhecidos dessa família química). Podem, como todos os psicotrópicos, produzir efeitos paradoxais (isto é, excitação e insônia).

[6] Resultante de uma observação casual acerca dos efeitos inesperados decorrentes do coma insulínico ao qual fôra submetido um paciente com triplo diagnóstico: esquizofrenia, diabetes e alcoolismo. Segundo outra versão (mencionada por Garrabé),  Manfred Sakel teria descoberto as propriedades terapêuticas da insulina trabalhando com toxicômanos.

[7] Lúcio Bini, assistente de Ugo Cerletti, propôs a utilização do eletrochoque no tratamento da esquizofrenia ao observar as convulsões que provocava em animais prestes a serem abatidos. 

[8] Las medicinas de la locura (Morel e Quetel, pg. 123, citado en La noche oscura del ser).

[9] Designações com as quais são rebatizadas pela psiquiatria biológica as entidades nosográficas conhecidas em psicanálise como neurose obsessiva, no primeiro caso,  histeria de conversão e histeria de angustia (fobia), no segundo.  Em  conjunto,  o  que Freud denominava “neuroses de transferência”.

[10]O fato de passar muito tempo com pacientes que respondiam ao Prozac transformara minha percepção sobre o que torna as pessoas o que elas são. Passei a ver um temperamento inato, biologicamente determinado, onde antes via um caráter lentamente formado, carregado de história” (op.cit., pg. 15).

[11]  Adiante será discutida a inclusão da psicanálise no campo das teorias ambientalistas, o que representa mais um exemplo das nada raras incompreensões de Kramer nesse terreno, certamente devido à sua própria opção pela concepção culturalista de psicanálise.

[12]Você o toma para tratar um sintoma e ele transforma sua noção de eu” (op.cit., pg. 266).-

[13] Ou seja, se a ética judaico-cristã fundada na culpa bate a porta na cara dos vendedores da felicidade química, o psicoterapeuta faria uso de sua autoridade para convencer os resistentes da insensatez dessa atitude. A psicologia continuará a ser necessária até o momento em que a própria farmacologia puder descobrir a pílula capaz de promover a aceitação da pílula…  (A similaridade entre o Prozac e o soma, do famoso livro de Huxley, Admirável Mundo Novo,  é notável).

[14] (Op.cit., pg. 286). Trata-se, portanto, de uma somatória entre fatores filogenéticos   e ontogenéticos. Kramer exprime assim sua adesão ao modelo positivista herdado do século XIX. Acrescenta um elemento de provável inspiração foucaultiana na medida em que a expressão “a neurose do século XXI” concede espaço à cultura.

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